Meet the Huntar'z
10 R O S E R A D E
R O S E R A D E
rainha noturna / rainha luna
Nesse dia, antes de qualquer coisa, acabei aprendendo que, mesmo que as coisas não caminhem como esperado inicialmente, se nos esforçarmos em direção ao que acreditamos, podemos ter bons resultados.
O que havia dado errado e me deixado angustiada na última entrevista, hoje me dera repercussões inesperadas, de alguma forma até mesmo mais gratificantes do que se tivessem vindo a partir das expectativas que tinha antes. O ocorrido que antes me deixara com a autoestima em cacos, com a noção própria em pedaços, e a depressão ardente como a maior das chamas, me permitira, de alguma forma, recomeçar, melhorar o que eu havia feito e colher frutos tão doces quanto a vitória.
Até porque, era uma vitória.
Não a que eu esperava quando me dediquei a fazer aquilo, mas ainda assim, uma enorme vitória. Uma que me fizera sorrir e brilhar em ânimo pela primeira em muito tempo. Uma que me ensinara que eu poderia muito bem falhar, porque eu poderia muito bem tentar de novo e ter um tipo diferente de sucesso e gratificação. Uma que marcaria para sempre a minha memória, fosse o que fosse.
Assim sendo, não é de muito espanto quando digo que sorrio abertamente nesse dia. E que há em mim aquele brilho característico de alguém que finalmente consegue confiar, mesmo que por pouco tempo, em si mesma, em seu potencial e em seu trabalho. É como se, depois de vários dias, eu finalmente conseguisse me sentir viva.
Mantenho esse sorriso e esse brilho estampados em meu rosto enquanto caminho em direção ao quarto de Rose, a próxima entrevistada, feixes dourados de luz finíssimos e cada vez mais numerosos passando por todos os limites do Castelo, guiando-me pelos corredores, contente por ter encontrado as forças que eu precisava para dar o próximo passo dentro daquele projeto que só sabia me fazer bem.
Talvez essa fosse a entrevista que mais me cobrara preparação, porque muito poderia dar errado caso eu não conseguisse verdadeiramente aguentar a pressão. Não a pressão de falar com uma de minhas filhas, não, mas a pressão energética de sua magia, a pressão de seu enorme poder. Poder esse que eu queria registrar, mostrar, deixar visível a qualquer leitor possível, para que entendessem sua magnitude.
Antes de botar em prática quaisquer de minhas ações possíveis, recebi uma visita de meu pai, Lúcifer, que, para além de me encher de conselhos mesclados de intensas gotas de orgulho e arrogância e altas doses de preocupação (que não vêm muito ao caso no momento), me testou por um minuto, liberando uma boa parte de sua energia, para ver se eu conseguiria aguentar a pressão de Rose no ápice do seu poder sem grandes consequências. Passado o tempo de um minuto, que representaria a passagem da meia-noite em ponto para a meia-noite e um, e eu com pouco menos do que uma leve dor de cabeça, ele me deu o aval de liberação para seguir em frente.
Pedi então que Luksi me ajudasse com a questão do tempo, fazendo com que, de alguma forma, o tempo no plano astral do Castelo estivesse na hora exata que precisava para ver as modificações por qual Rose passava com a aproximação iminente da hora zero. Ele fez isso com uma facilidade tamanha que, por vezes, me parece um tanto fingida. Não que ele fosse capaz de fingir alguma coisa desse tipo, mas ele faz como se simplesmente não fosse nada movimentar as linhas e continuidades do tempo.
Não demora muito até que os feixes se reúnam no formato de uma porta, essa parecendo mais rústica e mágica que as outras, de alguma forma. Em minha face, o sorriso e o brilho ainda estão visíveis. Dentro de mim, uma animação característica de estar fazendo uma coisa pelo que se espera muito, um nervosismo gostoso que ultrapassa seu corpo em pequenos choques.
Paro diante os inúmeros feixes reunidos e bato na porta duas vezes, sentindo uma textura diferenciada por meus dedos, enquanto repito o som que a batida faz:
— Toc toc? — e a porta se abre sozinha logo depois, movimento sutil de uma das mãos de Rose abrindo-a à distância.
— Olá, mãe. É a entrevista. — ela diz, bastante assertiva, eu ainda parada do lado de fora, como se estivesse esperando por uma aproximação. Diferente dos demais, ela não pergunta pelo óbvio. Apenas o aponta. — Pegue Pinky e se acomode. — pisco algumas vezes para me acostumar com seu tom imperativo e certeiro, como se tivesse ficado atordoada de repente. — E Ottho, kiwernut¹. — ela se volta para a figura que se agiganta no lado oposto do enorme quarto, em uma ordem que eu entendo como “sente-se” ou “fique quieto”, já que não consigo me lembrar exatamente da minha língua nativa, pelas limitações físicas.
Pisco mais algumas vezes para me acostumar com o contorno roxo bastante escuro de Rose, em contraste com os limites do quarto demonstrados em feixes dourados e a gigante, e irreconhecivelmente calma, forma marrom-avermelhada de um enorme cachorro com duas cabeças.
— Oi, meu bem! — finalmente digo, quando consigo me acostumar com a direção que tudo acaba tomando, sorrindo, tom verdadeiramente animado. — Sim, sim. É a entrevista. — abro a gaveta invisível com um movimento muito rápido, retirando os itens de dentro enquanto entro no quarto, não me demorando nem um segundo com fechá-la depois de ter pego Pinky e o caderno cor-de-rosa dali. — Onde me acomodo? — pergunto, caminhando em sua direção. — E oi, Ottho! — igualmente animada, aceno para o cachorrão.
Só possuo lembranças boas com aquele cachorro gigantesco e me seguro fortemente para não correr até ele e abraçar uma de suas patas, muito grossas para que meus braços dessem a volta nelas, muito altas para que eu chegasse ao mesmo à altura de seu dorso com a minha cabeça. Lembro que seu pelo é macio e que ele gosta bastante que acariciem ele, mesmo que poucos tenham coragem de chegar perto por seu tamanho e por suas duas bocarras repletas de dentes prontos para esmagar.
Tento segurar também a nostalgia dos momentos em que brincava com ele, porque lembrar desses momentos é me lembrar que não estava sozinha neles, e não exatamente quero me lembrar da minha companhia da época agora.
