Megan

2 Capítulo I - jornal.mp3


Oi, Megan! Sou eu de novo...

É, desculpe, eu comecei a gravar aquilo e esqueci que era pra ser só um teste. Eu nunca quis que você escutasse aquela história.

Bem, não tem muito o que fazer agora, não é mesmo? Vamos só fingir que aquilo nunca aconteceu, está bem?

Então... Vamos lá. Eu ainda estou na cafeteria. Ainda estou na mesa à vitrine em frente a floricultura e ainda estou tomando meu café. Na verdade, no meu tempo, eu acabei de gravar o outro áudio e, francamente, não sei porque eu estava me desculpando.

Eu poderia nem postá-lo. Eu posso ainda não postá-lo. Mas eu vou. Você sabe que eu vou. Eu não sei bem ainda o motivo, mas se você souber, me avise...

Me avise sobre qualquer coisa que você souber.

Eu já disse, você não tem o direito de reclamar dos meus suspiros durante a gravação. Você não está mais aqui, Megan. Eu tenho o direito de suspirar pela sua ausência. Mas, de qualquer forma, não é isso que eu vim falar aqui.

Vamos voltar algumas horas até hoje de manhã, ok? Eu acordei em nossa cama, como de costume. Normalmente eu iria virar para o seu lado, fazer um cafuné em seus cabelos e te acordar com um beijo na bochecha ainda segurando suas madeixas louras brilhando com a luz do sol no travesseiro. Eu fiz isso, menos a parte de te acordar, e eu levantei, fui ao banheiro me lavar e me arrumar.

Sorri me olhando no espelho, você sempre dizia que sorrir ajudava as pessoas a se sentirem mais felizes. Quem eu estou querendo enganar? Eu só sorri pra fingir que estava tudo bem, mesmo que não tivesse ninguém além de mim pra me ver sorrindo.

Então eu arrumei minhas coisas, guardei o laptop na bolsa dele e sai com a bicicleta até a cafeteria na Décima Avenida. É onde estou agora. As pessoas que trabalham lá ainda são as mesmas, Megan. Elas ainda perguntam por você, embora já não estejam mais tão preocupadas. Acho que todos que te conhecem simplesmente aceitaram que você não está mais aqui. Ou talvez elas só achem que não vale mais a pena me perguntar, que é melhor pra mim se simplesmente ignorarem já que eu não esboço mais reação ao ouvir seu nome.

Tudo isso é mentira, Megan. Meu coração ainda aperta quando perguntam como eu estou indo, se me sinto melhor. Ele também aperta quando dizem que eu pareço melhor. Na verdade, Megan, nesse exato momento meu coração está apertado porque eu estou falando com você.

Mas você sabe que eu sou forte. Nós sempre fomos fortes, você e eu. Nos fazíamos fortes e agora que você foi embora, eu uso sua lembrança pra ser forte.

Acho que é isso! Acho que é por isso que estou gravando essa história. Pra ser forte de novo. Quem sabe você ainda seja a chave pra eu ser forte, mesmo não estando mais aqui?

É, Megan, você vai me ouvir suspirar muitas vezes, é melhor se acostumar com isso. Enfim, eu já divaguei demais. Talvez eu edite isso mais tarde. Talvez não. Eu gosto da ideia de estar falando tudo contigo. Eu sempre falei tudo contigo, não me parece certo cortar partes dessa conversa. Ou seria um monólogo? Uma conversa de uma única pessoa ainda é uma conversa?

Você saberia me responder.

Como eu ia dizendo, eu acordei de manhã, fiz toda a minha rotina para cá. E, no caminho, eu passei por aquela banca de jornais onde nós comprávamos revistas e, Megan... Sua foto estava lá. Bem, não exatamente sua foto, quer dizer, um retrato. E não era exatamente sobre você. Nada disso é sobre você. Mas lá estava você, no fundo de uma foto do jornal que falava sobre alguma coisa relacionada a política. Você estava andando na rua, falando no celular com alguém. Era inconfundivelmente você, Megan. Eu sei que era.

Eu sei, isso parece loucura. Quando você desapareceu, você literalmente desapareceu. Você não deixou um bilhete, você não deixou nenhuma peça de roupa. Era como se a sua existência fosse uma ilusão coletiva e, não fossem os registros em fotos e documentos e redes sociais, talvez nós acreditássemos que você fosse mesmo uma ilusão.

Mas você não era. Pelo menos não naquela época, quando nos conhecemos e você me beijou. Foi quase instantâneo. Conheci seus pais, todos os nosso colegas na edição aprovaram e nos deram parabéns quando começamos a namorar e em poucos meses você tinha se mudado para minha casa.

Eu estou com uma impressão do jornal comigo. Decidi que hoje vai ser meu último dia na edição. Vou perguntar a todos sobre a mulher na foto. Eu sei que é você, Megan. Todos vão confirmar, eu tenho certeza. Vou pedir ao editor chefe pra me deixar investigar o caso, te procurar.

Ele precisa deixar. Você sabe, ele me deve essa.

Mas eu tô com medo, Megan. Será que você é realmente uma alucinação? Será que só eu vejo você nessa foto? Será que nem ao menos existe uma mulher no fundo dessa foto e eu estou imaginando tudo? Depois de todo esse tempo, será que finalmente estou sucumbindo à loucura?

Não, eu sei que não. E eu vou te encontrar, Megan. Eu juro que vou te encontrar.

Agora mesmo, nessa mesa de cafeteria, eu sei que estou terminando de tomar meu último café antes do serviço. Quem diria que eu, entre todas as pessoas, quebraria minha rotina? Ainda mais para perseguir uma pista que nem sei se é real.

Eu vou te encontrar, Megan. É meu trabalho. Eu sou uma jornalista investigativa, afinal de contas. Mas não só por isso. Eu vou te encontrar e descobrir o que aconteceu. Eu prometo.

Acho que é isso, Megan. É tudo que eu tenho a te dizer.

Eu não sei bem como acabar isso. Eu nunca soube como lidar muito bem com o fim que você deu a tudo isso, então vamos parar por aqui. Um fim sem conclusão pra uma história sem início. Esse é seu estilo, não é? Eu sei que é, eu te conheço.

E eu te juro, Megan: eu não vou parar até te encontrar. E você ainda vai ouvir falar muito de mim.

Como eu disse, essa história não é sobre você, Megan.

É sobre mim.

E sobre como tudo na minha vida a partir de agora gira em torno de você.