Me chamam de Corvo (Bulletproof)
9 Convivência
Notas iniciais
Aproveitamos o sábado de manhã para voltar em todas as lojas onde tínhamos garimpado coisas boas por preços razoáveis. Compramos algumas roupinhas, poucas porque sabíamos que era um presente bastante comum. O mesmo para os sapatinhos. Encomendamos o berço branco com rosa e compramos materiais para pôr em prática alguns DIYs que já tínhamos pesquisado. Nossa estratégia para economizar e personalizar era fazer os artigos de decoração. Nossos fins de semana passaram a ser dedicados a isso. Bom, mais ou menos… Preferimos deixar o Namjoon fazendo outras coisas, porque ele não se deu muito bem na montagem do berço. A expectativa para a chegada da nossa Princesa-Corvo era grande, mas também tinha o Champions Cheers. Estávamos treinando quatro vezes durante as aulas, e treinamos todas as tardes nas férias. A cada semana, a rotina parecia tomar forma, assim como a barriga da Yumi.
Naquele fim de noite, eu e Namjoon estávamos fazendo o jantar. Eu queria a Yumi em repouso total dentro de casa, já que ela não parava quieta nos treinos. Ela estava sentada na sala assistindo a um dorama. De repente, ela disse.
— Tá mexendo, Jin.
Eu tinha pedido para ela avisar. Às vezes ela falava na sala de aula ou comentava que tinha acontecido no trabalho. Nunca quando eu podia sentir, e eu queria sentir. Resultado? Larguei as panelas por conta de Namjoon e corri enquanto ela levantava. Coloquei a mão na barriga e senti os chutes. Foi como se, pela primeira vez, eu conseguisse acreditar que tinha uma pessoa dentro dela. Pela primeira vez, minha filha me dando sinal, como se dissesse “Eu existo, papai”. Eu ri como um bobo.
— Tá mexendo — eu repeti, como se ainda precisasse de algo para acreditar. — Ela parece ser linda.
Yumi riu.
— Isso não faz sentido. Todos os jogadores de futebol são feios.
Eu olhei para ela, ainda com as mãos em sua barriga. Yumi podia ser a desgraça da minha vida, mas continuava sendo a menina mais bonita que eu conhecia.
— Eu acho que ela vai puxar você.
Voltei minha atenção para a coisinha dançante.
— Sunghee — recitei. — Eu acho que estou apaixonado.
— Por ela?
— Não só por ela — admiti, olhando nos olhos de Yumi.
Como um alarme, assustou-nos o barulho do prato caindo no chão.
— Droga — murmurou Namjoon, meio sem graça. — Eu vou pegar uma vassoura.
Observamos silenciosamente enquanto ele subia as escadas para o andar superior, que era um grande nada com poucos móveis reciclados.
— A vassoura está no banheiro — sussurrou Yumi. — Vai falar com ele.
— Que a vassoura está no banheiro? — perguntei. Eu estava brincando, sabia que não era isso. Também tinha sentido que Namjoon estava estranho, mas não entendi o que eu tinha que fazer.
— Claro que não! Ele está incomodado com o que você disse.
— Mas eu não disse nada demais.
— Para ele talvez tenha sido. Tem que conversar com ele, agora.
— Mas…
— Agora, Jin.
Eu sorri.
— Você já está agindo como uma mãe — eu disse, enquanto ia para a escada.
Subi silenciosamente e o encontrei na janela, olhando para o horizonte. Fui para o lado dele.
— Cadê a vassoura? — eu perguntei, depois de alguns segundos.
— Eu… Eu não achei. Então decidi olhar um pouco a paisagem.
— Ah, tá. Por que você tá com essa cara?
— Sei lá… Eu quebrei o prato, eu não sei fazer nada direito.
— Namjoon, se você fosse ficar desse jeito toda vez que quebrasse alguma coisa, você viveria assim. Você está chateado com o que eu disse pra Yumi?
— Eu? Eu não tenho nada a ver com o que você diz ou deixa de dizer para a Yumi, tenho?
— Olha pra mim, então. Olha pra mim e diz que não tá incomodado.
Ele olhou pra mim.
— Eu só acho que uma pessoa que cai em um buraco fica esperta. Pode até cair em outro buraco, mas cair no mesmo é burrice demais.
— Você está me chamando de burro? — perguntei, incrédulo, e ele voltou o olhar para fora. — Eu achei que os corvos fossem inteligentes.
