Mel

1 Mel - Capítulo Único


Notas iniciais
Mesa 16 - Plutão já foi planeta

Ela se senta à minha frente na mesa, enquanto a banda cover do Arctic Monkeys toca minha música favorita no palco.

Eu a conhecia. Nunca havíamos nos falado, mas ela chamou minha atenção desde a primeira vez que a vi. Ela andava pelos corredores da faculdade como quem não sabe o efeito que causa.

Talvez não soubesse, de fato.

Ela sorri, e eu apenas não sei o que fazer. Flertar com caras era muito mais fácil. Era só jogar o cabelo e dar risada; mas aquela garota era tão interessante que nem parecia real.

— Eu estava esperando uma deixa para falar com você.

Solto uma risada sem graça e puxo o conteúdo do meu copo, sentindo o gosto doce do mel azul misturado a energético e vodka, esperando que o álcool fizesse meu coração desacelerar.

Ela era a melhor amiga do meu ex namorado, e foi através dele que a conheci. Depois do término nós continuamos amigos e ficamos de vez em quando, e recentemente ele conheceu Helena. Ela era pelo menos trinta centímetros menor que eu, que sempre fui muito alta, e eu costumava dizer que ela era chaveiro dele, que era ainda maior que eu.

Ele havia me dito que ela era lésbica, e já tinha comentado que ela havia demonstrado interesse em mim. Minha bissexualidade escondida apitou na mesma hora, e minha criação cristã deu um berro bem mais alto, o que fez com que eu guardasse o interesse bem fundo dentro de mim.

Mas, naquele momento, eu olho seus olhos castanhos atrás das lentes dos óculos de grau e digo:

— Agora que achou, eu posso retribuir o uau que você comentou na minha foto.

Ela sorri, e eu a acompanho na risada quando percebo que não havia falado nada idiota. Dias antes eu havia jogado uma foto no Instagram, e ela me mandou uma direct apenas dizendo "uau". Eu fiquei tão surpresa que demorei horas para responder, e só respondi com um coração depois de surtar com a única amiga que sabia do meu interesse pelas garotas.

Quando me descobri bissexual, decidi jamais me envolver com outras garotas. Eu sabia que jamais me assumiria e que isso traria dor às pessoas que ficassem comigo.

E foi por isso que não havia puxado assunto com ela aquele dia. Mas agora meu coração batia muito mais alto que minha origem cristã conservadora, que esperneava dentro de mim gritando que o que eu estava fazendo era um pecado horrível.

— Ana, não é? — Ela se acomoda na cadeira, colando os lábios na lata de cerveja que trazia em uma das mãos, bebendo o líquido ao que me olha. — Peter foi um um cara de sorte.

— Ele é um cara legal. — Sorrio, prestando atenção nos detalhes do rosto que nunca estivera tão perto. — Talvez a sorte tenha sido minha também.

Amei Peter. De verdade. Algumas diferenças fizeram com que não durássemos, mas meu amor por ele perdurou por muitos anos até se dissolver e virar um sentimento de amizade muito bonito.

Por isso, quando ela volta a se focar em mim, pergunto:

— Você trouxe ele com você hoje?

— Você queria que eu trouxesse? — Ela retruca de imediato.

— Queria que você estivesse mais perto, na verdade. — Solto de supetão, sentindo minhas bochechas corarem pela frase que saiu sem querer, então volto o canudo à boca, bebendo um longo gole de tchay. Quando volto a ter noção do meu corpo, ela já está bem mais perto. A banda cover já mudou de música, e eu sinto o calor de seu hálito bater em minha bochecha.

— Melhor?

Olho para Ela, muitos centímetros mais baixa e anos luz mais experiente nesse jogo que eu. Passo a língua pelos meus lábios pintados de vermelho e sorrio de canto, perdendo a vergonha para o orgulho de leonina, cruzando as pernas.

— Melhor. — E inclino levemente meu corpo pra frente. Foi sutil, mas eu senti que o clima a nosso redor começou a pesar com a sensação de flerte.

Nunca havia feito aquilo antes, e ajeito meus próprios óculos quando ela sorri de volta, e nós entramos em um assunto aleatório, que chegou em filosofia e ondulou para a psicologia minutos mais tarde. Falamos sobre literatura, política, causas sociais, e eu, que nunca havia ficado com uma garota fora de um jogo, estava bem afim de saber se seus lábios eram tão inteligentes quanto as palavras que ela soltava.

