Meia Lua
12 Aqueles que protegem, aqueles que são protegidos
Marina corria. Como tudo ficou tão bizarro de repente? Estava num momento com o Franja, aproveitando o abraço dele, de repente cai num episódio de Ráuse e agora estava nessa perseguição de Mentas Criminosas!
Mas primeiro precisava achar o Fred. Corria naquele laboratório desde criança, o encontrou rápido; ele andava de um lado para o outro, com um pedaço de uma máquina qualquer na mão, afrouxando e apertando peças a esmo.
— Franja! Amor, o que você tá fazendo?
— ...Estas instruções são pra trocar a alimentação de entrada e ou o cabo de duzentos e oito, duzentos e trinta, quatrocentos, quatrocentos e sessenta VCA...
Ela foi até ele e segurou suas mãos. Ele tentou recuar, mas parecia um robô enguiçado no meio dum movimento.
— Franja, sou eu. Marina. Estou aqui com você.
— Passe o cabo a ser utilizado através da abertura na parte traseira do painel da fonte. Verifique a seção dois desse manual...
— Franja, olha pra mim.
— Eu não posso falar com as vozes. Eu não posso falar com as vozes. Para uma vedação perfeita, não utilize fita de teflon, pois uma pequena partícula pode se soltar e impedir alguma passagem de ar. Você não está aqui, Marina. Vá embora, por favor — Ele olhava pra todo lado, tentando não olhar pra ela.
Era triste demais uma pessoa brilhante como Franja reduzida àquilo, uma criança assustada presa num mundo estranho. Com cuidado, o abraçou. Ele pareceu vê-la pela primeira vez.
— As vozes não abraçam. — Olhava intrigado pra ela.
— Não, as vozes não abraçam. Já sei! Uma partícula que se separa! Você é um gênio, Franja! — Deu-lhe um beijo na bochecha. — Nunca tentei mandá-la pra fora do meu campo visual, mas...
Soltou-se um pouco do abraço, e com o lápis na mão direita, definiu em poucos traços o que queria. Não precisava de muito esforço, tinha muita prática nesse desenho, e ainda sim concentrou-se ao máximo. Por uns segundos, pensou no brilho de cada pelo, em cada músculo, na cauda que se agitava devagar. Não duraria horas, mas seria sólido o bastante para atravessar paredes. Terminada, sua obra a encarou com grandes olhos esmeralda. A exaustão ameaçou derrubá-la, mas ela tinha que terminar a tarefa.
— Encontre o ciborgue e o impeça, minha valente — Um reflexo dourado passou pela porta em absoluto silêncio. Se Franja percebeu a fera massiva que passou atrás dele, não deu sinal.
— Vozes não beijam. Você está mesmo aqui?
— Estou, Franja. E vou ficar aqui com você.
— Que bom! — Tinha um sorriso abobado no rosto. — Então talvez eu possa... descansar?
— Sim, pode dormir tranquilo. — Franja foi descendo devagar, já fechando os olhos. Ela desvencilhou-se dele suavemente e o deitou. Rascunhou um pequeno travesseiro e ele encostou-se feliz. Mal mantinha os olhos abertos, mas tinha mais uma coisa a fazer. — Eu estarei aqui quando acordar.
***
— Sim, eu estava te esperando. — Olhou com desgosto para o sangue pingando através do curativo. Tanto trabalho, e ele iria arrebentar os pontos.
Deveria ter medo de Cássio. Ele era o homem mais perigoso que conhecia, e estava armado. Mas não conseguia mais. Estava muito, muito cansado. Quando entregou seu celular, sabia que Marina continuaria cuidando deles. Haveria alguém cuidando de quem importava. Ele tinha vencido no fim.
— Mauro está mesmo morto, Cássio? — Não entendia como aquilo poderia acontecer. Mauro tinha passado tanto tempo acumulando energia e magias de segurança pra uma necessidade como aquela...Nunca devia ter confiado em magia. Era imprevisível demais.
— Está. Você o convenceu a fazer aquilo. Mais um dos seus malditos planos que dão certo. E pra que, me diga? Só pra me mostrar que é o bom? Pra que ele morreu por mim, porra? Ele tinha a Ramona! Ele tinha a droga de um futuro! Eu não! Me deixava morrer, merda!
A serenidade de Luca o transtornava ainda mais. — Nem tem coragem pra dizer que sente muito, né, seu filho duma porca? Porque você não sente mesmo! Ele! Eu! Fred! Até a Marina! Somos todos ferramentas pra você! Mauro só quebrou mais cedo, não é?
— É isso que você pensa de mim? Ferramentas, Cássio?
Depois de tanto esforço, era tudo que ele parecia? Um canalha manipulador que viveria à custa de todos? A raiva sumiu tão depressa quanto veio. Não adiantaria brigar com ele. Nem dizer que o plano foi de Mauro. Não mais. Luca deveria ter visto as falhas. Deveria ter uma alternativa.
A Marina tinha seu telefone. As coisas continuariam funcionando. Era sacudido na cadeira, mas não importava. Quase como a história de outra pessoa acabando ali.
— Pelo menos pede desculpas, porra! Nós confiamos em você! Eu deixei você cortar minha perna fora sem questionar! Quando mandou matar, nós matamos! Fala alguma coisa, caralho! Eu mereço saber o motivo! Que porra ele te fez pra merecer isso?
— Desculpe. Eu não queria a morte do Mauro. Eu deveria ter pensado melhor. Peço desculpas. Faça logo o que veio fazer, Cássio.
Mentalmente, Luca desculpou-se com a Marina também. Esperava que pelo menos ela não lhe quisesse mal.
Viu o tekko-kagi do DC na mão de Cássio. Droga, ele devia odiá-lo de verdade pra usar aquelas garras de metal. Fechou os olhos e esperou. Foi derrubado, com cadeira e tudo. “Pra que isso?”, desaprovou em pensamento. Cássio era assassino, mas não cruel.
Estranho. Mais nada? Abriu os olhos, quase curioso com o barulho. Cássio se debatia com uma leoa de duzentos quilos em cima dele. Uma das patas segurava com suavidade insuspeita a boca de Cássio e outra lhe imobilizava o braço.
Devagar, desvirou a cadeira e sentou-se novamente. Marina chegou esbaforida. Viu a leoa prendendo com firmeza Cássio no chão. Arrancou a arma da mão dele num giro.
— Desculpa, Cássio. Me dá isso aqui. Muito bem, minha valente. Você foi muito bem. Luca?
— Vivo e sem ferimentos. E o Mauro?
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