— Sente-se na poltrona. — Rose gesticula até uma poltrona próxima a si, energia roxa-escura irradiando do móvel indicado, mostrando-me exatamente onde sentar. Enquanto caminho até ela, ela apenas observa com bastante calma o cão encolhido ao máximo após a ordem que lhe dera anteriormente. Meus olhos esbranquiçados também fitam a forma escolhida.
— Ele tem dado trabalho? — questiono, enquanto me sento e me acomodo. — Lembro que ele era… brincalhão. — hesito um pouco porque talvez não seja essa a palavra certa para seu comportamento usual.
Ele pouco brincava na época em que eu tinha mais contato com ele, mas sempre se animava em níveis estratosféricos quando me via. Pulava, latia, tirava as duas línguas para a fora e parecia verdadeiramente um cachorro, ao contrário da figura monstruosa que ele costumava representar. Isso quase sempre gerava problemas, porque quando algo gigantesco pula, a terra e tudo o que está construído nela sente. Era sempre um pequeno terremoto a cada pulo; alguns pequenos terremotos a cada visita minha (nossa) ao seu local usual.
— Não comigo. — ela declara. — Ele me obedece como um neném. — nenéns não costumam obedecer tanto assim, mas não a contradigo, porque ainda estou prestando atenção em Ottho e nas lembranças que simplesmente vinham com sua presença. Momentos em que ele me permitia sorrir, por algum motivo.
— A esse ponto, ele teria vindo aqui lamber minha cara. — sussurro, olhos ainda nele, achando até mesmo sua energia muitíssimo diferente do que eu conheci há trilhões de anos atrás, antes de partir do Inferno na minha jornada de esquecimento e exploração de mundos em diversas e seguidas encarnações (quase todas falhas e acabadas antes da hora, sofrimento inexplicável para uma pessoa que foge de suas mais fundamentais lembranças).
Tanta coisa me aconteceu no meio do caminho, daquele Ottho que lambia minha cara (ou praticamente meu corpo inteiro) nos passeios que Sammael me proporcionava pelo Inferno, até esse Ottho que se encolhe ao comando de minha filha, que tenho que me concentrar no pensamento de que talvez eu não achasse tão legal assim ser coberta por baba de cachorro gigante e infernal nos dias de hoje para não cair num vórtice de pensamentos ruins.
Quando eu era coberta de tantos fluidos indesejados e cruéis, os fluidos de um cachorro feliz em me ver me faziam sorrir. Talvez hoje, que vivo em uma realidade em que todos os fluidos que chegam até mim foram escolhidos e consentidos, até mesmo os que vêm de vômitos de bebês (que, depois de vinte e um filhos, acabam ficando menos nojentos), a baba de Ottho espalhada por meu rosto todo não fosse assim tão divertida quanto era antes.
— Mas que bom que não tem dado trabalho. — completo, piscando uma vez antes de me voltar para Rose, finalmente, saindo da nuvem de lembranças que a mera presença do cão naquele cômodo me fizera absorver. — Cachorros grandes demais e brincalhões assim são um problema.
— Ele ficará mais uns dias comigo antes de voltar. — anuncia ela, ainda sem olhar para mim. Sei que não olha para mim porque não sinto o calor do seu olhar em mim.
— Papai deixou ele aqui para treinar? Foi isso, então? — consigo me lembrar vagamente dele falando de Ottho e da presença dele no Castelo no mesmo dia em que me testou em relação à pressão energética que eu poderia sentir na presença de Rose à meia-noite. — Pra ficar mais calminho e parar de destruir pelo menos uma dezena de construções toda vez que se anima um pouquinho mais?
Não sei se ele ainda faz isso, mas lembro de um dia ele ter tentado seguir a mim e a Sammael quando partimos, nem eu ou o cão querendo se separar da companhia um do outro. Com sua animação em ir atrás de nós, acabou pisoteando várias construções no meio do caminho, passando por cima delas como se não fossem nada mais que uma gramínea mais dura, pouco incômoda para suas enormes patinhas macias.
— Para se curar. — declara. — Estou cuidando dele e o fortalecendo.
A resposta me assusta um pouco. Não esperava que fosse necessidade de cura.
— O que rolou? — indago, verdadeiramente preocupada. — Eu só lembro de vê-lo poucas vezes. Mas ele sempre parecia felizinho em me ver. — compartilho com ela parte dos meus pensamentos, parte das memórias que se arrebatam sobre mim. Mesmo que sejam boas lembranças, ainda é assustador lembrar-me desse tempo. — O único problema é que tinha tipo… demoniozinhos nos pés dele, como se ele tivesse mastigado eles como um brinquedo. — agora meu tom é de puro devaneio, e tem pouco a ver com minha preocupação real. Sinto que estou caindo num mar de lembranças que pode ser levemente prejudicial se for a fundo demais.
— Ele era vulnerável a maldições e alguém do Inferno lançou uma nele pra que as duas cabeças brigassem entre si. — ela ignora meus devaneios, indo direto ao ponto e me respondendo minha pergunta, apenas. Ela não costuma perder muito tempo com os devaneios; ela simplesmente não costuma perder muito tempo e ponto.
— Ow, tadinho. — faço um biquinho de tristeza, abalada por pensar que ele poderia estar há muito tempo se machucando e sendo machucado com certa facilidade por outros demônios mal-intencionados. A imagem das duas cabeças brigando uma com a outra me parece basicamente retirada de uma representação animada de Cerberus, no Hades, muito comum em qualquer representação midiática dos contos dos deuses olimpianos. Mas as terras de Hades não são o Inferno, e nem as piores partes daquela pós-morte espiritual poderiam se assemelhar com ele; assim sendo, tampouco pode Ottho se assemelhar com o cão com três cabeças que guarda o mundo inferior para o panteão grego. — Mas agora ele tá bem?
— Sim. Estou terminando o tratamento dele. Cães mágicos dão muito problema se estiverem amaldiçoados. — explica.
— Imagino… — comento, voz baixinha, finalmente voltando o olhar para minha filha, curiosidade brilhando em meus olhos a partir do raio de possibilidades.
Roserade Huntar’z é uma mulher de estatura pequena e pele muitíssimo branca, no nível perfeito de palidez para imaginar a luz da Lua. É bem magra, com seios pequeninos, curvas muito proporcionais ao próprio corpo. Seu rosto de formato mais triangular é marcado pelo cabelo de tamanho médio, indo até os ombros, tão preto quanto a noite. Tão escuro quanto o céu noturno sem estrelas também são seus olhos.
