Meia Lua

37 Aqueles que recebem notícias


O urubu voou diretamente até Luca, que lia e refazia anotações na varanda e bateu na barreira protetora da casa. Quando levantou os olhos, a ave estava em pé na sua frente com um olhar mal-humorado demais pra um animal. A criança deitada no chão pareceu fascinada.

— Olha, Luca! Um Coragipe atratu! Qual o seu nome, senhor Coragipe?

— Nina, deixa que eu pergunto a ele, tá bom? — Encarou a ave negra, severo. — Diga quem é você e o que quer.

Soltou o livro e manobrou a cadeira. A menina, com os olhos brilhantes de curiosidade, ficou escondida atrás do homem. Alguma coisa na atitude petulante da ave era familiar.

— Nina, escuta com atenção. Vai até Ramona, fica com ela. Entendeu?

— Sim, Luca.

— Vai. — A menininha correu pra dentro.

— É com você mesmo, Odin. — O urubu replicou. Luca deixou o queixo cair, atônito por ouvir aquela voz depois de seis anos. — O trabalho aqui está completo. Vamos esvaziar o Arquivo. Marina ainda tem o lápis, não é? Num mês estaremos de volta ao Limoeiro, então digam um prazo e nos encontraremos em casa. Aliás, o que é um coragipe?

Coragyps atratus. Urubu comum, você. Ela gosta de nomes científicos. — Começou a revirar os papéis, procurando um calendário e a lista de tarefas, atrapalhado pela primeira vez na vida.

Uma ave podia sorrir e olhar daquele jeito sarcástico?

— Decide logo. Preciso soltar esse urubu. Em quantos dias?

— Certo, certo… em trinta e cinco dias a partir de hoje. Deixamos um recado se tiver algum imprevisto.

— Até lá. — A voz virou um grasnado, o urubu voltou a si e fugiu voando daquela situação estranha. Atônito, Luca teve presença de espírito suficiente apenas pra guardar seu trabalho numa estante e fechar a porta ao sair. Uma vez lá fora, foi o mais rápido que seus braços permitiam. Viu a silhueta dos dois que procurava, lutando com um tronco de árvore para a casa.

— Como...as pessoas do passado... arf,arf... construíam castelos...? Sem ferramentas... uf, er... elétricas?

— Não faziam isso com... três pessoas... Nesse ritmo... terminaremos a tempo pros nossos netos...

— Ar... Estou...Fazendo o mais de... arf... pressa que posso... Luca? — Marina viu aquela cadeira a toda velocidade na direção deles. O homem parecia ter visto uma assombração. Do outro lado da serra, um tump abafado quando Fred caiu sentado. — Desculpe, Franja. Luca, tá tudo bem?

— Mauro falou comigo. Eles terminaram. — Marina ficou olhando pra ele incrédula, enquanto uma alegria se espalhava pelo rosto de Fred até ele todo ser riso.

Podemos voltar pra casa?

O loiro estava tão feliz que não percebeu a tristeza que passou pelo rosto da esposa. Logo Fred estava pulando e dançando, enquanto Marina ergueu um sorriso torto.

— Eu sabia! Sabia que não tinham morrido! Tá vendo, Luca, eles deram um jeito de falar com a gente! Linda, podemos voltar pra casa! Não é fantástico?

— É. Que bom.

— Algo errado, Ma?

— Nada. Eu estou cansada, preciso de um banho.

— Tudo bem, enquanto isso eu guardo tudo pra gente começar a planejar a viagem. Quando a gente vai, Luca?

Deus, pensava Luca, era como assistir um acidente de carro. Não dava pra impedir, nem parar de ver. Ele podia ver as mãos crispadas da garota abrindo-se à força, a respiração pausada como se Marina tentasse a todo custo evitar uma discussão. Ela entrou na tenda e saiu em poucos minutos, na direção da floresta. Enquanto isso, Fred recolhia as ferramentas e falava sem parar.

— Luca! Te perguntei quando a gente vai, você não ouviu?

— Trinta e cinco dias, Fred. Vou te ajudar com as ferramentas. — Recolheu tudo em silêncio, enquanto Fred parecia uns sete anos mais novo.

Após guardar tudo no lugar, Fred olhou pra cima e algo que viu o desagradou. — Vai nevar mais tarde, Luca. Melhor eu te acompanhar até a mansão, depois me arrumo e volto pra buscar as crianças.

