Meia Lua
1 Aqueles que procuram
— Temos pouco tempo. Precisamos da ajuda deles. É nossa última chance.
O outro o olhou, cético. Tinham discutido essa mudança nos planos desde que chegaram, ele ainda não parecia convencido.
— Sei que você acha que não vai dar certo. Mas confie em mim mais uma vez. Precisaremos do Fred...do Cebola. Se eles não conseguirem...seguiremos o plano original.
O outro arrumava as coisas para sair do quarto de hotel como se não tivesse ouvido mais nada. Suspirou. Algumas coisas não mudam facilmente.
— Vamos atrás deles. Você verá que tenho razão.
***
— Cas, se concentra! A prova do Licurgo é semana que vem!
— Como a gente estuda pro Licurgo, Magá? A gente nem sabe o que vai cair! – gesticulava, inconformado — Na última vez foi uma redação de duas páginas sobre os dromedários australianos. Na boa, nem sabia que tinha dromedário na Austrália. O cara é maluco!
— Para de chamar o professor de maluco! Ele aparece e te dá um zero antes da aula começar!
Cebola suspirou, cansado do debate sem sentido. Na verdade, a prova mensal do Prof. Licurgo era tão aleatória quanto a loteria. Mas Mônica e Magali insistiam em estudar. Então eles liam e discutiam tudo daquela semana, desde a política internacional até a página de palavras cruzadas. Olhava pela janela, procurando descansar um pouco a mente. Espera... aqueles homens na outra calçada estavam olhando pra eles? Tocou de leve no ombro do Cascão.
— Você viu aquilo?
— Aquilo o que, careca? — Os dois homens seguiam caminho, misturados aos pedestres.
— Aqueles dois...Deixa pra lá.
— Alguma coisa errada? Cebola? — Voltou-se e viu os olhos preocupados do resto de sua turma de vida inteira. Havia uma expectativa tensa neles, como quem pergunta qual o próximo problema depois de tantos monstros, bruxas, robôs e piratas espaciais.
— Não foi nada. Pensei ter visto alguém conhecido, mas me enganei. Qual a próxima matéria, Geografia?
“Não tem porque preocupa-los com isso agora. Eles foram embora.”
Dois dias mais tarde, Cascão caminhava distraído pra escola. Conhecia a voz do Cebola, e ele ainda estava preocupado quando ligou pra ele na noite anterior. O que poderia...
Pulou quando sentiu a mão no seu ombro. Atrás dele, Cebola estava muito sério, e sem o uniforme da escola. — Quer me matar de susto, careca? Vai treinar teu jutsu com outro, seu-
— Estamos sendo seguidos. — Não havia um traço de brincadeira nos olhos. Cascão o puxou e continuaram caminhando.
— Aqueles dois que você me falou? Do outro dia?
— Não, só um. Vou descobrir o que eles querem, mas não vou pôr a Mô em risco. — Viu o Cascão mandando uma mensagem pelo celular — O que você tá fazendo?
— Avisando as meninas.
— É exatamente o que eu não queria fazer! Tá maluco?
— Véi, diz aí- disse num tom casual, sem tirar os olhos do celular. — Quando foi que esconder alguma coisa da Mônica deu certo?
Cebola quase parou, sem graça; então percebeu Cascão olhando o reflexo da tela.
— Tô vendo. Cara, que sinistro. Quem usa casaco nesse calor? Parece aquele robô do outro dia. O que você acha que tá pegando?
— Essa cara e o amigo dele estiveram seguindo a gente de longe desde domingo. Acho que estão procurando alguma coisa. Vamos caminhando até a delegacia, se o outro cara aparecer, ou se ele fizer algo estranho, a gente corre, ok?
— Ok. Que bizarro, parece um filme de agentes secretos. Não consigo ver o rosto daqui, tem certeza que não é outro robô?
— Não, e não encontrei ninguém parecido na lista de procurados da polícia, nem nos jornais. Mas acho que já o vi antes.
