Meia Lua

19 Aquele que sonha com as estrelas


Foi um dia inteiro vivendo como um galeto de padaria, com os rapazes fiscalizando se ele virava a cada três horas, e trocando os curativos. Acabou sendo uma coisa boa, dessensibilizou Luca do cheiro, mas o medo dela acordar durante as trocas de curativo e os momentos constrangedores fizeram os rapazes rirem muito. Nas primeiras horas, ele descobriu porque ela desenhou um colchão de casal pra si. Não era por causa do Fred. Enquanto Cássio lia pra ele no celular, Marina virou-se e praticamente se jogou por cima dele, murmurando algo no sonho.

Cássio gargalhou até as lágrimas enquanto ele permanecia como uma baleia encalhada. Levou séculos pro cachorro tirá-la de cima dele. Ela se mexia tanto! E ele ainda tinha os espasmos. Pra levantar e sair daquela enrascada, as pernas não serviam pra nada. Pra se mover sem ser mandadas, ah, pra isso elas moviam. Toda vez que elas mexiam, ele congelava, sem saber se o toque a acordara ou não.

Mas não foi tão ruim quanto ser acordado pelo Fred.

— Luca, posso saber porque você está dormindo com a minha namorada, na cama dela?

— Eu tenho que dormir aqui, Fred. Não lembra? Escara, ficar de bruços o dia inteiro...

Ah, espera. Ruim de verdade foi quando a Marina acordou. Tocou de leve no ombro de Luca, que já estava na borda da cama, e sorriu.

— Bom dia, amor... — Ela abriu os olhos. Se afastou tão rápido que caiu sentada. — Luca?

— Desculpa, Marina. Você desmaiou e Mauro te trouxe pra sua cama.

Atrás deles, ouviram o Mauro tentar rir baixinho. — Que porcaria de clichê romântico é esse? Marina, você fez muita magia e apagou. Fred, Luca ficou bem longe e quietinho, como uma baleia encalhada boazinha. Eu só fui buscar uma sopa e todo mundo acorda ao mesmo tempo. O DC deve estar se revirando na caixa com um clichê barato desses.

Nada disso apagou a fúria contida nos olhos de Fred, e Luca teve medo. Fred não era apenas um cientista genial e um louco confuso. Era um homem apaixonado. E todas as tragédias da literatura começam com homens apaixonados, com uma saudável dose de mal-entendidos. Luca levantou os braços, numa rendição necessária.

— Não fiz nada com ela, Fred. Juro. Mauro esteve aqui o tempo todo, e o Cássio. Mesmo que ela não fosse sua namorada, eu não tocaria nela dormindo, cara. Eu não sou esse tipo de canalha, você me conhece.

A expressão assustada de Marina o envergonhou, e irritou um pouco. Ela se sentia invadida, e ele nunca quis causar aquilo. Mas ele era um homem, caramba, não um animal qualquer como o Toni. Não importava o quanto ela o atraía, ele não se aproveitaria dela. Muito menos durante o sono.

Fred abrandou a expressão um pouco. Sentou-se e abraçou Marina. O olhava fixamente, e Luca continuou se sentindo o alvo de um touro espanhol. Passaram um momento, e a irritação finalmente superou o medo. Sentou-se, provocando exclamações de Mauro. — Luca sabia que não deveria sentar tão cedo, mas não podia ter aquela conversa deitado.

— Pare de me olhar assim, Fred. Pare de dar ouvidos ao ciúme, você me conhece. Não toquei na Ma, e não tenho um caso com ela. Eu não estaria na cama dela se houvesse qualquer outro lugar pra deitar. Confia nela e confia em mim¸ cacete.

Marina, eu não quis assustá-la. Mas peço que se acostume com isso: Nenhum de nós é o Toni. Nenhum de nós vai tocar em você sem sua permissão. Você precisa confiar na gente.

— Desculpa, Luca. Desculpa, Ma. — A fúria tinha sumido, e Fred parecia meio envergonhado.