— Talvez você não seja um corvo.
Eu hesitei. Tinha aceitado ser chamado de burro no calor do momento, principalmente porque eu sabia que ele estava errado. Mas dizer que eu não sou um corvo?
— Eu sou sim — eu disse, como o contrário fosse um absurdo. — Eu sou um corvo inteligente, e não estou caindo em buraco algum. Não sei de onde tirou isso.
— Nossa, ele não sabe de onde eu tirei isso. Não foi porque eu ouvi da sua boca na minha frente.
— O que eu disse?
— Você disse que está apaixonado por ela. Se isso não é cair duas vezes seguidas, eu não sei o que é.
— Eu não disse que estava apaixonado por ela.
— Disse que não era só pela Sun.
— É, eu disse isso. E eu ia dizer, antes de ouvir um prato se espatifar, que eu estou me apaixonando pela mãe que Yumi será. Ela foi uma namorada horrível pra mim, mas foi uma boa namorada para Jungkook, e eu sei que ela será uma mãe maravilhosa para a Sunghee. Estou encantado com tudo isso, Namjoon. Nós vamos ter um bebê, isso é incrível.
— Você vai ter um bebê. Porque você quis.
— Se o Jungkook estivesse vivo, nós teríamos um bebê. Isso porque éramos unidos, graças à sua liderança. Eu tenho certeza que os sete se revezariam para trocar fraldas e coisas do tipo, porque é o que sempre fizemos. Só que agora o problema é só meu.
— Você sabe que não. Sabe que eu vou ajudar, como sempre ajudei.
— Ter problema com a mãe não ajuda em nada, tá?
— Não tenho mais problema com ela. Tenho problema com vocês dois juntos. Eu não quero… Eu não quero que aconteça de novo. Eu não tenho forças pra te ver cair de novo.
— Eu não vou. Não tem chance disso acontecer. Eu não caí porque ela me derrubou, eu caí porque eu sou frágil. Quer dizer, eu era frágil. Depois que eu passei perto da morte e, principalmente, depois que eu perdi os meninos, aprendi a dar valor às coisas que eu tenho. É um grande privilégio estar vivo. É maravilhoso ter a vida que eu tenho. Trabalho na Big Hit, faculdade de música, o time… E você. É uma honra ainda ter você. Não posso abrir mão disso. E nós vamos ter um bebê. Ainda tenho essa responsabilidade, não tem como eu deixar isso de lado. E de qualquer jeito… Não tem chance de eu me apaixonar por ela de novo. Eu a vejo como uma irmã mais nova. Eu não vejo nossa vida sem ela, mas não tem a ver com paixão. Ela se tornou parte do que estamos vivendo.
Namjoon ainda olhava para o lado de fora.
— Olha pra mim — pedi.
— Mas que saco! Você não sabe conversar sem contato visual?
Eu consegui rir no meio daquela tensão toda.
— Deixa de ser teimoso e olha pra mim, Kim Namjoon.
Ele virou o corpo de lado com toda a má vontade.
— Eu não vou deixar você. Você pode ter certeza disso, tá?
— Tá — disse ele, sem convicção, mas eu sabia que era só porque ele estava se fingindo de bravo.
— Vamos fazer um acordo então? Um acordo de mindinho.
— É promessa de mindinho, hyung.
— Que seja — eu disse, estendendo o mindinho. — Anda — ele enroscou o mindinho no meu. — Eu prometo que não vou te deixar.
— Prometo que não vou te deixar.
— Obrigado por agir como criança e me proporcionar um bom treinamento para a paternidade.
Namjoon riu como se eu fosse ridículo.
— E vamos comer que eu tô com fome — ordenei, já iniciando o caminho.
— Se a comida não tiver queimado — acrescentou.
Mas a comida não tinha queimado. Yumi estava na cozinha encerrando o jantar, ao lado de uma pá cheia de cacos.
— Aish, por que você faz isso? O Jin Hyung pediu repouso absoluto.
— Alguém tem que consertar as doideiras de vocês.
— Vai sentar, vai, fazendo o favor — ordenou Namjoon, gentilmente conduzindo-a para o sofá. — E depois de comer vai deitar.
— Vocês são tão exagerados… — murmurou Yumi.
— E ela reclama, ainda. Não é absurdo, Jin Hyung?
— Não sei qual dos dois é mais infantil.
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