Meio Príncipe
10 Capitulo 9: Um novo mundo
Notas iniciais
Táquion fechou uma válvula num dos canos que findava no estranho aparato, abriu uma caixinha e retirou algumas pedras avermelhadas, colocou-as num canto e foi até o outro lado do recinto pegando outras pedras, estas eram de um vermelho mais vivo, quase brilhavam nas mãos do mago, depositou então na caixa e a selou.
—Pronto, água quentinha para você. — disse satisfeito com as mãos na cintura. — Vou levar essas gemas de fogo para recarregar. — jogou em seu bolso as pedrinhas. Pensou por um momento e notou a perplexidade do outro com tantas coisas ao redor, ele nunca havia tomado um banho assim. — Precisa que eu te explique como usar as coisas? — perguntou já sabendo a resposta.
Apolo olhou desconfiado para um frasco, e então um pote, mexeu numa garrafa e nada daquilo era para ele familiar.
—Essa garrafa verde tem xampu, é de passar nos cabelos. Você põe um pouco nas mãos e massageia os cabelos. — começou a explicar. — Do lado é condicionador, usa depois do xampu para deixar os cabelos macios e cheirosos, aqueles potinhos ali são sabonetes, o vermelho é esfoliante para o rosto e tem cheiro de pêssego, o azul é para o corpo, é para tirar sujeira também. — observava Apolo prestando atenção como um cachorrinho, parecia confuso, mas provavelmente estava entendendo. — E por fim, aquele menorzinho é óleo para o corpo, você põe um pouquinho, bem pouquinho mesmo nas mãos e passa no corpo para deixar um cheiro bom.
—Aquilo? — apontou uma escova.
—Isso é uma escova de banho, para limpar as costas, e essa – pegou uma estranha e circular e outra azulada. — é para o rosto e esta azul é para o corpo. Vou cuidar dos meus deveres, se precisar me chame. — abriu uma gaveta no armário. — E isso é uma toalha, serve para se secar.
—Táquion…
O mago voltou sua atenção para o guerreiro que parecia ainda muito confuso.
— Diga.
—É por isso que você está sempre cheirando bem? — perguntou com certa timidez.
Táquion riu, nunca pensou que cheirava bem.
—Mais tarde te ensino a escovar os dentes também… — saiu deixando o outro só.
Abriu três livros na escrivaninha e começou a folheá-los escrevendo detalhes em uma folha a parte, tentava entender o processo por trás de uma magia natural que servia para atrair chuva, era um tanto complexa, mas precisava entender o funcionamento para poder sintetizá-la.
A cada novo frasco aberto uma novidade, por que aquele líquido tinha um cheiro e uma textura diferente daquele, um fazia espuma e o outro não e assim por diante. Aos poucos ia se familiarizando com eles enquanto a água quente escorria por seu corpo. A musculatura estava relaxada, pensava que não tinha isso no palácio, o que achava uma pena. Soltou a corda fazendo a água parar e então pingou o óleo na mão passando pelo corpo. Secou-se com a toalha e atirou-a um canto assim saindo do banheiro desnudo.
—Táquion eu terminei…
O mago que se apresentava concentrado em sua leitura chocou-se ao ver o outro em pé ao seu lado com suas vergonhas descobertas. Caiu da cadeira quando avançou para trás instintivamente ao tentar apoiar na mesa, num gestou jogou em Apolo um travesseiro que estava sobre a cama fazendo-o se cobrir.
—Apolo! Por que saiu sem a toalha? — questionou se levantando. — Deixe eu pegar uma roupa para você. — lembrou-se então que não tinha nada que servisse no maior, fechou os olhos ainda caído no chão e concluiu por fim. — Precisamos comprar alguma coisa para você.
O bronco nada estava entendendo, afinal o mago já o havia visto pelado outras vezes, talvez fosse coisa dele.
Soltou o travesseiro e tirou o mago do chão num solavanco para então jogá-lo na cama. Táquion olhou-o nos olhos e esse avançou para cima dele deixando-o paralisado.