Tudo nela contrasta com o que Escanor significa para o dia. Luksi, no momento em que me descrevera sobre a aparência de Rose, deixara claro que o poder máximo dela tinha o mesmo nome que o dele, sendo a diferença que o dela se dá à meia-noite, enquanto o dele se dá ao meio-dia.
Outra discrepância entre os dois é como eles lidam com suas fases diárias de poder. Se Escanor está com todo seu poder durante o dia, ele passa o tempo chamando alguns de seus irmãos para brigar e dizer a eles o quanto ele é melhor do que todos. Rose, por outro lado, vai estudar e buscar resolver problemas reais da sua forma muitíssimo sofisticada. Problemas como os que Otto pode causar.
— Que tipo de problema? — aparentemente não existe apenas o problema de pisar nas pessoas e nas construções, mas uma gama repleta de outras questões a serem resolvidas. Talvez seja importante saber delas. É um tanto animador pensar assim. — Desculpa o tanto de pergunta. Eu tô meio animada. — completo rapidamente, ficando preocupada só por um pequeno momento com a ideia de estar incomodando.
Ela novamente ignora o amontoado de fala desnecessária que saiu de minha boca, indo direto ao ponto ao responder:
— Ataques, automutilação ou não ser capaz de fazer o que precisa.
— E o que ele precisa fazer, mesmo? — sorrio, olhando para ela com um jeitinho mais brincalhão. No fundo, sei que tem algo a ver com Anticristo, mas preciso seriamente que minha memória seja retrabalhada. — Só pra fazer sentido na narração. — solto, porque não quero que ela pense, em um momento estúpido, que sou falha por não conseguir lembrar de algo que, sinceramente, parece tão óbvio.
— Ele guarda a tia Hauhsey. — declara, e eu suspiro de alívio, porque a lembrança vem fresca logo em seguida. Não sei até que ponto lembrar é bom, porque uma lembrança é sempre gatilho para outra, mas, nesse caso, lembro.
Ottho e sua presença era como eu sabia que estava chegando ao centro do Inferno, já que poucas vezes Sammael me dizia onde íamos. Ali no centro está localizada a gigantesca (e quando digo gigantesca, talvez não dê para ter real noção de quão colossal ela é) árvore de tronco cinza e folhas vermelhas que tem grossas e finas raízes que se espalham pelo Inferno inteiro, se alimentando do sangue dos demônios e torturados que jorra pelos terrenos.
Se eu sentia Ottho, sabia que estava perto de Hauhsey, a árvore chamada de Anticristo, que é responsável pela forte barreira que protege o reino de ataques externos. Porque se Anticristo era nossa proteção, ele era a proteção dela.
— Agora que ela tem um corpinho, ele ainda vai fazer isso? Com a árvore, em si? — faz pouquíssimo tempo que o espírito de Hauhsey tem a oportunidade de mudar de corpo, agora tendo um corpo de formato humano que criei para ela há pouquíssimo tempo, tendo auxílio do próprio Yeshuah para animar.
Hauhsey é a primeira filha de Lúcifer e Lilith, mas nunca teve a oportunidade de ser uma criança ou viver de forma a fazer suas próprias escolhas, visto que, ainda na gestação, foi amaldiçoada por um daqueles que gosto de chamar de Criadores. Um daqueles que compete pela expansão do Universo com Yahweh, a Deusa.
Depois de ter me aprofundado pouco mais na história dela, acreditei ser capaz de construir para ela um corpo humano (já que não consigo fazer outros corpos que não à minha imagem e semelhança, com algumas leves modificações) e transportar sua alma da colossal árvore que ela foi por trilhões e trilhões de anos para uma figura de carne.
Fiz então um corpinho infantil, com no máximo uns oito anos de idade, de pele acinzentada, no mesmo tom que seu tronco, e os cabelos muitíssimo vermelhos, como suas folhas. O esforço, por incrível que possa parecer para mim, não foi assim tão grande quanto imaginei que seria. Talvez meus treinos de Criação estejam realmente fazendo efeito, ao contrário do que eu imaginava antes, quando me negava a treinar por saber tão veementemente (por ouvir eternamente aquela incessante voz gritar em minha mente) que não conseguiria fazer nada, nunca, por ser falha.
A questão é que, mesmo depois do transplante de sua alma da árvore para a carne, a árvore ainda permanece, sugando o sangue da Terra, se alimentando e mantendo a fortíssima barreira intacta. Assim sendo, imagino que Ottho ainda esteja na função de protegê-la, mesmo que esteja aqui, para ter curado, momentaneamente.
— Sim. Ele precisa proteger a magia de barreira. — ela confirma minha suposição. — Ottho é o único capaz de farejar variações na barreira.
— Entendi. — afirmo, de repente ficando muito pensativa, uma onda de sensação invasiva passando por meu corpo. — Ele tá lá há muito tempo, né? — questiono, depois de um tempo. — Porque… Eu tive outra lembrança aqui, já que estamos falando da Hauhsey. — tá aí o motivo de nem sempre ser bom lembrar, porque uma leva à outra, e as lembranças daqueles tempos têm quase todas o mesmo tom. — Agora que estamos falando do Ottho, na verdade.
— Diga-me. — pede, como uma ordem, mais séria do que curiosa.
Hesito um momento antes de responder, tentando fazer com que aquela sensação gosmenta e invasiva que vinha com a lembrança, com a consciência do que havia acontecido realmente naquele dia. No dia em que comi um dos frutos sagrados de Hauhsey, enormes frutos dourados, gosmentos e sangrentos por dentro. Frutos que só descobri serem dela há pouco tempo, já que, em plena consciência de ser ela, conseguindo distingui-la, eu nunca faria isso. Frutos que, se arrancados, causavam uma dor intensa e praticamente irreparável em Anticristo.
Agora entendo o que havia acontecido naquele dia e porque não havia conseguido identificar que estávamos ali, no centro do Inferno. Ottho não estava ali.
