Meia Volta ao Mundo
12 Capítulo 12
Pedro não queria admitir, mas teve que dar o braço a torcer à sua amiga austríaca. Ele por si mesmo, nunca tinha ido ao Jardim Botânico, e por isso, por mais que estivesse tentando seguir atentamente as placas de indicação até o local, se sentia um pouco perdido.
—Se você não sabe o caminho, não custa nada usar o GPS — Leopoldina disse tentando ajudar, mas com um quê de convencida, que não passou despercebido por Pedro.
—Tá dizendo que eu não sei andar na minha própria cidade? — ele provocou — sério, isso já é demais, é que eu nunca fui lá, e além disso, eu moro aqui há muito mais tempo que você!
—É por isso que você deveria saber o caminho, tem razão, eu não sei andar na cidade — ela sorriu condescendentemente, o que irritou seu amigo e ela resolveu se policiar mais um pouco, afinal, não queria perder seu motorista — tá tudo bem, Pedro, obrigada por topar meu desafio, mesmo assim.
Pedro não sabia como responder aquilo, ele se surpreendeu com o jeito leve de Leopoldina de lidar com aquela situação inusitada. Um pouco mais calmo, ele decidiu seguir o conselho dela e usar o GPS. Enfim, chegaram ao Jardim, procurando um lugar para estacionar.
Era um dia calmo de visitas ali, se tivessem vindo outro dia, provavelmente veriam alguma turma de alunos em excursão. Mesmo com aquela oportunidade esbaforida, surgida da provocação de Pedro, Leopoldina estava feliz de ter uma desculpa para ir até o Jardim, e por agora estar bem ali. Desde que tinha chegado ao Brasil, ela desejava fazer uma visita ao local.
Conforme eles adentravam o lugar, que tinha um ar refrescante de floresta e natureza, Pedro teve que admitir que não era tão ruim assim. Tendo algumas lembranças da sua infância levada, começou a rir sozinho.
—Qual a graça? — perguntou Leopoldina, um tanto ressabiada.
—Nada, eu só lembrei de quando eu era criança — ele respondeu prontamente — eu amava andar no meio do mato, correr, pular, subir em árvores e é claro, cair delas.
—Parece que nós dois gostamos de árvores então — constatou ela — mas de um jeito diferente.
—Bota diferente nisso — ele assentiu, ainda rindo.
Com isso, Pedro se sentiu mais disposto em ser guiado por Leopoldina, tendo paciência de ouvi-la e aprender mais sobre as plantas brasileiras, suas propriedades, seus anos de vida, a importância que tinham para todos. Ele aprendeu mais com ela do que jamais aprenderia numa faculdade. Aí estava a chave para entender porque ela gostava tanto de estudar e aprender.
—Então, esse lugar foi construído e projetado pra abrigar os espécimes mais típicos do Rio de Janeiro — concluiu ele depois das explicações — mas de onde exatamente veio essa ideia?
—Ah fico feliz que tenha feito essa pergunta — ela sorriu, animada — perguntar é um bom sinal, você está interessado e querendo aprender mais. Bom, os republicanos que fizeram uma revolução no Brasil e tomaram o poder acharam por bem tornar o Rio mais civilizado, a exemplo da Europa, era um jeito de mostrar para as outras nações que esse era um país sofisticado também.
—Não tão sofisticado quanto pensam — Pedro cruzou os braços, pensativo.
—O que quer dizer? — Leopoldina não entendia o contexto da frase.
—Bom, muitos brasileiros acham que a Europa é bem melhor, mais chique, mais culta, só que no fundo... pelo menos, é o que eu percebo — ele suspirou antes de prosseguir — as pessoas daqui gostam desse jeito mais descontraído e informal de se viver, não que cultura não combine com o Brasil, longe disso, mas as pessoas deveriam enxergar o valor que esse país tem.
—Eu não tinha pensado por essa perspectiva — Leopoldina respondeu, refletindo — nunca tinha parado pra pensar nisso.
—Mas você é diferente, você valoriza até mesmo as plantas e as pedras — ele brincou de novo, dessa vez ele foi mais maleável — e agora eu entendo porque você gosta tanto disso, há muito mais por trás do que eu acho que seja comum, e eu não fazia ideia disso, e agora eu sei, graças a você, então...
—Então, o que? — ela ficou curiosa, tentando antecipar o que ele estava tentando dizer.
—Obrigado por isso, e me desculpa por ter te ofendido — ele disse sinceramente.
—O que? Você está pedindo desculpas? Não, isso só pode ser um sonho — ela riu, o que fez Pedro fazer uma careta — não sabia que era capaz disso...
—Nossa, Pold, achei que a gente tava se dando bem, como é que você pode pensar tão mal de mim? — ele respondeu num tom de indignação, mas levando tudo na brincadeira.
—Ei, não me chama de Pold, é assim que a minha irmã me chama — ela se surpreendeu com o jeito que ele a chamou — tá bom, você não é tão ruim assim, na verdade, você é muito legal, por ter me trazido aqui, fazia muito tempo que eu queria vir ao Jardim.
—Hum, já que eu te trouxe posso te chamar de Pold por isso? É um jeito legal de retribuir o favor — Pedro continuou brincando.
—Tá bom, pode ser — ela riu e enfim voltou a ficar um pouco mais séria — mas agora, falando de verdade, obrigada pelo passeio.
—De nada, e eu agradeço pelas explicações gratuitas — Pedro sorriu — será que eu ainda podia te pedir mais uma coisinha?
—Tudo bem, já que você tem sido tão bonzinho — ela respondeu.
—Você podia me ajudar a estudar com as matérias mais difíceis, só até eu recuperar minhas notas, pelo menos? — Pedro teve certa dificuldade em diminuir seu orgulho e pedir ajuda.
—Claro, vai ser um prazer — ela aceitou de prontidão, já que amava ensinar e tinha se tornado amiga de Pedro.
Eles andaram um pouco mais pelo Jardim, antes de deixar o local, com lembranças encantadoras daquela tarde.
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