—Tudo bem? — perguntou preocupado.
—O que você está fazendo? — indagou o menor um pouco surpreso com tudo aquilo.
—Te tirando do chão. Está machucado?
—Não, obrigado. — respondeu num sorriso amarelo.
O guerreiro então saiu de cima dele e se sentou na confortável cadeira.
—Está estranho.
O mago sentou-se na cama e se ajeitou.
—É que as pessoas não costumam sair nuas do meu banheiro assim…
—Outras pessoas tomam banho aqui? — estranhou o maior, acreditava que as casas dos magos deveriam ser todas iguais.
—Não! — corou o menor. — Foi modo de dizer… — tentou então mudar o rumo da conversa. — Apolo, queria conversar com você…
O rapaz fez um aceno com a cabeça.
—Nós magos temos uma cultura muito diferente do mundo exterior como você já deve ter percebido, não distinguimos homens e mulheres para as tarefas ou posições.
Apolo não estava entendendo novamente, afinal o que o mago estava falando era muito estranho para ele.
—Quero dizer, algumas das pessoas mais fortes entre os magos são mulheres, dentre as pessoas importantes há muitas líderes mulheres…
—Não estou entendendo. — disse seco.
Táquion meneou a cabeça e, por fim, achou um caminho.
—Não é vergonha para um mago perder para uma mulher…
—Mas é uma mulher!
—Para nós não importa, elas não são inferiores…
—Claro que são, são fracas e molengas e…
—E sua mãe era uma mulher… — disse brando.
Apolo calou-se por um momento com a fala do de Táquion.
—Não precisa se envergonhar de ter perdido para a Bósons, ela derruba muitos homens, ganhou até o título de “Walkiria” e não foi atoa.
—Táquion. — chamou para si a atenção do menor, estava visivelmente envergonhado. — Eu não consigo entender…
—Nós somos muito diferentes não é?
Apolo confirmou com a cabeça.
—Tudo do seu mundo é estranho para mim também… — explicou. — Não se sinta envergonhado por que ela te derrotou, fique impressionado por que achou um guerreiro mais forte que você, pode ser?
—Pode. — respondeu desanimado.
Apolo se aproximou dele e então lhe deu um selo na face.
—Logo você se acostuma. — foi até a porta. — Volto já, vou comprar umas roupas para você
Novamente Apolo estava só, aquele quarto era muito estranho, lembrava um pouco o quarto de seus pais. Aproximou-se da cama e pressionou-a sentindo a maciez. Jogou-se então nela sentindo prazer, sentia o cheiro do mago em todo o lençol macio, olhou para os livros sobre a escrivaninha e se aproximou curioso. Leu um pouco com sua dificuldade habitual algo sobre nuvens e como elas são, gravou uma frase que dizia “Cirros são nuvens altas e em forma de pena….”, desistiu daquela leitura sem sentido e olhou para a janela vendo uma nuvem exatamente como descrita.
—Ah. Então isso é um cirro…
Jogou-se novamente na cama e pela primeira vez observou o teto. Viu que era um céu estrelado e que haviam detalhes como círculos e esferas coloridas. Ficou em pé na cama e tentou tocar o teto. Encostou numa esfera azulada que tinha outra esfera menor com um círculo em volta dela.
—Essa é a nossa casa. — disse o mago parado na porta com um pacote.
O príncipe o mirou e então voltou a esfera.
—Nossa casa… — repetiu lentamente, não entendia o que ele queria dizer.
— Sim Apolo, é aí que nós moramos. — pôs os pacotes em um canto. — E essa menorzinha em volta é a lua.
O maior tocou a pequena esfera no teto e repetiu “lua”, alguma coisa estava se iluminando em sua cabeça, agora entendia o que significava “nossa casa” aquela era a Terra.
O menor desceu e pegou um livro na estante e retornou até o maior que ainda estava hipnotizado pelo desenho. Colocou o livro sobre a escrivaninha e percebeu que os seus estavam mexidos, achou graça na curiosidade de príncipe que ainda estava absorto.
