Me diga quem é você!
19 Stalker Parte I
Notas iniciais
POV’s Narrador
~ Uma semana depois.
O restaurante ainda passava por investigações depois do incêndio. Só após alguns dias a reforma tinha enfim começado. Muita coisa havia se perdido e demoraria até reabrir novamente. O fogo tinha destruído praticamente todo o estabelecimento.
Os gastos na reforma seriam grandes, até mesmo o pagamento dos funcionários demoraria a sair, mas nenhum deles se prendeu a isso, a preocupação maior permanecia na reforma do seu local de trabalho. Mesmo assim, Sr.Mouret lhes ofereceu um vale, era o mínimo que podia fazer no momento.
Enquanto isso, as investigações na delegacia mantinham-se a mil, não só pelo incêndio, mas pelo possível retorno de Jev, o responsável pelo massacre de Santa Rita. Muitos policiais envolvidos no caso, supervisionados pelo detetive Basso que não media esforços, indo a fundo a qualquer detalhe mínimo.
Nora tentou buscar tudo que podia sobre Patch na internet. Primeiro que ela nem sabia seu sobrenome, mas mesmo assim tentou, o que foi em vão, ele realmente era invisível, sem redes sociais, nada.
Já com o nome de Jev, inúmeras noticias surgiam de blogs, jornais, todas envolvendo o massacre no orfanato. Os depoimentos eram de partir o coração. Nada de fotos dele também, apenas descrições da máscara que usava e o quão repugnante foram seus atos.
As histórias sobre o que encontraram no orfanato eram horríveis, dignas de um psicopata sem coração, e duvidava que Patch tivesse feito, pelo menos depois de tudo que havia contado e do que havia passado com ele. Não poderia estar fingindo tão bem assim. Nesse meio tempo, Dante andava por ai, livre e solto, e alguém pagava pelo seu erro. Não seria de admirar a busca incansável de Patch por vingança, mas isso não acabaria bem, muito menos do jeito certo e justo.
Patch se manteve quieto durante esse tempo. Após o incêndio, o restaurante recebeu muita atenção, e isso era algo que ele não queria, não com tantos planos em jogo. Se por acaso Dante o reconhecesse, game over. Já se arriscara demais conseguindo um emprego tão visível. Agora teve que por um fim.
Como se não bastasse seus problemas, não parava de pensar em Nora, não sabia o que esperar dela. Depois de ter ido à delegacia, ele pensou que policiais apareceriam na sua casa, por esse motivo, se escondeu na vizinha. Não iria se permitir confiar tão cegamente em Nora.
Passaram se dias e nada, logo, ele sabia que Nora tinha ficado calada, só não sabia o porquê por trás dos seus atos. Por ter acreditado nele, ou apenas por não querer se envolver com alguém tão cheio de problemas. Não aguentava ficar sem saber de nada, o deixava ansioso, mas não se arriscaria indo atrás dela. Precisava ser paciente.
POV’s Nora
Sonhei novamente com ele, com a noite em que me salvara. Dessa vez o capuz não existia, mas apenas o rosto de Patch. Toda aquela noite obscura foi reescrita, apenas acrescentando seu rosto. Tentei deixar isso de lado, toda essa historia de vingança, incêndio, mas os sonhos não me permitiam isso. Realmente não iria sair da minha cabeça. Encontrar-me com ele era a solução, e faria isso antes das aulas retornarem na próxima semana.
Não sabia se Patch continuava no mesmo lugar depois de tudo o que aconteceu, mas não tinha o número dele, não havia mais onde procurar, era tentar a sorte. Peguei minha mochila e sai.
Meu pai perguntou aonde ia. Apenas falei que daria uma volta. Não perguntou sobre o que e retornou a olhar seu jornal. Seu desinteresse no que eu fazia ou não só aumentava, sua única preocupação parecia ser minha saúde. Algo realmente estava errado com ele também.
Depois de pegar o ônibus, analisei minhas opções. O que faria quando chegasse lá? Perguntaria seus próximos passos, se ele estava bem, se precisava conversar com alguém? Enfim, isso seria resolvido na hora.
Desci duas quadras antes da sua casa para que pudesse chegar sem ser notada. Andei mais uma quadra e me escondi entre umas árvores perto da casa dele. E se o seguisse? Talvez pudesse saber mais alguma coisa.