— Consigo imaginar o Sammael dopando ele na vez em que ele deu a fruta da Hauhsey pra que eu comesse. Que eu só descobri que era da Hauhsey depois de muito tempo, — muitíssimo tempo, por sinal — já que ele tem que ter dopado o Ottho antes de eu ir. Toda vez que passávamos lá o Ottho ficava super feliz e agitado na minha presença. — foram poucas as vezes que fui até a enorme fonte de proteção do Inferno, mas todas as vezes que fui consciente, fui lambida excessivamente pelas duas cabeças do cão. — Por isso eu nem imaginei que era a Hauhsey ou algo próximo à ela, já que não teve um piu. — termino o pensamento, caindo em silêncio por um tempo, tentando digerir as implicações dessa re-descoberta (porque toda lembrança é uma dessas).
Respiro por um momento, tentando não ficar mal com o pensamento de quão longe ele poderia chegar apenas para abusar de mim, em diversos níveis.
Porque ele sabia, eu sei que sabia, que um dia eu descobriria que tinha sido a única a me alimentar de um dos órgãos (porque é isso que os frutos são, no fim das contas) de minha irmã, por ordem dele, sem que eu tivesse a mínima ideia disso. Que eu havia me deliciado com as “sementes” macias, repletas de uma polpa gosmenta e muito doce, com talvez um dos sabores mais intensos e mágicos que já havia provado até então. E que eu me sentiria extremamente culpada, invadida e humilhada, por isso.
Porque não bastava todas as séries de surras, estupros e abusos psicológicos, ele precisava fazer com que durasse. Com que houvessem coisas que eu achasse que eram presentes – como esse dia, em que o agradeci por ter me dado algo tão gostoso, mesmo que tivesse uma textura meio nojenta –, só para descobrir depois que eram na verdade apenas mais uma de suas incansáveis manipulações mentais.
Esforço-me muito para que esse pensamento não me deixe mal, porque é o momento de estar aqui, com a Rose, e as coisas haviam dado certo hoje, então eu não poderia me deixar levar assim. Respiro fundo e comento, rapidamente, num sopro:
— Agora as coisas fazem mais sentido na minha cabeça. Tô em choque. — porque dá para segurar as pontinhas da depressão, por enquanto, mas não dá para segurar o assombro de realmente ter vivenciado isso. — Lembrar dessas coisas é muito doido. — admito, tentando fazer meu cérebro pensar positivo. — Eu acho que era essa a conexão que me faltava hoje. Obrigada por me ajudar nisso, filha. — agradeço, num momento emocional, sentindo o branco dos meus olhos ganhar um brilho úmido de lágrimas, que faço força para segurar.
Ela, de novo, não comenta meus pensamentos. Talvez não tivesse muito para comentar. Volta a falar do processo de seu trabalho com Ottho com:
— Eu tive de fazer muitas poções para que ele se tornasse imune a maldições ou a controles normais. — não sei se me sinto ignorada ou agradecida. Ela ir direto ao ponto é bom para me tirar do looping de abusos que uma lembrança como essa pode desencadear, mas sei que se ela não estivesse tão próxima à meia-noite, que vem se aproximando rapidamente, sua reação seria outra. — Passei esses últimos dias fazendo isso. Cada cabeça tem que tomar um coquetel diferente.
— É… — penso rapidamente em como as coisas poderiam ser diferentes se eu tivesse alguém com a capacidade de curá-lo assim naquela época. — Naquela época não tinha nenhuma baixinha divina e extremamente inteligente para deixá-lo imune a esse tipo de coisa. — falo, com muito bom humor e um sorrisinho brincalhão. — Se tivesse, provavelmente nem eu, nem a Hauh teríamos sido violadas daquela forma.
— Eu. Não. Sou. Baixinha! — ela responde, dizendo muito pausadamente, tom extremamente bravo.
Não levo muito a sério, porque também chamo Luci de baixinha por vezes e sua raiva sempre é despistada por palavras de carinho, umas risadinhas e a determinação de que é uma brincadeira. Então rio baixinho, antes de parar e voltar meu olhar para Rose, tentando me manter séria, sem conseguir esconder o brilho de brincadeira dos olhos (tão difícil de vir até a superfície nos últimos dias).
— Desculpa, bebê. — digo, me esforçando para não rir de novo. — É que você é um bebê na maior parte do tempo. — durante todo o dia, enquanto Escanor é durante toda a noite. — E você é casada com o Esc, então, em comparação… — me explico, tentando deixar explícito que é só uma piadinha.
— Eu odeio que digam que eu sou baixinha. Eu não sou baixinha. Eu sou compacta. — ela diz, com uma raiva que parece até mesmo caricata. Pela palavra que ela usa, solto uma risada alta, achando real graça de sua fala.
— Okay, meu bem. Compacta. — repito o que ela disse. — Me desculpa. Nunca mais te chamo de baixinha. — e eu falo sério sobre isso, mesmo que ainda sorria de leve. — Você tem uma aura… compacta. — digo, agora tentando levar a brincadeira nos termos dela, diversão dançando por meu rosto.
Mas aí ela se levanta, saindo de sua posição de meditação habitual anterior, caminhando até mim com a energia extremamente densa, ficando cada vez mais pesada. Cada passo que ela dá até mim vai diminuindo meu sorriso, acabando com toda a graça, tal a força que seu poder faz em mim.
— Não faça mais isso. — eu já havia dito que não ia fazer, havia falado em seus próprios termos, mas está próximo demais da meia-noite para que ela perceba o que é ou não uma brincadeira, para que ela perceba quão inquietante é sua energia se forçando sobre mim. Quanto mais próximo, maior a força.
— Não farei mais isso, filha. Já disse que não te chamarei mais de baixinha. — reforço, dessa vez muito séria, determinada a não me encolher diante dela, embora meu corpo inteiro pedisse por isso, cabeça começando a latejar diante do esforço.
— Perfeito. — declara, se afastando, voltando a flutuar na posição de lótus, se mantendo na forma meditativa que estava antes. Nem de longe essa posição lhe faria parecer serena, porque não há nenhuma ponta de placidez ali.
— Eu só usei a palavra que você usou. Não precisa ficar brava desse jeito. Eu ein. — sussurro, me ajeitando na poltrona, extremamente desconfortável por um momento, sem nem ao menos conseguir olhar para ela.
— Podemos começar? — ela questiona, tentando esconder a leve irritação e o desprezo que ainda permanecem em sua voz.
Hesito um momento, ainda sem olhá-la, tentando calar a imensidão dos pensamentos ansiosos que esse infortúnio acaba por lançar em mim. Talvez eu não devesse brincar com os filhos que não conheço com completude, porque isso pode acontecer e pode ficar uma sensação desagradável, como agora. Talvez eu não devesse brincar assim, simplesmente.