— Te trouxe alumas roupas, quer experimentar? — quebrou a atenção do maior que desceu da cama e foi em sua direção. — Comprei umas malhas e uma capa, escolhi azul royal por que achei que ia gostar. — disse exibindo o manto.
O maior observou enquanto Sommerfeld oferecia-lhe uma malha branca que aparentava ser muito leve, vestiu a malha percebendo que esta ficava rente ao corpo mas sem incomodar, pegou então uma calça de tom terroso oferecida pelo outro e vestiu. Por fim jogou a capa que também achou leve, era como se vestisse água.
—O que é isso? — Perguntou passando a mão pelo estranho pano.
—Seda. É um tecido feito do casulo de alguns insetos. — aproximou-se e fechou a capa do maior que era adornada com detalhes dourados e tinha botões para que se mantivesse fechada. — Pronto.
Apolo olhou a estranha veste e então mirou um espelho sentindo-se um tanto idiota, estava vestido quase como os figurões do castelo que tanto odiava, mas num estilo diferente, na verdade estava com uma aparência muito mais afrescalhada até para eles.
—Nossa! — exclamou o mago orgulhoso. — Ficou ótimo em você, parece até um mago…
—Me sinto um idiota… — comentou baixo.
O jovem mago o observou por um instante percebendo o por que ele se sentia mal, não era-lhe costumeiro aquele tipo de roupa, talvez tivesse exagerado.
—Se você não gostou eu posso trocar, é que eu achei que você ia gostar e…
—Preciso pensar… — fechou os olhos, não queria desagradar o mago que lhe presenteara e parecia tão feliz vendo-o usar aqueles trajes. Táquion sempre usava capas coloridas em tons escuros, seria cruel falar mal daquelas vestes também, na verdade, todos na vila usavam. — Táquion…
—Oi Apolo? — perguntou o menor em expectativa.
—Olha… — coçou a cabeça sem jeito tentando escolher as palavras. — Eu adorei o que fez por mim, mas… — fugia o mais que podia daquilo que queria dizer. — É que eu não me sinto eu com essa coisa… Me sinto como aqueles idiotas do castelo…
—Não precisa usar se não quiser, só achei que você ia ficar bonito. — explicou gentil. — E não temos muitas opções de roupas por aqui, é meio que tradicional dos magos. — o menor sentou-se na cama e abriu um sorriso orgulhoso. — E sobre ficar bonito, eu acertei.
Aquela frase pousou na cabeça do príncipe, estava bonito? Então ele era feio? Táquion gostava mais dele assim? Se fosse outra pessoa talvez não se importaria, mas não era. Pousou seu olhar no espelho e viu seus cabelos desgrenhados, agora limpos tinham outra aparência. Aquilo era uma das dezenas de novas experiências que estava tendo naquele dia, ficou curioso para saber como ficaria se fosse realmente “bonito”.
—Me deixe bonito. — pediu ao mago que nada entendeu.
—Desculpe Apolo, não entendi o que quis dizer.
O guerreiro corou, não sabia explicar o que queria, mas queria impressionar o mago.
—Quero ficar bonito igual a você… — explicou baixinho.
O menor continuou não entendendo nada, exceto a parte que o outro disse que era bonito, mas mesmo assim não fazia muito sentido, contudo havia adorado o elogio. Deitou na cama sob o olhar do maior e ponderou sobre aquilo, afinal beleza é muito conceitual, o que é bonito para alguns não é para outros. Viajava em pensamentos quando uma voz o trouxe de volta.
—Táquion? — mirava o mago quase que com o corpo sobre ele, o que arrancou um gritinho do menor deixando-o ainda mais rubro.
—Eu estava tentando entender o seu pedido…
—Você cheira bem, agora eu estou cheirando bem…
—Acho que eu entendi. — o jovem mago se afastou um pouco na cama e pediu que o outro sentasse ali. Pegou uma escova no armário e tentou sondar. — Quer que eu te arrume, igual aos príncipes das histórias, certo?
Apolo concordou com a cabeça.
