Meia Volta ao Mundo
46 Capítulo 45
Quando chegaram a Viena finalmente, diferentes reações definiam a família Bragança. Pedrinho estava com sono agarrado ao colo da mãe, mal processava o que estava acontecendo ao seu redor. Maria ainda bocejava enquanto checava como estava os irmãos, Fran e Janu olhavam à sua volta, tentando se situar no lugar diferente, já João parecia entediado, ansioso por chegar à casa do avô. Pedro deu uma olhada em todos, começando também a esfregar as mãos, tentando se aquecer e espantar todo frio que surgisse. O que tinham em comum era seguir a liderança de Leopoldina, que era a nativa do lugar em que estavam e a mãe da família, fazia sentido segui-la.
Para seu tremendo alívio, logo encontraram com o tio Fernando, vindo buscá-los do aeroporto para casa.
—Meu irmão! Que saudade! — ela quase esqueceu de Pedrinho no seu colo, indo abraçar Fernando com todo entusiasmo.
—Pold, quanto tempo! — ele respondeu na mesma alegria — e olha só o tamanho do Pedro! Pobrezinho, não deve ter sido fácil pra ele a viagem. Falando em tamanho, olha só pra todo mundo! Vocês tão enormes!
—Como vai, tio? — Maria o cumprimentou sorridente, apesar do cansaço.
—Cadê meu presente? — Fran já foi cobrando, o que deixou seus pais constrangidos.
—Francisca! — Pedro a repreendeu.
—Uau, Fran, não sabia que estava tão ansiosa em me ver — o tio acabou rindo — mas não se preocupe, tem presentes esperando por vocês em casa, sim!
—Nos desculpe por isso — Pedro arriscou falar em alemão, constrangido com o comportamento da filha — é muito bom te ver, senti bastante falta de vocês.
—E nós de vocês, temos bastante novidade pra contar, então vamos nos apressando — Fernando apontou e sua irmã e a família o seguiram até o carro.
A casa enorme continuava como as crianças Bragança se lembravam, alta, com muitas janelas, um tom de laranja descascando, mas ainda assim acolhedora.
As grandes portas se abriram para eles, com a ajuda dos mordomos que os cumprimentaram rapidamente, perguntando a Pedro onde estavam suas malas. Ele abriu o porta-malas do carro e indicou onde estava as bagagens, agradecendo pela ajuda. Enquanto isso, suas crianças já estavam correndo dentro do salão, exceto por Pedrinho, ainda no colo da mãe.
Mesmo observando tudo com muita curiosidade, seus olhos focaram no avô Francisco, se levantou com certa dificuldade, mas foi com muito entusiasmo, até a filha, abraçando-a primeiro Leopoldina, já que os netos estavam explorando o salão.
—Minha querida filha! Há quanto tempo, como é bom te ver por aqui, eu nem acredito — ele disse cheio de alívio.
—Pois é, papai! — ela sorriu — a distância acaba sendo um desafio a ser superado quando se trata de visitas, mas depois de muito organização ainda mais com cinco crianças, conseguimos estar aqui.
—Estou vendo que não é nada fácil — Francisco rebateu de bom humor — estão todos já espalhados por aí e nem deram um oi ao avô.
Ao ouvir isso, era como se as crianças Bragança prevessem uma bronca da mãe dizendo o quanto podiam ser mal educados, mesmo recebendo uma educação melhor dela.
—Olá, vovô — Maria fez questão de consertar a situação — é muito bom te ver.
—Igualmente, minha querida e todos vocês — ele respondeu — como vão, Francisca Januária e João Carlos?
—Muito bem, vovô -João foi o primeiro a responder depois da irmã mais velha — um pouco cansados, será que não teria algo para comer?
—Claro que tem, vamos nos sentar e vamos comer — Francisco convidou os netos, contente por ter toda aquela agitação graças a eles.
Pedro então retornou a casa depois de organizar as bagagens, encontrando a família já comendo.
—É uma pena não esperarem por mim — ele brincou, depois se dirigiu diretamente ao sogro — como é bom poder te ver de novo, seu Francisco, peço desculpa se as crianças aprontaram alguma.
—Não, não se preocupe — ele riu — é muito bom ter elas aqui por perto.
Sendo assim, o pai delas ficou muito mais aliviado e sentou-se ao lado da família para também aproveitar a refeição. Mais tarde quem havia chegado para completar a alegria era a querida tia Luisa, irmã inesquecível de Leopoldina. As duas trocaram abraços e beijos cheios de lágrimas de alegria, mas depois se recuperaram para que ela cumprimentasse os sobrinhos, vendo o quanto estavam animados e ansiosos por presentes. Ela se sentou com eles e começou a distribuir.
—Eu e o vovô compramos isso aqui para vocês, juntos — Luisa explicou — Espero que gostem.
