Notas iniciais
Mercúria nunca fora tão eficaz.

O dia amanheceu calmo na casa dos Mills. Naquela manhã de sábado George levantou cedo como de costume, mas ao olhar para o lado não viu as madeixas loiras e cacheadas nas pontas da esposa, não viu o corpo magro encolhido dentro de uma regata branca, e não viria nunca mais os olhos azuis abrirem lentamente junto do sorriso que lhe trazia tanta paz. Nunca mais viria nada disso.

O homem de trinta e nove anos e que chegaria aos seus quarenta em alguns meses saiu do quarto em passos lentos, com os dedos enfiados na pantufa que ganhara da caçula no último dia dos pais e passou pelo corredor cor marfim da casa, passando os dedos pela parede, lembrando de quantas vezes passara por aquele lugar. Quando carregara a esposa no dia que casaram, quando eles entraram com a primeira filha nos braços, quando vira as garotas riscarem, os quinze anos... Ah! Eram muitas lembranças para George carregar sozinho. Como queria que sua esposa estivesse junto, ela sempre sonhou em ir para Illinois City. Não que não gostasse de Nova Jersey, mas Illinois lhe trazia calma.

Sem dizer uma palavra George chegou a cozinha, preparou um café e sentou-se na bancada olhando o amanhecer, os pássaros, as amadas plantas de Raquel que ele teria que regar, mesmo nunca tendo jeito pra isso. Molhava umas demais, outras de menos. Tampouco sabia deixá-las o tempo certo ao sol para sua fotossíntese. “Eu espero que Djimy não seja tão desastrado quanto você, querido” sua esposa dizia a ele sempre que havia algo de errado com suas plantas. Mesmo que ele tentasse evitar e esconder, a mulher sabia muito bem o que havia com suas pequenas.

Enquanto saboreava o café sem açúcar, puríssimo em frente ao corredor de cerca viva não prestou atenção que alguém se aproximava e esse alguém era Sofya, a filha mais velha do casal e que tinha feito vinte anos no domingo passado. As filhas de Raquel e George eram muito diferentes uma da outra, tinham estilos, opiniões, gostos, desgostos totalmente desiguais, e isso gerava algumas discussões as vezes. Raquel tomava conta das brigas e dizia para elas aceitarem o estilo uma das outras. Depois ela dizia que amava a todos e tudo ficava bem. Sofya foi a primeira a revelar seu estilo próprio, desde pequena ela curtia roupas mais descontraídas, misturadas, criando o seu próprio jeito e com o tempo ela foi arrumando com os gostos e descobriu seu lado “swag” e ao mesmo tempo inspirada na moda de grupos de k-pop. Ela tem o cabelo negro e longo que sempre está acompanhado de uma mecha loira – a única coisa que ela deixou sobrar do seu loiro natural – e um boné vermelho, presente de um grande amigo.

Sofy, como gosta de ser chamada estava usando um pijama de flanela vermelho, e o cabelo preso. O único instante em que ela não usava o boné era pela manhã e ninguém sabia por que. Ela desceu as escadas pé por pé, deu um sorriso torto para o pai e falou:

— Bom dia pai. – Sofya parecia um pouco triste, envergonhada, ela podia demonstrar várias coisas porém nunca se sabia ao certo qual.

— Bom dia, querida. Quer um pouco de café? – George estendeu a mão onde tinha café preto ainda quente, dentro de uma xícara branca de porcelana.

— Adoraria. – A garota respondeu, com um pouco mais de animação no tom de voz.

George sorriu e caminhou até a bancada, onde pegou uma xícara branca de porcelana que havia sido encomendada, onde tinha membros de um grupo de k-pop que ela simplesmente amava. Depois a encheu de café e perguntou:

— Açúcar ou adoçante? – ele já sabia a resposta, mas adorava conversar com a filha.

— Você sabe pai. — ela disse sorrindo – “nada de açúcar para a Sofya”.

Repetiram os dois em uníssono, o fazendo ter mais uma lembrança: o dia em que a garota começou um pote de açúcar inteiro e depois passou extremamente mal –além de não dormir por dois dias. Após colocar um pouco de adoçante ele entregou a xícara para a garota que deu um assopro, e bebeu.

— Muito bom – comentou, sorrindo.

Outra pessoa invadiu a cozinha, era uma garota de fios azuis claros bagunçados em um coque da noite passada que se desfez durante a noite. Seu nome é Mariana, 18 anos. Mari é a segunda mais velha da família Mills, e para muitos ela é a “rebelde”. Pintou seu cabelo de azul assim que fez quinze anos e os tem até hoje. Também usa alargadores e piercings embaixo dos lábios. Diferente de das irmãs, ela é dificílima de se lidar, era sempre cara fechada, marrenta, séria e ao mesmo tempo triste. Seus motivos? Bom, tivera vários. Um desses era seu problema nos pulmões que quase causou sua morte quando era menor, hoje está curada, e tem uma tatuagem no peito no lugar da cirurgia. Mari tem olhos castanhos escuros.Seu prazer também era assustar a mais nova, Siana e fazê-la chorar.

