Notas iniciais
Realmente sinto muito pela demora. As provas da faculdade me dominaram. Agradeço à quem acompanha e espera pelos capítulos. Sua espera não será em vão. Então, fiquem com mais um capítulo ( que aliás está grandinho ) e aproveitem. Kissu :*

Anteriormente em ~ Me diga quem é você? ~

POV's Nora

Fui dormir com isto em mente.

Aquela criança do lugar escuro invadiu meus sonhos. Fazia companhia à ela naquela escuridão.

A pobrezinha chorava incansavelmente, escondendo seu rosto entre os joelhos. No entanto, seu choro era baixo, quase uns gemidos, ela parecia estar se segurando para não entrar em prantos. Enquanto, em algum lugar no fundo daquela escuridão, alguém cantava uma canção de ninar familiar.

POV's Narrador.

Eram duas da manhã, em um domingo. Em uma unidade de delegacia, policiais atendiam uma ocorrência anônima.

Dois jovens sentados e algemados de um lado, enquanto no outro lado da mesa, um policial que lhes mostrava uma gravação de CCTV.

Detetive Basso ficou confuso com o caso, e a forma como foi denunciado. Um anônimo deixara um envelope, contendo um pen drive com a gravação da CCTV e um bilhete direto, com um recado impresso.

" Tentativa de estupro! Endereço dos culpados segue abaixo! ".

Basso ficou receoso, pois a quantidade de trotes haviam aumentado esse mês, porém, não podia ignorar uma denúncia. Seguiu a pista e os dois a sua frente eram justamente os que apareciam no vídeo que assistia no momento.

Pobre moça! Deve ter sido a pior experiência que teve na vida. Sozinha com aqueles brutamontes. Talvez deva estar traumatizada ou até pior que isso. Agora uma lembrança horrível vai atormenta-lá.

— Então, vocês ainda vão negar o crime? — Basso perguntou. Os suspeitos trocaram olhares nervosos.

— No vídeo vocês claramente tentavam estuprar uma garota. Vão negar? — Basso aumentou seu tom de voz.

— Ele deveria aparecer no vídeo esse desgraçado — gritou o moreno — Vocês sabem quem é! — apontou para todos — Vocês sabem! — agora estava sussurrando, mas demorou a pronunciar o que pensava.

— Jev! — engoliu em seco — Aquele assassino frio que matou todas aquelas crianças do orfanato.

Quando esse nome foi pronunciado, Basso enrijeceu na cadeira. Esse nome era uma cicatriz, um carma de muitos policiais e lhe trouxe memórias não tão agradáveis.

— O que você quer dizer com isso? — detetive perguntou sério.

— Jev apareceu! — falou com medo na voz.

— Como você sabe que era ele? — ele podia estar mentindo, pensou o detetive.

— Usava a máscara — começou — Aquela preta! Rachada de um lado ao outro — sua voz tremia — Porra, era ele okay! — o outro com a tribal no braço interviu. Pareceu nervoso e apreensivo. Não era por nada, os dois podem ter dado de cara com um assassino frio.

— Me conte o que aconteceu. Tudo desde o início!

O amigo olhou para o outro, com um olhar duvidoso.

— Já estamos em cana mesmo. De graças por estarmos vivos! — resmungou Kelvin — Quando tentávamos abusar da garota lá, ele apareceu. Não reconheci de primeira porque ele usava um capuz — continuou — Acertei um chute derrubando ele — então começou a deixar o tom de voz mais baixo — Foi aí que o capuz dele caiu...e eu...vi, vi a máscara. Depois disso, apenas peguei Sean e corri para longe!

— Então, Jev apenas chegou batendo em vocês, sem motivo algum? — falar seu nome lhe dava arrepios.

— Claro, que motivo melhor que esse! Só se ele quisesse foder a garota também! — Basso olhou-o com repugnância e Kelvin baixou a cabeça.

— Obrigado pelos depoimentos. Levem eles policial Thompson! — detetive ordenou.

— Mas isso vai reduzir nossa pena não é? — Kelvin perguntou e o Basso lhe mandou um olhar frio.

— Nenhum dia a menos. Vocês vão pagar com juros pelo ato que vocês cometeram! — Basso grunhiu.

— Droga! — sussurrou Sean para Kelvin — Pelo menos devia ter fodido a garota logo! — ouvindo isso, Basso se levantou e foi em direção a eles.

— Repita isso desgraçado! — tentou avançar para bater neles, mas dois policiais o seguraram.

