Notas iniciais
Saudades de quando estava tudo bem... No momento que tô escrevendo agora só tem treta.

A mobilização foi grande. Não queríamos qualquer roupinha, óbvio. Foram muitas discussões sobre ela. As meninas queriam usar saia, mas a Yumi as convenceu. Usar saia era coisa de Princesa, não de Corvo. Sairia mais caro, atrapalharia os movimentos, só serviria mesmo para ser bonitinho. Além disso, um de nossos objetivos era desconstruir o conceito que o senso comum tinha do Cheer.

Depois de decidir pelo short, elas pensaram na blusa. Curta, como manda a tradição… o que pegou mesmo foi as mangas. Algumas queriam sem mangas, outras achavam as mangas compridas bonitas. A Yumi disse que as mangas muito compridas poderiam atrapalhar em movimentos que exigiam conexão entre mãos. Optaram por mangas até o cotovelo.

As cores seriam o padrão da atlética: predominantemente preto com detalhes em laranja e vermelho. O laço e os meiões seguindo o mesmo padrão, com tênis pretos. Para os meninos, blusa sem manga e bermudas, com as mesmas cores.

A estratégia pensada para economizar (principalmente o tempo, já que eram só duas semanas) foi não pedir as blusas e os shorts imediatamente, mas usar shorts pretos e ficar com as jaquetas da atlética por cima de uma blusa qualquer. Como ela era lisa atrás, daria para estampar futuramente para fazer parte do uniforme. Uma vantagem era que alguns já tinham, e alguns decidiram comprar por conta própria. Ficamos, então, dependendo dos laços e meiões. Sendo só isso, seria barato, a atlética poderia pagar, mas precisávamos ir juntando dinheiro para o resto.

Para arrecadar o dinheiro, fizemos diversas rifas, vendemos doces, fomos até no sinal pedir moedinhas. Enquanto isso, fomos fazendo o orçamento dos tecidos, da costureira e do bordado, mostrando os desenhos dos uniformes e fizemos o pedido urgente dos meiões. Além disso, compramos os shorts, bermudas, tênis e jaquetas para quem não tinha, e os materiais dos laços. Fizemos alguns dias de oficina para produzir os laços bem caprichados. A compra dos brilhos da maquiagem ficou para a última hora.

No dia, demos carona na Ranger para quem não tinha como ir. As meninas estavam purpurinadas, com os laços gigantes no topo de um rabo de cavalo bem alto. As jaquetas fechadas davam ar de mistério.

Sentamos todos juntos na arquibancada, dispostos a dar tudo de nossas gargantas para mostrar que estávamos ali para torcer, como bons cheerleaders. Esperamos o começo da apresentação com expectativa, já que era nosso primeiro contato com o esporte de maneira tão real. Foram só 15 minutos de atraso.

O apresentador já começou animando a galera. Falou sobre como aquele dia era especial e blá blá blá. Foi gerando expectativas com os nomes das equipes a competir.

— Vocês estão prontos para uma competição de arrepiar? Espero que estejam, porque temos muita coisa boa hoje. Serão quatro equipes competindo! As Abelhas da Universidade Sogang! As Lupinas da Faculdade de Direito de Seoul! As Perigosas da Universidade Konkuk! E as Princesas da Engenharia da SNU!

Os nomes causaram animação das torcidas respectivas. A galera que não estava torcendo para ninguém em específico (tipo a gente, torcendo para Tudo-Menos-Monarquia) gritou para os anúncios de todas as equipes.

— Mas, antes, queremos registrar também a presença do time Corvos da SNU que está em formação — gritamos mais do que nunca. Não sabíamos que iam anunciar! — As Corvos vão fazer uma demonstração do que estão preparando para a próxima competição, em instantes!

— Como é que é? — perguntou Namjoon, indignado. — Como colocam a gente na programação sem avisar?

— Que droga! Bem que a Wendy falou que a gente devia ter preparado alguma coisa pro caso de darem a oportunidade — murmurou Yumi.

— Então… Acontece que nós… Preparamos.

— Prepararam o quê, Wendy? — perguntei, curioso. Elas nem falaram nada!

— Umas danças. A capitã das Princesas tinha comentado, assim como quem não quer nada, que talvez rolasse uma oportunidade, mas não achei que fosse assim também. Ela disse tão avulsamente que achamos que fosse só provocação, mas achamos melhor prevenir. Trouxemos até o pendrive com o mashup.

— Cheer Mix — corrigiu Yumi.

— Não, não, mashup — disse Tzuyu. — Isso não tem nada a ver com Cheer. É só dança.