Mari trajava uma blusa do Star Wars preta, e um short de pijama branco com verde enquanto os pés estavam descalços. Sem dizer uma palavra entrou, apenas dando um cumprimento com a cabeça.

— Por quê você não fala com ninguém aqui de casa, Mari? – Sofya perguntou, mas não obteve respostas. Mari falava muito com a mãe, e depois ela simplesmente se calou.

Caminhando até a geladeira, a garota pegou um pouco de leite onde misturou com alguns remédios – na tentativa de que ninguém percebesse, em vão – e estava caminhando de volta para o quarto quando Sofya largou a caneca na bancada, e a segurou pelo braço.

— O quê você colocou nisso aí? – a garota havia mudado o tom de voz doce e amistoso da manhã, ela queria parecer firme mesmo que estivesse quebrada por dentro. Queria ter um relacionamento melhor com Mari, mas a garota a ignorou novamente e tentava se libertar da mão dela.

— Eu estou falando com você! – disse, um pouco mais forte – Você não vai beber esse lixo! – em um momento de raiva a garota da um forte peteleco na mão da irmã e a faz derrubar no chão o copo e esparramando todo o leite que havia ficado com um pouco mais de sustância, o que provava que NÃO era apenas leite.

— Por que você não se preocupa com a sua vida, e esquece um pouco que eu existo?! – gritou furiosamente Mari- que saco, eu não aguento você no meu pé todos os dias!

Sofya estava sem ação.

— Mari, por favor. – George disse calmo, tentando ser como sua esposa.

— Dá um tempo, pai! A Sofya precisa entender que ela não manda em mim.

— Eu sou sua irmã mais velha! – A garota respondeu, em alto e bom som – e EXIJO que você me respeite porque eu tenho vinte anos e você apenas dezoito!

— Eu não ligo pra você. – ela disse, dando as costas para a irmã e o pai. Ao sair, Sofya abraçou o pai e derramou-se em lágrimas.

— Por que a Mari me odeia papai? Por que?

— Não se preocupe filha, eu vou falar com ela mais tarde. – George disse, suspirando. Mariana quase nunca falava e quando abria a boca era para discutir com Sofya. As coisas ficaram tão fora do controle depois que Raquel se foi. George não sabia se agüentaria mais aquilo.

Alguns minutos depois outras duas expressões entraram na cozinha, era Siana, uma garotinha muito parecida com uma Lolita. Usava roupinhas cor-de-rosa, cabelos loiros bem presos e um olhar verde vivo inocente. Tinha apenas doze anos. Siana era a mais nova e a que ficou menos tempo com a mãe. Adorava todas as irmãs exceto Mari que a fazia chorar. Quando entrou com seu pijaminha na cozinha, ela estava de mão dada com a irmã de quatorze anos, Solar. Solar era uma garota mais hipster, curtia o estilo alternativo/indie e adorava tirar fotografias, tem olhos azuis e cabelo castanho claro com californianas loiras.

Ao vê-las. Sofya enxugou as lágrimas e virou de costas, pois não queria que Siana a visse daquele jeito. Enquanto isso, George disse:

—Bom dia meninas. Cuidado com o...

—Laxante da Mari. – Solar disse, depois se lembrou que estava com Siana ao lado.

O pai delas fez uma careta de surpresa, e queria saber mais sobre o assunto. Mas, invés de perguntar o que acontecera, esticou os braços e chamou Siana para um abraço apertado, ela foi até ele mas não disse nada.

— O que houve princesinha? – indagou.

— Foi a Mari. Ela assustou a Ana de novo. – suspirou Solar, cruzando os braços e recostando-se na parede.

— Ela prometeu que ia parar com isso. – disse George.

— Ela prometeu muitas coisas. – Sofya disse, pelo tom da voz da garota ela revelou o estado deprimente em que se encontrava, Siana largou seu pai e a deu um abraço.

— O que houve, Sofya? – a pequena perguntou, a abraçando – a Mari fez caretas pra você também?

Ela deu um sorriso bobo, e disse – isso mesmo, pequena.

— Nós ouvimos. – Solar disse.

— Tudinho, Ana? – Sofya perguntou surpresa.

— Tudinho! – respondeu Siana.

O pai delas suspirou, recostando-se na bancada. – todos nós sabemos que Mariana tem alguns problemas, algumas pessoas não aceitam tão facilmente serem deixadas por alguém...