Aperto o caderno no colo por um instante, abrindo-o e vendo Pinky se levantar agitada antes de responder, baixinho, apenas um décimo da animação anterior:
— Podemos. Antes… Só descreve o quarto pra mim.
— Meu quarto é cheio de selos mágicos. — ela começa, explicando. — As paredes e o teto são de mármore negro, e o chão é todo revestido em ônix polida. Tenho minha poltrona, minha cama, minha biblioteca de bruxaria e um caldeirão bem ali. — acho que ela está apontando também, mas não tenho como ter certeza. Os objetos vão se iluminando aos poucos a cada menção, recebendo uma camada fina de uma energia roxa bastante escura. — Por fim, tenho aquelas prateleiras com ingredientes mágicos, mas estou precisando reabastecer, por isso está quase vazia. — termina, iluminando a prateleira também, abarrotada com potinhos, alguns mais cheios que os outros, e se esforçando para mostrar todos os detalhes de todos os diferentes ingredientes.
— Entendi, filha. — digo, ao terminar de acompanhar o pequeno show de luzes ao redor do cômodo. — Bem… Obrigada. — agradeço, com o máximo de carinho que consigo reunir no meio da densidade crescente de seu poder. É sempre bom quando eles conseguem me mostrar energeticamente os quartos; dá uma noção muito maior do espaço. — Agora… Nome. Títulos. — vou logo direto ao ponto, tentando conseguir o máximo possível dela antes de ficar completamente insuportável.
Ela responde sem nenhum desvio. Pinky corre na folha de papel, também sem rodeios, transcrevendo suas respostas, ditas em um tom quase apático, visto a proximidade da meia-noite.
❝Roserade Huntar'z.
Deusa da Noite, Deusa-Bruxa, Deusa das Maldições e Magia Sombria.❞
— Espécie “barra” raça, gênero, pronomes. — Continuo, sem pausas, sem conseguir fazê-las, porque a pressão começa a aumentar e eu consigo senti-la em minha barriga, em meu peito, meu pescoço e minha testa, irradiando aos poucos para o restante do meu crânio. É forte, mas ainda consigo aguentar sem dor, apenas um pequeno incômodo crescente.
— Eu sou uma demônio, mulher, cisgênero, ela. — responde, e Pinky toma seu tempo apenas para padronizar as respostas com as demais.
❝Demônio,
Mulher cis (ela/dela)❞
— Sexualidade, status de relacionamento. — dá para notar uma certa urgência em minha voz, porque fica um tanto mais difícil respirar a cada segundo e eu tenho que me concentrar muito para a sensação desagradável não começar a descer por meus quadris ou subir para o topo de minha cabeça.
— Sou pansexual e casada com Escanor. — declara, Pinky novamente apenas normatizando nas páginas do caderno:
❝Pansexual,
Casada com Escanor❞
— Qual a sua arma mágica? — não comento absolutamente nada, porque me falta ar e a dor começa a vir, incômodo virando uma tensão muito forte dentro de minha alma para que eu possa resistir. Tento me segurar, mas uma careta de dor contorce meu rosto involuntariamente. Não quero que ela se sinta mal, mas, se o poder dela se parecer ao menos um pouco com o de Escanor, a esse ponto ela não consegue pensar em nada que não seja a própria magnitude, pouco se importando se gerava medo ou dor; assim sendo, eu não tenho muito que me preocupar com isso.
— Esta é a minha arma mágica. — proclama, colocando as palmas esticadas à sua frente em sentidos opostos, fazendo um semicírculo com cada uma para formar um círculo mágico. De dentro dele, começa a tomar forma uma grande balança, fazendo o quarto inteiro tremer violentamente, só parando de fazê-lo quando a arma está totalmente conjurada. Ela toca o objeto, parecendo instantaneamente aliviada da própria pressão interna. A minha dor de cabeça diminui consideravelmente. Seguro o suspiro de alívio, pelo mesmo princípio de quando tentei não fazer uma careta de dor.
Então explica, a caneta cor de rosa correndo nas folhas para acompanhá-la:
❝Esta é a Lib'kounir. Ela é uma balança que canaliza a minha energia mágica e a armazena. É o mesmo princípio de Rhitta, mas, ao invés de estocar a magia do Esc, para que ele use-a para ganhar força física numa parte do dia onde está fraco, esta belezinha canaliza minha energia para que eu possa fazer um feitiço com a força da meia-noite a qualquer hora. Ela demora semanas pra carregar, mas compensa muito.❞
— Então ela carrega vários dias para fazer um ataque só na força da meia-noite? — pergunto, tentando imaginar como ela teria como saber quando precisaria fazer um ataque desses e se ela ficava guardando-o para alguma ocasião especial. Se demora semanas para carregar, ela não pode ficar se dando ao luxo de usar quando bem entender. Com Escanor, ele poderia reutilizar o poder todos os dias, fazendo questão de fazê-lo, porque a intenção é apenas ajudá-lo quando ele estiver mais fraco. Com ela, não. Parece ter que haver uma estratégia, um planejamento do uso.
Resolvo não questionar sobre isso, porque, mesmo com a diminuição da pressão depois da conjuração da arma, ainda não passamos da meia-noite, então minha cabeça ainda dói. Não conseguiria explicar para ela todo esse raciocínio.
— Mas você pode usá-la em outros momentos? — questiono.
E percebo que realmente fiz bem em não questioná-la sobre meus devaneios sobre, porque ela logo dá uma réplica, meio confusa com o meu questionamento:
— Como, por exemplo?
— Não sei. Sem esse tanto de força. Outros feitiços menores. — tento articular, mas não com tudo o que tem em minha mente.
— Com a balança? Não. — e eu entendo pela resposta que ela até faz magias menores que o ataque da balança, mas que não o faz utilizando-a em si. E então continua, juntando a última pergunta com a que eu faria de próximo, e eu lanço um sinal para a parte senciente do pompom macio de Pinky para que ela copie também essa parte:
❝Ela foi feita para conter meu poder.
