Medo do escuro
1 Capítulo único
Notas iniciais
Os três conseguiram finalmente sair do território dos trolls e se viram seguros o suficiente para descansar em uma campina que encontraram. Eles estavam ofegantes e exaustos; Amberle se deixou cair sobre a raiz de uma árvore e fechou os olhos. Wil vasculhava os bolsos para conferir as Pedras Élficas, e Eretria tinha as mãos apoiadas aos joelhos para recuperar o fôlego. A noite estava em seu ápice, era provavelmente perto das duas da manhã, ou três; as estrelas salpicavam o céu como sardinhas inversas e exalavam uma luz fraquíssima se comparada com a da lua. Entretanto, esta se encontrava coberta por uma grande nuvem passageira, porém pesada, que tramitava pelo céu guiada pelo vento.
“Vou reunir galhos para fazer uma fogueira”, disse a nômade após ter se revigorado fugazmente. Ela já estava a virar as costas para a clareira e os dois orelhudos quando Wil a impediu.
“Eretria, é melhor não acendermos uma fogueira esta noite”, falou o loiro, encarando-a com as sobrancelhas um pouco erguidas. “Estamos perto do território dos trolls... E os nômades podem ainda estar atrás de nós. Uma fogueira iria denunciar a nossa posição como uma vela em uma caverna”.
“Nós estamos no topo de um morro. Ninguém vai nos ver”, retrucou ela, e a acidez em sua voz fez com que Amberle abrisse os olhos e olhasse para ela sem mover a cabeça respaldada ao tronco da árvore.
“Eu não quero arriscar”, Wil balançou a cabeça negativamente e soltou um suspiro. “É perigoso demais”.
Uma mistura de sentimentos tomou conta do rosto pálido de Eretria; ela apertou os lábios grossos até que se tornassem finos e descoloridos e se virou para se achegar à base de uma árvore espessa ao redor da clareira, bem como Amberle fizera. Seus movimentos bruscos e renitentes deram a entender que ela se irritou por ter sido contrariada daquela forma.
“Vou tentar reunir um pouco de água, nós passamos por uma nascente a mais ou menos um quilômetro”, Wil continuou a dizer. “Não saiam daqui”.
Por mais que ele estivesse demasiado cansado, sabia que todos precisavam de água. Desidratado pela corrida da fuga, só conseguia pensar nisso, e não achava que conseguiria dormir sem ao menos molhar os lábios.
“Tenha cuidado, Wil”, disse Amberle lá da árvore, observando o loiro se afastar. Ele se virou para ela e lhe lançou um olhar confiante antes de desaparecer entre as árvores silenciosamente.
A princesa virou o rosto para ver Eretria à árvore a mais ou menos cinco metros de distância da sua. A nômade tinha os olhos fechados e respirava fundo, mas não estava dormindo ainda. Os braços cruzados sob o peito e os dedos que se movimentavam em dedilhadas rítmicas sobre eles denunciavam seu estado desperto.
“Eretria?”, Amberle a chamou.
Eretria tombou o rosto para o lado para olhar para ela. Aqueles olhos tão escuros refletiam languidamente a iluminação das estrelas e atestavam irritação. Amberle já conseguia enxergar a figura da nômade com bastante nitidez; seus olhos se ajustavam facilmente à escuridão, eles não falhavam à falta de fulgor, jamais faltaram. Eretria, por outro lado, possuía olhos humanos carentes e limitados pela sua própria composição. Ela via a silhueta de Amberle à árvore e a distinguia dela. As sombras, todavia, foram se afastando, e seus olhos se acostumando ao escuro. Encontrou o olhar da princesa pelo mesmo brilho refletido fraco das estrelas.
“Você está bem?”, a preocupação no tom de Amberle era tão evidente que deixou Eretria muito nervosa.
A nômade soltou um suspiro sôfrego, mas não desatou seu olhar do da elfa.
“Estou ótima, princesa”.
“Obrigada por nos salvar lá atrás”, Amberle disse depois de ter pensado um pouco em alguma coisa para falar.