— Bom que a gente mora perto da delegacia, né?
— Tudo é perto de onde a gente mora, Cas. Agora é seguro parar e... — Congelaram quando sentiram as mãos nos ombros, não o tinham ouvido se aproximar.
— Preciso falar com vocês. Em particular.
Cebola não queria admitir a frustração, ou o medo quando se virou. Então reconheceu o rosto do homem, e nada mais fez sentido. Enquanto Cascão gaguejava, tentando entender aquilo, ouviram uma voz forte e raivosa atrás dos três:
— O que você está fazendo com meus amigos?
A Mônica tinha chegado.
Cebola e Cascão continuavam parados, a boca meio aberta. A Mônica a passos rápidos se pôs entre o estranho e seus amigos, o encarando pronta a defende-los.
— Quem você pensa que...Espera, quem é você?
— Meu nome é Mauro. Preciso da ajuda de vocês pra salvar o seu mundo e o meu.
***
— Talvez ele esteja dizendo a verdade.
— Que droga, porque sempre é a gente que tem que salvar as paradas? O Armadura Dourada tá de férias? Não tem Liga da Equidade onde ele mora?
— Cê, o que você acha?
À distância, Mauro esperava que decidissem o que fazer. Esperava que confiassem nele. Tentou determinar se estavam no lugar certo daquela vez, se tinham chegado a tempo de fazer diferença. Tinham ido até a padaria do Seu Joaquim, e o dono o servia um milk-shake, desconfiado do volume de comida que pediu e dos três jovens na mesa ao lado, que deveriam estar na escola àquela hora. Enquanto conversavam aos sussurros, Cebola também percebeu que ali atraíam mais atenção do que queriam, então levantou-se e combinou se reencontrarem ali, após a aula.
Como sempre, não ouviu Cássio chegando. Ele mancava muito, mas o rosto não demonstrava qualquer emoção. Um curativo desajeitado cobria o olho direito. Sentou-se sem uma palavra. Deixou as diversas sacolas de compras abaixo da mesa.
— Pedi comida pra você. — Estendeu uma embalagem quadrada— Você tem que provar o milk-shake de morango, está simplesmente divino! Uma pena que os rapazes não podem tomar um pouco disso. Me faz sentir vivo de novo!
Cássio encarava o sanduíche, como se não soubesse o que fazer com aquilo. Mauro deixou que ele levasse seu tempo pra absorver tudo aquilo. O cheiro de comida quente de verdade, recém saída do fogão, as luzes da padaria, todas aquelas pessoas passando, era como um dos sonhos bons. E sonhos bons são raros.
— Como foi com o Fred?
— Ele vai nos ajudar. Entendeu nosso problema, entrou em contato com o Blo, digo, Lacerda e ele disse que vai conseguir toda a informação sobre o ilustre doutor. Falou com eles?
— Eles virão até aqui depois da aula. Acho que consigo convencê-los. Se existe alguém que pode nos ajudar a evitar a violência, é o Cebola.
Distraído com a comida, Mauro levou um tempo pra entender que o barulho que ouvia era o tremor de Cássio contra a mesa. Ele o encarava de olho arregalado.
— Eles estão vindo aqui? Daqui a pouco? Eu preciso sair. — Levantou-se como um bêbado, esbarrando na mesa, mortalmente pálido. Olhou ao redor, procurando a emboscada, e parecia prestes a desmaiar, fugir ou quebrar toda a padaria.
“Genial, Mauro. Timing perfeito.” pensou. “Agora Seu Joaquim vai pirar ou chamar a polícia, e adeus discrição”
— Cássio, você vai parar com isso — rosnou, mas pôs poder e comando em cada palavra- você vai se acalmar antes que a gente acabe preso! Você vai sentar e terminar de comer, então você vai embora, calmamente, entendeu?
Detestou força-lo daquele jeito, mas não podiam estragar tudo. Viu o desespero refletido no olho de Cássio, enquanto o corpo relaxava e sentava na cadeira. Pegou e comeu o sanduíche como um autômato velho, chorando em silêncio. Mauro estava tão concentrado controlando a reação de Cássio, que percebeu quem estava chegando tarde demais.