— Acho bom deixarem isso bem claro — acentuou Namjoon. — Tudo o que não precisamos é que pensem que seremos um mero grupo de dança se achando o time de Cheer.

— Nós vamos — disse Wendy. As outras meninas já se levantavam. — Pode deixar.

Foram alguns minutos. Elas desceram — todas as meninas, exceto Yumi, Soohyun, Somin e Jiwoo — e foram no DJ levar o pendrive. Tzuyu pegou o microfone.

— Annyeonghaseyo. Nós somos as Corvos. Como foi falado, nosso time começou os treinos há pouco tempo, e ainda estamos nos preparando para ter o nível necessário para competir. Mas achamos muito gentil da parte da Organização nos ceder um espaço para que vocês nos conheçam e já comecem a se acostumar com nossos rostinhos, para quando chegarmos de verdade, vocês já saberem quem somos. Hoje a apresentação vai ser só de dança, mas em breve traremos o Cheerleading do jeito que vocês merecem.

Houve muita animação entre a fala dela e o posicionamento. As letrandas foram para o centro da quadra, Wendy com o megafone. As outras meninas se espalharam mais atrás, seis de cada lado. A música começou, mas parecia bem baixinho. Wendy ligou o microfone.

— Sometimes you gotta be bold! Just rock the world!

— Boo-yah! — gritaram todas, logo antes de começar um lalala.

As meninas fizeram sua dança agitando a galera. Fiquei impressionado com a gravação que elas tinham pronta. A coreografia era uma graça, cheia de energia. Depois de um minuto e meio, eu acho, a música mudou e as meninas de Ciências foram para a frente. A coreografia era simples, mas pareceu mais sólida. A música mudou e tornou-se bem mais calma. Nessa hora, as letrandas estavam na linha de fundo, as de Ciências na frente e as de Artes em blocos de três, dois nos lados e um atrás. Os blocos rotacionaram durante a música, cada hora um ficava na frente. No refrão, elas estavam em formação V. A letra não poderia ser mais perfeita.

Depois da apresentação, a Wendy foi para o microfone e fez toda a apresentação do conceito da atlética e do time. Enquanto isso, nós que estávamos na plateia já entendemos tudo e fomos descendo para a quadra.

— A Corvos é a atlética geral da Seoul National University, e foi formada a partir da junção de cinco atléticas que já existiam no câmpus: Camaleões, referente aos cursos artísticos Belas Artes, Letras e Música; Rinocerontes, referente ao curso de Administração de Empresas. Corujas, referente aos cursos humanísticos Estudos Liberais, Ciências Sociais e Ciências Humanas; Selvagens, referente aos cursos de natureza Ecologia, Ciências Naturais e Agricultura; e Cobras, referente aos cursos da área de saúde, que são Enfermagem, Medicina, Medicina Veterinária e Farmácia. O Corvo foi escolhido como símbolo a partir de dois fatores. O primeiro deles foi a união das iniciais das atléticas originais em inglês. O segundo foi um conjunto de características que o Corvo possui: um, ser uma ave, pois os idealizadores acreditavam, assim como nós acreditamos, que a união nos levará mais alto; dois, a inteligência, já que o desenvolvimento intelectual é algo que esperamos dos alunos de uma faculdade de tal porte; três, o comportamento social, já que os corvos se aglomeram em gangues durante a juventude, até encontrarem seu par. Acreditamos que a união com aqueles que estão passando pela mesma fase que nós é a decisão mais prudente e natural. A escolha da cor principal veio da cor natural do corvo, o preto. As cores extras foram selecionadas de forma a não escolher nenhuma cor que fosse de uma das atléticas anteriores, a fim de não transparecer preferência. Desta forma, como o roxo dos Camaleões, o azul escuro e o cinza dos Rinocerontes, o branco e o azul claro das Corujas, o amarelo dos Selvagens e o verde das Cobras foram eliminados, escolhemos o laranja e o vermelho, que contrastaram bem com o preto inicial. Acreditamos que nossa atlética, uma atlética geral repleta de simbologia, tem tudo para ser a maior da cidade. E não poderia faltar um time de Cheerleading para completar isso. Hoje, trouxemos uma pequena performance de dança para que vocês comecem a se familiarizar conosco, mas estamos nos preparando para trazer esse esporte do jeito que ele merece. Gostaríamos de encerrar nossa participação com uma música que foi feita pelo nosso capitão e se traz um pouco do que queremos dizer. Com vocês, Baepsae.

Notas finais
Isso foi muito filminho-de-musical-de-adolescente mesmo...