Meio Sem Meia
2 Invisível Mal

—____ Teixeira Oliveira Camargo pegou as duas embalagens de preservativos, uma em cada mão e se sentiu melhor, quase anestesiado. Ufa! Agora podia vesti-los. E assim o fez.
— Por que duas camisinhas? — indagou Shirley Chagas, chateada. — Tudo isso é medo de pegar doença? Pô, você sabe que é a minha primeira vez. Sou limpinha.
—____ olhou para sua namorada sem entender — e naquele momento não passava pela sua cabeça que o porvir a estava reservando como sua futura esposa. Estaria brincando? Ele já tinha explicado para ela sobre os procedimentos. Não, talvez ela tivesse esquecido.
— Não, amor, você sabe. Precisa ser duas. É um dos rituais.
Shirley deu mais atenção à última frase e por ela sentiu uma quente profusão de atração. Aquele detalhe a deixava louca de desejo; foi aquilo que deixou _____ encantador aos seus olhos na primeira vez que se conheceram.
—Então vem logo — pediu, o coração palpitando. — Não me aguento mais.
Assim que fizeram a rápida viagem aos céus e pousaram com um baque abrupto[ER1] , _____ tirou os preservativos usados, pegou mais duas embalagens intactas, uma em cada mão, se sentiu melhor, quase anestesiado e vestiu os novos.
Todo esse ritual acabou alcançando um efeito, ainda que não premeditado — o ritual era para ter sido apenas mais um ritual, como os outros já concluídos — e o primeiro espermatozoide a penetrar no óvulo — sem antes, no caminho, bater nas paredes do canal propositalmente e se sentir melhor, quase anestesiado — iniciou o primitivo processo da criação.
O resultado, nove meses depois, foi Teodoro Oliveira Chagas, um garoto que acabaria por se tornar sensível e amoroso, dotado de inteligência, porém assim como seu progenitor, com o passar do tempo, adquiriu seus próprios rituais particulares. Há quem diga que Teodoro os adquiriu observando o pai no dia a dia, mas também é verdade que ignoravam a herdabilidade como forma de presente — ou bônus — que o ascendente dera: os genes passados de pai para filho. Enfim, o fato é que no fim talvez os dois lados estivessem certos, comportamentos passados por gene, salpicados pela convivência, pela observação, pelo ambiente.
Em uma das ocasiões de observação, quando Teodoro beirava seus seis anos, constatou que seu pai não tinha nome. Todos o tratavam por _____. Silêncio. Mas ainda assim ele atendia. Ei! Se virava, sabia que estavam o chamando.
O garoto se aproximou e com uma das mãos puxou a camisa do pai para atrair a atenção. O pai olhou. Não satisfeito, o filho puxou a camisa com sua outra mão.
— Pai, por quê você não tem nome?
—____ olhou para seu filho sem entender. Estaria brincando?
— Claro que tenho. Onde já se viu alguém sem nome?
— O senhor.
— Impossível.
— Possibilíssimo — Teodoro confirmou exageradamente com um gesto de cabeça para depois a baixar, sussurrando para si mesmo, quase em surdina: — Possibilíssimo. — Voltou a erguer a cabeça. — Sempre que vão te chamar, dizem: _____, ou Ei! E outro dia vi no papel que mostra que a mamãe e você estão casados que ela se casou com _____. _____ não é um nome, é silêncio.
Não, Teodoro não estava brincando. Oh, sim! Agora as coisas clarearam. _____ ainda não tinha explicado ao sucessor sobre os procedimentos.
O pai se ajoelhou na frente do filho. O chão, e as pontas dos seus dedos, alguém — ele mesmo — sussurrou em sua mente. Então tocou as pontas dos seus dedos no piso frio de sua casa. Bem melhor!
— Filho. O papai tem um nome sim. Acontece que tem um segundo eu que chamo de Ideius Obsessivus que sempre foi muuuuuito insistente. Ele pede coisas até conseguir que eu as faça e essas tais coisas podem parecer estranhas para o resto do mundo. Uma delas que ele me levou a fazer é não dizer meu primeiro nome. Eu era um garotinho, como você. Então desde muito cedo simplesmente dizemos _____. Silêncio. Mas não me incomodo mais com isso, acostumei e sempre quando dizem ei!, sei que estão me chamando.
— Idelu Ossivu? — indagou o pequeno, confuso. Quem era o tal de Idelu? Era sim um garoto inteligente, porém, de toda a explicação de _____, essa parte foi a única que não tinha entendido. — Não sabia que você tinha um irmão gêmeo, pai.
