Me avisaram da sua morte.

Também não sei o porquê, mas talvez pelo mesmo motivo que me fez pegar a estrada numa sexta a tarde e dirigir até o velório dessa cidadezinha feia.

Não haviam tantos conhecidos dessa vez. Você se afastou mesmo de muita gente que conhecemos. Mas aqueles que eu imaginava que estariam, apareceram.

— Você veio.

— Pois é.

— Quem te avisou?

— O Hélio.

­— Ah, ele estava por aqui.

— Pois é, pois é…

Eu lembro do velório do seu pai, de sua mãe chorando inclinada ao caixão proibindo você de pentear os cabelos. Agora ela não está, e falta alguém pra fazer o show que ela fazia, me pergunto se ela está a caminho ou se também já partiu.

Seu esposo demora para me ver. Ele engole a seco e não sabe se eu vou cumprimentá-lo ou não, se oferecerei meus pêsames ou um ombro amigo onde ele possa dizer que foi de repente, que ele busca forças, ou que ele preferia que eu quem tivesse morrido. Mas eu já perdi vocês a tanto tempo, não me restam pêsames a oferecer agora e nem posso oferecer um ombro amigo quando nem isso somos mais. Eu só estou aqui por mim. Talvez pra ter a visão concreta da sua morte. Perceber que você agora morreu não só pra mim, mas pra todos, e ninguém mais vai me perguntar de você quando me encontrar ao acaso no ônibus, no shopping, ou em um aniversário.

Só pra você saber, não respeitaram seu desejo de ser cremada. Onde você queria que jogassem suas cinzas mesmo? Não lembro. Acho que tinha algo relacionado a uma árvore, mas isso parece doce demais pra você. Nos últimos anos da nossa convivência você fazia questão de parecer tão estoica. Ou fria. Ou maquiavélica em algumas situações. Nada parecida com a pessoa que era no passado, que mal sabia dizer não a quem a abordasse com um sorriso no rosto. Incentivei tanto sua mudança e depois de algum tempo já não te reconhecia.

Me aproximei do caixão, te colocaram em um vestido branco horroroso, aposto que você também odiaria. Ou eu ao menos duvido que você tenha mudado tanto assim. Te observo com as mãos para trás. A maquiagem é até decente, você parece mais simpática do que estava sendo em vida até onde sei. Eu ouço uns comentários.

— Tão jovem.

— Tão cedo.

E depois variações destes.

Seu irmão me viu, parece que não me reconheceu, mas está tão perdido em pensamentos. O pobre não soluça como fazia no velório de seu pai, parece que digere os sentimentos internamente agora. Olho para você de novo. Tenho a impressão de que você me expulsaria se pudesse, ou ao menos menosprezaria minha presença. Me pergunto se eu que deposito em você o ressentimento que tenho em mim, já que pelo menos por um tempo tenho certeza que fui uma ótima amiga. Do contrário você não teria me contado o que contou, dividido o que dividiu. Quando seu pai faleceu, você só avisou a mim e a ele, seu agora esposo ou viúvo, então acho que, pelo menos até lá, minhas ações foram condizentes com minhas intenções.

— Eu te amei, minha amiga.

Falei tão baixo que ninguém ouviu. Também não precisavam. Tive que me afastar do caixão porque fiquei emotiva e – você reprovaria meu choro pela sua morte? Nós já nos dedicamos músicas. E quanto a lágrimas? Não sei se houve algum momento antes desse que me permiti chorar pela sua ausência, mesmo que naquele período em que compartilhávamos uma mesa, mas não sentia que estávamos verdadeiramente próximas.

Seu esposo olha para mim, ao mesmo tempo que parece querer me expulsar, também está fragilizado demais para fazer qualquer coisa. Seu nariz, olhos e boca estão em um vermelho contrastante com o restante da pele, ele parece inquieto, eu tenho certeza que ele precisa de um abraço. Lembra do porre em que ele se trancou no quarto e chorou o resto da noite? Pois é, ele está ainda pior, sem chorar, só parado no canto da sala enquanto seus olhos variam entre reconhecer quem chega e a completa deriva. Me distancio, Hélio me encontra. Ele é o único que me oferece consolo e um abraço apertado.

— Senta um pouco. Tem café.

— Não, eu não posso ficar.

— Você tem algum compromisso?

— Não, é que acho que nem me queriam aqui.

— Não liga. Quando você vai poder se despedir de novo?

Ele não sabe que eu já me despedi de você inúmeras vezes nos anos que se passaram. Eu agradeço sinceramente, o abraço de novo antes de dar mais uma olhada no velório. Seu irmão, nossos amigos, seu viúvo, pessoas que me são desconhecidas. E por último você. Você no vestido feio, sem a sua risada rouca, sem o deboche ou o olhar encantado por passarinhos. Nada do que era você ali. Nada do que era você em lugar algum.

Saí sem me despedir de mais ninguém, despercebida, deixando o que acredito ser o alívio da minha ausência. Como eu me dou importância, não é? Eu sei, eu sei.

Então é isso, finalmente.

Quantas coisas ainda não ditas.

Mas mesmo antes você não escutaria.

Vamos por um fim nisso.

Adeus?

Adeus.

Notas finais
Obrigada a você que leu até o final.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!