Medo - Creepypasta
1 Medo.
Notas iniciais
Há muito tempo, eu ainda me perguntava o que era o medo. Por que nós o sentíamos e o que fazia com que algumas pessoas ansiassem tanto por uma pequena porção dele, mesmo ele tendo o poder de nos paralisar ou até mesmo de nos fazer chorar... Bom, eu me perguntava... Até aquele dia.
Eu não sei dizer como tudo começou. Ou talvez realmente não tenha tido um “início”. Quem sabe Aquilo já estivesse me perseguindo desde muito antes da minha consciência conseguir “captá-lo”. Não posso lhes garantir que tudo o que está aqui escrito é totalmente verídico, já que, a essa altura, minha mente tende a me pregar peças, ou talvez seja apenas Ele brincando com ela.
Meu relato se inicia em setembro, o ano não é importante, quero apenas que saibam que não faz muito tempo, talvez dois anos, três... Quando se passa muito tempo tentando fugir de lembranças e imagens tão horripilantes, você acaba perdendo certa noção de tempo e espaço... Mas vamos voltar à narrativa.
Como eu disse, ainda era setembro quando tudo começou. Nessa época, eu ainda sentia alguma alegria em sair de casa e passar algum tempo sentada na minha varanda. A visão era bonita; de lá, eu conseguia enxergar até mesmo as árvores de um parque florestal que existia a alguns quilômetros. Da minha varanda, ainda se podia sentir o doce cheiro das rosas que uma das vizinhas cultivava. Eu nunca consegui manter uma planta ou até mesmo um animal de estimação vivo por mais de alguns dias. Eles sempre morriam ou desapareciam. Parando para pensar nesse fato, é um tanto estranho que, mesmo em minha infância, quando não havia nenhum tipo de maldade em mim, eu não conseguia manter nada vivo ao meu redor. Mas não se assustem. Isso foi há muito tempo...
Durante uma dessas tardes, enquanto o sol irradiava seus últimos raios do dia, eu pude ver, do outro lado da rua, uma moça parada. Seus cabelos eram longos e lisos, mas ainda assim não tinham uma aparência viva; eles tinham um aspecto tenebroso. Suas roupas eram simples, apenas um vestido branco com mangas, sem nenhum detalhe nem nada; na realidade, mais parecia um daqueles vestidos antigos. Mas o que mais me intrigou foram os olhos da mulher, ou talvez a falta deles. Eu conseguia ver seu rosto nitidamente, mesmo levando em consideração que eu era míope. Sua pele era pálida, e ela aparentava estar um pouco suja; talvez fosse uma dessas pessoas que moram nas ruas. Mas o mais curioso era que seus olhos estavam escondidos sob sua franja, que descia até as maçãs do rosto. Isso tudo durou pouco mais de alguns segundos, para logo depois minha visão voltar ao normal e a moça simplesmente sumir entre a visão dos carros que passavam por lá. Eu simplesmente preferi não comentar com ninguém, já que, para mim, esse evento não teve a mínima importância... Como eu estava enganada.
Dois dias depois, eu acabei acordando logo no início da madrugada. O relógio ainda marcava 1h45. Minha garganta estava seca, e eu podia jurar que havia escutado um barulho vindo do quarto de hóspedes, mas apenas ignorei e desci até a cozinha para beber algo. Mal sabia eu que esse seria meu segundo erro.
A casa estava escura, e, por falta de hábito de acender as luzes, eu apenas saí tateando a parede até chegar à cozinha. O local todo estava silencioso; apenas vez ou outra se podia ouvir o barulho de alguns cachorros latindo ao longe. Nos dez anos que morava na casa, eu nunca havia escutado nenhum barulho. A casa estava em ótimo estado. O chão de madeira não rangia, as portas não faziam barulhos ao abrir, nem ao menos o vento parecia conseguir impor algo que quebrasse a paz e o silêncio que reinavam ali dentro. Mas, no momento em que abri a geladeira, pude sentir meu corpo gelar, e não era apenas pelo ar frio que vinha de lá; era como se meus ossos estivessem congelando, ao mesmo tempo em que todos os meus pelos se eriçavam. Naquele momento, eu pude ouvir um sussurro, quase inaudível, para logo depois ouvir uma risada feminina.
Na melhor das hipóteses, poderia ser alguma vizinha que ainda estava acordada e insistia em falar ou rir em um tom que chegasse às paredes da minha casa. Mas, de qualquer forma, apenas tomei minha água e voltei para a cama. Mal sabia eu que esse estava sendo meu terceiro erro.