— Oh, há-há! É Ideius. E não, eu não tenho irmão, quanto mais gêmeo.
Teodoro ainda não tinha entendido.
— Então quando seu segundo eu Idelu Ossivu vai vir nos visitar para eu conhecê-lo?
— É Ideius. E ele não existe fisicamente.
— Fisicamente?
— Tudo aquilo que dá pra pegar.
— Hum, fisicamente... — o menino baixou a cabeça, estava pronto para repetir a palavra já dita, e sussurrou para si mesmo, quase em surdina, fazendo mais vento com a boca do que propriamente falando: — fisicamente. — Levantou a cabeça e sorriu para o pai. Agora tinha entendido. — Se não dá pra pegar o Idelu, então ele é um fantasma, não é?!
— É Ideius. E não, ele não é um fantasma.
Teodoro ignorou, correu para o sofá e tirou a capa vermelha com a qual jogou em cima de si. Lembrava um fantasma... vermelho. Mas não deixava de parecer um. Ria com a alegria genuína de uma criança.
— Eu sabia que nossa casa era assombrada! Buuuuuuu — saiu correndo da sala, passou pelo umbral da porta que dava para o quintal e só então parou bruscamente.
Lá estava seu velho inimigo: o Invisível Mal. O vilão tinha de tudo para fazer ruindade a seus pais. Teodoro não sabia quem era, o que era, o que e como aquela coisa podia fazer o mal, mas tinha certeza que ela não pensaria duas vezes antes de fazê-lo na primeira oportunidade que desse as caras. Porém Invisível Mal tinha seus pontos fracos. A rotineira lista de tarefas — pensada e descoberta por Teodoro — após finalizada, imunizava seus pais. O garoto se preparou para completar sua incumbência. As regras tinham que ser feitas caso quisesse que seus pais continuassem em paz.
— Se prepare fantasma vermelho, você está com a responsabilidade nas mãos e tem uma missão para completar! — gritou Teodoro e deu a carreira inicial. — Buuuuuuu!
Primeiro passou pelo gramado e deu três pulinhos sobre a área com maior densidade de verde, depois girou para o lado, se agachou e puxou uma folha da relva rasteira. Em seguida acelerou até o tronco no canto do quintal, pulou e se segurou num dos firmes galhos da árvore e arrancou uma folha de uma das suas várias ramificações; pousou e avançou para a mangueira enrolada e suspensa pelo prego na parede. A desenrolou e rapidamente tornou a enrolá-la. Se agachou na área sem gramíneas e sujou as mãos de terra para em seguida disparar para a torneira e lavá-las.
Chacoalhou as mãos para espantar o excesso de gotas escorrendo e as apoiou na cintura. Pode então sugar todo o ar que seu pulmão permitia sorver. Que alívio! Seus pais estavam protegidos, nada de mal aconteceria à eles hoje!
Na porta, _____ observava o ritual do filho. Foi até ele.
— Téo, Ideus não existe fisicamente, mas não é um fantasma. Ele mora dentro da minha cabeça.
O menino olhou para a cabeça do pai tentando enxergar o tal do Idelu, como se tivesse visão raio X. Depois de alguns instantes de reflexão, finalmente compreendeu. Mas precisava confirmar. Pergunta de novo!, uma vozinha cochichou em sua mente.
— Então ele está dentro da sua cabeça?
O pai confirmou.
Pergunta de novo!, a voz insistiu novamente. Pergunta de novo! Precisava confirmar.
— Então ele não é um fantasma?
O pai disse que não, o segundo eu não era um fantasma. E completou:
— Andei te analisando e notei que o seu Ideius Obsessivus já nasceu dentro da sua cabecinha e conforme for passando, irá crescendo junto com você.
Teodoro abraçou o pai.
— Que bom que o meu Idelu vai crescer! Assim o seu não vai ficar tão sozinho, afinal.
Uma onda de paixão atingiu _____ em cheio, o deixando meio atordoado. Ele retribuiu o abraço e carinho. Sentiu o cheirinho reconfortante de seu filho.
— É Idei... Ah, esquece! — O cheirinho já era suficiente.
Shirley assistia a tudo da cozinha. Por mais que ela não tivesse aquela compulsão compartilhada entre os dois, tinha a sua mania. Sempre soube que se procriasse com _____, daria início a uma futura e longa linhagem de obsessivos. Mas não se arrependia de ter aceitado aquilo. E confessava com fervor que amava aquilo. Era aquele detalhe que a deixava louca de amor pelos dois. Tinha a mania de querê-los cada vez mais por causa daquilo.
Bem, fazer o quê? Cada um com as suas loucuras!
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