“Um mês, cara. Trinta e cinco dias e não vamos precisar mais lutar o tempo todo com a terra, ou ter medo da fome. Vou poder escrever e pesquisar de novo, Marina pode voltar a desenhar, os gêmeos vão conhecer a terra em que a gente nasceu. Tudo vai ficar certo, afinal.”

Chegaram até a grande varanda em madeira, cuja única coisa nova era a rampa larga ao lado dos degraus.

— Está tudo bem, Luca? Parece mais sério que o normal.

— É esse tempo, Fred — desconversou. — Vou mandar as crianças pro banho enquanto vocês conversam.

— Conversam?

— Quis dizer “se arrumam”. Até mais, Fred.

***

Fred estava muito atrasado. Tudo bem querer se entender com Marina antes de levar as crianças, mas ele já estava ficando sem ideias pra distrair os pequenos. As batidas na porta ficavam cada vez mais altas e urgentes. Olhou pelo postigo.

— Fred? O que aconteceu?

— A Marina sumiu. — Fred ainda estava com as roupas de trabalho, o cabelo salpicado de folhas, a expressão familiar de um jeito muito desagradável. — Não está na tenda, todas as coisas estão no lugar, já fui até o rio, à clareira, procurei em todo lugar que consegui pensar. Ela está aí? Diga que ela está com vocês.

— Fred, acalma. Vou te ajudar a achá-la. Me deixa só abrir...

Quando terminou de abrir a porta, Fred tinha desaparecido.

— É o papai, Vô Luca?

— É ele sim! Ouvi a voz dele!

— O pai de vocês precisou fazer uma coisa urgente, e ele pode demorar. Preciso ajudá-lo um pouco. Que tal brincar com tia Ramona de novo?

— Não dá. Ela tá trancada no quarto com a mamãe há horas!

— A mãe de vocês está lá em cima?

Nina fez uma carinha triste. — Ela nem viu meu desenho ainda!

— Ah, eu vou falar com ela. Tive uma ideia: corrida até o quarto de Tia Ramona!

“... Seis anos, Ramona! Seis anos construindo a nossa casa, nossa horta, e não significam nada? As crianças nasceram aqui. É tudo que elas conhecem. E no minuto em que dá pra voltar praquele mundo violento e mau, ele quer jogar tudo pra cima e...”

— Ramona? Preciso falar com você.

Marina estava sentada na cama de Ramona, enxugando apressada o rosto, enquanto Ramona parecia aborrecida. As duas olharam pra festa que os gêmeos sempre faziam ao entrar no quarto da bruxa, repleto de coisas coloridas e interessantes.

Ramona teve que fazer muito esforço pra não rir naquele momento impróprio, e Marina se permitiu um sorrisinho. Luca era a única pessoa que conheciam a manter a dignidade intacta maquiado como um palhaço psicodélico, e o cabelo preso de um jeito aleatório. Apesar de ficar mais sisudo com o tempo, as crianças podiam pintar e bordar com ele sem problemas, e não havia diversão maior pra ele ou pra elas que as corridas na cadeira de rodas pelos corredores da mansão.

Ele olhou pras duas como se ter um olho pintado de cada cor e estrelas na testa fosse a coisa mais natural do mundo. — Podem rir, é mesmo engraçado. Fiquei sem ideias pra entreter esses dois, e Nina decidiu me deixar mais bonito.

A risada de Ramona encheu o quarto. — Quer ajuda pra tirar isso do rosto?

Luca levantou as mãos, conformado. — Por favor.

— Vem aqui, Luca. — Pegou um pote com um creme azulado e saiu. Quando estavam a sós, Ramona desfez o sorriso, enquanto ajudava Luca a remover a maquiagem. — O que aconteceu?

— Ela saiu sem avisar, e Fred está desesperado. O tempo está piorando, e ele foi até a floresta procurar por ela. Tenho que ir atrás dele, e fazê-lo voltar.

— Eu seguro Marina aqui. Toma, você vai precisar de ajuda — sussurrou, pondo um amuleto na palma da mão dele. — Vai trazê-lo aqui?

— Quero sua opinião, é uma boa ideia?

— Hmm... Talvez não hoje. Ela precisa de um tempo pra desabafar. Leve-o pra tenda deles, durma por lá. As crianças vão dormir cedo e podemos ter uma noite de garotas. Ela e mamãe andam precisando.

