Medo
1 O Medo
Notas iniciais
Eu sequer consigo pensar direito. Tudo é perigoso. O vento que arranha ferozmente o vidro das janelas, os corvos que grasnam o seu requiém final, e até mesmo a porta que permanece encostada.
Se eu fechá-la ou trancá-la, ele conseguirá chegar até mim? Eu posso escutar seus passos firmes e sombrios ecoando pelos corredores. Posso sentir a vibração do chão com o peso de suas botas negras. E agora, até mesmo sua voz.
— Não sabe que sensação é esta? — Não sabia dizer se aquelas palavras estavam sendo ditas em seus ouvidos, ou há milhas de distância. — Sim. Você sabe. Aquilo que é o mais importante para a sobrevivência.
— O Medo.
As palavras agora não são mais vento. Posso sentí-las penetrando na minha pele e rasgando meus ossos, como se eles não passassem de imérbeis folhas de papel. Acha que pode fugir do Medo?
Não.
O medo nada mais é que meu próprio reflexo.
- Você pode se livrar do Medo. — É a frase que nós concordamos em contar um ao outro, tantas vezes quantas forem necessárias, até que esqueçamos que é uma mentira.
Você não pode escapar do Medo, pois não pode escapar de si mesmo. Assim como a lua não pode escapar do céu, e as águas dos mares. A única saída que temos é se aliar à nossa maior inimiga. A morte.
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