Quando o assunto está prestes a mudar novamente, ela me para.

— Você veio sozinha?

— Não. — Aponto para uma amiga que beijava outra menina à alguns metros. — Vim com a Amy, mas ela ficou solteira e só não pega quem não tem boca.

Helena riu.

— Quer sair daqui? Dar uma volta? É bom conversar com você, e eu quero ter voz até o fim dessa noite.

Pelo som, nós havíamos falado muito alto nas últimas horas. Satisfeita pela proposta, peço um minuto a ela e ando até Amy, interrompendo seus amassos brevemente para avisá-la que estava indo embora. Ela ri da minha cara e se despede, voltando a conversar com a garota que estava antes.

— Vamos?

Ela se levanta, evidenciando ainda mais a diferença brusca de altura, nós duas pagamos nossas contas e eu a sigo pela rua úmida pela chuva recém caída, até o carro.

— Te chamei pra sair, mas não faço a mínima ideia de onde vou te levar.

Sorrio.

— Tenho uma boa ideia.

E minutos mais tarde nós estávamos na Ponte Pêncil. Já eram mais de três da manhã, a escuridão alimentava o vazio e nós duas caminhávamos pela madeira, ignorando o perigo de sermos assaltadas naquele lugar. As luzes da cidade se acendiam à nossa frente, e o barulho da água do rio abaixo de nós quase fazia parte da conversa.

— As pessoas são vazias. — Ela comenta quando eu falo sobre como era estranha a tendência dos filósofos ao suicídio. — Todos procuram um motivo para viver, e se frustram quando não o encontram. Se esses filósofos não se matassem, sofreriam bem mais. Eles apenas já haviam concluído o que queriam, e não conseguiram achar um motivo melhor para mantê-los vivos.

— Você acha que isso se estende a pessoas como nós? — Ela me olha, seu rosto é escuro e reflete a água abaixo de nós. — Digo, meros mortais que não levam grandes descobertas como meta de vida...

— E quem disse que não levamos? — Ela sorri, e seu sorriso é brilhante dentro da noite escura — A vida se desdobra em uma série de sucessivas descobertas; a diferença entre nós e eles é a obsessão.

— Somos seres movidos pela necessidade de descobertas, certo? — Questiono, enquanto um sorriso se planta em meu rosto. Sento-me em um banco na saída da Ponte e ela me segue, sentando-se bem ao lado.

— Tem algo que você queira descobrir? — Ela questiona após se acomodar no banco e me fitar novamente. Eu senti a inocência em sua pergunta, mas meus olhos escorregam para seus lábios, dissolvendo a inocência em um copo de desejo.

Quando meus lábios se aproximam dos dela sorrateiramente, minha língua leva umidade à carne macia e num ímpeto eu respondo;

— Tem...

Seus lábios são macios sobre os meus, tocando a pele com extrema cautela, enquanto as mãos são igualmente cautelosas ao acariciarem meu rosto, do início da raiz do cabelo ao lado das orelhas até o queixo, escorregando para a minha nuca, ao que eu ainda tenho minhas mãos em sua perna, totalmente perdida dentro da sua boca.

Ela me morde e me puxa, então eu sigo as mãos em direção aos seus cabelos, prendendo os fios lisos entre os dedos, sentindo o calor de sua pele enquanto a madrugada fria nos engole.

Quero sentir o gosto de cada parte daquela boca, e quero que o ar em meus pulmões dure mais tempo para que eu fique ali mais alguns segundos. Impiedoso, meu ar se vai e eu sugo seu lábio inferior quando me afasto.

— Se as obsessões deles beijarem tão bem quanto você, compreendo o suicídio.

Dou uma risada.

Me sinto viva. Me sinto sincera.

Naquele momento, não me era tão errado aceitar que meu coração também amava garotas.

— Me beija de novo. — Sussurro, me aproximando lentamente, sentindo a respiração quente em meu rosto frio, colando minha testa à da garota à minha frente, que revoga meus lábios sem qualquer argumentação, e eu concordo com o que ela disse.

Se obsessões tivessem aquele mel na boca, a morte não pareceria tão horrível perto do terror de jamais poder senti-lo novamente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!