Depois daquela noite, todas as outras que se seguiram, por mais ou menos duas semanas, foram totalmente iguais. Eu me levantava durante a madrugada, descia para beber água, ouvia sussurros, mesmo que não conseguisse decifrar o que eles falavam, para logo depois ouvir uma leve risada feminina. A situação já se encontrava assustadora. Não poderia ser alguma vizinha, e as risadas vinham se transformando. Cada vez mais horripilantes e assustadoras. Eu poderia sim ter dito algo a alguém, mas quem acreditaria em mim? Eu não tinha família, não tinha nenhum amigo próximo. Nem ao menos mantinha nenhum contato com os vizinhos. Eu deveria contar a alguém sobre os barulhos no quarto de hóspedes, assim como deveria contar sobre as risadas e os sussurros, mas mesmo assim não contei. Esse estava sendo meu quarto erro.
Certa noite, depois de ouvir alguns barulhos no quarto de hóspedes e já estando um pouco assustada com o que estava ocorrendo, decidi levar um copo com água para o quarto. Assim, talvez eu não escutasse aquela risada que já começava a trazer-me lágrimas aos olhos de tanto medo. Mal sabia eu que esse era meu quinto erro...
Durante a madrugada, assim como de costume, eu me acordei e senti minha garganta seca. O quarto estava escuro, a pouca luz que havia ali vinha de um poste do outro lado da rua e adentrava no quarto apenas através de uma brecha nas cortinas. Aos poucos, meus olhos se adaptaram ao escuro que ali se fazia presente. Minhas mãos tateavam o criado-mudo à procura do copo com água, mas estava se tornando impossível encontrá-lo no escuro, o que me parecia estranho, levando em conta que o móvel era pequeno. Aos poucos, consigo encontrar o abajur e acendê-lo, dessa vez iluminando o quarto totalmente... Oh, Deus! Por que eu fiz isso?!
Ao olhar para o móvel, percebo que não há nenhum copo lá, nem ao menos vestígio dele, a não ser algumas gotículas de água, mas em um tom escuro demais para confundir com água. As gotas formavam uma pequena trilha. Trilha essa que eu segui com os olhos. Ela passava por todo o quarto, como se alguém tivesse caminhado por ele derramando gotas e mais gotas. Cada gota ia se tornando de uma cor mais e mais escura, e aos poucos eu fui percebendo que a trilha vinha em direção da cama, passava sobre meus lençóis brancos e continuava até meu lado na cama. Minha mente me mandava não olhar, mas ainda assim a sensação de estar sendo observada era muito grande. Aos poucos meus olhos foram se virando em direção ao outro lado da cama, e o que eu vi foi a coisa mais horripilante do mundo.
A mesma mulher que eu havia visto do outro lado da rua estava agora sentada ao meu lado na cama. Metade do seu corpo estava dentro do lençol; seu vestido estava agora um pouco mais sujo, assim como seu cabelo, que tinha uma aparência mais horripilante que da última vez. Mas o mais assustador era o seu rosto, agora contorcido em um sorriso medonho. Da sua boca escorria uma água de cor negra como a noite, e em uma de suas mãos estava o copo que eu havia trazido, só que agora vazio. Quando ela percebeu que estava sendo observada, apenas aumentou o sorriso, para logo depois dar uma risada ainda mais assustadora, que fez com que meus ouvidos doessem e começassem a sangrar. Ela se aproximou aos poucos de mim, e eu pude ver seus olhos. Eles eram apenas duas bolas brancas e sem vida. Meu coração parecia que iria parar, até ela sussurrar, dessa vez de maneira totalmente audível:
— Eu posso não enxergar... Mas você não escuta bem... Você me chamou, não chamou?! Pediu pela minha companhia... Você queria medo... Chamou pelo medo em cada história de terror que leu... Aqui estou eu! Sussurrei por todos esses dias: “Leia mais... Acredite mais... O medo está chegando...” E você leu. Acreditou. Agora... Agora você é minha! — para logo depois fazer com que eu não enxergasse nem sentisse mais nada.
Você ouviu algum barulho? Um sussurro? Uma risada? Pode ter sido apenas um simples sopro... Você quer mais, deseja mais... Isso, acredite. Leia. Chame-me para seus sonhos, sua vida.
Oh! Você terminou de ler?! Bom, talvez você queira a minha visita... Esse foi seu primeiro erro... Qual será o próximo?!
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