Me diga quem é você!
16 Santa Rita
Notas iniciais
Anteriormente em ~ Me diga quem é você!
POV’s Patch
Foi difícil levantar da cama. Meu corpo todo doía. Lembrei-me do que havia acontecido, mas estava confuso, tinha flashes da noite passada. Nora estava sentada e dormia encostada na geladeira com a mão queimada. Enquanto eu estava na cama e com todas as queimaduras tratadas.
— Como deixei chegar a esse extremo? – sussurrei perguntando a mim mesmo.
Levantei com um pouco de dificuldade e dor, peguei a sacola de remédio na mesa e sentei ao lado de Nora.
Enquanto tratava sua mão, não deixava de olhar para ela de canto de olho. Nora dormia profundamente. Fiquei cuidando dela por um tempo considerável. Ela havia conseguido isso por causa de mim, era o mínimo que devia fazer. Infelizmente, um toque em uma parte sensível a fez sentir um pouco de dor, ao encarar ela, percebi que estava acordada.
—Me desculpe! – pedi delicadamente.
— Incrível como são os sonhos! – Nora sussurrou – Você me pedindo desculpas. Até me ajudando. Como a imaginação do homem é incrível — ela me olhava atentamente. Franzi uma sobrancelha.
— Será que sua mão é tão firme e macia como esse toque? – segurou a minha mão com a sua que não estava machucada.
— Wow, ela é realmente firme! Será assim mesmo? – perguntou, mas não respondi.
— Nora – tentei dialogar depois de um minuto, mas ela não me permitiu.
— Shiiu, esse é meu sonho, você não pode fazer o que quer aqui! Já eu sim! – sorriu para mim. Um sorriso sereno e doce. Seus olhos acompanharam a curvatura de seus lábios e sorriram também.
Ela começou a tocar meu rosto. Guiando sua mão ao formato de meus olhos, por cima das minhas têmporas. Passou o polegar desde a parte entre as sobrancelhas, seguindo esse caminho, até a ponta do meu nariz. Resisti ao impulso de parar sua mão.
Aquela garota não se tocava que não era um sonho. De repente seus dedos circularam as maçãs de meu rosto, lábios e a curva da boca. Aquilo me deixou tenso, mais tenso que imaginei que podia ficar. Por fim trilhou um caminho pelo meu maxilar.
— Posso fazer um pedido? – antes de abrir a boca ela foi me interrompendo – Affs, você tem que acenar, você deve me obedecer, pois está no meu sonho – ela sorriu e de novo fiquei tenso.
— Você podia parar de me confundir! – ela pediu.
— Estou confusa com tanta coisa e iniciou a partir de você – ela me olhou emburrada e não consegui impedir o leve sorriso no canto da minha boca – Tanta coisa em está diferente e começaram assim que te conheci. Parece que você foi o gatilho delas – ela suspirou e apontou o dedo bem no meu rosto. Nora parecia inconformada, mas não a ponto de odiar.
— Quem é você? Por que você muda alguém como bem entende? Ou desperta sentimentos que não pode garantir e que também não dará respostas? – ela começou a soltar milhões de coisas
— Seus pais não o ensinaram que você não pode chegar à vida de outra pessoa e mexer na estrutura sem assumir a responsabilidade?
— Nora...– estava chocado. Poucas às vezes a vejo falando tanto assim, sem gaguejar, não mostrando ansiedade nenhuma e o mais estranho. Olhando-me nos olhos se desviar com tamanha veracidade.
— Tudo bem. Apesar do que falei, agradeço por isso. Você me fez ser alguém diferente, algo que não estava acostumada porque me traumatizaram. Então como forma de proteção me privei de tudo. Você me mostrou que posso sim, sentir como qualquer um – prosseguiu e vi lágrimas se formando em seus olhos – Para quem estava no fundo do poço, foi como se me jogassem uma corda. Agora é só me agarrar a ela e subir – ela sorriu e as lágrimas caindo pela sua face.
Nora havia passado por tanta coisa. Realmente senti, naquele momento, que meu segredo sobre a cicatriz estava seguro. Talvez devesse contar a ela.
— Nora sobre aquela noite – mas percebi então que ela tinha voltado a dormir. Talvez tivesse melhor do jeito que estava. Tinha que voltar para cama logo, caso ela acordasse de vez.
POV's Nora
— É você! – afirmei e Patch ficou tenso por um momento rápido. Seus olhos tremeram durante poucos segundos.