—Vamos cuidar desse cabelo primeiro, depois mãos e pés, mas isso eu faço mais tarde, por hora só o cabelo.
Sommerfeld passava a escova gentilmente nos fios do maior ajeitando-os, aparou as pontas que fugiam do padrão e fez uma trança grossa, de modo que mantivesse a masculinidade do outro e desse um charme, prendeu por sima com um fio alaranjada e muito discreto. Pediu que o maior se olhasse no espelho. Achou engraçado a estranheza do outro quando este tentava entender a diferença.
—Estou estranho? — perguntou um tanto confuso e ressabiado sem tirar os olhos do reflexo.
—Está ótimo. — comentou em um tom doce olhando-o com admiração.
O príncipe não sabia dizer bem o por que de se sentir bem quando Táquion o elogiava, mas isso o deixava feliz. Pela primeira vez havia encontrado alguém que não o olhava como um incomodo, sabia que para o mago ele era especial e isso o fazia feliz. Queria retribuir todo aquele cuidado, mas não tinha nada a oferecer e isso fazia-o se sentir diminuído.
—Já é quase hora do almoço, Rosalind já deve estar nos esperando.
O maior concordou e os dois saíram pela rua, os transeuntes pareciam olhar com mais atenção para Apolo e vez ou outra um se aproximava para elogiá-lo e se apresentar, não sabia bem se gostava de tanta atenção, mas não estava sendo ruim, era diferente dos olhares habituais que recebia no castelo. Uma pequena maga se aproximou e parou de frente com os dois. Táquion se abaixou para poder olhar a pequena figura nos olhos. Uma doce menina com uma capa enfeitada de girassóis, tinha os cabelos castanhos ondulados e os olhos da mesma cor, talvez mais claro, no rosto claro carregava um sorriso e nas mãos meia dúzia de flores arrancadas de algum canteiro.
— Como vai pequena Rita? — perguntou para a pequena.
—Vou bem. — disse meiga. Mirou Apolo de baixo a cima e este lhe encarou com sua carranca habitual. A pequenina se assustou e soltou. — Ele me dá medo… — comentou com o outro mago que estava quase rindo vendo a reação da menor. Colocou-a nos ombros e levantou até a altura do príncipe, esta corou de leve e ofereceu as flores a ele. — Pr….pr….pra você!
O guerreiro pegou as flores gentilmente e soltou um “obrigado” seco fazendo seu tutor sorrir e vendo como isso o deixava feliz sorriu de leve também.
—Por que não colocamos as flores no seu cabelo Apolo? — Sugeriu o menor para a alegria da garota.
Apolo não entendia o por que de tudo aquilo mas apenas se virou e ofereceu a trança. Táquion ajeitava os caules e a garota ia colocando uma a uma enfeitando os cabelos negros, quando ela terminou e o guerreiro se virou para ela, ainda nos ombros de Sommerfeld, abraçou o maior. Desceu de seu lugar e olhou pra cima.
—Você parece mal, mas é bonzinho. — Abraçou a perna do maior e saiu saltitante.
—Você parece mal, mas é bonzinho. — imitou Táquion. — Pior que ela tem razão.
—Pareço mal? — indagou o maior.
—Muito, bem malvado. — riu o menor brincando.
—Por que? — perguntou perplexo.
—Essa sua cara fechada e carrancuda, sua postura que parece que quer arranjar briga e o seu tamanho não ajuda em nada. Está menos intimidador agora que está arrumado, mas…
—Eu estava quebrado? — perguntou confuso.
—Quebrado…
—Você disse que eu fui arrumado.
—Ah! Não é o contrário de quebrado, quero dizer que está limpo, cabelos penteados e bem-vestido. — Sommerfeld o abraçou e sentiu algo diferente, não estava machucado, não estava de armadura, sentia o calor do mago passar para ele. — Eu não ligo de você estar todo desajeitado, ou ficar grunhindo, sinto muito orgulho de você. — os olhos do maior marejaram, nunca ninguém havia lhe dito que sentia orgulho. Limpou discretamente os olhos, não deixaria que o outro visse suas lágrimas, acharia que era fraco, já havia chorado uma vez na frente dele e não pretendia que isso se repetisse, abraçou seu amigo e professor com força.