Deu 14 horas, 16, 18 horas e nada, movimentação nenhuma o dia todo. Ele estaria em casa? Minhas pernas tinham ficado dormentes de ficar sentada por tanto tempo, quando finalmente desisti e decidi ir a casa dele, Patch saiu. Vestia uma blusa sem manga, preta, e uma bermuda tactel azul.
Olhando de longe, notei o quanto Patch era bonito, uma beleza perigosa, sensual, atraente. Lembrei-me da textura da sua pele na minha da última vez, do seu cheiro também.
— Merda! – sussurrei. O que acha que está pensando? Volte a si.
Patch apenas foi até o mercado ali perto, fez algumas compras e retornou para sua casa.
— Deixe de rodeios! Vamos direto ao assunto! – sussurrei depois de mais um tempo de tocaia. Ao me levantar, Patch saiu novamente. Já havia escurecido faz um tempo e dessa vez sua roupa não era de alguém que ia ao mercado da vizinhança.
Usava uma jaqueta jeans preta, por dentro uma blusa também preta com estampa de um triângulo invertido e algumas listras coloridas passando por dentro. Uma calça jeans preta e uma bota também preto. Patch realmente parecia ficar bem em qualquer roupa que vestisse.
Mantive uma distância segura e não parecia que fui notada. O segui por o que pareceu ser quase uma hora. Ele não cansava de andar? Por que não pegar um ônibus ou que seja? Minhas pernas que estavam cansadas de ficar sentada o dia todo, agora doíam de andar tanto.
Ao olhar em volta, notei o ambiente em que me encontrava. Uma rua com várias vitrines e letreiros florescentes, anunciando nomes de casas noturnas. Era uma rua para as pessoas que quisessem farrear, beber e se drogar a noite toda e Patch parou numa dessas casas noturnas.
Fiquei apenas de longe, mas ele não saiu mesmo depois de uma hora. As pessoas passavam por mim com olhares desconfiados e isto me deixou apreensiva. Resolvi entrar e tentar a sorte, não iria descobrir muita coisa só olhando pela janela.
Um senhor estava na portaria, aparentava ser bem velho por sinal. Seria ele um segurança? Se era, me perguntava se conseguiria impedir alguém na força bruta.
— Você tem quantos anos? – quase não tinha mais cabelo e uma barba mal feita. Ele fedia a cigarro e álcool – Menores de idade só com um responsável legal – consegui ver a vibração na porta de metal atrás dele.
— Eu...não vou demorar!.
Sério? Foi o melhor que pensou? Olhei para o lado para recuperar a consciência e tornei a olhar pra ele.
O homem me encarou dos pés a cabeça, demorando bem mais no lugar onde ficavam meus seios. Seu sorriso foi repugnante e fez meu estômago ficar embrulhado.
— O que me garante que não vai aprontar lá dentro pirralha? – me encarou agressivamente.
— Okay – abri minha mochila e peguei minha carteira.
— Acha que só me subornando vou te deixar entrar? – disse contando a grana que dei a ele.
— É isso ou nada! – ofereci uma escolha e foi a pior decisão que tomei. Colocar uma pessoa que nunca vi, contra a parede.
Seu sorriso após pegar o dinheiro me fez perder as esperanças.
— Vaza daqui! Agora! – foi me empurrando pelo ombro – O dinheiro fica comigo, pra aprender a subornar alguém direito! Vamos, fora!
Droga! E agora? Como entraria, ainda por cima não tinha mais dinheiro pra voltar pra casa! Estraguei tudo com minha atitude impensada.
Notei no caminho de volta, que havia uma porta dos fundos. Talvez conseguisse entrar por ela.
Esperei um tempo, até que uma moça de longos cabelos pretos, toda elegante, de salto alto e vestido tubo vermelho com brilho, saiu de lá. Ela parecia estar fumando.
De repente seu celular tocou e prontamente atendeu. O que veio a seguir foi uma discussão dele com alguém. A moça gritava, xingava de diferentes formas possíveis. Comentava sobre a substituta que não chegou e sobre o dinheiro gasto em vão. Culpou a pessoa da outra linha de irresponsável e que não pagaria mais nada. Foi ai que percebi uma chance de passar.
Esgueirei-me pela parede assim que ela se escorou no muro de costas pra porta e entrei rapidamente. A sala parecia um depósito de bebidas, várias caixas colocadas umas em cima das outras. Abri a outra porta à frente que deu para um corredor longo. Segui com cautela até que senti uma mão o ombro.