— Me desculpa, Luca. Eu me assustei. Ei, eu lembro agora: Vocês passam toda noite dormindo em pedaços de papelão?

— O Luca dorme num colchonete, mas tá meio gasto.

— Eu não deixo se arriscarem pra trazer um colchão de verdade. — Recebeu uma tigela de ensopado.

— Tá certo, mas chega. Já está bom de forçar escara por hoje. Toma tua sopa e aquieta. E você, mocinha, divide a magia, esse lápis não é a Amazon. Todo mundo aqui aguentou um ano, aguenta mais uns dias dormindo no chão. Começa devagar, ok? Agora que está todo mundo acordado, é sua vez, Fred. Fica por aí que eu vou alimentar o doutor e tirar um cochilo.

***

— E aí, Fred, isso melhorou? Eu tô há três semanas parado, quando vocês vão me deixar levantar daqui?

— Já tá fechando, agonia. Estou há três semanas olhando sua bunda, e também não gosto disso, mas é o jeito. Vem que você precisa de um banho.

— De novo? Já falei o quanto eu detesto ser carregado assim?

— Cento e setenta vezes, e contando. O banheiro é longe, e quanto menos você se apoiar nessa pele, mais rápido ela vai curar. E mais rápido você sai da cama da minha namorada.

— Fred, pra onde você tá me levando? O banheiro é pra lá!

— Surpresa! — Cássio e Marina o esperavam, segurando o que parecia um arreio de segurança. Luca olhou, sem entender.

— O que é isso?

— É o meu aniversário, mas decidimos fazer uma surpresa pra você, Luca. Era pra ser mais cedo, mas tivemos que esperar sua pele melhorar.

— E meu presente é ficar pendurado? Não entendi. — Os três riram bastante, antes que Marina explicasse:

— Não, Odin. O seu presente está lá em cima. — O prenderam nos arreios e apagaram as luzes. Quando a escotilha abriu-se, Luca foi iluminado por uma luz fria, diferente. Quando entendeu, o queixo caiu em choque. Foi içado devagar, em silêncio, olhando pra cima como se presenciasse um milagre. Mauro o puxou e o apoiou na cadeira de rodas.

Afastou-se e em alguns minutos, Fred, Cássio e Marina se juntaram a eles na parte do telhado que não era coberta com a estufa, placas solares ou a coleta de água. Eles aproveitaram em silêncio, enquanto Luca continuava olhando pra cima.

A Lua. Cheia e brilhante como um sol frio, completamente irreal de tão linda. Não numa foto, não através das câmeras. Meu Deus, havia tantas estrelas no céu? O vento frio, não através de condicionadores de ar, só o vento, com todos os cheiros da noite. Olhou pra baixo, e o bairro que conhecera tinha se transformado numa pequena floresta. O asfalto rachava e desaparecia em vários pontos, e árvores nasciam por todo lado. Ossadas se espalhavam aqui e ali, e casas davam sinais de desgaste. Parecia um cenário de vídeo game. Voltou os olhos pra cima.

O céu. Alguma vez ele tinha visto algo tão esplêndido? Só notou que chorava quando percebeu a vista borrar. Poderia ficar ali parado a noite inteira, até que notou um toque leve no ombro. Mauro sorria, apontando para trás. Estavam todos sentados, ao redor de um prato de sanduíches. Fred levantou uma garrafa de refrigerante.

— Não consigo agradecer o suficiente, pessoal. Não tenho palavras. Feliz aniversário, Marina. Sério, posso morrer feliz. — falou alto apenas o suficiente pra ser ouvido no círculo.

— Eu disse que ele iria gostar — Cássio sussurrou de volta.

Comemoraram e conversaram aos sussurros, tendo o luar iluminando tudo. Quando finalmente Fred levantou-se e lembrou a Luca que estava na hora de trocar o curativo, todos desceram e continuaram a festa lá embaixo. Luca saiu do banheiro, já sonolento (aquele remédio realmente dava sono) quando Marina parou na frente dele.

— Luca, eu queria te agradecer.

— Por quê?