— Muito obrigado. Vou falar com sua mãe.

Rodou até a parte de trás da casa. Esperou a bruxa terminar seus rituais em silêncio completo, e se pegou sorrindo. Era sempre como observar uma pantera: Orgulhosa e selvagem, com a graça que apenas as coisas se que sabem poderosas têm. Tinha pressa porém a menos que a vida de alguém estivesse em risco (e talvez nem assim), ela não o perdoaria se saísse numa jornada perigosa sem se despedir. Ela pousou e olhou pra ele. O garoto tinha um sorriso divertido enquanto ela o inspecionava.

— Você não deveria sair nesse tempo.

— Meu filho está lá fora e precisa de mim. As garotas estão seguras, e as crianças estão com elas. Voltarei quando puder.

Ela não diria como estava preocupada; ele não diria que a amava ao sair. Em parte porque a bruxa da Lua detestava admitir que seu coração estava atado àquele moleque, em parte porque era divertido aquele jogo dos dois.

Ele desafiou e a fez quebrar cada uma de suas regras sobre homens; Foi galanteador, paciente, um hamster atrevido uma ou duas vezes e completamente decidido sobre o que queria. Era gratificante ter alguém ao seu lado que não a temia, ou ao seu poder. Além do fato dele ser muito atraente, é claro. A olhava com um amor altivo, consciente dos efeitos que causava nela, não importava o quanto ela disfarçava. Ela o encarou de volta, e o clima entre eles ficou denso e elétrico.

O beijo nunca o pegava de surpresa; respondeu ao assalto com fervor, invadindo sua boca com a língua daquele jeito incisivo, e ela reagindo a isso como se o sabor dos lábios dele fosse absolutamente necessário. Quando finalmente se separaram, organizando as roupas e os cabelos, ele a olhava com a indiferença de um estranho, e ela poderia acreditar se não o conhecesse tão bem.

— Volte. Você é meu.

A fagulha de raiva na voz dela o fez sorrir. — De corpo e alma, milady. — E voltou pra dentro da casa.

***

O lobo gigante que o amuleto chamou encontrou rapidamente o rastro de Fred assim que lhe mostrou o que procurar, mas avançar entre as árvores antigas era difícil, e a neve continuava caindo. O deixou subir no seu dorso, e se ajustava de modo que Luca não caísse, mas ainda era complicado. Gritar ali adiantava pouco, então Luca tinha que confiar no faro do animal e prestar atenção.

Finalmente ouviu os gritos de Fred, procurando por Marina. Mas o lobo não gostou de algo no vento, e deu uma grande volta até estarem uns trinta metros de algo grande e quase invisível que também seguia o Fred.

Embora o tigre que encontraram não tivesse motivo para temer humanos, reconheceu o lobo quase do seu tamanho e a linguagem de magia em que Luca o ameaçara, e decidiu que aquela caçada não valia o perigo. Virou-se sobre as patas e fugiu. Fred calou-se, percebendo algo errado atrás dele. O que viu foi um lobo cinza imenso com Luca nas costas, segurando um rifle.

— Fred, precisamos voltar. A neve vai piorar.

— Não consigo encontrar Marina, pai. Ela não estava vestida pra ficar na floresta nesse frio. Tenho que ajudá-la a voltar pra casa.

— Descobri onde ela está, Fred. Ela está segura, ao contrário de... nós? — Fred já se afastava rapidamente.

— O que vocês estão esperando? Temos que voltar logo!

O lobo grunhiu de acordo e acompanhou aquele humano esquisito. A neve já caía mais densa, e ele queria sua toca antes que o tempo fechasse de vez.

Pouco menos de uma hora, e alcançaram a orla da floresta. Luca desceu de volta para a cadeira e agradeceu ao lobo, que voltou a sumir entre as árvores. Ajeitou o rifle às costas, e a pistola voltou ao coldre de sempre. Os dois foram até a tenda, e nos metros finais foi preciso um esforço conjunto dos dois paras as rodas vencerem a neve acumulada.

— Marina! Amor, estou em casa! Marina? Cadê ela, Luca?

— Ela está segura.

— Mas não está aqui — murmurou, a mágoa nítida na voz.

— Não, não está.

— Ela vai voltar?

