Melanie
1 O começo
Um vulto se move pela floresta escura e gelada. Só se ouve o farfalhar da capa negra e aveludada sobre as folhas secas de outono. Deslizando. Em determinado ponto, o vulto para. Mãos alvas e delicadas depositam um pequeno embrulho no chão, ao pé de um plátano, aconchegando-o nas raízes da árvore de forma protetora. Ambas as mãos seguram o capuz que esconde um rosto em suas sombras, e hesitam antes de jogá-lo para trás.
Grandes e sedutores olhos escuros, cabelos negros como ébano escorregando até o busto, contrastando com a pele quase translúcida. Lábios rubros e fartos se abrem em um sussurro doce para a noite:
— Até nunca mais, meu bem.
Uma pequena mãozinha se estende para fora das cobertas, tentando pegar alguma fada qualquer em seus sonhos. Esfrega os olhinhos e se aconchega nas cobertas.
Branca de neve fita pela última vez sua filha, antes de dar as costas para tudo e refazer seu caminho para longe da clareira, floresta adentro.
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— Pai, pai! – A pequenina puxava ansiosamente as mangas do homem sentando na poltrona. De um tipo rústico, cabelos loiros ralos e assentados na cabeça, olhos azuis aguados. Lembrava vagamente um leitão. Ao seu lado, um machado descansava, escorado na lareira. As chamas se refletiam bruxelantes na lâmina prateada. – Pai! – A menininha chamou mais uma vez. O homem – que estivera dormindo com as mãos no rosto, acordou com um sobressalto, e demorou alguns segundos antes de voltar a realidade. Fitou com carinho a menininha que pulava eletricamente a sua frente.
— Que foi Melanie?
— Eu não consigo dormir. – Ela tremia gostosamente o som do ‘r’, que logo ganhou um ritmo e se tornou uma canção própria. – Me conta uma história! – Agora o ‘a’ era repetido, como em uma escala. Paul sorriu.
Eles não se pareciam em nada, nunca se diria que eram pai e filha. Talvez por quê não fossem. Ele se levantou, e pegou a menininha no colo, a levando até a sua pequena cama de madeira feita a mão, à um canto da casa de tijolos. Agora Melanie batia nas bochechas, produzindo um som oco e ritmado, acompanho por suas risadinhas. Paul pegou as suas mãozinhas no ar, e colocou a menina debaixo das cobertas de lã, bem aquecida.
— Qual história você quer ouvir? – Ele perguntou, acariciando os cabelos curtos, escuros e escorridos da menina. Ela piscou repetidas vezes, e bateu palmas.
— Conta aquela da árvore! Que você sempre conta! Que uma fada me trouxe pra ti!
— Mas essa você já sabe de cor, mocinha. – Ele riu.
— Por favorzinho. – Ela fez um beicinho, e juntou as mãos em súplica debaixo dos olhinhos cor de jabuticaba.
— Ah, tudo bem. – Ele afagou os cabelos da menina, a fazendo rir, e começou. Sua voz era etérea, fazia com que Melanie visse as coisas que ele dizia. Ela adorava quando o suposto pai contava histórias. — Era uma noite muito fria, uma noite muito muito fria, e eu estava voltando pra casa depois do trabalho. – Paul era lenhador, junto com seus dois irmãos. – Passei por uma clareira de cedros, lá atrás do rio, onde um plátano cresce solitário no meio das outras árvores, e vi uma raposa. Raposas são ótimos animais para caçar galinhas, e nós precisávamos de galinhas. Me aproximei silenciosamente. Bem, não tão silenciosamente, já que a raposa me ouviu e saiu em disparada para o outro lado da floresta. Tentei acertá-la com meu machado mas não consegui. Ele acabou encravado em uma árvore. Quando me aproximei para pegá-lo, posso jurar que vi a criatura mais bela de todas. Era branca como a lua, e tinha cabelos negros como o céu em volta dela. Corria, mas mais parecia que voava por entre as árvores. Delicada. Não parecia ser desse mundo. Logo se perdeu por entre as árvores. Estava pronto para correr o mundo atrás daquela criatura quando ouvi um choro de criança. Um choro de bebê. O seu choro. – Ele deu um peteleco no nariz da menina, que riu e o tapou com as mãozinhas. – Sua chorona.
— Eu não sou chorona! – Ela fez cara de birra, cruzando os bracinhos por cima dos cobertores.
— Vai me deixar terminar ou não? – Com ar de riso, percebeu que ela ficaria quieta e prosseguiu – Então, você estava lá, toda enroladinha em cobertores. E eu te trouxe pra casa. Tenho certeza de que foi alguma fada, aquela fada, que te trouxe pra mim. – Ele terminou puxando os cobertores em direção ao queixo da menina, e lhe deu um beijo na testa. — Boa noite Melanie.
Quando estava fechando a porta, com as luzes já apagadas, ela o chamou:
— Quer dizer que sou filha de uma fada papai?
— Acho que sim, minha querida. Ou de um anjo.
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