—Obrigado. — exprimiu o maior.
— Bom, vamos. — desvencilhou-se o mago de Apolo. Deu-lhe um soquinho no braço e sorriu para ele. — Vamos, a sachertorte nos espera!
Os dois seguiram por ruas de pedra parando novamente sempre que alguém vinha os cumprimentar, alguns detalhes não passaram despercebidos pelos olhos do guerreiro, como, por exemplo, hastes cobertas que acompanhavam o limite das ruas planas, haviam canteiros com flores por todos os lados tornando o lugar colorido e as casas de madeira eram todas bem cuidadas, algumas possuíam telhado de palha e outras de madeira mesmo, algumas tinham janelas feitas de vidro outras não, passaram por uma construção de pedra diferente da anterior, essa tinha grandes portas de madeira e detalhem em metal com tochas, agora apagadas, enfeitando a entrada.
—O que é aquilo? — questionou apontando para o estranho prédio.
—Você vai descobrir mais tarde.
Parou e observou o estranho prédio por alguns segundos antes de voltar a seguir o falante Táquion pelo caminho. Não demorou muito até avistarem uma casa um pouco maior e arredondada, era solitária e com diversos acessos de outras vias, uma mulher de vestido godê cuidava de algumas ervas e ao avistá-los veio correndo com pés descalços. Não poderia ter passado despercebida, não pelos cabelos chamativos, nem pelos olhos, mas pela sua imensa beleza e um corpo um tanto sensual, as flores tatuadas no pescoço cobriam toda sua extensão e era impossível não notar os diversos brincos nas orelhas, havia ainda um piercing spike negro que atravessava o septo. Tinha seus quarenta e poucos anos e um sorriso que iluminava o mundo. Agarrou o mais novo num abraço correspondido e o girou alegremente.
—Pequeno Táquion!
—Oi Rosalind, — respondeu ele alegremente. — Fóton nos chamou para o almoço, disse que você fez sachertorte.
A moça concordou com a cabeça e se aproximou do maior avaliando-o.
—E você deve ser Apolo, — ponderou por uns instantes. — É mais bonito do que as fofocas diziam…
O guerreiro carminou-se com a moça, não haviam mulheres com uma beleza assim na corte. Balançou a cabeça positivamente de forma nervosa, não conseguia falar, sentiu o suor escorrer pelas mãos e costas, nunca havia se sentido assim perante uma mulher. Sua expressão impassível habitual se alterara para uma fofa cara de bobo.
—Vamos meninos. — disse a moça de cabelos roxos cacheados passou a mão por sua extensão graciosamente parando nas pontas pouco abaixo dos seios. — A comida está quase pronta. — seguiu descalça a frente deles.
—O que estava fazendo aqui fora? — Perguntou Sommerfeld colado em seus calcanhares.
—Vim pegar um pouco de alecrim, o meu acabou e eu precisava para nossa carne, afinal se não te forçarmos você não consome proteína animal, não é mocinho? — ela piscou o olho laranja para o jovem mago que fez uma careta e revirou os olhos evidenciando que detestava aquela situação, mas passaria por ela.
Entraram na casa e passaram direto pela pequena sala onde dois sofás de pano acinzentado rodeavam uma mesa de centro de madeira muito polida, algumas prateleiras aqui e ali sustentavam pesados livros de capas diversificadas. Seguiram por um corredor com diversas portas desenhadas até chegar em uma mais ao fundo onde atravessando se encontrava uma cozinha um pouco maior que a da casa de Táquion onde Fóton retirava de cima de um fogão a lenha trabalhado na pedra uma panela de cobre com um caldo escuro.
—Trouxe o alecrim?
—Claro amor. — a moça se aproximou e deu um abraço e um selo no esposo, colocou algumas folhas no meio do molho e as demais em um pote.