A verdade era que Eretria a fascinava. Ela conseguia enxergar através daquela postura de nômade independente e cheia de personalidade forte, só que alguns atos dela ainda a surpreendiam enormemente, tal como salvá-los dos nômades que iria oferecê-los como “sacrifício” aos trolls.
“Certo”, Eretria voltou a fechar os olhos e a encostar a cabeça ao tronco de sua árvore.
Mais um período de silêncio se passou, e Amberle não conseguia tirar os olhos de Eretria. Esta, por sua vez, jazia imóvel ali. Os braços cruzados, as pernas recolhidas, o peito subindo e descendo conforme sua respiração se tornava mais profunda.
“Eu consigo literalmente sentir os seus olhos queimarem a minha pele, princesa”, a voz da nômade quebrou a quietude e pegou Amberle desprevenida.
A elfa sentiu o estômago afoguear e de imediato desviou o olhar da nômade, engolindo em seco e passando a observar alguns morcegos que voavam por cima das copas das árvores. Eretria virou mais uma vez o rosto para ela.
“Por que você não fala logo o que quer falar?”, perguntou naquele tom provocador de sempre.
Amberle encontrou seu olhar e o sustentou por alguns segundos; sua boca se abriu e se fechou vezes tentando reunir as palavras certas a proferir.
“Nós acabamos de correr por quilômetros. Você esteve em uma festa por algumas horas. O sol vai nascer em provavelmente quatro horas”.
Eretria abaixou as sobrancelhas em estranhamento escutando aquelas frases desconexas.
“E o seu ponto é...?”.
Amberle suspirou.
“O meu ponto é...”, ela levantou os inícios das sobrancelhas e sua testa se enrugou um pouco com tal movimento. “...Você deveria estar morrendo de sono. Caindo de exaustão. E mesmo assim você simplesmente não consegue dormir”.
“E eu bem sei que você não está falando comigo porque é sonâmbula, princesa”, veio a resposta satírica da morena. Ela queria dizer que Amberle estava conversando com ela com plena consciência de que o fazia, o que significava que ela também não conseguia dormir.
A elfa sabia que Eretria usava da ironia para ofender tanto uma pessoa e desestimulá-la de tal forma que ela desistisse de prosseguir com o assunto. O assunto, por sua vez, seguiria o caminho pessoal, e era justamente por isso que a nômade fazia uso de tal estratégia. Mas Amberle não iria desistir. Como já dito, ela enxergava além dessa máscara dela.
“Você tem medo do escuro?”, a pergunta soou tão normal que Amberle não conseguiu omitir uma repuxada no canto de sua boca.
Foi a vez de Eretria ser pega desprevenida. Ela tirou do rosto aquela expressão convencida e completamente perdeu a pose. Suas feições se tornaram aflitas e ao mesmo tempo anuviadas. Virou a cabeça para frente para encarar o além com a mandíbula tensionada.
“Você tem, não tem?”, Amberle insistiu. Eretria não respondeu.
Aparentemente, a princesa tocara em uma ferida ainda não cicatrizada. Notando isso, Amberle se obrigou a levantar-se da sua árvore e andar até a árvore em que a nômade se recostava. Eretria a olhava com o canto dos olhos, detestando aquela aproximação súbita e querendo que aquele assunto morresse de uma vez por todas. Entretanto, aparentava ter perdido a fala. Quando a elfa se aconchegou ao seu lado, os ombros se tocando, a nômade fechou os olhos como se assim pudesse esquecer a presença dela.
“Por isso você queria tanto uma fogueira”, a voz de Amberle agora estava mais baixa e mais rouca, e bem próxima ao seu ouvido, o que fez com que Eretria sentisse um arrepio percorrer seu corpo todo. “Nós estamos seguras agora, ninguém vai nos pegar”, a elfa completou e depositou uma mão em cima da de Eretria.
A morena sentiu o calor da palma de Amberle sobre as costas da sua mão e abriu os olhos para encará-la com uma mescla de tristeza e nervosismo. Já Amberle tinha nada nos olhos cor de mel além de compreensão. Compreensão pura, e também uma certeza de companheirismo que Eretria jamais vira em olhos alheios.