— Lixos da sociedade! — resmungou sentando novamente e voltou a dar play no vídeo.

Olhou atentamente, principalmente no horário. Às 21:32, ele cercaram a vítima no beco e às 21:37, começaram as violências. Quando deu 21:45 Kelvin que estava em cima da vítima, olha para trás, depois o vídeo pula e Kelvin já aparece carregando Sean, às 21:54. Depois o vídeo falhava de novo, já às 22:13, quando um jovem chega de moto para ajudar a moça e depois chamar um ambulância. Ou seja, o vídeo havia sido adulterado. Agora resta saber se é porque realmente Jev aparece nele. Seria aceitável visto que ele não deveria aparecer. Mas, quem será que deixou isto aqui, foi a vítima? Ou pior, a vítima pode estar a proteger Jev? Mas não há sentido nisso! Por que proteger um assassino? Talvez esse seja o preço por ele ter atrapalhado a tentativa de estupro e a vítima se sentiu agradecida. Mas se não foi ela, quem pode ter deixado o envelope? O detetive pensou com cuidado, até chegar numa conclusão. Não poderia ter sido, ou poderia? Seria tão audacioso assim?

— Policial, me traga agora todas as gravações de CCTV de dentro da delegacia, de fora e das redondezas num perímetro de 70 metros também! — talvez o palpite fosse maluco. Mas esperava realmente estar errado quanto a isso. Isto estava longe de acabar.

— Você não se arriscou só para denunciar esses estupradores, não é? — detetive Basso mordeu o lábio inferior enquanto parecia estar imerso em pensamentos.

POV's Patch

Sentado em uma cadeira, o cheiro de sangue e fumaça no ar eram bem fortes. Abri meus olhos e me deparei com uma visão grotesca a frente.

Uma criança com os olhos vidrados na minha direção e o peito repleto de sangue. Ao levantar minha cabeça, fui que reparei todo o cenário. Outras crianças, todas mortas de maneiras inimagináveis, horrendas. Andei pelo lugar que estava em chamas, rastros de sangue, lutas, em todos os cômodos do orfanato. Crianças sentadas no sofá, degoladas enquanto a tv estava ligada. Adultos e crianças com a cabeça sobre a mesa com furos de bala. Comecei então a ter flash de crianças gritando, adultos gemendo de dor e agonia, pedidos de socorro. Passei em frente a um espelho, logo me deparei com algo abominável. Meu rosto coberto por aquela máscara preta, que me era tão íntima. Ela continha marcas de mãos pequenas ensanguentadas, uma mão proporcional a de um bebê.

O desespero me invadiu por completo. Gritei enquanto tentando tirar aquela coisa do rosto, mas ela parecia estar colada. Sentia as lágrimas descendo por minha face e o choro sendo abafado pelo choro das crianças, de repente meu corpo todo gritou de dor ao sentir algo quente tocando minhas costas. Me ajoelhei de dor. O cheiro de pele queimada foi a última coisa de que me lembro.

Abri meus olhos.

POV's Nora

Me arrumava para ir ao trabalho, e sem perceber, cantarolava aquela canção de ninar. A mesma que aquela mulher cantava e coincidentemente a do sonho. Minha cabeça começou a doer só de lembrar. Algo não parecia estar certo.

Varri esse pensamento e me concentrei no cabelo. Fiz um rabo de cavalo normal e peguei minha mochila.

Meu pai já havia saído de casa, peguei apenas uma torrada e fui comendo no caminho para a parada de ônibus. Não podia esquecer de falar sobre meu check-up ao Sr.Mouret. Porém, ainda me sentia envergonhada do ocorrida naquele dia, só de lembrar como fui grossa afastando-o quando tentou me ajudar, deu vontade de enfiar minha cabeça em um buraco, ou melhor, me jogar toda dentro dele se possível fosse. Mas de uma coisa tinha certeza. Iria me desculpar apropriadamente pelo ocorrido.

No ônibus, uma mensagem havia chegado ao meu celular, o bip me avisou.

" — 9:23 am — Tenha um ótimo dia e começo de semana! :* ".

Aquelas coisas no final da mensagem me deixando nervosa, por não saber do que se tratava.

" — 9:24 am — Obrigada! Para você também :* -". Enviei, mas me arrependi por ter colocado aquilo. Passei a mão no meu rosto.

— Aish! Não faça mais isso — desliguei o celular e guardei.

Por que estou agindo assim?