Havia cinco embrulhos, um para cada para. Maria da Glória havia um kit de pintura novo, o que ela deixou muito empolgada. João tinha ganhado uma bola oficial do time da Áustria, seu pai confessou ficar um pouco enciumado, já que eles eram brasileiros de nascimento e sempre torceria para o Flamengo e a seleção, ainda assim a alegria de João o fez esquecer um pouco disso. Francisca e Januária ganharam bonecas muito parecidas com elas, a mesma cor dos olhos, dos cabelos e as roupas delas da cor preferida das meninas. Elas ficaram impressionadas com a riqueza de detalhes e a beleza delas. Por último, Pedrinho despertou do seu cansaço e abriu o seu presente. Era um livro de fotografias com várias paisagens lindas da Áustria, mesmo um tanto tímido e cansado, ele disse um singelo obrigado.
Tudo aquilo tinha empolgado as crianças, mas elas ainda tinham muita energia. Coube a Leopoldina ter uma ideia para acalmar e distrair os filhos.
—Se você se comportarem — ela propôs — podemos brincar na neve mais tarde, só depois de arrumarmos nossas bagagens e vocês darem a mim e ao seu pai um tempo de descanso.
—Me parece ótimo, mamãe — Maria foi a primeira a se manifestar, evitando qualquer protesto de pressa ou impaciência do resto dos irmãos.
—Ótimo! — Pedro chegou até a bater palmas — muito obrigado por isso, meus filhos.
Ele deu um suspiro que fez as crianças rirem, mas compreenderem seu cansaço. Teriam seu um momento de diversão, mas só depois que o pai recuperasse as muitas energias que eles sabiam que ele tinha.
Pedro dormiu por muitas horas, aproveitando o tempo que tinha para descansar. Só acordando depois de perceber que realmente estava disposto, ao seu lado, encontrou a esposa também descansando. Vê-la tão em paz e em repouso o fez sorrir. Primeiro, era um privilégio, tê-la ali por perto depois de tudo que tinham passado juntos e por todos os anos que tinham compartilhado como casados. Segundo, ela era uma mulher maravilhosa, para ele e ainda mais para seus filhos
Pedro era grato por tudo que Leopoldina tinha feito por ele, mas acima de tudo era grato por sua mera presença, por tê-lo escolhido como marido, por ter insistido em ficar com ele por amá-lo, apesar de seus defeitos e erros que ele esperava ter consertado ao longo de todos os anos, estavam juntos.
Interrompendo sua reflexão, sua esposa acordou vendo-o bem de perto.
-Olá, meu amor — ela cumprimentou em meio a um bocejo — espero que tenha descansado bem
—Eu descansei sim, não se preocupe — ele assegurou — espero que as crianças não tenham destruído a casa do seu pai.
—Não, não — ela chegou a rir — eu sei que eles podem ser muito agitados, mas não há esse ponto , falando nisso, é melhor eu cumprir a promessa que fiz a eles, você está pronto para brincar lá fora?
— Acho que sim, pensando melhor, é melhor colocar mais um casaco na verdade, não estou acostumado com esse frio daqui de jeito nenhum — Pedro acabou rindo.
Ela riu com ele e se levantou ,aprontando-se com mais roupas que protegiam contra o frio, descendo com ele e encontrando as crianças ocupadas com outras brincadeiras, que eles esqueceram ao ver os pais.
-Podemos ir agora? Podemos ir agora? — Fran e Janu se revezaram pedindo.
—Sim, sim — o pai delas tentou acalmar as duas — já estamos indo, então vamos todos lá!
Com o convite feito, as crianças seguiram os pais até lá fora. Sem muita cerimônia ou coordenação, lá se foram eles fazer uma guerra de bola de neve, como se estivessem muito familiarizados com aquilo. Serem de um país tropical não os impediu de tentar se divertir, com base no conhecimento que tinham de filmes, que se passavam em lugares frios.
Pedrinho não entendia muito bem o que estava acontecendo, enquanto os irmãos jogavam bolas de neve uns nos outros. Ele ficou um pouco com medo de ser atingido, então segurou a mão da mãe com firmeza, uma maneira de se proteger.
—Não se preocupe, meu querido — Leopoldina assegurou — é só uma brincadeira, ninguém vai se machucar, você pode até aproveitar.
—Vamos lá, Pedrinho, podemos nos vingar deles juntos! — seu pai o incentivou.
Com o pai e a mãe o encorajando a brincar, o menino entrou na brincadeira, afinal.
Maria alertou os irmãos para terem cuidado com o irmão mais novo, assim eles se ocuparam com aquela brincadeira por um longo tempo, antes de entrarem para casa. Ao se cansarem, seus pais se encostaram numa cerca que ficava ali perto, observando as crianças.
Por um tempo, não trocaram palavras. Pedro e Leopoldina se conheciam por tempo suficiente para entender o que pensavam no momento. Sentiam uma mesma gratidão e felicidade pela vida um do outro, pelas crianças que tinham, pela vida que construíram juntos
Pedro nunca se arrependeria de ter feito o favor ao pai de tê-la buscado no aeroporto quando ela chegou ao Brasil e Leopoldina pensou que ir para o Brasil, decisão que ela tomou há tanto tempo atrás, era a melhor coisa que ela poderia ter feito. Gratos e felizes um pelo outro, eles trocaram um beijo, ignorando o frio ao seu redor. O amor da família Bragança era o suficiente para aquecê-los.
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