Fóton descansou a panela sobre a mesa e tratou de pegar uma carne assada num forno de pedra enquanto os visitantes se acomodavam. Apolo ainda observava a moça com fascínio enquanto pegava os pratos, admirava a sua leveza e sua singularidade, estava tão distraído que nem percebeu que Táquion o observava achando graça. O esposo dela olhou para o príncipe e em seguida para o jovem mago, quase como se pudessem trocar pensamentos e riram.
O homem serviu a carne a cobriu com o cheiroso caldo, pôs então a mesa pequenas porções de saurotera e tiroler gröstl, Sommerfeld fez careta o que fez a anfitriã sorrir achando graça, levando Apolo por sua vez a corar e Fóton a rir de tudo aquilo.
—E então Apolo, Táquion nos falou que está te tutorando, como se conheceram? — perguntou o dono da casa sentando-se a mesa logo sendo acompanhado pela esposa.
—Eu estava caçando e… — o príncipe foi cortado.
—E me atingiu com uma flecha. — disse seu tutor como se contasse vantagem. — Mas como eu sou quem sou, não foi um grande problema. Não gosto muito dessa história, podemos mudar de assunto? — ele se mostrou um tanto desconfortável para a surpresa de todos, até Apolo estranhou e ergueu uma sobrancelha, mas, por fim, todos concordaram.
—Bom meninos, vamos comer antes que esfrie. — sugeriu Rosalind acabando definitivamente com aquela prosa.
O guerreiro olhou para Táquion que lhe fez sinal para ser educado, e para a surpresa dele Apolo pegou os talheres e serviu-se como um verdadeiro lorde. Demonstrava modos a mesa como o mago jamais havia visto durante o tempo que passaram juntos. Mastigava lentamente apreciando o sabor, com a boca fechada e sem fazer barulho.
Os assuntos corriam muito diversificados durante a refeição, nada que o viajante realmente conhecesse, talvez fossem assuntos de magos, Fóton parecia bastante animado falando sobre um método novo que conhecera para fechar úlceras estomacais que era bem menos desgastante apesar de bem mais lento, segundo ele o interessante é que era um processo alquímico e não mágico como os outros métodos conhecidos.
Num dado momento o homem de cabelos escuros virou-se para Apolo com um sorriso animado e tentou introduzi-lo na conversa, achava interessante ter um visitante não mago em sua casa, até por que os magos evitam contato com o mundo exterior devido as divergências culturais.
—Você disse mais cedo que caça não é?
—Sim, caço. — respondeu voltando sua atenção para Fóton.
—Nunca tive muito interesse na caça em si, mas caçava por que minha área de estudo necessitava de animais para dissecação…
Apolo começara a ter interesse, o único mago que conhecia realmente até então era Sommerfeld, e este não caçava, na verdade demonstrava total inaptidão para tal tarefa. A palavra usada pelo homem era-lhe estranha, decidiu perguntar.
—O que é dissecação? — cortou o assunto.
—É quando você abre uma planta ou animal para estudar o seu interior, querido. — Respondeu Rosalind. — Entendeu?
Apolo afirmou positivamente como uma criança.
—Seu pai é caçador Apolo? — indagou Fóton.
—Não.
Rosalind levantou-se e avisou que ia buscar a sachertorte, como a distância era pequena, não deixaria de acompanhar o assunto.
— Então Apolo, nos fale um pouco de você. — pediu a moça jogando os cabelos cacheados, o príncipe ficou desconfortável e olhou para Táquion que estava introspectivo e distraído com alguma coisa.
—Bom, minha mãe Charlote faleceu a pouco tempo e meu pai, Rodolfo III… — respondeu com certo nervosismo, não que não quisesse impressionar, mas não acreditava que isso pudesse ser algo grande.
A torta chegou a mesa e o casal se entreolhou e riu, olharam para Apolo, o mediram quieta e lentamente deixando-o desconfortável, se entreolharam novamente e então perguntaram para confirmar.
—Charlote, a rainha e Rodolfo III, vulgo Rodolfo o bom, o rei? — riu a moça.
