Meia Lua
30 Aqueles que casam
Notas iniciais
As flores criavam um corredor em branco e lilás, e a luz flutuava em pequenas esferas ao redor da sala. As paredes pareciam pedra, e formavam arcos e relevos nas sombras. A única coisa real eram as almofadas feitas do colchão retalhado do Fred, mas Mauro alterou a aparência remendada, e agora eram como almofadas orientais. Duas árvores formavam um arco no final do corredor, com cristais pendurados.
— Tô orgulhoso de você, Mauro.
— Obrigado, Sensei. Aqui, fiz essa pra você. — Bóris subiu em sua perna e Mauro ajustou uma gravata borboleta em seu pescoço.
— Não uso uma dessas desde o aniversário da… noiva. — Completou com uma careta. — Quando vocês mundanos voltaram a se casar tão cedo?
— Há dois anos que o mundo acabou, Bóris. Somos muito, muito velhos. — Farejou o ar. — Lady Viviane chegou.
Ela surgiu num raio de luar e olhou ao redor, disfarçando o choque num segundo. O menino era um ilusionista bom demais para seu gosto. Viu todos os outros convidados esperando reunidos, a ninfa e o anjo abraçados a um canto. Luca adiantou-se e a cumprimentou. Solene, respeitoso, mas sem medo. Gostou disso.
— Mãe! Você veio! — Ramona a abraçou. Mesmo ela estava coberta de ilusão, num vestido que nunca usaria a pedido da mãe. Talvez a mudança daquelas pessoas para tão perto dos seus domínios não fosse uma ideia tão ruim afinal.
— Agora que estamos todos aqui, vamos começar. Escolham seus lugares, que eu vou conversar com os noivos. Ramona, vem comigo?
Ângelo e Nina preferiram flutuar ao lado das almofadas, ocupadas apenas por Viviane. Onde estaria sua filha? Cássio e Mauro se puseram em frente às árvores, armas estranhas e brilhantes na cintura, algo entre padrinhos e guarda de honra. Isso, além do coldre pendurado na cadeira de rodas, eram indícios do que o mundo se tornara. Luca passou no caminho entre os convidados e manobrou até estar entre os dois homens em pé.
— Estamos aqui pra presenciar o casamento de dois membros da minha família, e dividir a alegria com eles. Fred, vem pra cá.
O noivo caminhou devagar pelo meio das flores, tentando acompanhar a música ampliada do celular. Não sabia qual era, mas traduzia sua alegria e esperança. Ficou em pé na frente de Luca.
— E aí, tá pronto?
— Minha vida inteira, Odin.
— Ok. — Mudou a música no celular. — Ramona e Marina, podem se juntar a nós? Quando Ramona entrou no corredor, mal cabia em si de alegria ou orgulho. Foi surpreendida com o pedido, mas claro que aceitou. Agora caminhava entre as flores, levando as alianças ao som de uma música em inglês, e uma pequena parte sua se permitia sonhar. Ficou em pé ao lado de Mauro. Marina apareceu do outro lado do corredor de flores. Vestia o sobretudo branco e as botas longas de quando Fred a pedira em namoro. Com um sorriso algo divertido, Luca e Mauro se olharam, e Luca acionou a música.
A voz de Ivan Linhas ecoou no ambiente “Vieste na hora exata, com ares de festa, e luas de prata...” Enquanto a música tocava, as camadas de ilusão rodeavam Marina como neve, e finalmente ela vestia um vestido de noiva com mangas rendadas e com uma saia longa que ia até os pés.
Os convidados não entenderam a tensão dos outros homens ao choque de Fred, que permaneceu paralisado, as lágrimas caindo sem mesmo notar. Estava acontecendo. Deus! Estava acontecendo mesmo. Tudo que ele via eram os olhos da mulher incrível que seguia em sua direção. Marina também sorria, os olhos marejados. Luca teve que segurá-lo pra que ele não corresse até a noiva. Quando ela finalmente segurou na mão dele, os ombros dos três relaxaram.
Luca pigarreou um pouco mais alto, e então Fred percebeu que a estava encarando, provavelmente de algum jeito assustador. Baixou os olhos, sem graça. Ela levantou o rosto dele devagar.
— Marina, antes de você chegar, tivemos tempos duros. Bem difíceis. Nós mudamos, a tal ponto que pensei que todos os heróis tinham morrido. Só sobramos nós, os vilões e os loucos sortudos, os que despedaçamos e não caímos. Os piores de nós.
“Mas Fred não te deixou pra trás. Você o manteve de pé. Deu-lhe um futuro pelo qual esperar, mesmo sem estar aqui. Ele insistiu, e te achou lá. Quando você chegou... Bem, não foi só ele que foi salvo. E então, quando tudo parecia perdido, resgatou meu amigo de novo.
Vocês entendem mais de amor do que eu jamais vou entender. Não daquele amor fraco, que some quando o sentimento vai embora. Mas do compromisso e da fé que encaram o mundo e o fazem mudar. Não vou tentar ensinar a vocês sobre isso, vou tentar aprender.
Fred, sua vez de falar.”
O noivo puxou um papel dobrado do bolso e precisou inspirar algumas vezes antes de começar:
— Marina, eu vou te amar por toda a vida. É graças a você que eu posso estar aqui em pé como um homem e prometer que você sempre me achará lutando ao seu lado; não importa a escuridão do caminho, eu estarei com você; não importa quão chata seja a rotina, eu continuarei olhando pra você. Você é meu sucesso e meu abrigo. E...eu queria cantar uma música, ela explica melhor. Tem um ou dois versos que não se aplicam, mas...