— Todos nós estamos tristes, pai! – Solar interrompeu.

— E nem por isso tratamos mal umas as outras. – Sofya completou.

— Dêem tempo a irmã de vocês. Depois veremos isso.

— Sabemos que o senhor está cansado, pai. – Sofya fala – vamos, meninas. O papai precisa descansar.

E logo depois George estava sozinho de novo. Ele, duas xícaras de café na metade e um leite turbinado no chão junto de um copo incrivelmente intacto. Agora o céu já havia mudado. A discussão de Mari, o choro de Sofya, o medo de Siana e a péssima situação com Solar sobre seu desempenho como pai não lhe dava outra escolha, se não falar com a única garota a qual deve ter ouvido toda a história, mas continuou em seu aposento, quieta.

Em um momento relaxante. Mesmo amando todas as filhas igualmente, George sempre achou que uma em especial fosse a mais bela, por mostrar seu estilo único e caráter sem precisar denegrir ou infantilizar demais. Essa pessoa era a filha do meio, Mercúria. Ela fazia parte da sociedade pastel goth. Um estilo único monstruosamente gracioso. A filha tinha cabelos longos, realmente enormes e de uma cor rosa/roxo pastel. Claríssimo. Tudo isso combinou com seus olhos roxos naturais. Com sua inteligência, ela soube aproveitar muito bem algo que deveria ser um incomodo. Sua síndrome de Alexandria, que deixou seu olho desta cor acabou a destacando. Mercúria era incrível, doce, inteligente e amorosa. O homem certamente haveria de limpar o chão antes que secasse, mas ele precisava ter esta conversa. Caminhando pelo mesmo corredor, subiu uma escada que dava para os quartos e neles havia o nome nas portas onde tinha sido personalizado por cada uma, com retoques finais de Raquel. Tinha esta ordem: SOFYA , MARIANA, MERCÚRIA, SOLAR, SIANA até que finalmente GEORGE & RAQUEL. Ah! Saudade dos tempos que não voltam mais.

O homem parou-se na frente do quarto escrito Mercúria, com vários adesivos e siglas pastel goth que ele não entendia, mas respeitava o gosto da filha. Bateu na porta, e abriu logo em seguida. Apenas ao vê-la ali, sentada, usando sua camisola favorita cinza com uma cruz preta no meio e uma meia que ia quase até metade de sua perna de patinhas de gato brancas com rosa, ele já sentiu-se feliz.Era incrível o tom maravilhoso do cabelo dela. Parecia algodão doce de tão macio, cheiroso e violeta/rosa. Não era exagerado como Mariana, nem simples com Siana, era simplesmente Mercúria. George amava isso das filhas: o jeito especial de cada.

— Olá papai. – a garota sorriu com seus dentes branquíssimos. – eu já imagino o que o senhor veio fazer aqui.

— Mercúria querida... A casa está um caos! – desabafou George – eu sei que preciso me manter forte, Solar sempre me cobra isso, mas as coisas não são as mesmas desde que sua mãe...

— Morreu? – indagou- Papai, eu sei bem disso. Mas você não precisa ser o homem forte em todos os momentos. Por que a Solar precisa entender que você tem sentimentos também, e todos nós fraquejamos as vezes.

— Mas a sua irmã precisa de um pai que a apóie...

— De onde o senhor vai tirar forças, se ela não te apoiar também? Papai, entenda que o senhor não precisa disso. Uma hora ou outra todos cedemos, até mesmo a Mari.

Eles ficaram mais algumas horas conversando, George revisou seus conceitos e viu que a filha estava certa. Porém, depois de agradecer enquanto saía, ele ouviu a voz da filha mais uma vez:

— Ei, papai, e se nos mudássemos? – disse, com o mesmo tom doce e calmo inalterado de sempre.

Foi nesse momento que George encontrou a solução dos seus problemas. Estava de saco cheio da vizinhança, as meninas estavam indo mal na escola e seu chefe lhe dava nervos.

— Isso é uma ótima idéia, filha! Mas... Para onde? – indagou o homem, já havia se animado um pouco com a idéia.

— Sei exatamente onde podemos ir. – Mercúria sorriu, e logo depois começou a dizer detalhadamente todo o seu plano. Um lugar, ela iria começar a ver lugares pela internet, ele iria falar com pessoas de confiança e fazer uma surpresa para os demais moradores da casa, afinal quem não ajuda não atrapalha. Demorou algumas semanas até que tudo finalmente estivesse no lugar, então, numa noite de quarta-feira, o patriarca dos Mills reuniu toda a sua família na sala de estar, e em uníssono com Mercúria disseram:

— Vamos nos mudar!

Notas finais
♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.