João tinha uma vaga convicção de que seu filho não voltaria sozinho para o hotel, mas ainda assim, ele se surpreendeu num nível baixo ao ver Pedro na companhia de Domitila.

—Olá, senhor embaixador, é um prazer conhecê-lo — ela disse ao pai do suposto namorado, antes que o próprio João dissesse alguma coisa.

—Eu reconheço a senhorita da reunião de diplomatas, qual seria seu nome, minha querida? — o embaixador português foi educado.

—Domitila, Domitila de Castro — ela foi igualmente simpática — se me permite a franqueza, achei que Pedro tinha falado de mim para o senhor.

—E falou, falou sim — o pai respondeu, antes que o filho dissesse alguma coisa — ele disse que vocês dois se encontrariam hoje.

—Então pai, aproveitando a deixa, eu queria te avisar que a Domitila vai pro Rio quando a gente voltar pra casa — Pedro avisou.

—Mesmo? Então vocês realmente se tornaram próximos em pouquíssimo tempo — João comentou, tomando cuidado para não ser grosseiro, mas sem deixar de dar uma alfinetada no filho.

—Pois é, tão próximos que ela vai ficar hospedada com a gente na Quinta — Pedro completou.

Ao ouvir sua declaração, seu pai tentou disfarçar a surpresa, seria ainda mais grosseiro dizer na cara da moça que ele não poderia hospedá-la.

—Certo, tudo bem, espero que goste do Rio, se ainda não o conhece — João usou sua diplomacia naquela frase.

—Aposto que vou gostar muito senhor, obrigada por me deixar ficar com vocês — Domitila demonstrou sua gratidão genuína.

Finalizando os negócios em São Paulo, eles retornaram ao Rio de Janeiro. Preocupado em dar notícias a Maria Teresa e Leopoldina, Pedro as avisou que eles estavam a caminho. Imediatamente, a austríaca se empolgou mais do que o esperado.

—Puxa, Leo, não esperava que sentisse tanto a falta do meu pai e do meu irmão — Teresa comentou sobre o comportamento dela, agora que eram mais próximas — só não sente mais falta deles do que eu.

—Claro, claro, eu só... estou ansiosa por uma coisa — Leopoldina conseguiu dizer — algo que eu falei com a minha irmã, e talvez, quem sabe, agora eu possa falar com Pedro sobre isso.

—Hum, eu não sei o que é, mas tomara que meu irmão goste do que você vai dizer — Teresa realmente não desconfiava do que se tratava o assunto.

—Eu também — esperava Leopoldina.

As duas esperaram na sala da casa pela chegada de Pedro e João, mas não foram só os dois que chegaram.

—Boa tarde, minhas queridas, correu tudo bem por aqui? — João perguntou à filha e à sua hóspede.

—Sim, tudo certo, papai, não há nada com que se preocupar — Teresa respondeu prontamente — e vocês? Fizeram boa viagem?

—Foi bem melhor do que a gente esperava, mana — disse Pedro, olhando para Domitila, que lhe deu um sorriso de volta.

—E quem é a sua amiga, se não se importa de nos apresentar? — questionou Maria Teresa, desconfiada.

—Essa é a Domitila, ela vai ficar um tempo com a gente — o rapaz explicou — Titília, essa é a Teresa, minha irmã, e essa é a Leopoldina, ela está aqui conosco a motivo de estudos, ela é aluna de intercâmbio.

—É bom conhecer vocês — a paulista foi educada.

Teresa e Leopoldina, igualmente, mal tiveram tempo de processar a nova hóspede que Pedro tinha trazido para casa. A irmã dele já sabia de tudo, era mais uma namorada repentina que ele tinha arrumado, mas dessa vez, fez questão de trazê-la pra casa deles. Quanto à Leo, a moça não conseguiu acreditar no que estava acontecendo, ela não era nada boba, estava claro o quanto Pedro estava apaixonado por Domitila. E assim, de uma vez, ela viu todas as suas esperanças de ter um romance com ele afundarem completamente.

—Eu... preciso voltar aos meus estudos, com licença — pediu a arqueóloga.

—Claro, fique à vontade — João foi gentil com ela, conseguindo perceber seu incômodo.

Ela voltou ao seu quarto, enquanto que Pedro não se preocupou muito com o estado de sua amiga.

O rapaz se ocupou a seguir em mostrar a casa a Domitila e fazer com que ela se sentisse à vontade. Depois que ela acomodou seus pertences, eles andaram juntos pelas propriedades, numa distância longe, de modo que não ouvissem nem desconfiassem do estado de Leopoldina.

Suas lágrimas foram inevitáveis, e ela se esforçou para abafar seu choro da melhor maneira possível. Não se sentia à vontade o suficiente para alarmar seus anfitriões com seu estado abalado. Tudo que ela conseguia pensar no momento, mesmo tendo uma mente brilhante e inteligente, era como podia ter sido tão tola, tão facilmente enganada. Não que Pedro a tivesse enganado, era ela que tinha se iludido sozinha, entendendo tudo errado.

Todo esse tempo de convivência com ele, ela sentia uma conexão forte com o rapaz, uma amizade profunda, um entendimento único que os dois compartilhavam, mas, pelo jeito, os dois se apaixonavam facilmente. Leopoldina se deixou levar pelos seus sentimentos, e Pedro também, mas por outra moça. Como ele poderia ser capaz de fazer isso com ela? Não ter o mínimo de consideração e deixar claro que estava namorando outra? Mais uma vez, Leopoldina percebeu que tinha se iludido.

"Não, não, eu fui a tola, fui eu que entendi tudo errado, fui eu que achei que ele poderia gostar de mim, mas ele nunca gostou, ele não me vê além de uma amiga" foram os pensamentos que ela repetia para si, tentando buscar algum conforto sozinha.

Ela deveria saber, tinha visto os parentes de Pedro comentarem sobre seu comportamento, mas mesmo assim, não podia controlar seus sentimentos. Não podia, mas podia tomar decisões que ajudassem nesse processo difícil. Se era isso que Pedro queria, ficar com a tal Domitila, ele não precisava saber que Leopoldina estava apaixonada por ele.