Meu poder é grande demais para ficar solto em casa. Eu sou maravilhosa demais e ninguém suportaria algo assim.❞
Não comento sobre como a autoestima dela está boa, porque, nesse momento, me lembro que Luksi havia me falado anteriormente de como os ápices dos poderes de Escanor e Roserade eram parecidos, recebendo até a mesma nomenclatura. Za’wan. A Escolhida, a Única. Ela pode não ficar tão insuportável quanto o Escanor, mas é só porque ela não é a representante literal do pecado do Orgulho.
Ainda assim, há nela uma postura arrogante quando ela termina de dizer e descruza as pernas, ficando quase na minha altura, mantendo firme a balança na canhota, passando o máximo de sua energia, cada vez mais poderosa com o passar do tempo, tentando não me causar mais dano.
Reparo por um instante que ela não toma a forma que eu esperava que tomasse, com as asas gigantescas, com mais de quatorze metros de envergadura, nem os longuíssimos fios, nem o voo desesperado até o alto para tentar não encostar a ponta das asas do chão. A esse ponto, não estivesse segurando a balança ou dentro de seu próprio quarto, feito para segurar sua energia, toda ela estaria concentrada nas colossais asas, irradiando poder por todos os lados.
Então ela continua falando, de um jeito que a caneta sozinha decidiu importante anotar no caderninho de entrevistas, porque ela dá, daquele jeito esnobe que apenas aquele momento poderia lhe oferecer, o seu título faltante.
❝Eu não havia a permitido saber, entretanto sou uma dos Dez Mandamentos. Sou a Não-Matarás. Ou, de forma mais formal, Pacifismo.❞
Desvio de seu olhar rapidamente, sentindo o simples fato de visualizar sua forma e a cor de sua aura arder com a densidade de tudo aquilo que sei que está guardando. Para tentar disfarçar, folheio o caderno até a página em que está a lista dos representantes dos Mandamentos.
— Eu ia perguntar isso agora. — declaro, porque não sabia definir os Mandamentos exatamente pelas leis divinas, mas pelos nomes que haviam me listado anteriormente. Achando a lista, escrevo seu nome à frente do Pacifismo e risco-o.
❝MANDAMENTOS
1. Piedade (Meliriodas)
2. Paciência (Maureen)
3. Amor
4. Reticência
5. Descanso
6. Fé
7. Verdade
8. Altruísmo
9. Pureza (Georgine)
10. Pacifismo (Roserade)❞
— A darei um conselho bom demais, mesmo para você. — não gosto do seu tom nessa fala, mas não a interrompo. — Se quiser completar a lista, entreviste minha filha, Light e Flare. Minha filha deve vir primeiro, pois ela veio dessa criatura incrível que sou eu. — sinto aquela ponta de irritação crescente que sinto quando eles começam a exagerar na atitude esnobe, só não a comento e me esforço para não demonstrá-la.
— Okay, pode deixar. Vou pensar nesse caso. — eu sei que a resposta para esse pedido provavelmente é não, porque não tem como eu entrevistar apenas três dos mais de quarenta netos sem que me sentir mal. E se eu for entrevistar todo mundo dessa família, provavelmente não terminarei esse projeto nunca. — Talvez fique grande demais… — começo explicando. — E eu vou me sentir mal de entrevistar três netas e não entrevistar os demais. Mas aí eu nunca mais vou parar de fazer entrevistas e eu não teria tempo para começar projetos novos. — e eu quero muito começar projetos novos, contar outras histórias, explorar todos os universos que fomos agraciados com a possibilidade de conhecer e visitar só por sermos Huntar’z.
— Sem estas três, sua lista ficará incompleta. — rebate.
— Eu posso completá-la de outras formas. — certeza que se eu perguntar para Andy, ela me responde sem nem pestanejar. Tenho que me lembrar de fazer isso na próxima entrevista, que será exatamente com ela. — Mas, como já disse, ainda vou pensar no caso. Quando terminar todos os filhos eu penso sobre isso com carinho. — se algum grande evento acontecer na família até o final da lista de filhos, e as entrevistas com as netas que ocupavam papéis ou de Pecados ou de Mandamentos se tornarem necessárias para o entendimento dos acontecidos, com certeza as farei. Caso isso não aconteça, eu já terei a lista completa com as falas de Andynne.
— Tem conselhos que são bons demais para serem seguidos… — responde, com leve desprezo na voz, voltando a cruzar as pernas. E então fecha os olhos. Algo em mim queima, porque não gosto de como ela parecer desprezar a forma como eu levo meu projeto, a primeira coisa, desde que encarnei nesse corpo de matéria densa e carbonada na Terra, que realmente tenho orgulho de chamar de minha.
— Filha, eu só estou pensando praticamente. — devolvo, pequeno tom de irritação transparecendo enquanto ela se mantém de olhos fechados, abraçando a balança enquanto isso, tentando forçá-la a absorver o excesso de energia, que deve ter chegado ao máximo, porque a dor cresce muito e então para. — Não é necessário agir com desprezo sobre isso.
Ela se mantém em silêncio, muitíssimo concentrada por um momento, antes de encolher abruptamente para seu tamanho infantil, uma criança de cinco anos com as bochechas gordas e os cabelos pretos e lisos com uma franjinha reta.
— Disgurpa… — solta baixinho, saindo de seu estado de levitação, pousando e correndo agilmente em minha direção, para pular em mim, tristinha e arrependida.
— Ô, meu bebê… — digo, calorosamente, abraçando-a e ajeitando-a em meu colo enquanto faço um carinho em seu cabelo. — Claro que desculpo. — não tem como não desculpar depois que eles ficam pequenininhos assim, me abraçam e pedem com uma vozinha tão fofa que faz qualquer um derreter. — Acabou? Passou da meia-noite? — questiono, enquanto ainda acaricio seu rostinho pálido.
— Tapô. — responde, afirmando com a cabeça. — Disgurpa. — pede novamente. — Loxe fita dispexatola. — fala, com seu jeitinho infantil.
— Desprezadora, você diz? — questiono, apenas para entender melhor o que ela disse, embora seja uma boa forma de corrigir suas falas mais incompreensíveis.
— É.
— Entendi, meu bem. Mas tudo bem. Foi só um minutinho. — foi mais que um minutinho, e crescera aos poucos desde que eu chegara, mas ainda é um tempo pequeno demais para ser considerado como uma falha. Em comparação à Escanor, que ele ficava no mesmo insuportável nível de Orgulho praticamente o dia todo, ela assim o ficava apenas por um instante razoável.
