Me perdi no tempo
1 Que grande teatro.
Talvez o escritor escreve para colocar suas loucuras em ordem, mas o mais legal é que mesmo vomitando palavras e mais palavras ele nunca deixa de ser louco, e por isso nunca deixa de escrever.
Mais um dia como todos os outros.
Ela se perdeu em um lugar chamado tempo.
O tempo não deixava ela dormir, ela olhou para o relógio marcando 02:58, procurava o sono, mas o sono olhava para ela e ria.
Seu pai e sua madrasta que mais costumava chamar de tia estavam no quarto ao lado.
Tinha visita em casa, parente da madrasta dela, e ela as 03:01 com um computador na mão conversando com um amigo, que descobriu que não era tão amigo assim.
Uma longa conversa sobre arroz e feijão com ele e ele fala que não a conhece, que se confundiu e que na verdade nunca teve vontade de conversar com ela, só estava conversado porque achou que era outra pessoa.
Se sentou, estalou os dedos, pensou um pouco.
-Puxa vida, faz cinco noites que eu não durmo pq toda vez que eu me deito choro de aflição e hoje quando eu penso que não vou chorar vem esse garoto e faz isso... — Disse ela ao vento.
-Não Natiely, você não precisa chorar hoje! — Responde.
Pensou em ligar para o Binho e pedir ajuda.
Binho era um garoto que ela gostava e que por sorte também gostava dela, e ele parecia ter saído de um livro.
Um dia ela contou para ele que tinha chorado a noite toda e que tinha pensado em ligar mas acabou não ligando, e ele como um personagem de livro falou que ela deveria ter ligado, e que deixaria o volume do celular no máximo para ele acordar.
Ela olhou novamente para o relógio agora marcando 03:14 pegou o celular e procurou o contato do Binho, decidiu não ligar.
Procurou uma música e colocou no volume baixo para o pai e a madrasta não acordar.
Pediu baixinho para Deus: "Me ajuda, sozinha eu não consigo mais, eu sou humana e só sei errar", assim como dizia a letra da musica, e começou a repetir aquela frase.
Estava presa no tempo que não deixava ela dormir e estava presa em seus pensamentos que insistia em falar que ela tinha matado todo mundo, assim como no livro que estava lendo onde dizia que para viver é preciso saber viver, talvez ela não soubesse viver então, nunca soube, era apenas um teatro, que grande teatro.
Talvez estivesse presa no tempo de seus pensamentos, toda hora vinha imagens ruins em sua cabeça e ela tentava apagar, aquilo deixava ela estranha, como se ela sentisse que algo ruim fosse acontecer ou como se ela estivesse prestes a sair gritando.
Estava tão perdida que não sabia nem se estava viva.
Resolveu colocar seu tempo do pensamento em ordem, então começou a escrever, 03:36 e ela estava escrevendo.
Escreveu o primeiro parágrafo: "Talvez o escritor escreve para colocar suas loucuras em ordem, mas o mais legal é que mesmo vomitando palavras e mais palavras ele nunca deixa de ser louco, e por isso nunca deixa de escrever".
E na confusão da mente dela, ela estava as 03:49 da madrugada escrevendo, narrando sua própria história na terceira pessoa.
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