— Você que me salvou! – suas pupilas cresceram e percebi a expressão “merda, fui pego”, ele abriu a boca para falar algo. Apertei seu pulso – Não adianta me enganar! – ele passou um tempo perdido em seus próprios pensamentos. Sem desviar do meu olhar, deu um suspiro pesado.
— Como você descobriu?
— Então é verdade – perdi minhas forças e meus joelhos fraquejaram. Patch se ajoelhou comigo. Realmente estava certa. Fiquei tão agradecida por ser ele.
Não consegui me impedir de chorar. As lágrimas tomaram conta do meu rosto.
— Obrigada! – pedi soluçando. Ainda segurava seu pulso, e sua outra mão estava em meu braço.
— Você não sabe o quanto estou agradecida. Realmente...eu...obrigada....mui... – encostei a cabeça em seu peito. Senti que seus braços me envolveram. Pela primeira vez, em muitos anos, fui abraçada por uma pessoa diferente. Agarrei sua cintura, enquanto ele envolveu minhas costas. Não sei quanto tempo ficamos assim.
Não conseguia parar de olhar para Patch com gratidão. Ele havia brigado pra me salvar de um estupro, quem sabe, de um homicídio. Estaria eternamente grata a ele.
Assim que sentamos na cama, Patch ficou mais sério.
— Como ficou claro que te salvei aquela noite, então deve ter ficado claro também quem sou eu – ele olhou fixamente nos meus olhos, esperando algo.
Pensei sobre o que disse a conversa com o detetive Basso me veio à mente.
Flashback ON
“- Bem, como posso te explicar essa situação. É um pouco estranho falar sobre isto aqui! — Não sei se você ouviu sobre um massacre que ocorreu em um orfanato chamado Santa Rita — começou e eu passei a me recordar.
— Praticamente todas as crianças foram massacradas e mortas por um criminoso, conhecido como Jev — lembro-me dessa notícia deixou todos desnorteados e compadeceu toda a população. Nenhuma imagem havia sido publicada por questões de respeito.
— Então você quer dizer que...
— Sim, temos indícios de que a quarta pessoa seja ele — não queria o ouvir terminar.
— Que seja Jev! — sussurrou.
Ouvi um barulho da porta da frente, olhei para trás e vi Patch deixando o estabelecimento.”
Flashback OFF
Não tive a coragem de pronunciar o nome. Lembrei-me de quando ele começou a sussurrar sobre crianças. Meu corpo havia ficado tenso de repente.
— Sim, sou o Jev, do massacre do orfanato Santa Rita.
Todo o meu corpo estava em alerta. Lembrei-me do quanto esse caso tinha me chocado. Não só a mim, mas todo mundo. E nesse exato momento o autor daquela chacina estava a minha frente.
— Conheço esse olhar! Não tiro esse direito de você, nem de ninguém. Mas quero uma chance de dizer como tudo realmente aconteceu!
Tudo que podia fazer agora era escutar! Precisava saber se realmente estava no mesmo lugar que um psicopata, mesmo ele não parecendo um.
Apenas acenei com a cabeça.
POV's Narrador
O Orfanato Renascer era famoso por sempre cuidar bem de suas crianças e criar nelas um ótimo caráter. Por isso muitos investimentos nela. Lá, as crianças nunca passavam mais de três anos direto. Sua adoção sempre vinha mediante seu bom comportamento, não importando a idade. Mas parecia que não era assim com todas. Uma em especial não seguiu o mesmo caminho.
Dante chegou bem novo no orfanato, talvez três ou quatro anos. Ele tinha sido abandonado na porta de mercado e foi levado para orfanato.
Era uma criança antissocial, não se relacionava com as outras, sempre ficava em um canto, nem mesmo falava, somente cantarolava baixinho.
Após um ano, um casal mostrou interesse nele e o adotou, mas não passou nem um mês e foi devolvido. Depois dessa primeira adoção, sempre que era adotado, era devolvido logo em seguida. Diziam que Dante não relacionava com ninguém, ficava perambulando pela madrugada, não falava. Por isso achavam que ele era uma criança especial.
Após mais dois anos, Dante fugiu e passou a viver nas ruas por quase quatro anos. Pessoas o encontraram ferido em um beco. Assim que foi tratado, foi encaminhado para outro orfanato chamado Santa Rita.