Enquanto ainda acarinho seus cabelos, peço com cuidado e uma voz maternal:
— Você pode crescer um pouquinho para continuarmos? Só de uma forma a falar melhor. Pra ficar mais fácil o resto da entrevista. — se eu tivesse de traduzir cada fala enquanto ela tentava explicar como são seus treinos ou quais são suas melhores memórias, isso levaria tempo demais, complicado demais.
— Atapô. — “ah, tá bom”, diz ela em réplica.
E então salta do meu colo, voltando a ficar no ar. Pega no topo da balança e a sacode um pouquinho, apenas para liberar poder suficiente para voltar ao seu tamanho adulto anterior, o que tinha no começo da entrevista.
— Acredito ser melhor assim. — comenta, num tom que soa como alívio. — Eu fico muito bonita quando estou grande, mas compacta eu me permito ser eu mesma.
— Você fala do tamanho da meia-noite? — agora entendo o porquê do compacta e não baixinha. Porque baixinha significava ela criança, o compacta em seu tamanho adulto e o grande no máximo de seu poder. — Com as asonas? — queria poder ter visto isso, mas imagino que a dor de vê-la em toda sua plenitude teria sido grande demais.
— Sim. Mas quando estou no meu quarto, absorvo toda energia das asas pra dentro do meu corpo, o que gera muito mais pressão energética. — explica, agora tudo que eu já havia imaginado antes fazendo muito mais sentido.
— Entendi. Agora entendi. — declaro, pensativa. — Porque papai veio fazer um teste comigo alguns dias antes de eu vir aqui, pra ver se eu daria conta de estar na sua presença à meia noite. E só de você chegar perto de mim naquela hora que você ficou brava comigo, eu senti mais forte do que ele tinha falado que seria. — talvez ver as gigantescas asas, nesse sentido, tivesse sido uma experiência com menos energia, com menos densidade ou pressão. Porque aquele excesso todo que parecia querer transbordar a partir dela por meus chacras, pesado, irreconhecível, não existiria se as asas estivessem cuidando dessa parte. — Então… agora entendi. — termino o pensamento. — Bem… Podemos continuar?
— Podemos. — responde de pronto, parando apenas para adicionar — Detalhe: o meu quarto é dessa forma para diminuir a pressão com selamentos ou o castelo iria pros ares. — talvez aquela quantidade inimaginável de poder não poderia caber nem mesmo em suas asas sem ser um enorme perigo para toda a casa. Eu provavelmente nunca teria a noção verdadeira de quanto potencial destrutiva corria por suas veias, nem tendo em mim o princípio da Destruição.
— Entendi, filha. Imaginei também. — me ajeito na poltrona, agora bem mais confortável, porque toda aquela sensação de desconforto fora embora a partir do momento em que batera meia-noite e um.
— Continue. — pede, ainda sendo direta ao ponto, mas com uma serenidade que combinava mais com o seu lado lunar de ser, com aquela sensação de noite tranquila.
— Qual a sua relação com seus poderes e peculiaridades? — questiono, seguindo a lista de perguntas pré-estabelecidas. Ela não demora para responder e Pinky se sacode toda antes de voltar a transcrever.
❝Meu poder é Moonlight. Ele é o inverso do Escanor. Eu fico mais forte magicamente de acordo com o anoitecer. É um poder incrível e que tenho pleno controle, entretanto somente no aspecto energético. Eu me sinto meio tensa quando estou no ápice, mas sempre passa logo.
Ser um mandamento nunca foi um problema pra mim. Pacifismo combina perfeitamente com meu estilo de combate baseado em manipular o ambiente e neutralizar os inimigos. Quem mata diante de mim morre lentamente, ficando esquelético em pouquíssimo tempo. Os outros mandamentos são imunes ao meu, mas eu mesma não sou imune ao meu mandamento. Curioso?
Eu gosto muito de tudo que vem de mim, principalmente minhas crianças. O Escanor me ajuda a lidar com meu poder, já que sempre estamos aprendendo um com o outro. Só tenho pleno controle por conta dele.❞
— Que bonitinho, iti. — comento, com um sorrisão no rosto, em menção ao seu amor por si mesma, por suas crianças e por Escanor. — E como assim você não é imune ao seu mandamento? — indago, expressão de repente tomada pela curiosidade. — Se você matar, você morre?
— Sim. Todo mandamento é vulnerável ao próprio mandamento. — proclama, e eu penso que deveria me lembrar disso mais vezes. — A Georgine, nossa novata, passa muito por isso. — consigo ver Georgine, que sempre foi desbocada, tendo que se calar depois de algumas falas apenas porque o Mandamento da Pureza a cobrava ser assim. Ainda é muito engraçado pensar que Ginny poderia e deveria ser pura, porque, de todas as filhas que poderiam ocupar esse papel, ela seria a última que eu imaginaria.
— Sim. Ela eu sei. — respondo. — Eu só queria entender. Você morreria lentamente ficando esquelética também?
— Sim.
— Entendi, filha. Bem… — hesito um pouco. — Nesse caso, não mate. — digo, em um tom levemente brincalhão, antes de simplesmente partir para a próxima pergunta. — Como são seus treinos?
— Eu não preciso matar, mãe. Sou melhor que esses bárbaros. — ela responde, e eu solto uma risadinha leve em resposta, porque é realmente uma resposta muito boa. — Bem. — diz, apenas para retornar às questões, e começa, Pinky ao seu encalço:
❝Eu treino muito através de meditações. Manter o controle da minha energia é prioridade. Vez ou outra pedem para que eu ajude com meus feitiços para testar uma magia e eu o faço, pois sei que é humilde da minha parte.❞
— Então você não treina de noite com o restante das meninas? — questiono, porque lembro-me vagamente de algum deles ter dito que Rose participava dos treinos mágicos pela noite, ao invés dos físicos pelo dia.
— Treino, só que do meu jeito. — responde, adicionando uma nova informação. Seu jeito provavelmente envolvia controlar sua energia ao máximo para tentar não explodir absolutamente tudo pelos ares.
— Entendi. — afirmo de leve com a cabeça. — Agora, hm, a última pergunta. — declaro, para avisá-la de que estávamos chegando ao fim. — Uma memória base, que você acha que é essencial e formativa para o que é hoje.
