Me chamam de Corvo (Bulletproof)
2 A verdade surpreende
Notas iniciais
Foi difícil conduzir a cadeira de rodas pela terra. Para minha sorte, ele não deu nenhum sinal de se importar com as barreiras. Isso me deixou feliz, porque eu também me sentia assim: não queria deixar que algo me impedisse de chegar até eles.
Eu achei que choraria muito ao ouvir Namjoon contando a história, mas consegui segurar; só fiquei muito triste. Ver as lápides, os nomes, as fotos… Meus cinco meninos tinham ido embora. Por que eu não chorei? Eu não sei. Talvez porque algo estivesse me dizendo que o certo era seguir em frente.
Não lamente o que você perdeu. Celebre o que você ainda tem.
Eu quase podia sentir Jungkook falando isso ao meu lado. Olhei para Namjoon por um momento. Esse conselho poderia ser referente a ele, o único amigo que tinha me restado. Mas eu sentia que não era exatamente isso.
— Eu sinto muito — disse a voz que surgiu de repente. Virei meu pescoço para ver a pessoa que havia acabado de chegar, segurando algumas flores. Não podia ser verdade.
— Você? — perguntei, incrédulo.
— Oi, Jin.
— O que tá fazendo aqui? — perguntei, com claro tom de ironia. — Veio prestar as últimas homenagens ao seu namorado?
— Na verdade, sim.
Yumi passou por nós, ignorando nossas reações frias. Não esperava por nada diferente. Ela se ajoelhou em frente à lápide de Jungkook. Passou o dedo pelos relevos de seu nome marcado na pedra em hangeul, e depois pela sua foto emoldurada. Uma lágrima fina escorreu pelo rosto. Eu a observei. Ela também deveria estar sofrendo.
— Estava preparando a viagem desde que soube de Jungkook, mas só cheguei ontem. Infelizmente, tive que comprar mais flores do que planejava. Jin... — Yumii se levantou e virou-se para mim. — Eu não sei o quanto você sabe sobre eu e Jungkook, mas... — ela passou o olho por Namjoon, que se afastava em direção ao portão, talvez para respeitar nossa conversa, talvez porque não queria nem olhar para ela. — Ele não sabia que era eu, quando foi para o Japão.
Eu não tinha interesse em ouvir nada daquilo. Não me importava com o que Jungkook havia sido ou feito, porque eu só guardaria boas lembranças dele. No entanto, ela estava viva, eu podia culpá-la… Mas eu deveria? Aquilo era culpa dela, sim, mas também minha. Ela me derrubou, mas se eu tivesse sido mais forte, os meninos estariam vivos. Nós dois éramos culpados, então só nos restava ser gentis um com o outro, dividir a dor e assumir as consequências.
— Olha, Yumi… Você não tem que me explicar nada. Nada vai mudar o que aconteceu. Só vai me fazer lembrar, então… Não quero falar do passado… Quero falar de coisas boas.
— Não sou a pessoa mais indicada. O passado foi cheio de erros, o presente é horrível, e o futuro… não é bem o que eu tinha planejado para agora. Não tenho nada de bom para falar.
— Hum… — murmurei, curioso. — O que você tinha pensado? Estar com o Jungkook?
— Talvez. O que era mais previsível era que eu ficasse com meu tio no Japão, mas nas condições atuais, o Jungkook realmente me ajudaria a tornar o futuro que me espera menos pior.
— Que futuro é esse que você está falando? Seus pais querem que você seja modelo?
— Sempre quiseram, mas não tem a ver com isso. Eu não vou ser modelo, Jin. Eu vou ser mãe.
Pisquei, processando a informação. Eu tinha ouvido direito?
— Mãe? Você… Está…
— Estou esperando uma criança do Jungkook. Não seria tão ruim, se o Jungkook ao menos estivesse aqui. Ou se meus pais fossem me ajudar de qualquer maneira, mesmo que não gostem da notícia. É como você disse, Jin. Eles querem que eu seja modelo, e agora isso é impossível. Eles não vão aceitar de jeito nenhum.
— Ainda não contou pra eles — constatei, preocupado.
Aquilo era alarmante. Infelizmente, Yumi estava certa. Eu conhecia a família dela o suficiente para saber que a rejeitariam de todas as formas se soubessem que ela estava grávida, e pior, seria mãe solteira. Ao mesmo tempo, ela não podia esconder. Uma hora ou outra eles iriam descobrir. Numa hora daquelas, a irresponsabilidade dos dois era o que menos importava. Importava mais que uma criança nasceria sem pai, e o pai daquela criança tinha morrido por minha culpa.
— Não — ela confirmou.
— Eu estou com medo.
— Medo? — disse ela surpresa. — Medo de quê?
— Do que seus pais vão fazer com você quando descobrirem.
— Não devia. Isso é problema meu, você não tem nada a ver com isso.
— Eu posso te ajudar.