— Acha que chegar de fininho não vamos saber que está atrasada? – um homem elegante e alto me virou. Seu cabelo castanho enrolado estava com um topete delicadamente penteado ao lado. Usava uma blusa social azul marinha com uma gravata preta e calça jeans azul escuro. Seu rosto tinha traços fortes, maxilar quadrado e olhos verdes marcantes.
— Sinto muito! – tinha acabado de ter uma ideia – Me perdi no caminho! Vim pra subst...
— Eu sei garota! Troque-se logo! – apontou para uma porta a esquerda – Felizmente o uniforme vai ficar curto em você! – ele sorriu – Siga reto aqui e dobre a direita. Depois e só seguir o som! – ele piscou e sumiu pelo oposto da direção que me indicou.
Apressei em entrar na sala. Era um vestiário pequeno e a roupa havia sido pendurada em um cabide.
– Respira e se acalma! Vai dar tudo certo! Está se saindo bem. Vamos entrar no personagem okay? – troquei de roupa e minha coragem da mesma forma que tinha ido vindo com força, foi embora com o dobro dela.
A roupa, se poderia chamar aquilo de roupa, porque quase não tinha pano. Um short/saia preto, o comprimento mal chegava ao meio da coxa. O pano preto parecia ser de couro sintético, e estava muito colado ao corpo. A blusa ia até a cintura, deixando boa parte da barriga amostra, o pano do mesmo tipo, mangas compridas até o cotovelo e um decote em V. Coloquei as meias e felizmente percebi um avental preto com bordados brancos. Continuei com meus tênis, aquele salto era demais e me atrasaria.
No espelho, meu rosto não condizia com as roupas. Olhei o relógio. Se apresse, nada de perder tempo. Soltei meu coque e procurei algum batom no meio daquelas coisas. O único era vermelho demais, não tinha outra escolha.
Após dobrar a direita, o corredor se dividia em mais dois caminhos, mas sabia para onde seguir, o barulho era nítido. Assim que abri uma porta no fim do caminho, um jogo de luzes de diferentes cores deixou a minha visão um pouco desnorteada junto com o barulho extremamente alto. Nem sei como as pessoas conseguiam ficar naquele ambiente.
Lá dentro estava uma bagunça, muitas pessoas na pista de dança se mexendo ao som da batida, nos camarotes também tinha bastante gente, mas não estava uma zona como lá em baixo. Havia um palanque onde o Dj fazia seu trabalho. Notei outras duas meninas com a mesma roupa que a minha segurando bandejas e servindo mesas no andar de cima, talvez o espaço VIP daquele lugar.
Havia um bar à direita, garrafas de bebidas de todas as cores sendo exibidas na prateleira, enquanto isso os barmans misturavam bebidas em coqueteleiras pra os clientes lá esperando.
Revistei com meus olhos procurando Patch, mas o local em que fiquei era bem ruim, muitas pessoas circulando, dançando, sem chances de ajustar minha visão. Havia algumas mesas do outro lado da pista de dança e uma escada ao lado. De lá teria uma visão melhor e menos poluída.
A única passagem era por entre as pessoas, não tinha outro jeito. Respirei fundo e fui em frente. Impossível eles não esbarrem em mim ou pisarem no meu pé. Senti cheiro de álcool e cigarro por todos os lados. As pessoas sorriam e se balançavam ao som da música, seus corpos e suas cabeças se agitavam no ritmo atual. Consegui ver homem se agarrando com mulher, mulher com mulher e homem com homem, sem limites nenhum.
Tentei pedir licença enquanto passava, mas duvidava que conseguissem ouvir algo além da musica. Cheguei ao fim do caminho e dei de frente com a parede, sem saída. Tinha conseguido mudar a minha rota enquanto desviava da multidão, não era possível olhar por cima porque tinham muitas pessoas altas ali.
Respirei fundo e fui enfrentar novamente aquela multidão, até que esbarrei forte nas costas de uma pessoa, quando fui pedir desculpas, notei um aroma familiar. Olhei pra cima e dei de cara com Patch. Meu plano de perseguição tinha acabado de ir por água a baixo.
Ele levantou uma sobrancelha depois de olhar pra minha roupa. Queria saber profundamente o que pensava no momento. Mas não conseguia ler a expressão em seus olhos que mais pareciam duas órbitas escuras.
Quando ia começar a me explicar, Patch me pegou pela cintura. Nossos corpos ficaram praticamente colados. Com a outra mão, afastou o cabelo para sussurrar no meu ouvido.
— Me siga!
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