Me chamam de Corvo (Bulletproof)
18 Ah, miserávi
Notas iniciais
Estava tremendo e suando quando acordei. Demorei só três segundos para virar pra Namjoon e começar a balançá-lo com todo meu desespero.
— Namjoon! Acorda, Nam!
— Que foi? — resmungou ele, enquanto eu ainda o chacoalhava com força. — Aish, me deixa dormir!
— Não tem essa de dormir! Eu preciso ter certeza de que ninguém tentou te matar!
— Que história é essa, hyung?
— Você nem viu o sequestro! Nem viu que a gente ganhou… Será que essa porcaria foi sonho também?
Fui atrás do meu celular. Abri o aplicativo do banco e entrei na conta. Voltei correndo pro quarto e praticamente esfreguei a tela do celular no rosto do Namjoon, que estava vivo, só com sono.
— Olha aqui, amor! Quarenta mil wons! Eu disse quarenta mil wons, você tá vendo?
— De onde veio isso, Jin?
— Longa história. Vou fazer um café pra você acordar direito e aí te conto.
Namjoon demorou algum tempo para aceitar os acontecimentos da madrugada. A pior parte do sonho é que eu achei que a faxina estava toda encaminhada, mas tive que fazer “tudo de novo”. Depois de contar para ele durante o café, coloquei o sling “de novo” (foi bem mais difícil que no sonho) e fui dar um jeito na casa, enquanto ele saía para a Big Hit. Mais tarde, teria faculdade.
Eu recebi uma ligação do meu tio, preocupado comigo, perguntando se eu estava bem, e eu o tranquilizei. Não contei nada sobre a bondade dos sequestradores, e não tive nenhum remorso de ficar com o dinheiro dele. Depois disso, eu liguei para o Sehun e perguntei como estavam as coisas. Ele estava normal.
Pouco depois, recebi mais uma visita. Fui abrir a porta. Era Jiwoo.
— Annyeong. Eu vim… conhecê-la.
Convidei a spotter para entrar e apresentei a Sunghee.
— Essa é a nossa princesa — eu disse, passando-a para Jiwoo.
— A princesa-corvo.
— Eu já não sei mais — confessei.
— Como assim não sabe mais?
— Ah, você sabe, Ji… A única razão para esse time existir era a Yumi, e ela se foi. Não tem como levar esse projeto adiante sem coach.
Ela me encarou durante um tempo, depois mudou de posição.
— Jin… Você sabe que a Yumi apostou todas as fichas nesse time. Você acha mesmo que temos o direito de parar só porque ela não está mais aqui? Acha que podemos fazer isso tudo ser em vão dessa forma?
— Nunca vai ser a mesma coisa. Eu entrei nisso por ela, não só porque ela ia ser coach, mas porque queria dar o meu máximo para estar junto dela sempre que pudesse. Para mostrar que ela não estava sozinha.
— Não é para ser a mesma coisa. É para continuar sendo por ela. Era isso que ela iria querer, Jin. Ela não iria querer que a gente abandonasse o time que ela deu tanto duro pra construir. Ela iria querer nos ver seguir em frente.
— Tá. Mesmo que eu conseguisse tirar forças de algum lugar para encarar esse time de novo, como a gente vai continuar sem coach? Vamos virar um grupo de dança como qualquer outro falso time de Cheer.
— Eu acho que você deve ser nosso coach.
— Eu? — comecei a rir, sem acreditar que ela realmente pudesse estar cogitando isso. — Por quê?
— Yumi deixou muito para trás. E você prometeu que cuidaria do que ela deixou. Você está cuidando da Sun, agora pode cuidar do time.
— Não é muita coisa pra um Jin só, minha filha?
— Não era muita coisa pra uma Yumi só. Quando você faz as coisas com amor, é isso que acontece. Eu sei que você gosta do time.
— Sim, eu gosto. No fundo, foi uma época muito boa, e eu queria muito poder voltar a viver isso… Mesmo que não seja da mesma maneira. Mas eu não sei nada sobre como ser coach.
— E a Yumi disse que o curso é caríssimo, mas deve ter sobrado alguma apostila nas coisas dela…
— Pera… O curso… Ela disse que se faz num fim de semana, não foi isso?
— Sim. Se tiver dinheiro.
— Nesse caso… Eu acho que ainda há uma chance desse time dar certo, Jiwoo.
Namjoon chegou em casa para almoçar, já me questionando.
— Qual foi dessa mensagem?
— Você vai ver. Na hora da reunião. Vem almoçar logo, ou vamos nos atrasar.
— Você realmente vai pra aula? Não quer ficar hoje? Eu te passo a matéria.
— O tempo que você me passa a matéria é o mesmo da aula, bae. Vai dar no mesmo.
— Pelo menos você fica em casa.