Ter 11 anos dificultava ainda mais a adoção para ele, e com seu histórico, era ainda pior. Dante nunca teve esperanças em ter uma família, até conhecer uma pessoa.
Patch também havia saído das ruas, mas diferente de Dante, ele estava nas ruas desde que nasceu. Possuíam experiências parecidas de vida e isso fez com que se aproximassem mais e mais. Por ser sempre discriminado no orfanato pelas outras crianças, Dante sofria bastante e Patch sempre o defendia no final. Isso fez com que os dois se isolassem.
No entanto, acontecimento traumático marcou a vida de Dante para sempre. Durante um dia de piquenique, tinham sido levados para acampar em uma montanha. Enquanto faziam uma trilha, algumas crianças fizeram Dante sair de perto de Patch, então se perdeu.
Dante foi esquecido propositalmente por esse grupo de crianças que sempre judiavam dele. Buscando uma saída, Dante perambulou pela floresta a procura de alguém, qualquer pessoa que pudesse o ajudar, mas nenhuma ajuda veio.
Uma coisa Dante tinha medo, era do escuro, isso mostrava que estava só e ninguém ia ajuda-lo, pois ninguém podia vê-lo.
Depois de três dias de buscas, Dante foi encontrado num córrego, todo ferido, alguns realmente graves como uma costela quebrada, sendo levado rapidamente para o hospital. Por não conseguirem encontrar os culpados, e não haver confissões, ninguém foi punido.
Após sua alta depois de alguns meses no hospital, Patch percebeu que Dante parecia o mesmo, mas algo estava errado, pela expressão em seus olhos. Às vezes parecia haver um animal raivoso preso, esperando para sair, não parecia ser o amigo que conheceu. Aquela experiência nunca mais foi comentada, mas Patch sabia que ela estaria sempre viva na memória de seu amigo e que os malditos culpados se safariam dessa.
Depois de serem transferidos, não se passou nem um ano e eles fugiram para viver nas ruas. Não se sentiam bem no orfanato e não tinham esperanças de serem adotados. Foram atrás de guiar suas próprias vidas, juntos.
Infelizmente, nada foi como imaginaram. A vida na rua era difícil sofrida. As noites eram frias e famintas. Muitas vezes tiveram que procurar o que comer no lixo ou implorar em restaurantes por restos. Passaram por muitas humilhações, até que por acidente, Dante achou uma carteira com dinheiro, dinheiro esse que poderia bancar a janta de uma semana. Foi quando eles começaram a roubar para viver.
Eram sempre roubos de carteiras, bolsas, comida. Roubos simples. Mas com o passar do tempo, os dois amigos começaram a pensar maior. E suas vítimas agora eram pessoas ricas, mercados, lojas de conveniência.
Um dia, Dante havia chegado no barraco onde viviam. Ele tinha sangue em suas mãos e uma expressão assustadora em seus olhos.
— O que houve Dante? – Patch perguntou, quando se aproximou mais, percebeu que tinha sangue nas mãos e nas roupas de seu amigo.
— Mas que porra! Diz que isso não é sangue! – mas Dante apenas o encarou com a fúria felina em seus olhos e começou a rir, sua risada era alto e estridente.
— Porra mano. Quer merda você fez? – Patch o sacudiu tentando fazer o amigo voltar a si – Dante, fala comigo, por favor, cara! – seu amigo clamava por respostas.
Dante então olhou suas mãos, seu olhar agora era de medo, assustado e começou a chorar. Patch não sabia o que fazer e acalentou seu amigo. Uma hora as respostas viriam.
Foi a primeira vez que Dante quase havia matado alguém, mas infelizmente não seria a última. Por fim, Dante contou que encontrou uma das crianças que o fizera se perder no acampamento na montanha, o havia reconhecido mesmo depois de grande. Ele não quis entrar em detalhes sobre o que houve, mas Patch descobriu que seu amigo havia espancado quase até a morte.
Para evitarem serem pegos roubando, eles passaram a usar uma máscara com marcas de rachaduras e nomes falsos, Dante ficou como Erenías e Patch escolheu Jev.
Agora Patch não tirava os olhos de seu amigo. Roubar era uma coisa, agora matar, não queria virar um assassino, e nem queria que seu amigo se tornasse também.
Nos roubos, sempre ficava de olho nele, mas percebeu que mesmo os roubos foram se tornando cada vez mais perigosos. Dante não achava mais que era dinheiro o suficiente e queria assaltos maiores. Patch pediu que parassem agora, já haviam guardado bastante. Que deveriam parar, já estavam sendo procurados em todos os lugares.
