Me encontre no outono
1 Quarta-feira, outono.
Quarta-feira. Nada impressionante, nada novo – o dia mais monótono da semana continuava em seu pódio de tédio enquanto eu organizava alguns papéis que João, meu colega do período matutino, deixara por algum raio de motivo em cima de minhas anotações. Já era próximo das vinte horas, e meu coração – mesmo que eu não olhasse pro relógio – logo começava a martelar no peito como se tivesse corrido duas maratonas. As noites em um cemitério são tranquilas, mórbidas, tirando um engraçadinho ou outro que aparece perto da meia-noite jurando que pegaria no flagra algum espírito que resolveu dar um rolê justo no badalar dos sinos da antiga igreja do bairro. Em lançamentos de filme de terror, os casos pioravam — como se o desrespeito aos mortos não fosse o suficiente, alguns vândalos achavam interessante tentar cavar sepulturas ou até furtar ossos. Uma chamada ou duas para a polícia já resolvia a situação, contudo o trabalho de reorganizar tudo e pedir perdão aos céus cabia a mim, o coveiro. Nunca fui muito cristão e menos ainda religioso, porém olhar diversos enterros como profissão me fez respeitar um pouco mais a história e a fé do outro. Mesmo que eu não acredite, não quer dizer que não se aplique àqueles que faleceram e tentam descansar eternamente.
— Boa noite!
Rosas. O cheiro logo invadiu minhas narinas pelo pequeno espaço de meu “escritório”, e sorri timidamente para a moça de longos cabelos avermelhados que me cumprimentara. Todas as semanas ela fazia questão de vir até o cemitério logo antes de fechar para visitas, e sempre trazia algum buquê diferente. Nas primeiras vezes, jurava que algum parente muito próximo morrera – afinal é comportamento comum que as pessoas, em suas vãs promessas de “nunca esquecer”, visitassem diversas vezes logo após o falecimento de um ente querido, coisa que logo parava em um ou dois meses – retornando somente no feriado de finados e olhe lá.
Depois de algum tempo, e com a constante vinda da mulher até o cemitério, comecei a ficar ligeiramente intrigado. Não sabia o nome dela, então era impossível verificar no histórico se realmente algum parente estava enterrado ali, e todas as quartas-feiras seu timbre suave me dava boa noite antes de ir calmamente até seu destino. A rotina fixou-se, até que um dia espiei pela pequena janela do banheiro até onde a bela moça ia. Quase caí em pleno vaso sanitário quando ela ajoelhou-se, depositou o buquê e fez uma breve oração na parte dos indigentes do cemitério – pessoas que foram esquecidas, que simplesmente eram jogadas em uma vala com um mínimo de respeito e sem nenhuma lápide que lhe desse caráter. Desde então, por motivos ainda desconhecidos a mim, criei um certo laço com a mulher. Meses depois, gaguejando e suando frio, perguntei seu nome. Amélia. Claro, uma alma dessas jamais teria outro nome. Sutil, entretanto forte – como sua voz, perfeito sino dos anjos que conseguia me tirar de qualquer linha de raciocínio.
— Boa noite, dona Amélia. Eles estão esperando.
— Oh, por favor, dona não. – sorrindo, chamou a atenção ao meu vocabulário, assim como em todas as outras vezes em que viera e eu tive coragem de falar algo além dos cumprimentos formais. Ainda sorrindo, vi suas mãos vasculharem a pequena bolsa que sempre trazia e retirarem um pequeno pacote prateado. – Não sei se é do seu agrado, mas vi que você estava de aniversário ontem. Espero que não ligue para o atraso, mas feliz aniversário, Daniel.
— Dan! Que-quero dizer, pode me chamar de Dan.
Com dedos trêmulos, alcancei o presente ainda sem acreditar. Abaixei a cabeça até que meus cabelos cobrissem meu rosto – tentando esconder as bochechas que provavelmente estariam coradas – e timidamente abri o pacote. Com todo o cuidado do mundo, para não danificar nem o papel chamativo e nem o presente, vi que o mesmo era uma pequena caderneta acompanhada de uma caneta do mesmo tamanho, ambas em um tom negro e parecendo ridiculamente caras.
— Obrigada, mas não precisava se incomodar, não.
Sem ter uma resposta, ergui meus olhos até perceber que estava sozinho no ambiente, deixado a margem de meus próprios pensamentos, enquanto Amélia novamente visitava seus indigentes. Fui até a porta e me encostei, observando de longe o que poderia ser muito bem uma obra de arte. Seus cabelos soltos esvoaçavam livres com o vento frio do outono, criando uma aura ruiva ao redor de seu rosto em formato de coração. Os lábios tingidos de rosa e apertados enquanto encarava o chão em uma oração, as mãos já dentro dos bolsos do casaco verde devido ao frio da época. Linda.