— Deixa a menina passear, coitada. Já preparei a bolsa dela com tudo o que podemos precisar. Qualquer coisa eu volto pra casa.
— Se você tá dizendo…
Não consegui prestar atenção na aula, mas não foi porque a Sun estava me atrapalhando. Na verdade, eu estava muito ansioso para o dia seguinte. Depois da aula, voltamos para casa e ficamos de bobeira até a hora de dormir. Na manhã seguinte, Namjoon foi trabalhar e eu fiquei em casa. Depois do almoço, mais uma aula, e depois da aula, fomos para a reunião.
A mensagem tinha sido passada para todos os contatos do time:
Reunião emergencial sobre o futuro do time
terça-feira às 18h na sala de espelhos.
Presença obrigatória para todos os atletas.
Subi a escada para a academia com um pouco de esforço por estar com o sling. Atravessamos a academia e entramos na sala, 15 minutos propositalmente atrasados. Nossos atletas (e Sehun) estavam espalhados pela sala, e assim que notaram nossa presença, especialmente a presença da Sunghee, ficaram agitados.
— Calma, gente. Eu esqueci de dizer que nossa mascote ia vir também. Vocês vão conhecê-la, não se preocupem. Mas, no momento, temos que focar em nossa reunião. Podemos sentar em roda?
Era como sempre fazíamos. Os atletas sentaram no chão em roda, se acomodando aos poucos. Eu tirei o sling para sentar no chão, enquanto já começava a falar.
— O que eu tenho a dizer hoje é bem simples: nosso time vai continuar. Eu não sei quantos ainda estão interessados em participar, mas fiz questão de que todos viessem para deixar claro como isso vai acontecer, para propor que continuem e, ao mesmo tempo, deixar as portas abertas para quem não se sentir mais à vontade entre nós. Eu sei que é difícil ir adiante sem a pessoa que nos fez nascer como um time, mas acreditem, não tem ninguém nessa sala sofrendo mais do que eu. Eu demorei um pouco pra encontrar forças para me reerguer, mas consegui, e vou contar a vocês como é. A força vem da união. A força surge quando nos apoiamos uns nos outros, quando completamos o que falta em cada um, e podemos caminhar como uma coisa só. Especificamente no caso do time, a força vem quando olhamos para o nosso passado, para o que éramos no começo. Éramos simples estudantes, mas aprendemos e evoluímos como atletas e como humanos. Nos tornamos um time. E nada disso aconteceria sem todo o trabalho, esforço e determinação com a qual Choi Yumi criou e guiou este time. Ela é a nossa mãe, ela fez isso por nós, e seremos ingratos se desistirmos por ela. Ela deixou essa missão para nós, então é nosso dever levar este time adiante, cada vez mais alto como tem sido até agora e como continuará a ser. O time não precisa de todos para continuar, mas a essência do time é o todo. Quem quer que saia desse time fará falta. Vocês devem estar se perguntando como continuaremos sem coach. Bom… Nós teremos um coach. Eu me matriculei em um curso da USC e farei nesse fim de semana, o que significa que os treinos voltam semana que vem, com um novo coach. Preciso saber com quantos atletas eu vou contar, mas antes que vocês me respondam, eu gostaria que vocês assistissem a um vídeo.
Felizmente, Namjoon tinha acabado de colocar o pendrive na televisão e já colocava o vídeo, enquanto eu explicava.
— A Yumi deixou alguns vídeos para pessoas específicas, e deixou um para o time. Eu ainda não o assisti, então não faço ideia do que está por vir. Talvez ela diga para pararmos, e nesse caso eu cancelo minha matrícula. Mas restando cinco atletas nesse time eu prossigo. Vamos assistir.