Nenhum dos quatro tentou esconder o sorriso. Fred respirou fundo, e as primeiras notas oscilaram um pouco, mas logo a música encheu o recinto:
— ... I´m not the first to know there´s just no getting over you...I know I´m just a fool who´s willin´ to sit around and wait for you... But baby, can´t you see? There´s nothing else for me to do...”
Enquanto os versos continuavam Luca tentava conter a emoção. Por um ano inteiro, Fred cantara “Hopelessly devoted to you” milhares de vezes. Principalmente quando estava sozinho, ele a cantava, e cantava mais uma vez até que ninguém aguentava mais ouvi-la. Essa música sempre o enchia de tristeza até esse dia chegar e ele finalmente entender.
Ele estava ensaiando. Fred ainda nem sabia se ela estava viva e ensaiava pro dia em que poderia cantar pra ela. Olhou pros rapazes e eles também tentavam segurar o choro.
— Marina. — foi só o que conseguiu dizer. A noiva fungou um pouco, enxugando o rosto, e começou a falar.
— Fred, eu finalmente estou pronta. Te amei muitas vezes ao longo da vida. Como amigo, como protetor, como namorado. Tive a chance incrível de te conhecer e continuar com você esses últimos anos e agora posso dizer que te amo, como o homem maravilhoso que você é. Quero continuar ao seu lado nos dias bons e ruins. Estar onde você estiver. Só a morte vai me separar de você.
— Se alguém tiver algo contra esse casamento, cale-se para sempre. — Pousou a mão no coldre. — Ou vai se ver comigo.
Luca sorria, mas ninguém teve certeza se era mesmo brincadeira.
— Ramona, pode dar as alianças pra eles? Obrigado. Querem dizer mais alguma coisa? Não? Alguma outra música, Fred?
— Acho que o celebrante deveria cantar alguma coisa.
Luca olhou severo para os dois. Cássio estava vermelho tentando conter a risada, enquanto Mauro fez sua melhor cara de surpresa quando olhou de volta.
— Ué, o que foi?
— Não nessa encarnação, Mauro. — Olhou feio pra Cássio, o desafiando a fazer mais alguma piadinha. Ele só gesticulou que continuasse, ainda se esforçando ao máximo para não gargalhar na cerimônia. Luca revirou os olhos e continuou. Céus, estava cercado de idiotas.
— Como eu dizia, pelo poder dado a mim por… mim mesmo, digo que vocês agora são marido e esposa. Pode… ah, deixa pra lá. Vocês já estão se beijando mesmo. Parabéns, caras.
O casal deu um passo pra trás, mais feliz que nunca, com os rapazes e os convidados ao seu redor. Luca olhava em silêncio. O casamento daqueles dois superava seus sonhos mais otimistas. Ver todos confraternizando, felizes, vivos...
— Admirando seu trabalho, mundano?
— Não teria sucesso sozinho, mas sim. Eu consegui. Agora teremos mais que uma chance. E eu vou rodar por um mundo sem paredes de novo.
— Você é interessante.
— Você está me examinando magicamente, não é? — A feiticeira deu um sorriso conformado, nem um pouco arrependida. — Moro com um mago há dois anos. Aprendi uma coisa ou duas.
— Estou curiosa. Aquele amigo da minha filha é um mago (argh) poderoso. O ciborgue ao lado dele é um assassino eficaz. O outro é um cientista genial. Como você, de todos eles...?
— Como eu os lidero? A senhorita já sabe a resposta. Conheci o Cebola por anos, foi fácil. — Ela puxou uma almofada, que levitou até a altura de uma cadeira. — Eu sou o vilão. Um “planejador maquiavélico”, me disseram uma vez.
Viviane sabia disso. O que ela não entendia era a aceitação do papel. Não, aceitação não era a palavra. Ele abraçou o papel que escolheu. Ele não fazia parte daquela turma toda certinha e sem graça?
— Fiz e farei qualquer coisa necessária pra mantê-los vivos. São minha família. As regras de heroísmo e gentileza que aprendi e defendia não servem nesse mundo. Me desfiz delas, e deu certo até hoje. Mauro e Cássio aprenderam bem, podem seguir outro caminho. Sei que vão sobreviver.
O desconforto continuou com uma pitada de admiração. Viviane pensou que os maiores riscos seriam aquele mago amigo da sua filha ou o ciborgue, mas aquele mundano numa cadeira de rodas agora parecia ainda mais terrível que os dois.
— Por que você não deveria me eliminar? — Luca claramente se divertia com seu espanto. — Não, não leio mentes. Não sou seu inimigo, Lady Viviane. A menos que ameace minha família, não vou me tornar. Tenho muito respeito pela senhorita e pela Ramona pra isso. Além do mais, sua filha saberia, tenha certeza. E não te perdoaria nunca. — finalizou com um tom casual.
— Não é à toa que seus amigos te chamam de Odin.
— Você é uma pessoa interessante, Bruxa da Lua. Acho que vamos nos dar bem.
— Também acho. — Desde o pai da Ramona, nunca teve uma conversa tão diferente com um homem mundano. Talvez fosse mesmo uma coisa boa conviver com aqueles garotos. O sorriso era mais sincero agora. Viviane ergueu-se, Luca beijou-lhe o dorso da mão, demorando-se um segundo significativo a mais. A feiticeira o olhou intrigada e o rapaz lhe devolveu um olhar impertinente, como se ela pudesse interpretar seu gesto do modo que preferisse. Em seguida manobrou e foi juntar-se aos amigos sem dizer nada.
— Vivi, tá fazendo o que aí parada? Olha que o bolo vai acabar.
— Bóris tá certo, mãe. Vem, está uma delícia.
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