Katheryn, no auge de seus 25 anos, aprendeu rápido que trabalhar para vampiros exigia três coisas fundamentais: discrição absoluta, obediência silenciosa e a habilidade de fingir que não via nada de estranho. Não os corpos sendo arrastados pelos corredores depois da meia-noite, nem os murmúrios vindos de cômodos que deveriam estar vazios e, sobretudo, não o fato de que a regra mais importante da mansão Nightvale, não beber os funcionários, era quebrada com frequência. Ela já trabalhava lá há 4 anos. Talvez ela quisesse tanto se transformar em vampira que eles esqueceram de fazer isso com ela.

Adrian era o principal motivo pelo qual Katheryn fingia não perceber nada. Ele surgia nos corredores como se a mansão o tivesse criado ali mesmo: elegante demais para o horário, impecável demais para alguém que não dormia há séculos. Sempre educado, sempre distante, sempre dizendo o nome dela como se fosse apenas mais uma palavra útil no vocabulário da noite. Katheryn dizia a si mesma que aquilo era profissionalismo; ignorava deliberadamente o jeito como seu estômago se revirava toda vez que ele passava perto demais.Dorian, por outro lado, nunca fingiu nada. Ele ocupava os espaços sem pedir licença, aparecia quando não era chamado e tinha o péssimo hábito de encarar Katheryn como se ela fosse uma decisão mal tomada, e ainda assim irresistível. Ao contrário de Adrian, Dorian nunca usava luvas, nunca pedia desculpas e jamais a chamava pelo nome completo. “Kat”, dizia, com um meio-sorriso que sugeria que ele sabia exatamente o efeito que causava.

Nightvale Manor: antiga, pomposa, cheia de regras inúteis, pensava Katheryn.

Construída no final do século XVII, pertence à família Nightvale há gerações (ou assim eles dizem), vive sendo reformada… sem nunca ficar pronta, humanos sempre se perdem lá dentro (e acabam ficando mortos por lá mesmo), à noite, parece viva (Dorian jura que é charme arquitetônico). Suas regras inúteis (escritas, supostamente, por um Nightvale do século XVII… E nunca atualizadas) eram: Regras Vampíricas Essenciais

Nenhum vampiro deve entrar em aposentos humanos sem convite verbal.

(Dorian ignora quando convém.)



Humanos não devem olhar diretamente para vampiros durante o ato de alimentação.

(ninguém lembra disso na prática.)



É proibido transformar humanos por tédio.

(regra criada após um “incidente”.)



Hipnose não deve ser usada em familiares da casa.

(Dorian chama isso de “sugestão estética”.)


Regras da Convivência Nightvale

Após o pôr do sol, a mansão pertence à noite.

(cortinas devem permanecer fechadas mesmo em dias nublados.)



Discussões entre irmãos devem ocorrer apenas em corredores longos ou salões amplos.



O jardim interno é território neutro.

(nenhum duelo, ameaça ou mordida é permitida ali.)



Regras do Jardim (as mais quebradas)

8. Nenhum humano deve permanecer no jardim após a meia-noite.

(especialmente se Dorian estiver lá.)



Regar as plantas é responsabilidade do irmão mais velho.

(ninguém sabe por quê.)

Regras Sobre a Humana

Humanos a serviço da casa devem manter distância emocional.



É estritamente proibido que um vampiro treine emocionalmente um humano.



Nenhum Nightvale deve reivindicar uma musa já prometida a outro.


Regras Antigas e Inúteis


Quadros dos ancestrais devem ser saudados ao amanhecer.



Não se deve rearranjar caixões sem consenso familiar.



Gargalhadas após a meia-noite devem ser contidas.

(ninguém cumpre.)



E, ainda havia as punições… Ridículas.

Infrações Leves

(quase todo mundo comete)

Leitura pública de regras antigas

O infrator deve ler regras em voz alta enquanto os outros corrigem a pronúncia arcaica.



Proibição temporária do jardim

Dorian odeia. Adrian adora aplicar.



Serviço doméstico noturno

Polir caixões, limpar candelabros ou organizar capas por século.



Obrigação de usar vestes cerimoniais

Capas pesadas, antiquadas, ridículas.

Infrações Médias

(quebraram regra sabendo que não deviam)

Restrição alimentar

Apenas sangue “insosso” por uma semana.



Proibição de hipnose

Mesmo quando “seria muito útil”.



Vigília forçada

O vampiro deve ficar acordado durante o dia em local escuro, ouvindo reclamações dos ancestrais;



Pedido formal de desculpas

Em latim antigo. Com plateia.

Infrações Graves

(envolvem humanos, musas ou sentimentos)

Isolamento ritual

Um período trancado em um quarto antigo da mansão, com quadros observando;



Audiência com os ancestrais;

Suspensão do direito à musa;

Proibição de envolvimento com humanos.

