Notas iniciais
Olá! Boa leitura

Dorian sugeriu a Katheryn que fosse seu cupido para que, em um mês, ela conquistasse o coração de Adrian e se tornasse sua musa.

Agora, ele era responsável pelo desastroso plano que tinha começado.

Eles ainda estavam no Jardim a noite, Dorian parecia ter aversão a camisas, mas Katheryn relevou dessa vez, porque ela estava molhada e com frio e, apesar do corpo de Dorian ser frio por ser um vampiro, aquela camisa estava aquecendo o quanto dava.

— Mas… Sr Dorian… Por que quer me ajudar?

Ele olhou para ela, um sorriso misterioso surgindo no canto dos lábios, dessa vez ele soltou as mãos, se deixando relaxar na cadeira.

— Estou entediado.

Ela olhou para ele com certa surpresa, não esperava que esse fosse o tipo de resposta que receberia, com certeza.

— Hm, bom, espero que dê certo… Mas não acho que eu faça o tipo dele.

Katheryn reparou nos olhos escuros de Dorian, percorrendo rapidamente seu corpo, mesmo que coberto pela camisa. “Droga, ela é linda.” Pensou Dorian. Apesar disso, sua voz saiu controlada e firme. Sua expressão era séria, mas não fria, talvez calculada.

— A senhorita faz o meu tipo.

Ela riu nasalmente, como se tivesse ouvido um absurdo, passou a mão no próprio cabelo molhado, ajeitando uma mecha que havia saído da trança.

— Eu sei que gosta de ser cruel, mas mentir assim… Não, eu já fui humilhada o suficiente esta noite.

— Quem disse que eu estou mentindo? — Ele arqueou a sobrancelha, ela o olhou incrédula. Dorian sorriu de lado, sabendo exatamente o impacto que estava causando, e ele gostava disso, de brincar com sentimentos humanos, para ele não passava de uma diversão. — Bom, vamos às punições: você está no jardim após a meia noite comigo aqui… E ainda me obrigou a tirar a camisa.

Katheryn engasgou com a própria saliva, tossindo algumas vezes com a acusação que recebera.

— O que? Eu não obriguei você a tirar a camisa, você tirou porque você quis! — Cruzou os braços, bufando baixinho. “Essa regra inútil…” — Tudo bem, qual será a punição?

— Serviço doméstico noturno. Você chegou a limpar meu quarto hoje? Vi algumas poeiras, tenho certeza.

Implicou. Não, mais que isso, provocou. Os lábios dele ainda estavam curvados com aquele sorriso inegavelmente irritante demais para Katheryn.

— É claro que limpei!

— Terá que polir meu caixão… E… Testar se ele ainda está macio o suficiente, para que eu não sinta dores.

— Mas, Senhor Dorian, o senhor é um vampiro… Não sente dores.

— Dito isso, também quero que limpe o lustre do salão principal.

— Já limpei. Hoje à tarde. Enquanto dormiam.

— Bom, se eu não vi, só pode ser mentira. Limpe o lustre.

Katheryn respirou fundo, queria enfiar uma estaca no coração de Dorian, ou arrancar sua cabeça, tanto faz.

— Mais alguma coisa?

— Não, estou satisfeito. Agora, me devolva a camisa e entre.

Ele esticou o braço esquerdo, seu mais usado, para esperar que ela lhe desse com cuidado, porém Katheryn fez o inesperado e a jogou sobre seu rosto.

— Tsc.

Ele escutou os passos dela se afastarem, então ele se levantou com calma e foi até ela, segurando seu pulso, puxando sua mão destra, devolvendo a camisa. Katheryn sentiu outra pontada de esperança nesta noite. “Claro, ele não ia me deixar passar frio, ele tem sentimentos, apesar de tudo”. Sua expressão caiu assim que Dorian abriu a boca para falar.

— Me dê com cortesia, não é assim que se trata um senhor. — “Ele não pode estar falando sério!” A dama forçou um sorriso, pegou a camisa, a dobrou com calma, irritada, mas cuidadosamente esticou as duas mãos segurando a camisa para o vampiro, entregando-o com rapidez. — E a palavra mágica desta noite é?

— Desculpe-me, Sr. Dorian. — Ela quase revirou os olhos, quase. — Posso ir agora? Não consigo trabalhar bem se estiver gripada.