" Poxa, o cara te salvou ingrata, quer razão melhor que isso? Se não fosse ele ter feito a decência de garantir que o celular chegasse nas mãos do dono, sabe-se lá o que teria acontecido!".

Um tremor passeou pelo meu corpo, tinha medo só de imaginar. Limpei meus olhos que já tinham ficado marejados.

Ao chegar, tratei de chamar logo o Sr. Mouret pra conversar lá nos fundos.

De frente com ele, não havia falado nada, mas minhas mãos já davam sinal de nervosismo.

— É...me...me des...- vamos Nora, você consegue — Queria me desculpar...por aquele dia — respirei mais um pouco e o encarei — Sei que o senhor estava tentando me ajudar! —

Sr.Mouret apenas me retribuiu um sorriso.

— Sei que você não o fez por querer, não é do seu feitio, você deve ter passado por algum problema. Vou estar aqui para o que você precisar, um ombro amigo, um conselheiro, até um tio! — após isto. Meu coração se sentiu um pouco mais calmo. Senti vontade de dizer a ele o que havia acontecido comigo.

— Eu...- não posso dizer a ele. Não posso fazer com que ele tenha direito de se preocupar comigo. Não é obrigação dele, nem de ninguém — Estou bem. Só estava cansada! — ele pareceu decepcionado, mas sorriu logo em seguida.

— Tudo bem. Saiba que estarei aqui para qualquer coisa — então ele voltou para a cozinha. Respirei bem fundo, como se tivesse ficado horas sem respirar.

O restaurante não estava tão cheio, o movimento era um pouco fraco, então passava a maior parte do tempo em pé lá na frente, com bandeja em mãos. Meu olhar permanecia fixado nas folhas das árvores balançando por causa da brisa. Fechei meus olhos e me permiti senti-la. Ela passeou sobre meu rosto.

Talvez eu devesse parar de trabalhar? Isso tudo que está me deixando estável. Arranjei problemas com outras pessoas, e estou mergulhada em seus problemas também. No entanto, ele está sendo de grande ajuda para meu pai, que agora não precisa ficar fazendo horas extras todos os dias. Devo fazer sacrifícios para um bem maior.

— Você pode fazer isso. Você deve! — sorri.

— Fazer o que? — Patch perguntou, abri meus olhos imediatamente e ele estava bem na minha frente, em uma distância muito perigosa. Soltei a bandeja de susto. Mas ele foi rápido suficiente a pegando antes de cair, isso fez com que tivesse que se aproximar mais, senti a rajada de vento que veio com o cheiro da sua colônia. Dei um passo para trás.

— Não...é nada demais! — disse olhando para a bandeja em suas mãos.

— Entendo! — falou mas não pareceu convencido — Precisamos de ajuda lá dentro. Pare de ficar viajando em pensamentos! — disse me entregando a bandeja.

Você consegue Nora. Sempre consegue.

As 16 horas falei com o Sr.Mouret sobre minha saída para o hospital. Ele perguntou o que acontecia comigo, apenas disse que iria buscar uns exames de rotina e me consultar sobre eles com o médico. Por fim ele disse tudo bem e que me veria no outro dia.

Senti os olhos de Patch em mim quando arrumava minha coisas no vestiário para sair. Talvez devesse dizer a ele que seu segredo ficaria seguro comigo, para ver se o deixava mais confortável. Deve ser difícil alguém descobrir algo de você, que é muito, extremamente íntimo. O pior de tudo foi perceber que acabei de demonstrar preocupação por causa dele. Sem perceber, já tinha pensado em várias maneiras de falar isso para ele.

— Você vai aonde? — Patch perguntou enquanto mexia em algo na sua mochila. Sua pergunta me pegou de surpresa, assim como quase tudo o que ele faz ou fala.

— Ao hospital! — respondi com a voz trêmula. Peguei minha mochila e fui caminhando para a saída.

— Você está bem? — perguntou. Meu coração começou a bater rápido por causar de sua pergunta e principalmente porque senti seus olhos me avaliarem, quase como se estivesse me tocando.

— É....es...estou — tremi novamente ao responder — Então... — acenei com a cabeça e literalmente andei muito rápido. Quanto mais rápido saísse de lá, melhor.

Lá fora, coloquei a mão em meu peito. Por que ele continuava a bater rápido. Meu medo era tão grande assim? Se eu não contasse nada, ele não faria nada. Então por que meu coração continua batendo de tão nervosa? Será outro efeito colateral dos remédios? Ainda bem que os trouxe para mostrar ao doutor. Preciso esclarecer o que há de errado comigo.