“Eu...”, Eretria se viu no conforto para falar, um pouco tímida e envergonhada. “Os... Homens de Cephelo apagavam... As fogueiras quando... Vinham...”.
Amberle sentiu um nó se formar em sua garganta enquanto se apiedava da nômade. Ela já tinha entendido tudo. Sabia que o passado de Eretria era muito conturbado e ela tinha mais histórias ruins para contar do que boas. E as histórias ruins eram ruins MESMO.
Eretria não conseguiu terminar a frase, mas também não precisou fazê-lo. Amberle apertou sua mão em uma demonstração de solidariedade.
“Você não tem mais o que temer”, disse a princesa. Isso arrancou um bufo de riso irônico de Eretria.
“Não mesmo? Nada?”, a nômade a olhou com dor disfarçada de sátira. “Trolls? Doidos torturadores? Ex-namoradas caçadoras de elfos? Clã esquisito de nômades? Demônios? Bruxas? Elfos em si? Árvore idiota élfica?”.
Isso tudo cortou o coração de Amberle. Ela viu naqueles olhos tão escuros e próximos de Eretria o peso que aquela missão colocara em seus ombros. O peso da obrigação involuntária, que não fora escolhida pela nômade. Que lhe fora imposta, retirando dela a tão aclamada liberdade.
“Não existe uma coisa que eu não devo temer, princesa”, a voz quase trêmula de raiva e desolação de Eretria causou mais um ferimento no coração da elfa.
Amberle se sentiu pesada, como se alguém estivesse pisando em seu peito. Ela desviou os olhos para o lado e respirou fundo, perdendo-se em seus próprios pensamentos por um momento.
“Você não deve temer a mim”, terminou por sussurrar, tornando a olhar Eretria ao seu lado.
A nômade ergueu os olhos para ela, e neles havia dúvida, questionamento, surpresa, desalento, desistência. Depois disso, arfou para o lado oposto, balançando a cabeça em sinal negativo. Ela estava prestes a chorar e lutava bravamente contra isso.
“Eretria, eu estou falando sério”, Amberle se atreveu a levar uma mão delicadamente ao rosto da morena, encaixá-la em seu maxilar e virá-lo para que ela voltasse a olhá-la. Mas, quando ela o fez, as lágrimas já se espalhavam pelas “pálpebras inferiores”, prestes a cair. “Isso tudo vai acabar. E até acabar, e mesmo depois que acabar, eu não vou deixar qualquer coisa acontecer a você”.
Eretria se manteve em silêncio; a expressão de angústia ainda estampada em seu rosto, e suas lágrimas começaram a escorregar de seus olhos e a deixar rastros brilhantes aquosos pelas suas bochechas. Ela olhava para os olhos de Amberle; alternava o olhar entre eles dois, e então para a boca dela. Aqueles lábios pressionados de preocupação, uma preocupação com ela, com uma simples nômade que apareceu em uma visão provida por uma árvore.
“Cephelo está morto...”, Amberle continuou, passando a acariciar a bochecha de Eretria com o polegar e aproveitando para limpar uma lágrima dela para o lado. “Ninguém mais vai te fazer mal. Está bem? Eretria, eu...”.
Só que ela parou de falar. Parou de falar e abaixou os olhos puxando bastante ar para os pulmões para se concentrar no que dizer. Eretria se mantinha em uma quietude que não era de seu feitio, apenas contemplando a princesa e sua confusão.
“Eu me importo com você”, Amberle levantou os olhos e fitou Eretria. Ela estava ansiosa pelo que disse e pelo que iria dizer, e ainda mais pela provável reação da nômade.
Esperava que a morena fosse responder algo como “você só se importa com essa árvore idiota”, ou “cale a boca”, ou “o Wil que tem a sua ‘importância’”, ou “ok, princesa, agora saia de perto de mim”. Só que não foi nada assim. Em vez disso, Eretria encarou profundamente Amberle, como se quisesse enxergar algo nos olhos dela, e o encontrou.