Novamente o guerreiro confirmou.
—Então você é o príncipe? — perguntou Fóton um pouco descrente.
—Sim… — deu a resposta com certa simplicidade, para Táquion nunca fora mais do que apenas Apolo, na verdade ele pouco se importava com isso.
O casal ficou tão boquiaberto e chocado que trouxeram o jovem mago de volta de seu devaneio, observava os dois mudarem de cor e então o miraram.
—Táquion! Por que não disse que ele era um príncipe. — voltou-se para Apolo. — Me perdoe príncipe Apolo, eu não sabia, eu espero que esteja tudo de seu agrado e me perdoe pela insolência. É uma honra tê-lo na minha humilde casa…
—Que exagero, ele é só meu amigo. — disse Táquion um pouco indignado. Avançou para cortar um pedaço da sachertorte e levou uma bronca.
—Táquion! Onde estão seus modos? — Rosalind estava nervosa, nunca havia imaginado um monarca em sua casa. — Quer que eu lhe sirva Senhor? — perguntou para o maior.
Sommerfeld se apoiou sobre a mesa e aparou a mão com o rosto, olhou para seu aprendiz e disparou com uma nota de sarcasmo.
—E então príncipe, — falava lentamente deixando a última palavra frisada. — Deseja que “ela” te sirva?
O guerreiro não sabia o que dizer, nem por que Táquion estava agindo assim, sentia um gosto amargo na boca e o estômago revirar, levantou-se e saiu da cozinha apressado. Apoiou-se na parede do corredor e respirou fundo, era estranho receber aquela atenção. De alguma forma sabia que seu professor estava bravo, mas não o culpava, só esperava uma reação natural. Na cozinha o casal discutia com o mais novo pois não se deve destratar uma pessoa, ainda mais sendo tão importante, este por sua vez retrucava dizendo que isso nunca foi importante, pois para ele, Apolo não era um príncipe, era só Apolo.
Finalmente, o barulho cessou. A porta se abriu com lentidão e revelou aos olhos de Sommerfeld um Apolo sentando com a cabeça entre as pernas.
— Apolo? — disse baixinho.
— Quero ficar sozinho.
Táquion sentou-se ao seu lado e escorou o corpo no maior.
— Posso ficar sozinho com você?
Seguiu-se alguns instantes de silêncio, o guerreiro não podia escolher entre afastar o menor ou pedir que ele ficasse, havia aprendido a pensar e sentir coisas que não sabia explicar, apenas sentir. Aquele medo era uma coisa nova, algo que se assemelhava a vergonha, preferia não ser príncipe para que não tivesse causado a discussão. Percebeu então que preferia estar ali, com aquele pequeno falante em vez de estar sozinho e então riu com isso.
— Se estiver comigo eu não estarei sozinho, estaremos juntos.
— Mas eu posso ficar sozinho com você. — brincou o Táquion fazendo o maior corar. — Não vai ter mais brigas, já resolvemos tudo. — o mago se levantou e estendeu a mão. — A noite vai ser muito pior, preparado para essa aventura?
Apolo segurou aquela mão e no lugar de usá-la como apoio para se levantar o puxou com força para que caísse em seus braços e o jogou no ombro como um saco de batatas, talvez para ele o saco fosse bem mais pesado.
— Se estiver comigo acho que estará tudo bem.
— Quando começou a ser brincalhão? — perguntou o outro achando graça e levemente indignado enquanto sorria.
— Não comecei. Só me senti confortável.
— E antes estava desconfortável?
— Não! — Apolo coçou a cabeça e iniciou num tom mais baixo e constrangido. — Eu nunca tive isso com ninguém… Eu não passo de um… — procurou a melhor palavra que pode pensar, agora que lia conhecia um número muito maior de palavras, mas as vezes as esquecia. — Tro… Tro… Tromanita? — pensou melhor, aquilo parecia errado.
— Troglodita? — chutou o outro.
— Isso! Troglodita. — deixou sair triste.
A mão que o mantinha no ombro era forte e aquilo não o incomodava, mas aquela autoimagem era péssima.