Ele apenas assentiu com a cabeça e abriu a camisa novamente, colocando-a no corpo. Ela não podia acreditar que tinha acabado de dobrar e entregar a peça para que ele fizesse isso. “Espere só, vou trancar seu caixão de dia e não deixar você sair por duas noites.”

— Quando você terminar… Venha me ver, precisamos conversar sobre como isso vai funcionar.

Katheryn perguntava-se o porquê deles simplesmente não terminarem a conversa por ali mesmo, e aí a realidade bateu: ele é um vampiro de dois mil e poucos anos. Exigia que cada regra fosse cumprida com êxito, por mais inúteis ou chatas que elas fossem.

Ela saiu sem dizer mais nada, já estava sem paciência para ele e, ainda sim, ia ter que vê-lo mais tarde.

{...}



A humana trocou de roupa para uma comum, e logo começou a punição: poliu o caixão de Dorian, entrou nele e se deitou para conferir se estava macio o suficiente, mesmo que ele estivesse só provocando dizendo que poderia sentir dor e, por último, estava limpando o lustre, quando a escada balançou um pouco.

Ela ignorou de primeira, estava no último degrau, era normal que se desequilibrasse pelo menos um pouco. E aí, ficou bambo de novo. Sua paciência já exaurida a fez bufar, e seu bufar a fez cambalear na escada, ela pensou em se segurar no lustre, mas ficar pendurada lá não parecia uma boa idéia, então ela apenas fechou os olhos e se preparou para quebrar duas ou três costelas, talvez morrer com a cabeça destroçada ou torcida, um membro quebrado ou um osso que quebrou e faria um órgão sangrar hemorragicamente. Nada disso aconteceu. Ela caiu em um lugar macio, mais precisamente nos braços de quem ela não queria, era Dorian, de novo.

— Querida Kat, se não fosse cair tão depressa eu teria avisado para Adrian te segurar nos braços fortes e cabeludos dele. Essa é sua primeira técnica de flerte? Donzela em perigo?

— Até parece que eu fiz de propósito! Eu sou humana, ia me machucar feio. Foi um acidente, um acidente que, inclusive, você provocou.

— Sabe… Depois de quatro anos a gente espera menos desastre. — Ele ajeitou ela em seu colo, ela, por sua vez, ficou confusa, se perguntava mentalmente se ele não ia deixá-la no chão — Vamos começar a primeira aula, donzela em perigo.

— Ei — espera!

Não deu tempo de protestar, Dorian começou a andar com ela nos braços, levando-a até o andar subterrâneo, entrando numa das portas. Só então, ele a soltou no chão.

— Aqui é um lugar não permitido para humanos, como você bem sabe, no entanto, como vim com a senhorita por vontade própria, não haverá punições. Entre. Primeiro as damas.

— Dorian, eu não enxergo no escuro…

Ela procurou a porta de qualquer lado, mas a parede parecia macia demais.

— Claramente não, já que está com a mão no meu abdômen ao invés de estar com ela na maçaneta. — Ele riu baixo e abriu a porta devagar, pegando na mão alheia a fim de lhe puxar para dentro do cômodo empoeirado e com cheiro antigo. — Vou acender a luz. — A mão dele deslizou pelo canto da parede, sem soltar a mão de Katheryn, essa que, por sua vez, era bem macia e calorosa, quase como se queimasse em contraste com sua pele fria e sem vida. — E, então, fez-se luz. — A lâmpada acendeu devagar, realmente ninguém visitava esse lugar e, por isso, a senhorita soltou um espirro, puxando sua mão de volta para poder tapar o nariz.

— Que cômodo é esse?

Ela olhou em volta, dando um giro de 360° graus para analisar com calma, ela só via roupas clássicas, todas todas pretas, como se viessem de um filme vintage ou medieval.

— Primeira lição: moda. Adrian é o mais tradicional de nós dois, como você bem sabe. Como estava vestida a garota que encontrou com ele?

Indagou, não por curiosidade, mas por interesse genuíno se seu irmão permanecia dentro de seu juízo normal, ou cedeu aos sentimentos humanos e primitivos.