Foi difícil estar naquele lugar novamente. Me trazia sensações daquela noite. Calafrios subiram por minha espinha. Não eram sensações que eu estava feliz em rever.

Após falar com a enfermeira da recepção, ela me guiou para fazer uns exames. Não demorou os resultados estarem prontos para que levasse ao doutor.

Enquanto analisava os resultados com muito cuidado, o Dr. Steve falava comigo.

— Então Sra. Grey a primeiro momento não parece haver nada fora do normal nos seus exames. Tem algo mais que queira dizer — ele ajeitou seus óculos de grau e fez um gesto para que falasse.

Me sentia nervosa demais. O ambiente, o cheiro, ele a minha frente e como me encarava esperando que eu dissesse algo. Respirei fundo e peguei os remédios da bolsa, deixando-os em cima da mesa.

— Eu...queria saber...se...se já posso parar de tomar e...e...esses remédios — falei gaguejando.

— O que tem errado? — perguntou sem excitar.

— Estou sentindo...umas... coisas. Acho que...é efeito colateral...deles! — disse olhando para os remédios.

— Continue! — sentia seus olhos em mim, e de vez em quando escutava o barulho da sua caneta escrevendo no papel — Diga todo o tipo de sintoma que você acha que é do remédio!

— Bem...- então pensei em tudo que estava fora do normal — Sinto náu...seas, sinto muito...calafrio, fico nervosa...muito fácil. Até minha emoções estão diferentes. Não estou agindo como normalmente ajo. Choro sem querer...nervosa também. Isso está me deixando maluca, porque quero voltar a ser como era antes — tudo me afetava de uma forma como se fosse um alvo ambulante, pronto para ser acertado — Fico ansiosa quando chegam perto de mim. Reclamo de coisas sem sentido algum. Tenho sonhos esquisitos. Só quero voltar à antes! — terminei percebendo que estava ofegante. O que me deu para dizer tudo isso!

— Você...viu?É assim que funciona! — ele estava terminando de anotar e uma das mãos me ofereceu um lenço. Quando viu que demorei a pegar, disse algo.

— Vamos. Enxugue seu rosto! — ele balançou para mim. Foi então que percebi que chorava. Lágrimas penduradas em meus olhos esperando apenas um piscar para caírem, e foi isso que tiveram. Limpei rapidamente antes que ele olhasse para mim novamente.

— Olha Sra.Grey, não há nada de errado com os remédios, no entanto não é necessário você os tomar mais. Porém, vou prescrever um para sua ansiedade — enquanto ele escrevia, fiquei pensando. Como assim isso não são efeitos do remédio. Então o que é?

— Por fim, quero que vá toda sexta-feira nesse endereço, há um grupo de pessoas que passou pela mesma situação que a sua. Isso vai te ajudar a superar.

O quê? Grupo de ajuda?

— Quero que vá ao psicólogo do hospital! Você tem sintomas de ser uma pessoa anti-social, seriamente tímida e com bloqueio emocional, mas isso são apenas hipóteses. Aliás acho que está vivendo um momento pós-traumático. Isto está te afetando negativamente, não é bom para seu psicológico. São problemas sérios que requerem um cuidado especial, principalmente no seu caso, após o trauma por qual passou, isso pode — enquanto ele falava, minha mente viajou e não ouvi mais nada. Olhei para o Dr.Steve e só via sua boca mexendo, mas nenhum som era emitido. Nem mesmo conseguia ouvir minha respiração.

Então tudo isso, é por causa de bloqueio emocional? Tem haver com o estilo de vida que decide seguir após o abandono? A forma que escolhi me proteger, agora está me atacando? Então o que eu faço agora? O que? Não quero voltar à sentir a ser como antes.

— Vou marcar uma consulta com um especialista! — finalizou e me passou a papelada toda — Você está bem Sra.Grey? — perguntou e vi sua mão indo em direção a minha que encontrava-se na mesa, mas tirei antes de ele me tocar.

— Obri...bri...gada! — então sai ocorrendo. Para qualquer lugar.

Só uma coisa me passava a mente enquanto lágrimas insistiam em descer.

Estou quebrada em pedaços.

Notas finais
Então. O que acharam? Outra trama foi inserida e que será desvendada ao decorrer da história. Muitos devem estar confusos, mas tentem ir até o fim desse labirinto. Até mais e não deixem de comentar. É bem importante para mim ;)