❝Quando eu estava grávida da Ecli tudo era muito difícil, sabe? Carregar alguém que se alimentava da minha energia e ficava cada vez mais densa era estranho. Eu lembro que a perguntei sobre como foi me carregar, e o que a senhora me disse foi importante pra que eu me mantivesse sã, mesmo com toda a ira que eu sentia dentro de mim. Eu sentia cada pingo de energia da minha pequena, e sentia que ela era tão poderosa e incrível, mas tão vulnerável... Eu só queria cuidar dela como a senhora cuidou de mim. Sei que não lembra muito bem, mas foi importantíssima pra mim e só sou a mãe que sou porque minha mãe foi melhor ainda pra mim. É curto, mas é como me sinto ao lembrar disso e só sou quem sou porque me tornei mãe como a minha.❞
Abro um sorrisão orgulhoso, tentando conter os olhos de marejarem muito, mas sem muito sucesso. Imagino se eles combinaram entre si de me dizer as coisas mais bonitas sobre mim nas entrevistas, mas sei que é verdadeiramente genuíno.
Roserade e Escanor foram gravidezes muito complicadas, para ser bem sincera. Esc veio primeiro, sugando toda a minha vitalidade durante a noite, me deixando fraca e repleta de dores, mas era um processo necessário para que ele simplesmente não deixasse de estar ali quando o dia chegasse, uma força que ele precisava para passar por tudo isso. Rose teve algo muitíssimo parecido, para não dizer igual, mas com o dia. Só conseguia me sentir bem durante a noite, com ela. Pelo menos isso, porque aí poderia dormir tranquila, sem praticamente desmaiar de dor. E como eu já tinha passado pelo processo com o Escanor, não fora tão insuportável assim passar por isso com Rose, já que já conhecia as reações do meu corpo e espírito ao processo de gerá-los.
Enquanto cresciam, principalmente enquanto bebês, eu os deitava sobre minha barriga em seus momentos mais fracos e os deixava dormir confortáveis sobre mim, lendo um livro ou apenas conversando com Luksi ou Luci sobre os ocorridos do dia.
— Não sei como me sentir. — digo, olhos aguados. — A parte deusa da maternidade em mim está querendo te lembrar apenas que você é abençoada. — abençoadas sejam todas as mães que se importam de verdade. — Mas a mãe em mim quer explodir de chorar, porque isso foi muito lindo. — se estivesse em um dia muito mais sensível, eu teria chorado sem conseguir nem ao menos pensar duas vezes.
— Obrigada, mãe… — solta, simplesmente, num sorriso. — Ottho. — volta-se então para o cão, que levanta as duas cabecinhas de forma interessada mas receosa. — Vá receber a mamãe. — então as duas cabeças latem de forma muito contente, cão enorme saindo de seu lugar para correr até mim.
Quando ele se aproxima, percebo finalmente que essa é uma versão muito diminuta do Ottho de verdade, que pode chegar tranquilamente à metade dos quase quinhentos metros de altura da árvore de Hauhsey. Rose deve ter lançado alguma coisa nele para que pudesse entrar no castelo.
Sorrio toda boba, fazendo carinho em seu pelo macio e brincando com o gigantesco cachorro da melhor forma que consigo, me contorcendo um pouco para não ser atingida com muita força pela animação eufórica do cão. Esse é o Ottho de que me lembrava. Tento fazer carinho entre as cabeças enquanto elas parecem desejosas por me lamber as duas ao mesmo tempo.
— Kiwernut mahir². Só um pouquinho. — diz Rose, sendo bastante doce com ele, completamente diferente da forma que havia agido no início da conversa, quando demandara por seu seu silêncio. Agora, ela só está pedindo para que ele se acalme um pouco, para não me machucar, o que é um pedido muitíssimo razoável.
Rio quando ele senta, se acalmando consideravelmente, mas ainda muito feliz, duas línguas para fora da boca, tal como quaisquer cães fazem quando há animação demais dentro de si. Faço carinho em cada uma das cabeças, mão direita na direita, e esquerda na esquerda, sorrindo para ele, muito contente por poder senti-lo, lembrá-lo, vivê-lo em tempos milhões de vezes melhores do que aqueles que vivi no Inferno no início de minha vida.
Volto-me então para minha filha, ainda fazendo carinho no cão, olhos brilhando de gratidão por sua existência, por esse momento, por ter conseguido experimentar o que é estar completa e qual o sabor da felicidade mesmo depois de todos aqueles torturantes anos iniciais, mesmo enquanto ainda sofro os efeitos traumáticos dos abusos que sofri por eles. Não conseguiria expressar isso em palavras nesse momento, então apenas viro-me para ela e digo:
— Amo você, meu bebê. Obrigada por isso. — espero que ela sinta o peso desse “obrigada” tanto quanto senti o peso de sua energia. — Ouvir essas coisas é sempre um bálsamo pra minha alma. — declaro, porque é mesmo.
— Eu amo você, Mãe. Obrigada por ser minha inspiração. — ela diz, e eu limpo uma lágrima que insistiu em cair do mar na base de meus brancos olhos.
— Tem mais alguma coisa a dizer? — questiono, como o padrão manda fazer.
— É só isso.
— Então acho que é isso. — faço um último carinho em Ottho antes de me levantar, pegando Pinky no ar e fechando-a dentro do caderno. — Obrigada por participar do meu projetinho, filha. De verdade. Significa muito pra mim. — agradeço novamente, tentando fazer a gratidão que sinto dentro de meu peito, transbordante, ser sentida em pelo menos alguma porcentagem por ela.
Aproximo-me dela e lhe dou um abraço apertado e forte antes de ir. Ela abre um sorrisinho. Aperto-a um tanto mais no laço, tentando senti-la bem, memorizar como é o calor do corpo da Deusa Lua. E então me encaminho para a saída.
— Amo você, bebê. Cuide-se! — aceno, já quase na porta. — Tchauzinho! — continuo acenando enquanto saio.
— Tchauzinho, mãe. Devido aos danos de pressão que causei no corpo, vou colocá-lo pra descansar. — consigo ouvi-la, já do lado de fora do quarto.
— Okay! Bom descanso! — digo, num tom mais alto, para que possa me ouvir.
— Boa noite, mãe!
— Boa noite, filha. — isso solto em um sussurro, entre um sorriso largo, com a sensação eternamente gratificante de um trabalho muito bem feito, principalmente enquanto figura materna, e mais uma etapa concluída.
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