“Importa-se?”, perguntou.
Amberle, surpresa pela não-alfinetada de Eretria, sorriu um pouco emocionada e fez que sim com a cabeça. Ela sentia umas lágrimas se formarem em seus próprios olhos.
“Muito”.
Então, os olhos de Amberle foram parar nos lábios de Eretria. Os lábios grossos dela e tão avermelhados, sempre avermelhados como se ela tivesse acabado de ser beijada. Beijada... Amberle passou a língua nos lábios para umedecê-los. Seu sorriso foi aos poucos se apagando conforme ela revezava os olhos entre os de Eretria e a boca dela. Eretria começou a fazer a mesma coisa, e Amberle aproximou o rosto do dela em um movimento bem devagar.
Era palpável a tensão entre as duas. Elas não sabiam bem o que estavam fazendo. Ok, claro que sabiam, mas em suas mentes todos os alarmes tinham sido desligados. Amberle deixou a mão escorregar para cima do rosto de Eretria e as pontas dos seus dedos começaram a se enterrar nos cabelos dela. Eretria aparentava estar menos triste e aturdida, ela só tinha uma coisa nos pensamentos agora: como Amberle estava próxima a ela. E como Amberle era bonita.
Finalmente Amberle chegou perto o suficiente para que seus lábios tocassem os de Eretria. Foi um toque superficial o primeiro, seus lábios meramente se roçaram. Depois, Eretria aproximou mais o rosto para que eles se encaixassem, e assim começaram a movê-los ambas para dar início a um beijo lento, deleitoso, irresoluto, e saturado de redemoinhos de sentimentos sonegados.
Nenhuma delas tinha pressa. Era um beijo compreendido pelas duas, e Amberle sentiu o coração pular umas batidas quando Eretria o retribuiu. As respirações de ambas abrasavam suas peles frias. A nômade ousou passar um braço por baixo do da princesa e segurá-la por trás do ombro para trazê-la mais para perto de si. E Amberle foi. Reclinou o tronco por Eretria para aprofundar o beijo e segurar o rosto dela com ambas as mãos. O outro braço de Eretria ela passou pela cintura da elfa e a apertou com ele. Isso fez com que a princesa soltasse uma exclamação de ar contra a boca da nômade, e Eretria não conseguia explicar como gostou daquilo.
O beijo ficou mais intenso, com prensadas de lábios, resvaladas de línguas. Assim que diminuíram a velocidade e o terminaram, Amberle deu um beijo na testa de Eretria e a olhou com um sorriso no rosto. Não era um sorriso aberto, e sim fechado, seus dentes não eram exibidos, mas suas bochechas saltaram pelos lábios repuxados. Era um sorriso incrivelmente afetuoso, até mesmo amoroso. A própria Eretria se viu sorrindo para ela de volta, olhando-a um pouco incerta. Ela nunca sentira isso por qualquer pessoa. Nunca sentiu esse conforto, essa convicção, essa confiança, esse aquecimento no peito que lhe transmitia uma tranquilidade inovadora. Foi um diálogo tácito em que palavras eram desnecessárias.
Amberle tinha agora um braço pelos ombros de Eretria e ela corria as pontas dos dedos da outra mão pelo braço que Eretria enlaçara por sua barriga. A nômade apoiou a cabeça ao ombro da princesa e imediatamente caiu no sono. Amberle continuou sorrindo consigo mesma. Pelo menos naquela noite Eretria não teria medo do escuro, porque estava com ela. Ela recostou a cabeça ao tronco da árvore e fechou os olhos.
Alguns minutos depois, Wil voltou com uma cumbuca improvisada de folhas, barro e rochas, que mais parecia uma bacia, cheia d’água. Ele chegou à clareira e se deparou com uma cena que nunca pensou que veria: Amberle e Eretria, abraçadas, dormindo juntas. Ele sorriu a essa imagem, sequer imaginando que algo além da amizade começara a acontecer entre elas. E isso seria mais forte que tudo.
Fale com o autor