Melancolia I
1 Capítulo Único
Notas iniciais
que as noites foram feitas para dizer coisas que não poderão ser ditas amanhã de dia
- do i wanna know / arctic monkeys
O pálido luar entra pelas janelas rachadas da precária pensão e banha o quarto em suave luz branca. Ao meu lado, Melancolia respira calmamente em seu sono, tão angelical que é difícil acreditar que caçará essa noite.
Entre suspiros, observo-a longamente. Sua aparência é comum, de beleza sem excentricidades. Rosto que trás calma, mas a cruel calmaria antes da tempestade desabar.
Melancolia agora se agita, ainda dormindo. Deve pressentir o horário. Como um vampiro que espera o pôr do sol. É isso que nos tornamos, ela e eu. Um casal vampiresco.
Ao tempo em que ela chega a dormir durante o dia, eu, cortinas fechadas, trabalho incessantemente arquitetando planos de fuga. Fuga dela. Sinto-me culpado, tão companheira minha que é. Mas ela não percebe que me assusta, que me é nociva em várias maneiras, então preciso acabar com nossos vínculos de uma vez por todas. Se ela ameaça acordar, pego algum livro ou ligo a televisão, para disfarçar. Às vezes ela se aconchega para que eu a leia uma história, e entre cochilos ela volta esperar a noite. É quando está mais forte.
Agora eu levanto e vou até a janela. Limpo um pouco do pó para que possa me debruçar sobre ela. Acendo um cigarro e dou uma longa tragada.
Melancolia acordou.
Ela não gosta dos cigarros. Por isso fumo constantemente. Eles a deixam mais acanhada, mas não o suficiente para me deixar em paz. Já sinto-a chegando por trás de mim. Me abraça, beija meu pescoço. Eu aceito seu carinho. Por mais que eu saiba no que isso irá acabar, eu a deixo me segurar perto de si e me levar de volta para a cama.
Acendo outros cigarros, mas agora ela já os fuma comigo. Nos sentimentos um ao outro, deitados ali, observando o teto e pensando em nada.
Acho que há alguns dias ela percebeu que me acostumei a ficar sozinho, a apreciar meus momentos comigo mesmo e os em que estou apenas com ela. Por isso, ela agora me leva para fora todas as noites. Não para me reintegrar com o mundo, mas para me lembrar de como é bom estar perto de outras pessoas e do fato de que não mais poderei apreciar isso.
Ela puxa meu braço. Levanta, veste minha jaqueta, pula pelas escadas.
Quando chego na rua ela já está no meio da estrada contando os trocados para a bebida. Ponho meu braço ao redor de seu ombro e sigo em frente, só vagando. Não preciso escolher o lugar para onde vamos. Tanto faz: antes do fim da noite nossos fígados e pulmões estarão tão estragados que não fará diferença a sarjeta em que cairemos, contanto que estejamos suficientemente entorpecidos de nossos pensamentos, nossos maiores inimigos.
Eu sempre estou bêbado. Ela não se perde fácil, porque tem a responsabilidade de me guiar por nossas noitadas. Muito responsável essa minha querida companheira.
Quando o sol está para nascer, cambaleamos de volta para a pensãozinha. Ela afugenta a inquilina que tenta cobrar o aluguel, e por isso a agradeço, porque preciso de dinheiro para os cigarros e a grana tá curta.
Ao subir as escadas, Melancolia me dá um grande beijo. Puxo-a para perto, cheiro sua pele, passo a mão por seus cabelos, desço minha boca por seu pescoço.
Sou dependente dela. Minha droga, meu vício de escolha.
Sorrio e me desculpo por ter pensado em deixá-la. Eu sei que ela me desculpa.
Acho que é por aí que apago. Algumas horas depois, acordo e a vejo a meu lado, adormecida. Agora é o sol que espreita pela cortina. Ele vem junto de uma grande dor de cabeça. Analgésicos e pão para quebrar o jejum. A culpa me acomete. Mais uma noitada com a Melancolia? Isso é ruim. Tinha prometido a mim mesmo não deixá-la me seduzir de novo... mesmo que seu toque seja tão aconchegante.
Preciso descobrir como sair do limbo que é estar com ela.
Suspiro. Cigarro. Um banho rápido. Cigarro. Suspiro.
Rondo o quarto, me pergunto o que farei com a minha vida. Me sinto desamparado, mas lá da cama Melancolia fala para mim, entre bocejos e o remexer das cobertas, “sabe, estou sempre aqui por você”.
Sim, ela está. Porque sei que vou voltar para ela. Porque sei que vejo beleza em nossa destrutiva relação.
Notas finais
Por favor, dê seu feedback, nem que ele seja "não gostei, apaga"
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