— Logo. Ela apenas decidiu pensar um pouco sobre algumas coisas, e pra isso é melhor ficar sozinha.

— Ela teve que sumir pra pensar. Eu pensei que era comigo com quem ela conversaria quando precisasse. Se você sabe de algo, me diz. Por favor me ajuda a consertar.

— Toda vez que você fica assim, para de raciocinar e cria problemas pra todo mundo. Me escuta: Vocês se amam, e sabem disso. Pensa numa coisa: vocês já conversaram sobre...— A risada de Fred foi crescendo até virar um som amargo.

— Olha pra mim, isso é ridículo. Seis horas sem ela, e mal consigo respirar. Você sempre soube, não é? Sabia que esse jeito obsessivo de amar a Marina acabaria comigo cedo ou tarde. Eu fiz alguma coisa que a magoou, e estou revirando minha memória atrás do que pode ter sido, ou no que a assustei a ponto dela ter ido conversar com a Ramona no quarto ao invés de mim.

Olhou pra Luca, debochado. — Não fique surpreso. Se Marina está segura e magoada comigo, mas não está em casa, onde mais estaria, fora o quarto da melhor amiga? Quando eu paro pra pensar, é fácil.

“Isso não é normal. Essa dor física e a angústia quando ela não está, todas as vezes que eu não tenho certeza se ela está feliz e segura... Isso não pode ser normal. É como naqueles primeiros dias, mas agora passa e quando volta, me aniquila como se fosse a maldita primeira vez. Isso não me faz bem, mas será que eu consigo mudar, Luca?”

Tinha que conseguir, pensar nalgum jeito; Mudar era assustador, mas não pior que continuar naquela rota que destruiria a si mesmo e a todos que amava, como uma bomba.

A porta abriu-se com violência; uma Marina sem fôlego e com o rosto vermelho atravessou a tenda em passos largos e agarrou-se em Franja como se temesse vê-lo desaparecer.

— Deus, Marina, você está congelando! Mas o que... — Ela afastou sua mão e o segurou pelos ombros com força.

Nunca mais entre na floresta sozinho com uma maldita nevasca chegando!

Ramona surgiu na porta, com um casaco e botas mais adequados ao clima frio lá fora. — Desculpa, Luca. Deixei escapar que você trouxe Fred da floresta, não deu pra segurá-la.

— Tudo bem. Pode nos levar de volta?

Marina quase gritava, o medo brilhando nos olhos.

— Se você tivesse caído num buraco ou encontrado algum javali, e não conseguisse voltar? Se estivesse ferido por causa de um mal-entendido idiota, eu... Droga, Franja!

Ele a envolveu com os braços e ela molhou um pouco mais a camisa dele, tremendo.

— Deveria ter conversado com você, Franja. Há muito tempo, mas o medo me impediu. Estava... estou com raiva dessa situação toda, nem sei como lidar com isso ainda, mas quando a Ramona disse que você estava lá fora... Nunca tive tanto medo na vida. Não posso te perder, amor. Me desculpa.

— Vai ficar tudo bem, Ma, não tenho o que desculpar. A gente vai aprendendo juntos, tá bom? Vou melhorar também, prometo. Vamos pegar Leo e Nina, descansar e amanhã podemos conversar com calma.

Ouviram um pigarro alto. Luca olhava divertido pros dois sentados, na frente de um portal que mostrava a sala decorada da mansão.

— Pelo visto vocês vão se... entender essa noite, o que acho ótimo...— usou um tom que fez Marina ficar ainda mais vermelha e exclamar “Luca!” — ...mas venham logo, porque se Ramona está aqui, os meninos estão soltos na casa e não quero virar um rato mais uma vez.

Notas finais
* Sim, gêmeos. Leo apareceu pouco porque passa muito tempo lá fora, ou mexendo onde não deveria; não pude mostrar muitos detalhes em Meia Lua, mas ele e Nina dão muito trabalho, e o fato de serem mais articulados e inteligentes que todas as crianças de quatro anos que conheço é só um deles. * Luca é avô adotivo e adora, mas se quiser virar algum representante curioso da fauna brasileira, chame Viviane de avó. * Luca não faz magia, mas sabe fingir muito bem. E atira melhor ainda. A todos que estão aqui depois de tantos capítulos minha mais profunda gratidão. Semana que vem, o último capítulo (mas não a última história).