Depois de um longo tempo de choro e lágrimas, Leopoldina conseguiu pensar em sua irmã, se era melhor contar logo a Maria Luísa que seus planos tinham ido por água abaixo. Antes que a arqueóloga pudesse fazer alguma coisa, alguém bateu na porta do seu quarto. Ficou com medo que fosse Pedro ou qualquer outra pessoa que ela não queria explicar o motivo do seu estado deprimente.

—Entre — ela conseguiu dizer, enquanto se recompunha o mais rápido possível.

—Oi, Leo, eu queria ver como você estava, você saiu com tanta pressa da sala... — Maria Teresa foi quem a visitou, soando muito preocupada.

—Eu... eu tinha algumas coisas pra fazer com urgência — ela improvisou uma desculpa, que não convenceu a outra.

—Eu sei que você está sempre ocupada com estudos e tudo mais, que é muito responsável, mas não foi nada disso que fez você sair correndo, eu sei que não — afirmou Teresa.

—O que? — aquilo surpreendeu Leopoldina — como assim? O que você quer dizer com isso?

—Eu sei que você gosta muito do meu irmão, talvez até mais do que como um amigo, não é? — confessou Teresa — vê-lo com mais uma garota, quando você talvez achou que teria alguma chance partiu seu coração.

—Hum hum — foi tudo que a austríaca murmurou, começando a chorar outra vez, Maria Teresa a abraçou, tentando a confortar.

—Está tudo bem, não tem problema em chorar, eu sou sua amiga e te entendo — ela reiterou.

—Eu fui uma tola, Tez, fui mesmo, é o que eu estava pensando — Leopoldina deu um longo suspiro, dando uma pausa no choro para conseguir falar — eu tinha que saber que eu estava me iludindo, que ele tem uma namorada diferente a cada semana, mas mesmo assim, eu pensei que nós dois tínhamos uma conexão especial e quem sabe ele poderia sentir o mesmo por mim.

—Eu sei como é, meu irmão arrasa corações por onde passa, mas olha, não é porque estou querendo te iludir que vou dizer isso, mas... — Teresa a olhou seriamente — creio que Pedro gosta de você da mesma maneira, só não percebeu ainda.

—O que? Por que? Ele disse alguma coisa? — uma inocente esperança nasceu em Leopoldina.

—Não, não disse, mas eu conheço bem meu irmão, estava esperando que um dia ele amasse uma garota de verdade seriamente e sossegasse, e o jeito com que você o convenceu a levar os estudos mais a sério, e como ele aceitou facilmente, isso pra mim é um bom sinal, ele só ainda não identificou o que sente a mais por você — Teresa explicou.

—Acha que isso pode acontecer algum dia? — Leo deu de ombros.

—Espero que sim, Pedro é teimoso, mas esperto, um dia ele vai perceber — garantiu Teresa.

—Mas essa garota... Domitila, ele está tão encantado com ela, eu não sei se ele vai conseguir esquecê-la ou deixar de gostar dela — Leopoldina teve dúvidas.

—É, acho que você vai ter que ser paciente quanto a isso — Teresa admitiu.

—Teresa, será que posso te pedir um favor? — implorou Leo.

—Claro — a portuguesa aceitou com bondade.

—Não diga nada a Pedro, eu acho melhor assim, não quero ser mais uma das conquistas dele só porque gosto dele — explicou Leopoldina, um pouco chateada.

—Pode confiar em mim, esse assunto é entre vocês dois, eu não vou me meter — a irmã de Pedro prometeu e sua amiga confiou nela.

Assim, elas deixaram o assunto de lado por um tempo, não conversando mais sobre isso. Porém, as horas e dias seguintes não foram nada fáceis para Leopoldina.

Pela manhã, na primeira vez em que ela e Domitila compartilharam a mesma mesa de refeição, um pequeno quase confronto aconteceu. A hóspede paulista estava sentada no lugar em que a estudante de intercâmbio costumava sentar, bem ao lado de Pedro. Alguém de fora daquela situação e contexto acharia que isso era normal, já que Domitila era a namorada dele agora, mas para Leopoldina, aquilo foi uma apunhalada em seu coração.

—Bom dia a todos — ela disse e engoliu seco o que realmente queria dizer, queria reivindicar seu lugar de sempre, mas sua parte racional a mostrava que aquilo era uma reclamação boba, beirando a infantilidade.

—Bom dia, Leopoldina — Domitila a respondeu de forma simpática e sincera, o que fez a austríaca ficar mais incomodada.

Ela apenas escolheu outro lugar para se sentar, tomou seu café silenciosamente e se retirou, sem dizer mais nada. Geralmente, todos já sabiam que ela ia para a faculdade logo em seguida.

—Ela é sempre tão quieta assim? — Domitila sussurrou a Pedro depois que ela saiu, cheia de curiosidade.

—Não, ela é bem falante, mas só se você puxar os assuntos que ela gosta, ela é muito inteligente, sabe? — ele explicou rapidamente.

—Ah... — Domitila murmurou, entendendo.

—Ela veio da Áustria fazer um intercâmbio em botânica e mineralogia porque foi uma das melhores alunas na faculdade dela lá — Maria Teresa fez questão de elogiar, como uma forma de defendê-la.

—Mesmo? Então, ela deve ser bem inteligente e culta e todas essas coisas, faz sentido ela ser tão... — Domitila tentou procurar uma palavra que não fosse ofensiva.

—Tão o que? — Pedro ficou curioso para ver o que ela diria, esperando mesmo que a namorada não ofendesse sua amiga.

—Concentrada, concentrada e ocupada — Domitila encontrou palavras adequadas, e ela viu que tinha escapado de uma grande chamada de atenção.

—É o jeito dela, nós já estamos acostumados e você vai se acostumar também — Pedro voltou a ficar descontraído.

Assim, eles deixaram Leopoldina fora dos seus assuntos. Domitila ficou aliviada por isso e Pedro já tinha outros planos que envolviam apenas o casal. Eles deixaram Maria Teresa e foram dar um passeio juntos pelo Rio, voltando apenas no final do dia.