Megan

4 Capítulo III - museu.mp3


*Huh*

*Huh*

*Huh*

Desculpa, eu sei que eu tô suspirando no microfone, mas não posso evitar. Estou aqui, Megan. Estou dentro do museu.

Eu ainda não sei muito bem o que estou fazendo aqui pra falar a verdade, sinceramente, eu acho praticamente impossível te encontrar nesse lugar. Agora eu sei porque você odeia museus. Aqui fede.

Não é um fedor podre, é só aquele cheiro de coisa velha guardada muito tempo em uma gaveta, mas multiplique isso pelo tamanho de um grande prédio que ocupa um quarteirão. É, basicamente é esse o cheiro.

Mas se você realmente esteve aqui, Megan, eu sei que você já sabe disso, então eu não sei bem por que estou falando isso pra você. Talvez você saiba. Talvez você me conte.

*Huh*

Ok, parei com isso agora, eu juro.

Estou com medo, Megan. Tenho medo de rodar esse lugar inteiro perguntando sobre você e acabar não te achando. Mas tenho mais medo ainda de acabar descobrindo que sim, você esteve aqui esse tempo todo. Bem debaixo do meu nariz.

Acho que eu terei de descobrir sozinha, não é? Tudo bem, você sempre disse que gostava de uma garota independente. Então aqui estou eu. Te buscando. Sozinha. Yay!

Eu espero que o sarcasmo tenha ficado bem claro na minha voz.

Estou aqui, não sei bem o que fazer. Eu fico vagando pelas seções tentando te encontrar. Todos os guias estão ocupados demais para falar comigo e nenhum segurança parece saber de você. Eu não duvido que você consiga burlar a segurança. Você é louca, wildcat. Mas duvido muito que seja isso, afinal, você sempre sai pela porta da frente pelo que as pessoas das lojas na rua disseram.

Eu preciso admitir, quando decidi vir aqui, não sabia o quão lindo esse lugar era. Ele ainda cheira mal, mas pelo menos tem coisas legais para se ver. Será possível que logo você que detesta museus vai se tornar o motivo de eu gostar de lugares assim?

Não seria a primeira vez. Você me fez experimentar as caminhadas pelas trilhas. Você me fez experimentar Sex and the City. Você me fez experimentar os seus pais e até deles eu gostei.

Eles também estão preocupados, Megan. Seu pai tenta não demonstrar muito, mas sei que ele sofre bastante. E sua mãe... Converso com ela praticamente todos os dias. É o que me mantém sã. É o que me faz acreditar que você realmente existe, Megan.

Acho que no fim, nós ajudamos uma a outra a acreditar nisso. Lembro que no começo ela simplesmente não acreditou. Ela chamou a polícia, mas eles também não conseguiram acreditar. É claro que não. Ninguém simplesmente some desse jeito como se nem ao menos tivesse existido.

Fala sério, Megan, nós estamos na era digital. Cartões de crédito, celular, redes sociais, e-mail, fotos, câmeras de segurança, nada. Absolutamente nada dava pistas de onde te encontrar.

Sabemos que você simplesmente deu seu celular a alguém. O menino ficou uma semana com a polícia atrás dele porque estava com seu celular, mas ele também não fazia ideia de quem você é.

“Ela só me deu o celular e disse que não precisava mais. Desbloqueado e tudo!”, era o que ele ficava repetindo toda vez que perguntávamos. Você tinha que ver como ele estava desesperado, você com certeza ia rir muito da cara dele. Não tivemos outra opção a não ser acreditar, não haviam evidências que provassem que ele havia te roubado ou feito algo com você.

Mas no fim, depois de mais de um ano, desistimos. Você simplesmente sumiu. Mas eu já disse isso. O que estou dizendo agora é que tenho medo de te encontrar. E se você mudou? E se não mudou absolutamente nada? Eu mudei. Eu sei que mudei. Apesar de eu ser a mesma, eu sou uma pessoa diferente de quem era quando acordei hoje.

É, eu sei, estou parecendo a Alice do País das Maravilhas. Eu ainda me pergunto se ela foi a inspiração para a Alice de Alice Isn’t Dead. Será que Alice Isn’t Dead foi sua inspiração pra sumir? Eu juro pra você, Megan, se você está fazendo isso por conta daquele podcast, você me paga.

Megan... Eu... Eu estou de volta.

Passei grande parte do tempo no museu. Eu ainda estou no museu.

Acontece que eu acabei de descobrir que teria poupado muito mais tempo se eu simplesmente tivesse vindo aqui de tarde. Engraçado? Só se for pra você. Você podia ter pelo menos me dado essa dica.

Não me queira dar sermões por estar falando desse jeito, eu tenho direito de ficar irritada!

Que merda, Megan! Eu pensei que... Eu nem sei o que eu pensei.

Isso foi uma perda de tempo.

Eu acho que você deve estar rindo de mim agora, seja lá onde você esteja.

Você sabia. Sabia o tempo todo e me deixou vir aqui.

Pois é, Megan. Eu vim. Conversei com os seguranças, conversei com os guias e ninguém sabia quem você era.

Até que eu decidi tentar novamente depois do almoço, vai que alguém te reconhecia nas seções que eu ainda não tinha visitado.

E foi aí que eu ganhei um pouquinho de esperança.

Um dos guias reconheceu você. O primeiro, logo de cara. Ele te chamou de Julie no começo e eu não entendi o que estava acontecendo.

E então ele me explicou.

Julie é a guia que trabalhava na seção do Egito até sair de licença maternal. Julie é a garota que foi fotografada ao fundo da foto no jornal.

Julie é a garota que as pessoas falavam que viam saindo do museu todas as tardes.

E, droga, Megan, ela parece muito com você.

Vendo fotos dela mais de perto eu consigo perceber algumas diferenças. Ela não tem os seus olhos castanhos, são azuis. Nem seu piercing no nariz. Ela não tem piercings à mostra segundo o guia que estava bem na seção do Egito, cobrindo por ela, que tinha saído de licença há uma semana.

Ela também não tem o seu sorriso, ele é mais reto, como se ela fosse obrigada a sorrir. O seu sorriso é natural, com curvas, bem desenhado.

Definitivamente não é você.

Pelo menos agora eu tenho uma certeza sobre você. Não. Duas. Tenho duas certezas sobre você agora, Megan.

A primeira é que não preciso mais continuar nessa busca insana, não preciso tentar encontrar uma resposta. Ela não existe. Você não existe. Você é só mais alguém por ai e é melhor continuar aonde está.

E a segunda? Essa é fácil, Megan. Você já devia saber a essa altura...

Eu te odeio, sua vadia do caralho!