— Hora de fazer o vídeo para meus Corvos. Ah, meus bebês. São irmãos mais velhos da Sunghee, vocês sabem, né? Bom… Eu poderia falar muita coisa aqui. Poderia falar sobre como tem sido bom desenvolver esse time com vocês, falar dos sacrifícios… Mas isso tudo vocês já sabem. Eu vou falar sobre o meu destino. O destino que eu já conheço. Quando surgiu a ideia do time, eu fiquei pensando como isso poderia dar certo na minha condição. Eu pensei muito sobre isso. Eu poderia pensar na minha saúde e na saúde do meu bebê e voltar atrás, poderia passar a teoria e deixar vocês de virarem com a prática. Mas eu decidi viver esse momento. Não por mim, mas por vocês. Eu me esforcei mais do que devia, sabendo que estava correndo esse risco, porque o Cheerleading é algo maravilhoso. A faculdade é uma experiência única, e eu queria proporcionar isso a vocês… principalmente ao Jin Oppa. Só se vive a juventude uma vez, e você tem todas as chances para ser feliz nesse momento. Eu não. A vida não faz tanto sentido sem quem a gente ama, não é? Bom… O destino vai decidir o nosso futuro, e eu vou aceitar. Ele sabe o que faz. Se for para eu sofrer a minha vida sem o Jungkook, é o que vai acontecer, mas não depende mais de mim. E é claro… se vocês estão vendo isso significa que o destino foi generoso comigo, e não significa que vocês têm que parar. Eu dei tudo de mim por esse time, e o conheço o suficiente para afirmar que ele tem autonomia para continuar sem mim. Não estou dizendo isso porque seria legal o time continuar… Eu estou pedindo. Porque quero que o time continue. Nosso time começou como um bando de interessados em dança, muitos dos quais não sabiam muito de ginástica e, claro, ninguém sabia nada sobre Cheer. Mas nós aprendemos juntos, evoluímos juntos, e por isso tenho segurança ao dizer que o time tem potencial. Não deixem a paixão de vocês pelo esporte morrer junto comigo. Não façam isso, jebal. Sigam em frente. Eu sei que vocês podem. Então… Juntem as mãos aqui.
Yumi colocou a mão para a frente, e todos nós começamos a nos olhar. Namjoon pausou o vídeo e colocou a mão perto da dela. Os atletas começaram a se levantar e ficar ao redor da televisão, estendendo suas mãos para o centro. Algo começou a se mexer em mim, porque foi algo completamente necessário, porém, completamente inesperado. Eu fui o último a me juntar ali, porque estava com a Sunghee no colo, mas Sehun se ofereceu para segurá-la. Nem todos os atletas cabiam na roda, de modo que alguns cegamente colocavam seus braços nos espaços entre os corpos. Foi o que eu fiz, antes de abrirem espaço para mim. Namjoon deu play no vídeo.
— Cinco, seis, sete, oito.
— Vaaaaaaaai Corvos!
Quando fizemos isso antes de entrar no Champions Cheers, eu me emocionei. Quase deu vontade de chorar, porque o conjunto vibrante daquelas vozes momentos antes de pisar no tatame mostrava a nossa força e a nossa união. Mostrava que éramos fortes para fazer o nosso melhor, e realmente fizemos. Mas aquilo? Aquilo não tinha comparação. Era a Yumi puxando nosso grito pela última vez, abdicando do seu papel de coach depois de nos provar que podíamos seguir adiante sem ela. Seria difícil? Muito, mas não foi difícil mergulhar naquele esporte desconhecido, aprender todos aqueles movimentos, conseguir os materiais, montar a rotina, apresentar e tudo o mais? Seria difícil, mas não impossível. Eu já tinha chorado muito durante o vídeo, e nossas mãos para o alto me fizeram derramar mais lágrimas: por saudade da Yumi, por tristeza pela sua eterna ausência dali em diante, mas também pela felicidade encontrada na confirmação de que os Corvos permaneceriam vivos.
Em meio à consolidação da nova fase que acabava de começar para o nosso time, os atletas começaram a se abraçar, emocionados com aquilo tudo. Muitas meninas vieram até mim e me encorajaram na certeza de que eu seria um bom coach. Abracei todo mundo que apareceu na minha frente, e quando achei que já tinha abraçado o time inteiro, encontrei Namjoon terminando de abraçar Sooyoung. Depois disso, ele olhou para mim e fez aparecerem as covinhas naquele sorriso encantador.
Tudo parecia perfeito.
Namjoon abriu os braços para me receber. Eu fui até ele, sutilmente fechei seus braços e o beijei. A movimentação ao nosso redor foi instantânea. O que mais me chamou a atenção foi o Sehun.
— Isso é um absurdo. Como assim eu sou o último a saber de uma coisa importante dessas?
Na noite seguinte, recebemos a mais importante das visitas. Eu estava fazendo o jantar quando bateram na porta. Namjoon foi abrir.
— Olha ela! — disse, já abrindo espaço para a visita entrar. — Até que enfim apareceu.
— É, já tava na hora. Eu quis esperar as coisas se acalmarem um pouco, já que trouxe alguns amigos. Oi, Jin.
— Oi, flor.
Namjoon olhou ao redor, como se ingenuamente procurasse os amigos de quem Yonseo falava.
— Ah, você vai precisar disso — disse ela, estendendo uma garrafa de água. Namjoon olhou para o objeto com toda a dúvida, até que ela insistiu. — Bebe isso logo!
Namjoon olhou para mim, ainda em dúvida, mas eu dei de ombros. Yonseo tinha me dado as provas de que era digna de confiança. Namjoon abriu a garrafa e bebeu alguns goles. De repente, Namjoon começou a andar para trás como se estivesse vendo fantasmas.
É, você sabe… Ele estava vendo sete fantasmas.
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