— O quê? — perguntou ela, incrédula, como se eu fosse completamente tolo. — Não, Jin! Você não tem nenhuma obrigação de me ajudar. Eu sei como resolver isso, e eu vou fazer sozinha. — Eu olhei nos olhos dela, e identifiquei. Soube exatamente seu plano terrível, porque eu mesmo já tinha optado por ele — Bom, foi legal conversar com você, mas eu tenho que ir agora — disse ela, já passando pela minha cadeira de rodas.
— Não — eu disse, alarmado, já tentando virar minha cadeira de rodas, mas era impossível naquele terreno. — Espera! Não pode fazer isso!
— Adeus, Jin — disse ela, como se quisesse deixar claro que estava decidida.
Eu não estava bem para andar, ainda. Muito menos correr. Mas situações desesperadoras pedem medidas desesperadas. Então, eu me levantei com um pouco de dificuldade e fui atrás dela.
— Yumi — chamei. Ela estava uns bons passos adiante. — Para.
Ela nem sequer olhou para trás. Continuou andando. Minha corrida era um pouco lenta, levemente atrapalhada, mas ainda era uma corrida, e então eu a alcancei, justo na hora que não tinha mais forças. Eu caí na terra segurando a mão dela.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, com tom de preocupação. Tentou, de algum jeito, me ajudar. — Não devia se levantar assim.
— Não faça isso — eu supliquei, em pânico. — Não é a solução!
— Você nem sabe o que pretendo fazer!
— Eu sei. Eu sei porque eu já tentei. Foi minha pior decisão. É uma decisão egoísta, em todos os casos. Nesses momentos, você só pensa em si mesmo, nunca na destruição que vai causar. É por isso… — eu hesitei, respirando fundo. Tinha gastado toda a minha pouca energia para alcançá-la. — É por isso que sua criança não tem pai. Porque eu fui egoísta. Eu só pensei que não tinha você. Não pensei que ainda tinha os seis. Agora eu só tenho o Namjoon. — Quando percebi, eu já estava chorando. Ela olhava para mim fixamente, e notei que ela também reprimia as lágrimas. — Não lamente o que você perdeu. Celebre o que você ainda tem.
— O Jungkook está morto, meus pais não me apoiam. O que eu tenho?
— Eu.
— Mas nós não temos nada a ver. Eu ainda amo o Jungkook, e você… — ela olhou para trás por um momento, e voltou sua atenção para mim. — Eu sei quem você ama, e não sou eu.
— Você ainda tem a mim. Não um namorado, mas um amigo de boa vontade. Eu posso te ajudar. Eu quero te ajudar. Eu não preciso me casar com você para ser o pai do seu filho. Eu só preciso sustentar vocês dois, e eu consigo.
— É mesmo? — disse ela, rindo um pouco. Afinal, era ela quem estava me sustentando naquele momento. Eu estava um pouco mais descansado, então tentei me ajeitar.
— É mesmo. Eu e o Nam temos uma casa, temos empregos e… — olhei para trás, onde estavam as lápides, e sorri. Eu devia estar ficando louco para fazer uma proposta daquelas. — Nós temos um histórico com crianças imaturas. — Voltei meu rosto para ela. Conseguia, agora, ver um pouco de luz, e eu mesmo estava me animando com aquilo. Era uma criança do Jungkook, afinal.
— E ele vai topar isso? — perguntou ela, rindo. — Ele me odeia!
— Hyung! — ouvimos o grito ao longe, quando Namjoon apareceu e deu uma corridinha até nós. Ele me ajudou a levantar. Yumi foi buscar a cadeira de rodas, o que pareceu deixar Namjoon surpreso. Mesmo assim, ele não deixou de soltar. — O que você está fazendo?
Yumi olhou para mim, me ajudando a voltar pro lugar.
— Eu não disse? Ele me odeia.
— Foi você que tombou ele? — perguntou Namjoon, ignorando a constatação.
— Depende do ponto de vista — eu respondi. — Mas não seria a primeira vez, seria?
— Acho que foi ele quem me levantou — disse ela, tentando empurrar a cadeira de rodas, mas falhou. Namjoon começou a rir um pouquinho. Dessa vez, ele não era irônico, nem parecia desprezá-la, apenas achou engraçado que ela estivesse tentando me empurrar. De algum modo, ele estava começando a entender que estávamos nos dando bem.
— Sai daí, sai — disse ele, gentilmente afastando-a. Ainda soava impaciente, mas dessa vez parecia mais algum tipo de brincadeira. Eu decidi contar.
— Olha como fala com a mãe do meu filho.
— Oi? — perguntou ele, tão surpreso que até parou de me empurrar. — Tudo bom? Que negócio é esse de “mãe do meu filho”?
— É uma longa história, Nam — eu disse. De repente, tudo parecia maravilhoso. — Vamos andando que ainda temos que passar em alguns lugares para dar a notícia.
Fale com o autor