Infrações “Imperdoáveis”

(ninguém aplica… mas todo mundo ameaça)

Separação forçada entre irmãos;



Transferência de território;



Expulsão simbólica da mansão;



Convocação do Conselho Vampírico Local.

Katheryn ignorava mais um corpo sendo arrastado por Dorian para os fundos essa noite, ela não dizia nada, só observava, como sempre fazia. Um dos quadros ancestrais disse, inconveniente:

— Esse senhor deve ter entrado na manon errada, agora ele vai brincar com os outros amigos dele no quintal dos fundos.

— Que coisa horrível de se dizer, Sr. Devalth II.

Por mais que tentasse esconder, Katheryn adorava o quão caótica é a mansão.

Os quadros dos ancestrais falavam tantas atrocidades que fazia ela se descontrair.

{...}

No dia seguinte Katheryn decidiu que seria hora de contar para Adrian o que sente, ela vem esperando por esse momento há anos, os 4 que trabalhou para eles, para ser exato.

Então, perto do anoitecer ela terminou as tarefas e subiu para o quarto, decidiu colocar seu melhor vestido para se declarar, ele pode negá-la se estivesse bem vestida? Ela acha que não.

Ela vestiu um vestido longo, de tecido leve e translúcido, de organza, com um caimento fluido que acompanha o corpo sem ficar justo. A estampa é floral delicada, em tons suaves de rosa claro sobre um fundo creme, dando um ar vintage. O decote é ombro a ombro, com babados volumosos que caem pelos braços, trazendo movimento e um toque dramático suave. A cintura é marcada, valorizando a silhueta, e a saia desce em camadas leves, algumas com efeito levemente assimétrico, o que reforça a sensação de leveza ao andar.

Ao terminar, ela jogou o perfume de rosas noturnas no corpo: antebraço, bochechas, nuca, atrás dos ouvidos, colo e pulso. Arrumou seu cabelo castanho com uma trança que caía para o lado esquerdo de seu pescoço, com um laço rosa pastel.

“É só ir lá… E dizer o que sente. Simples. Fácil.” Pensou, respirando fundo antes de abrir a porta do seu quarto e seguir pelo longo corredor, que mesmo em 4 anos a fazia se perder. Ela bateu na porta, sem resposta imediata. Ela reparou que estava aberta e entrou, notando que o banheiro estava ocupado. Ela respirou fundo mais uma vez naquela noite, fechou os olhos e começou a falar:

— Sr. Adrian, já faz um tempo que eu sinto algo especial por você e eu… Quero que…

— Kat?

Ela reconheceu a voz de imediato. “Meu Deus!”. Quando ela abriu os olhos encontrou Dorian com o corpo molhado, gotas de água escorrendo pelo seus ombros, peitoral e abdômen. Cabelos molhados, que desciam até seu ombro de forma bagunçada. Ele estava coberto apenas na parte de baixo, com uma toalha branca.

Ela engoliu a seco e tampou os olhos depois de passar alguns segundos paralisada, percebendo que viu demais.

— Desculpe-me, Sr. Dorian, eu achei que…

Ela gaguejou um pouco, mesmo assim foi interrompida por Dorian, que se aproximou perigosamente, abaixando suas mãos, e ela cedeu, não sabia o porquê, mas estava se sentindo fraca, ali ela percebeu que não havia volta para o que estava encarando.

O vampiro, por sua vez, sorriu de forma ladina, parecendo se entreter com a situação. Típico. Ele a interrompeu, sem hesitar.

— Entrou no quarto do irmão errado. Trabalha aqui há 4 anos e ainda consegue se perder pelos corredores… Engraçado.

Ele ainda estava segurando os pulsos dela cuidadosamente, como se ela fosse feita de porcelana.

— Esqueça o que ouviu, apague da sua memória.

Ele soltou um riso nasal, curto. Mas Katheryn pôde sentir um aperto um pouco mais duro em sua pele antes de ser finalmente solta.

— É claro, senhorita.

Ela sorriu de forma tímida e se virou, pronta para ir embora, e ela foi, mesmo com as bochechas quentes de vergonha.

Fechou a porta atrás de si e seguiu mais um pouco no corredor, mais específicamente do lado esquerdo, dessa vez.

— Agora sim, o lugar certo.

Sussurrou para si, e respirou fundo pela terceira vez em menos de uma hora.

Ela estava tão ansiosa que tocou a maçaneta e abriu desesperada, com o coração acelerado. Ao fazer isso, ela encontrou Adrian no sofá do quarto com uma garota loura de olhos azuis, ela estava sentada ao lado dele, o beijando.

A abertura da porta deixou os três surpresos.

— Adrian…?

Uma respiração descompassada foi o suficiente para ela desmoronar, apesar de demonstrar que não.

— Senhorita Katheryn, o quê está fazendo aqui?

— Eu…

Wendy, a garota com quem havia estudado no ensino médio anos atrás, se levantou junto com Adrian para se aproximar dela. Um sorriso debochado surgindo na boca da outra mulher.