— Uma roupa como esta…

A jovem apontou para um dos vestidos góticos e pretos, muito entre outros, a única diferença eram onde iam os detalhes, os enfeites, as costuras, os brilhos, os tipos de tecido…

— Exatamente, este é o ponto. — Ele pegou a peça e a mostrou melhor, passando a mão com cuidado para tirar a poeira acumulada — A moda atraente para Adrian é a clássica vitoriana ou medieval, no máximo anos 50. Como nós vampiros gostamos de nos vestir, mesmo quem veio depois dos anos 90. Eu sei que você gosta da moda contemporânea, contudo, se quiser conquistar meu irmão, será pelo estilo. A partir de amanhã faça compras de roupas e acessórios em lojas góticas, entendeu? — Ao finalizar a primeira parte, ele guardou novamente a peça, e ficou de frente para Katheryn. — Tem uma loja vampírica local, gostaria de ir lá? Ainda são três horas da manhã, até as 5h já voltamos, não é longe.

— A passos de quem? De um vampiro ou humano?

— Espertinha. Vou te carregar nas minhas costas, suba.

O vampiro se agachou na frente dela, esperando que ela subisse em suas costas sem reclamar ou hesitar. O contrário aconteceu logo.

— E a roupa que eu estava vestindo mais cedo? Era vintage.

— Puff, aquele vestido rosa floral off white? Tenha um senso melhor, confie em mim, eu conheço ele. Adrian não deve nem ter cogitado olhar para seu corpo.

Apesar de se sentir extremamente ofendida, ele não estava completamente errado. O jeito que Wendy estava vestida, a forma como ele havia encarado apenas seu rosto quando falou com ela no quarto dele… Não era atrativo. Katheryn suspirou pesadamente e, indo contra as regras (humano e vampiro, mestre e servo, não se unirem), com Dorian, subiu em suas costas sem pensar em mais nada.

— Não ouse ao menos respirar enquanto saímos da Manon. Por favor. Se ele descobrir a senhorita será demitida e eu tomarei uma punição grave.

Ela assentiu com a cabeça, ele pôde sentir seu movimento que indicava sim em seu ombro e lateral do rosto. As mãos quentes da humana pulsando contra os ombros, mesmo que cobertos pelo tecido, que já começava a se aquecer minimamente durante o processo de “caminhada” até a loja.

{...}


A loja era dentro de um beco escuro demais para ser visto, ele tinha um corredor e tanto, suas luzes iluminavam pouco, já que era com tochas (ao passar do tempo a humana que vivia entre vampiros foi se acostumando com seus jeitos diferentes de viver a vida pós morte. Alguns se negavam a usar simples luzes).

— Chegamos. — Se abaixou até o chão para que Katheryn saísse de suas costas. Assim feito, ele ficou na postura reta de sempre e abriu a porta devagar. — Seja educada. Por mais estranho que isso possa soar, não quero que ninguém chupa seu sangue.

— Muito engraçado e reconfortante, Sr. Dorian.

Ele sorriu de forma amigável pela primeira vez, e empurrou a porta. A loja estava praticamente vazia, então ambos os passos ecoaram entre as estantes e corredores, até que chegassem à área de vestidos e fossem atendidos.

— Olá, boa noite. — O vendedor assustou a humana chegando por trás, mas mais do que isso, a feiúra de um vampiro que parecia mais o Nosferatu em pessoa, fez seu coração acelerar. “Ele está além dos mortos, ele é um cadáver ambulante!” Pensou a dama, se recompondo devagar. — Conheço o Senhor Dorian, mas essa humana… Qual o seu nome, senhorita?

— É Katheryn, Senhor.

— Ah, sim, Katherine. — Ela também tinha que ignorar o fato de alguns a chamarem por outro nome, o que originou os outros. — Vieram ver vestidos para você? Ela será sua próxima musa, Senhor Dorian?

Dorian negou, mas negou tanto que parecia até ofendido.

— Por drácula, não diga uma coisa tão absurda. Eu jamais transformaria ela.

Katheryn não sabia se se sentia feliz ou triste com isso. Quer dizer, ela não queria ser musa de Dorian, longe disso, mas por que não ser transformada em vampira? O que havia de tão errado nela?

— Certo. Vamos ver… Para a senhorita, um modelo clássico cairá muito bem.

— Se tivesse algum vermelho carmesim, ou com detalhes em carmesim, seria ótimo. — Sugeriu Dorian enquanto o funcionário procurava entre os vestidos. — Vá lá, dê uma olhada também.

