Mel Williams & A Guerra entre o Olimpo
10 Potencial para Sopa
Notas iniciais
Nós acabamos por dormir no acampamento improvisado de Ártemis.
Me lembro da primeira vez que eu e meu pai acampamos na Virginia, planejamos a viajem durante quatro meses, levamos barracas, cobertores, manuais de instruções e lanternas, e mesmo assim foi um desastre. Esquecemos de levar a comida. Normal.
A noite foi tranquila, só um pouco desconfortável por Thalia ficar nos vigiando o tempo todo, ela estava na cola de Travis obedecendo ordens diretas da Deusa da caça.
Fiquei pensando sobre o que Ártemis dissera, eu não tinha entendido que escolha teria de fazer que fosse tão importante assim. Acabei adormecendo.
No meu sonho eu via uma colina alta e extensa, a neve que ainda não havia derretido cobria boa parte do local. No topo eu via algo brilhante exalando poder. Meus olhos ardiam ao tentar olhar para lá, mesmo assim forcei a visão.
Corri até o local, um pouco cambaleando e tonta. Lembro-me que ao chegar fiquei confusa e espantada, sem saber o porquê. A imagem, enfim, tremeluziu e sumiu, pondo fim ao meu sonho.
Acordamos cedo, o sol ainda não tinha nascido, mesmo assim as caçadoras estavam todas de pé, prontas para desmontar o acampamento. Minha cabeça doía um pouco e meus olhos estavam embaçados.
Thalia se aproximou de mim.
– Pegue! — ela disse me oferecendo sua faca de caça curta.
– Mas... — tentei dizer algo, mas fui interrompida.
– Sabe, você tem potencial para uma caçadora, se não estivesse presa nisso, talvez quando tudo acabar você aceite a proposta de Ártemis.
– Potencial? — perguntei.
– Você só não conhece a si mesma — ela disse indo embora.
Guardei a faca na minha bota e me reuni com Jonathan e Travis novamente, estávamos de partida. Lógico que nenhuma caçadora veio desejar boa sorte ou coisa parecida, quando elas falam em não ter contato com meninos é sério mesmo. Ainda assim, nos ofereceram alguns mantimentos para continuarmos a missão.
Seguimos para o norte. A cada minuto a neve parecia mais expeça.
***
– Estou com fome! — Travis reclamou.
– Mas acabamos de comer! — Jonathan disse indignado.
– Você quer dizer que você acabou de comer, Ártemis nos deu mantimentos para a viajem inteira e você conseguiu comer tudo em apenas quatro horas!
– Eu tenho que manter a minha força saudável — explicou.
– Só se for a forma de lutador de sumo.
– Pessoal? – chamei-os, ou tentei.
– O que você disse? — o bode exaltou a voz.
– É isso mesmo que você ouviu.
– Gente — levantei um pouco a voz.
– Eu preciso repor minhas energias gastas, okay?
– Que energias? Você está resfriado, então não serve pra nada, só pra atrapalhar e desperdiçar os alimentos!
– Ei! — gritei, os dois pararam a discussão e olharam para mim — Olhem.
Há uns quinze metros de nós havia uma casinha pequena de madeira, com duas janelas, cada uma de um lado da porta que se encontrava no meio, bem na frente da varanda. A pintura estava gasta e o telhado estava coberto de neve, mesmo assim parecia aconchegante, me lembrava o chalé 11 do acampamento, o que me fez pensar se eu o veria novamente.
– Vamos entrar! — Jonathan disse tomando a iniciativa.
Nos aproximamos do local, olhamos as janelas, tentando visualizar algo, tudo escuro.
– A porta está trancada — eu disse.
– Chuchu beleza! – Travis disse, me lembrando de dar uma aula de gírias desse século a ele.
Com movimentos rápidos ele destrancou a porta e nós entramos.
O local era maior visto de dentro, em uma das paredes estava uma lareira, em sua frente uma pequena mesinha de madeira e logo atrás um sofá velho com alguns rasgos e molas e espuma à mostra. Alguns quadros espalhavam-se pelas paredes e um enorme tapete, cujo qual cobria o resto da sala, estava colocado atrás do sofá. O ambiente em si era bom, o ar estava abafado, o que o deixava quente e o cheiro de biscoitos recém tirados do forno me dando água na boca.
– Olhem — Jonathan disse pegando um biscoito que estava em cima da mesa –, ainda está bom. Querem? – ofereceu.
– Não – recusei, fazendo cara de nojo — talvez tenha algo na cozinha.
Atravessei a sala e fui para a cozinha, logo ao lado. Abri o armário e vi algumas latas de sopa, retirei-as dali e coloquei em cima da pia. Abri e coloquei em uma panela em cima do fogão a lenha antes de atear fogo.
Dali, consegui ver Travis sentado na mesinha enquanto colocava lenha na lareira e Jonathan esparramado no sofá com o prato de biscoitos no colo.
Peguei três pratos e colheres. Neles despejei a sopa já quente e levei para os meninos na sala.
Travis me viu carregando os pratos e se levantou para me ajudar, pegando-os e colocando em cima da mesa.
– Menina prendada — riu.
– É sopa enlatada — qualquer um sabe fazer sopa enlatada.
– Mesmo assim, a maioria das pessoas de hoje não sabem nem abrir uma lata ou usar o fogão.
Talvez Thalia estivesse certa, eu tenho potencial. Para cozinhar sopa.
Sorri. Sentei no chão, a minha frente estava Jonathan e ao meu lado, Travis me encarando. Olhei para ele da mesma forma. Era uma situação estranha e engraçada.
Sua mão escorregou até a minha. O simples ato fez algo se remexer no meu estomago e o sangue subir para minhas bochechas. Fiquei atordoada, sem saber o que fazer ou dizer, precisava de uma ajuda, e rápido.
Antes que eu pudesse decidir qualquer coisa, um estrondo enorme sacudiu o lugar, nós dois puxamos as mãos. Salva pelo bongo, pensei. Acho que era muito cedo para dizer isso.
O barulho voltou, soava como um pássaro, mas bem maior do que isso. A casa estremeceu e algumas partes do teto começaram a cair. Levei a minha mão até meu pescoço e esperei minha chave se transformar, logo, pude segurar uma espada de um metro e meio na mão.
Corremos para a porta, mas uma tora de madeira tampou nosso caminho. Travis cortou-a com sua espada, possibilitando nossa passagem.
Paramos em frente a casa, ofegantes. O barulho voltou, e dos céus desceu uma criatura de cerca de três metros de altura, cabeça de águia, corpo e patas de leão e enormes asas.
– Grifo! — Jonathan exclamou.
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