— Está com medo Patch?
— Sim, às vezes ter medo é mais inteligente do que ser um corajoso burro. Não quero passar minha vida atrás das grades. Não agora que consegui um emprego.
— Aish, você não e nem um pouco engraçado.
— Estou falando sério Dante.
— Não me chame de Dante. Meu nome é Erenías! – falou sério – Okay, okay. Fazemos assim. Mais um, só mais um, mas tem que ser o maior que já fizemos. Depois cada um segue sua vida e você pode enfim viver feliz com a Dabria. Acordo? – Dante estendeu a mão. Patch ficou relutante, mas se seria o ultimo, teria que fazer esse esforço pelo seu futuro e o de Dabria. Trocaram um aperto.
Dante havia preparado tudo, desde o lugar ao que ia precisar, Patch ficou de fora desse planejamento. Dante só o queria no lugar certo e na hora certa.
Seu ultimo alvo, era o orfanato Santa Rita. O diretor parecia guardar uma fortuna lá.
— Mas...
— Surprise – Dante começou a rir – Fiquei sabendo que o diretor guarda uma grande quantia no cofre. Nem imaginaríamos em assaltar um lugar desses né. Parece que nada mudou, então a sala da direção fica no mesmo lugar.
— Mas que merda Dante, porque – mas Patch se viu com um cano em sua testa.
— Já falei que esse não é meu nome – falou com os dentes semicerrados.
Patch então viu a expressão de quando ele saiu do hospital quando jovem. A mesma de quando ele espancou aquela pessoa que tinha ficado no orfano com a gente.
— Okay. Foi mal Erenías – Patch sussurrou, tirando a arma de sua testa com cuidado – Vamos roubar outro....
— Okay, se não quiser ir comigo, pode ficar aqui mesmo – disse Dante destravando a arma – Vou me divertir sozinho – Dante colocou a máscara e seus olhos ainda tinham a expressão de antes. Patch sabia que não podia deixa-lo ir só. Colocou sua máscara, pegou sua arma e saiu atrás dele.
— Vai ser a ultima! – sussurrou por dentro da máscara. Depois de sentir uma leve tontura e uma vertigem, seguiu Dante.
Patch novamente sentiu a vertigem já dentro do orfanato.
— Erenías. Tem algo errado comigo – se sentou na cadeira perto da árvore – Estou me sentindo tonto!
— Relaxa Jev, já fizemos isso muitas vezes. Vamos!
Depois que entraram, Patch desmaiou e Dante começou a chacina no orfanato.
POV's Nora
— Sou inocente de tudo que me acusam! – sussurrou e notei seus olhos quase a beira de derramar lágrimas. Se isso for verdade, ele foi um mero expectador das atrocidades que seu amigo fez.
— Dante colocou meu nome nas paredes com o sangu... – ele se deteve – Foi assim que fui acusado, somente eu, e ele se safou – percebi a raiva em seus olhos – Nunca tinha contado a alguém, mas precisava correr esse risco. E você foi a única, em toda minha vida, que me estendeu a mão quando mais ninguém estendeu – ele falou tudo isso olhando para sua mão.
Lembrei-me de quando ofereci ajuda. Não havia me enganado. Ele realmente precisava. Mas sabia que não podia acreditar em tudo cegamente, tinha que investigar.
— Sei que você pensou muito antes de correr esse risco – comentei – Mas sabe que não posso acreditar cegamente em você não sabe? – perguntei e ele me olhou.
— Você não precisa acreditar em mim, já sabia que isso aconteceria! Era um risco, também não acreditaria logo de cara. Por isso, tome o tempo que precisar.
Patch se levantou, passou as mãos pelos cabelos ainda úmidos.
— Só quero que saiba que não adianta, ninguém vai me prender! Não vou pagar por um crime que não fiz, vou ser julgado pela lei, pelos erros que realmente cometi – ele me encarou.
— Agora acho melhor você ir para casa! – disse sério – Você tem muito que pensar!
Depois que arrumei minhas coisas. Antes de sair olhei para trás.
— Não se esquece de ir ao hospital cuidar melhor das queimaduras. Ou em qualquer lugar! — me virei e fui embora, mas consegui ouvir longe um “Você também!”.
Meu celular tocou enquanto estava no ônibus. Olhei e era o Sr. Mouret.
— Estou à caminho da delegacia!
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