— Moço, você está bem? — Marina tocou de leve no estranho que chorava, enquanto Maria Cascuda e Isa os rodeavam preocupadas.
— Ele vai ficar bem, senhoritas. Ele só precisa de alguns minutos.
“Talvez da vida inteira, droga” pensou chateado. Talvez Cássio não o perdoasse depois daquilo.
Cascuda olhou atentamente o rosto do estranho que chorava. A barba, as cicatrizes e o curativo dificultavam, mas era familiar, de onde? Ele desviou o rosto, e elas foram preocupadas até uma mesa próxima.
Pindarolas! Cebola não contava com as garotas vindo tão rápido à padaria. Discutiram a situação exaustivamente nos intervalos. Era verdade, sabia; mas algo no comportamento do Mauro não encaixava. Ele parecia emocionado por baixo da formalidade, e quanto mais pensava, menos gostava da situação. Eles estavam logo à frente, iria tirar a situação a limpo. Suas suspeitas aumentaram quando viram o estranho curvado na mesa. Magali parou antes deles. Chamou Cebola baixinho.
— Cê, tem alguma coisa estranha ali. Alguém está usando magia. Acha que pode ser uma armadilha?
— Não. Estamos num lugar público, você me disse que é difícil usar magia em muita gente ao mesmo tempo. Se eles quisessem dominar a gente, seria mais fácil só comigo e o Cascão. Ele já teve a chance. Tá acontecendo alguma outra coisa.
— Magá, fica junto de mim- pediu a Mônica, baixinho. — Se aquilo é controle mental, não deixa eles me pegarem.
Os outros concordaram em silêncio. Se de alguma forma controlassem a Mônica, ninguém estaria a salvo. Marina os viu de longe, pensou em cumprimentá-los, mas percebeu que estavam sérios demais. Talvez isso tivesse a vez com os estranhos na mesa ao lado. Mauro sussurrou algo no ouvido do homem curvado. Os quatro já estavam perto o suficiente pra ouvir a resposta, numa voz rouca que parecia doente.
— Estou pronto. Pode me soltar.
— Boa tarde.
— Boa tarde. Mauro, esses são meus amigos. Viemos ouvir vocês. Quem é ele?
— Esse é o Cássio. — Cascão recuou meio passo, pálido. Aquele cara barbudo e curvado era uma coincidência, só podia ser. Devagar, o barbudo levantou o rosto das mãos, e seu único olho visível o atingiu com a intensidade de um predador.
Olhando os dois juntos, a semelhança era grande demais pra ser ignorada. A barba cheia e mal-aparada, as cicatrizes na face direita e o curativo imenso e malfeito cobrindo o olho; sem tudo aquilo, eles poderiam ser confundidos com irmãos. Mônica se recuperou mais rápido.
— Os rapazes falaram que você precisava de nossa ajuda, pra salvar dois mundos.
— Podemos conversar num lugar mais privado? Vocês escolhem.
— Pode ser aqui mesmo. Quero ouvir sua história antes de ir pra algum lugar isolado com vocês.
O olhar de Mauro era terno, como quem via uma criança aprender um truque novo. — Daqui a dez dias, haverá uma falha de segurança num laboratório, e vai se espalhar uma epidemia que vai extinguir a raça humana. Precisamos de vocês pra nos ajudar a chegar até o cientista chefe e sua pesquisa. Sem ele, isso não acontecerá.
Mônica olhava pros dois desconfiada. O cara que se nomeava Mauro escolhia muito bem as palavras, como se quisesse poupá-los de alguma coisa.
— Por que deveríamos acreditar em você?
O barbudo levantou o rosto e olhou nos olhos de cada um deles. O olho visível estava marejado. — Porque vocês nos conhecem. Vocês chamam o Mauro de Nimbus o tempo todo. E me chamam de Cascão desde os três anos.
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