Ele a empurrou levemente com a mão, mas foi o suficiente para ela ir pra frente com tudo.

— Delicado… — Disse, sarcástica. Olhou um vestido e pegou um dos primeiros que viu, não se preocupando muito, afinal, se o que Dorian dizia era verdade, ao seu ver, era só o vestido ser preto. Ela se virou para ele, que já estava sentado numa poltrona, como se ficasse cansado. — O que acha desse?

Ele analisou, um olhar só. Negativo.

— A não ser que queira parecer uma palhaça num velório…

— Então… O que estamos exatamente buscando aqui?

— Drama, teatro, velório, melancolia, graça.

— Pouca coisa.

— Se é impressão que quer causar, vai ter que entregar mais que uma carinha bonita ou um tecido fino.

Eles demoraram mais que o esperado. Dava para ver nos olhos de Dorian que ele já estava ficando estressado, ele ia dizer a ela para desistir e vir outro dia, até que ela saiu da cabine com o que ele jurava ser o último vestido que ela experimentaria essa madrugada.

E, então, um ar gélido escapou de seus lábios quando Katheryn saiu da cabine. Um pensamento alto saiu em um sussurro dos seus lábios, ele até mesmo se levantou, surpreso.

— Merda! Era isso… Isso que eu estava falando! Esse vestido é dramático, gótico e intensamente elegante, com uma presença sobrenatural. — Ele é longo, em tons profundos de preto com vinho bordô, criando um contraste sombrio e sofisticado. O corpete estruturado lembra um corset, bem ajustado ao torso, valorizando a cintura e dando uma silhueta forte e aristocrática. O tecido do corpo é de veludo escuro, com acabamento rico e pesado. O decote é ombro a ombro, adornado por uma renda preta delicada, que se estende levemente sobre o colo e os braços, trazendo um ar vitoriano. A saia é ampla e fluida, feita de um tecido mais leve e transparente, possivelmente tule e chiffon, que cria movimento e um efeito etéreo ao caminhar. As mangas longas e esvoaçantes são de tecido translúcido, quase como véus, reforçando a estética mística. Há detalhes em vermelho escuro discretos, que acrescentam profundidade e um toque sensual sem quebrar a sobriedade. — Impossível que Adrian não desista de última hora daquela garota.

— “De última hora?” — Indagou, curiosa, olhando-se para baixo, não havia espelhos, pois, vampiros não aparecem neles. Não faria sentido ter um assim, então ela estava confiando na palavra de seu senhor, o mais petulante deles. — Como assim? Você vai deixar esse vestido para o baile?

— Mas é claro. — Respondeu como se fosse óbvio. — Ao longo da semana, vou te acompanhar novamente para comprarmos roupas góticas mais casuais, para que use todos os finais de semana, que é quando ele anda mais pela casa. Evite coisas… Florais.

— Está zombando do meu estilo de novo?

Ele ergueu os ombros, como se dissesse “talvez”.

— Levarão este? Que ótimo. Ele é uma peça especial, a última que foi feita pela Lady Zani antes de cortarem sua cabeça.

— Interessantíssimo!

Dorian sorriu, aparentemente agora estava de bom humor.

Ele pagou pelo vestido e foram embora do mesmo jeito que foram, com Katheryn em suas costas mas, dessa vez, além dela ele carregava o vestido.

Por sorte, chegaram antes das 5:30.

Diferente do que a humana esperava, Dorian subiu até o corredor do quarto dela, abrindo a porta com ela nas costas, mesmo que fosse proibido sua entrada ali. Ele se aproximou da cama dela de costas antes de ordenar que saísse.

— O senhor é maluco? Isso é mais uma infração grave.

Sussurrou. Ele lhe deu um sorriso presunçoso.

— É hora do meu pagamento. — Ele jogou o vestido sobre a cama, enquanto Katheryn arregalava os olhos e ia mais para trás em cima da cama, sem saber o que esperar. Dorian tirou a camisa com pressa, os botões abriam com uma elegância cruel, o coração da humana batia mais acelerado que o de um animal a ser cassado, foi quando ela viu o tecido voar em sua direção, atingindo seu rosto e quebrando uma expectativa inexistente. — Lave essa blusa para mim, está com cheiro de humano. Não gosto.

E saiu.