— Você tem ajudado muito o Franja, e a mim também. Ainda não sei bem como será, mas acho que de algum jeito, vai dar certo. Não sabia como iria relaxar com ele do lado. Me ajudou bastante você passar esse tempo quieto ali.

— Que bom que eu ajudei.

— Ah, fiz um colchão pra você também. Está lá, junto do de Cássio e Mauro (Sério que eles ainda não dormem deitados?).

— Eu não me meto nos hábitos daquele casal, Ma. Vou lá inaugurar meu outro presente. Obrigado. Sem sua ajuda eu não teria visto o céu essa noite.

— Que bom que eu ajudei. Quanto àquela outra coisa… Obrigada. Estava pensando que tinha algo errado comigo.

— Não foi nada.

— Sabe que não vou comentar com ninguém, não é?

— Sei. Vou dormir. Feliz aniversário, Ma.

***

— Pronto, terminamos a louça. Mauro me disse que você passou a treinar com duas espadas.

— É, faz alguns dias. Consigo lutar melhor assim. Que tal você vir treinar comigo? — Mesmo no escuro, podia vê-lo sem jeito. Mas ele encontrou os olhos dela e pareceu erguer-se.

— Eu não gosto de armas, mas posso tentar de novo com você.

— Você não precisa usar armas. Pensei em você com escudos.

— É, eu poderia proteger você. Sim, eu poderia! E se eu encontrar material suficiente, dá pra adaptar um campo repulsor ajustável... — A risada dela era linda.

— Você é incrível, amor. — Fred sentiu o contato dos lábios dela nos seus. Sua mão encostou de leve na face dele, e ele sempre sentia-se mais inteiro no calor do toque de Marina. Como se toda a gravidade irradiasse dela. Deus, como amava aquela mulher. Perdido na adoração dos seus olhos, não ouviu as palavras.

— Desculpe, o quê?

— Você e eu esperamos um bocado, não foi?

— Eu teria esperado a vida inteira. Eu amo você. — A trouxe para perto de si. O beijo começou suave, mas tornou-se ardente e inegável como o Sol. Surpreendeu-se um pouco quando a sentiu puxá-lo mais para perto.

Céus, quando o Fred passou a beijar assim? Aos poucos, a alegria a tomou. Ele a queria. Como mulher. Havia uma ânsia, uma fome mal contida no jeito como o corpo dele se movia que dizia que ele esperava aquele momento tanto quanto ela.

Fred passou um braço em torno de sua cintura e afundou a outra mão em seus cabelos. O cheiro dela, a pressão que o corpo dela fazia contra o seu, sentir os cabelos no seu rosto... era como uma droga. Afastou-se um segundo, sem fôlego.

— Você estava mesmo esperando minha maioridade pra me beijar direito?

A pergunta o pegou de surpresa. Se sentia meio estúpido, mas admitiu:

— Estava. Sou... Era o único adulto, tenho responsabilidades, e não conseguiria me segurar se você me beijasse assim. Tem ideia do quanto a senhorita é maravilhosa?

Marina riu baixinho. Seu namorado era incrível. Um gentleman um tanto ingênuo, mas ainda incrível. Percebeu que ele a olhava ansioso. Conseguia entender, porque sentia o mesmo.

— Vem cá.

Notas finais
* Seja bem-vinda de volta, Arymura (Beta oficial e maior incentivadora dessa história. Não conheço palavras suficientes pra agradecer seu apoio e melhorias no texto); *Pra quem não lembra, em TMJ Luca sempre está fazendo alguma coisa ao ar livre. Agora ele está há mais de um ano sem olhar pra fora sem ser através de uma câmera. O laboratório não tem janelas. * Sim, mesmo paraplégicos têm espasmos e às vezes as pernas mexem sozinhas, geralmente durante o sono, mas varia de acordo com cada um. *Fred não lembrou? Não. Às vezes ele esquece das coisas que aconteceram logo antes de um surto. A todos vocês ( e principalmente à Themis e Adormecida, interagir com vocês é fabuloso) que leram até aqui, mais uma vez agradeço. Até o próximo capítulo.