— Eu não vejo um troglodita. — principiou. — Vejo um rapaz muito forte, gentil e um tanto duro. Seus sentimentos estão muito presos naquela armadura, você precisa entender que você não é feito de aço, é de carne e tem o direito de sofrer também, mas pode ser feliz, e pode ter um mundo de coisas que não faz ideia. — sem muito esforço o mago tirou a mão de Apolo de suas costas e se ergueu no ar sentando-se em seus ombros. — Precisa parar de achar que você não vale nada. — falou fagueiro. — Sem você meu mundo não seria o mesmo. — bagunçou as madeixas do maior um pouco. — Vamos para a cozinha? A sachertorte ainda nos espera.
Entraram pela cozinha precisando que os dois se abaixassem.
— Tudo resolvido! — disse o menor.
Repartiram a torta e começaram a falar futilidades do dia a dia novamente, os anfitriões agora usavam um linguajar mais polido e Apolo estava um pouco mais comunicativo sempre respondendo sobre o que Táquion o estava ensinando.
— Táquion, sei que é só para amanhã mas quer fazer “aquilo” hoje, para aproveitar que já está aqui. — sugeriu Fóton.
Apolo olhou meio desconfiado e sentiu o desconforto que percorria a mente do jovem mago.
— Nossa Fóton, que momento para fazer essa sugestão, mas acho que seria uma boa. — respondeu o rapaz por fim.
— Bom então eu vou organizar os medicamentos. — Rosalind se levantou e pegou as coisas na mesa, para surpresa de todos um solícito Apolo começou a ajudá-la.
— Precisa de ajuda para organizar? — perguntou ele gentilmente e a moça assentiu dizendo que seria ótimo ter companhia, os dois pediram licença e saíram pelo corredor rumo a uma sala onde haviam vários frascos.
Na cozinha os dois se entreolhavam.
— Ainda fico impressionado Dr.
— Não é só você.
— O encanto da sereia nunca falha. — disse Sommerfeld se levantando. — Como é possível que todo mundo fique tão abobalhado?
— Olha Táquion, me pergunto isso todos os dias… — o Dr deixou um suspiro de admiração escapar enquanto pensava em sua bela e graciosa esposa. Dirigiu o menor até uma sala onde Táquion se despiu e então Fóton tocou-lhe as costas revelando uma marca negra.
Apolo ajudava Rosalind a pegar algumas caixas e trocar de lugar enquanto ela limpava alguns frascos e equipamentos estranhos para então devolvê-los em locais nas prateleiras. Sentiu um arrepio na espinha e olhou para a parede na direção onde seu amigo estava, um grito doloroso cortou o ar deixando-o temoroso por Táquion. Pensou em sacar sua espada mas a mulher de cabelos roxos simplesmente colocou a mão sobre a sua evitando que o fizesse.
—É sempre assim… — disse ela com tristeza.
—O que está havendo? — questionou surpreso.
—Táquion tem um corpo frágil e esse tratamento é bem difícil para ele, se ele não fizer isso de tempos em tempos pode morrer…
O príncipe mirou a parede ouvindo os gritos que lhe reviravam o estômago.
—O que ele tem?
—O corpo dele não aguenta a quantidade de magia que ele produz, é uma deficiência muito rara, mas conseguimos dar a ele uma vida quase normal mantendo uma contenção nessa mana toda. Ele vai ficar bem, não se preocupe. — o tom triste não havia deixado sua voz.
—“Ele vai ficar bem….” as palavras ressoaram na mente do rapaz esperando que aquilo fosse realmente verdade.
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Agradeço a meus leitores pela paciência, a faculdade tem me tomado muito tempo e, como disse antes, o texto original tem passado por melhorias, sendo assim, se vocês relerem o prólogo e o capitulo 1 perceberão a diferença gritante.
Curiosidade Bósson se refere a uma nomenclatura de particulas, tem este nome em homenagem ao físico indiano Satyendra Nath Bose. Entre os exemplos de bósons estão diversas partículas elementares.
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