— Não é você que está trabalhando aqui há quatro anos e ainda não foi transformada em vampira?

— Sim…

Apesar de toda aquela situação sua cabeça permanecia erguida, mesmo sem muitas palavras para expressar, pelo choque. Wendy pegou um pequeno papel duro, cor preta, com escritas brancas, clássico demais, como costume de vampiros de séculos passados. Adrian mexeu no cabelo, meio desconcertado, era conservador demais para permitir que o vissem em momentos mais íntimos.

— Estamos juntos, quero dizer, vou transformá-la em minha musa no próximo mês.

Wendy tomou a frente, não deixando o sorriso de deboche ir embora, ela parecia saber do desejo de Katheryn de ser a musa de Adrian.

— Aqui está o convite, por mais que seja na mansão, apareça, vai ser divertido!

Adrian olhou para Wendy com a sobrancelha levantada, como se desaprovasse algo, e disse:

— Mansão não, Manon.

Corrigiu.

— Manon, querido.

Concertou a garota. E deu a fala de volta para Katheryn.

— Fico feliz por vocês.

— Fica mesmo? Você está pálida como se fosse um fantasma.

— Só não estava esperando visitas…

— Você costuma entrar no quarto dos outros sem bater?

Mais uma vez, estava com vergonha. Parecia nada mais que uma adolescente apaixonada, mas já tinha 25 anos.

— Foi um incidente.

Pegou o papel da mão de Wendy, olhando melhor o convite, paralisada por alguns segundos, analisando a situação sem muito cuidado. E continuou a falar:

— Desculpe-me, Sr. Adrian.

— Tudo bem, senhorita Katheryn. Agora, poderia nos dar licença?

A mulher ao lado do vampiro o rodeou com os braços, sorrindo como se tivesse ganhado um troféu e, bom, ela tinha ganhado mesmo, do ponto de vista da jovem.

— É claro, Sr. Adrian.

Disse em um tom claro e firme, que só ela sabia conter. Dava graças a Deus que tinha esse talento. Ela saiu com passos firmes, como se não estivesse abalada, e fechou a porta do quarto de Adrian, onde suspirou pesadamente antes de sair andando para o jardim, lágrimas querendo se formar em seus olhos, por mais que tentasse impedir, agora era a hora de baixar a cabeça e seguir em frente com a nova informação que recebera.

Mal se deu conta quando chegou ao jardim, tampouco quando esbarrou nas costas de Dorian, que estava regando as plantas, que se fecharam imediatamente com a presença da humana.

Ela deixou o convite cair no chão, sem perceber suas mãos vazias pelo impacto, este que fez Dorian molhá-la sem querer.

Ela enxugou o rosto rapidamente, para olhá-lo melhor sobre a luz da lua.

— Sinto muito, Sr. Dorian. Não estava prestando atenção no caminho.

— Tudo bem, Kat.

Ele percebeu o tom triste que saia da boca alheia, Katheryn foi se sentar à mesa disposta no jardim, se abraçando com as mãos, o frio tomando conta de seu corpo humano e frágil. Dorian a seguiu com o olhar, antes de perceber o papel no chão. Ele se abaixou e o pegou, lendo o conteúdo. Por um momento houve um suspiro, e um pensamento: “Eu sabia que isso acabaria assim.”

Percebendo o baixo astral da empregada ele se juntou a ela à mesa, tirando sua camisa longa para cobrir seu corpo gelado pelo vento gélido que passava no jardim, logo se sentando no banco à frente do dela.

Ele mostrou o convite primeiro, e depois o colocou em cima da mesa.

— A senhorita está triste porque não será a musa de Adrian?

— Eu achei… Sei lá, que depois de todos esses anos ele me reconheceria. Mas eu até entendo, a Wendy é atraente e despojada, toda pessoa deve se sentir atraída por ela.

Ele franziu o cenho, descontente.

— Não me compare ao Adrian.

— Ah, sim, eu não quis comparar.

O vampiro de cabelos longos e castanhos claros, com olhos escuros como a noite de inverno, se ajeitou na cadeira mais uma vez, antes de cruzar as mãos em frente ao corpo.

— Eu posso te ajudar a conquistá-lo.

— E como vamos fazer isso? Quer dizer... Como o senhor vai fazer isso?

— Confie em mim, temos um mês até a festa.

Ele exalava confiança, como sempre. Mas Katheryn estava em dúvida. Ela queria Adrian, muito, porém não de forma forçada. Dorian percebeu sua hesitação e continuou a falar.

— Vou fazer a senhorita ficar irresistível para ele.

— E se a gente não conseguir?

— Aí a senhorita pode me demitir como cupido.

E então, uma esperança repentina tomou conta da

garota, que sorriu largamente, se levantando, esticando a mão para seu senhor.

Dorian sorriu, mas parecia mais perverso que amigável, e apertou a mão de Katheryn.

— Que comecem as aulas, Kat.

Notas finais
Obrigada por ler! Menor que três.