Mas, assim como um anjo, impossível. Mesmo sem etiquetas, era claro que seu vestuário cobria tranquilamente meu salário de dois meses, e o trejeito com que articulava as palavras e gestos apontavam uma delicadeza e uma graça dignos de uma aristocrata. Além disso, eu mal sabia sobre sua vida e ela sobre a minha. Seu nome e parte de sua personalidade me eram revelados todas as quartas, contudo nada além disso. E ainda assim lá estava eu, encantado com uma moça que mal conhecia e que nunca teria o privilégio de conhecer.
Levei um tempo até perceber que meus movimentos eram observados – o caçador virando a caça. Seus olhos trancaram em meu corpo como se nunca tivessem me visto antes, e tive que lutar contra o impulso de limpar meu uniforme puído e arrumar o cabelo que provavelmente estava um ninho com a ventania. Vi suas írises verdes percorrerem de meus pés até meu rosto, fixando em meus próprios olhos de tom sem graça, até que um sorriso que eu nunca vira antes surgiu em sua face. Não era educado, não era destinado a satisfazer normas da sociedade acerca de relações. Era dela. Mostrava a única covinha que tinha do lado direito – e os céus que me perdoem, todavia jamais esqueceria de detalhe tão frívolo sobre seu rosto — e a fileira branca de seus dentes, mostrava sua alma e desejo, mostrava tanta coisa em um único gesto que senti um ímã me levando até o seu lado. Parei bruscamente a dois passos de distância, só então reparando em meus atos e quão impróprios eles poderiam ser interpretados. Cocei a cabeça pra tentar disfarçar o surto de nervosismo que invadiu meu corpo, e ouvi com prazer o sino dos anjos rindo. Um anjo em pleno cemitério.
— Obrigada, mas certamente eu não me colocaria no patamar de anjo. Não imagino a vida sem ser uma mera mortal.
Demorei alguns segundos para processar que havia falado em voz alta, e logo o rubor acendeu meu rosto como um semáforo vermelho. Enfiei as mãos atrás das costas para esconder meus dedos retorcendo o tecido gasto da camisa, tentando em vão fingir uma calma que já havia me abandonado desde o bendito sorriso.
— Por quê?
— Desculpe?
— Por que não se vê sem ser uma mera mortal?
— Somos todos mortais no final das contas, não somos? Não vejo motivo para negar isso. É melhor abraçarmos a realidade de quem somos e de nossa mortalidade. Você deve estar se perguntando o porquê do cemitério todas as quartas, ou pelo menos já se perguntou. Sabe, a maioria das pessoas que está enterrada aqui passaram por mim. Cortei, costurei, serrei seus ossos e depois assinei um papel que apenas dizia como cada um deles morreu. Mas e a vida? Como viveram, como passaram seus primeiros e últimos dias? Aproveitaram, sofreram, sorriram ou temeram? Nada me contará nenhum detalhe disso, e sinto ódio por dentro. Olhe para eles! – apontou com brusquidão para todos os indigentes, e senti um nó começando a formar na garganta. – Sem nome, sem datas, sem nada. Sem direito a própria morte, porque não tiveram direito a própria vida, ao próprio nome.
— Amélia... – dando vazão aos meus desejos, rodeei seu torso com meus braços e a puxei para meu peito, esperando que isso lhe trouxesse um pouco de calma. A maré de angústia que saiu de sua voz me arrebatou, e de longe eu nunca imaginaria que uma legista fosse pensar de forma tão sensível. Senti seus dedos apertando minhas costas e lágrimas molhando minha roupa, e não aguentei. Chorei contido junto a um anjo, chorei pela morte, pela minha e pela de tantas pessoas que já enterrei. Chorei pelo sofrimento de Amélia, chorei por cada sepultura que já fora vandalizada e desrespeitada, chorei e chorei e chorei. Ajoelhados no chão descuidado dos indigentes, lavamos nossas almas e pedimos desculpas e também socorro. Quando os soluços de Amélia cessaram, pedi aos céus que não a tirassem de meu abraço ainda. Fui atendido com um suspiro.
— Dan...
— Sim?
— Obrigada por ser meu outono.
E assim, como a estação – fria, morta e pronta para um recomeço – continuamos entrelaçados.
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