Me Rendo a Coroa
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Nunca tinha visto o céu tão estrelado como essa noite, estava lindo, eu me esqueci de tudo e de todos. Um momento a só era o que eu estava mais precisando naquele momento, que coisa boa.
Eu olhei para os lados e estava sozinha, o portão estava bem a minha frente, algumas árvores no local e atrás de mim o Scott.
– Soldado, eu acho que você deveria descansar. – falei para ele agarrada em minhas pernas.
– Não tenho permissão senhorita.
– Mas eu estou ordenando, e acho que o senhor não iria querer desacatar minha ordem. Sente-se.
Eu pude ouvir uma risada baixa e logo em seguida o Scott estava sentado ao meu lado. Ainda olhando pra frente podia ver um sorriso no rosto dele.
– Está desconfortável? – perguntei.
– Bem senhorita, digamos que sim, não é de meu costume... Sabe... Ficar tão próximo a alguém. Da realeza.
Eu ri e o olhei, fiz questão de tirar o chapéu dele, afinal, de que aquilo iria lhe proteger?
– Soldado, o senhor já esteve apaixonado... Ou... Confuso?
– Sim senhorita.
– Então... O que você fez, e, por favor, me chame de “você”.
Ele sorriu.
– Eu deixei as coisas se resolverem sozinhas, mas foi um grande erro meu. Dei tempo demais a ela e a mim, afinal, vim parar aqui. Acho que o tempo nem sempre é um grande aliado.
– Você ainda gosta dela?
– Não sei mais, faz um ano e meio que não nos vemos.
– Um ano e meio? Você está aqui há um ano e meio e eu nunca lhe vi? – eu falei meio alto e abaixei o tom de voz.
– Sim! – ele riu – Mas como lhe disse, eu viajo muito.
– Entendo. Uma pena não acha?
Ele assentiu.
– Não seja um homem de poucas palavras, me conte sobre sua história, gosto de ouvir histórias.
– Se é o que a senhor... Se é o que você quer, conto sim.
– Ótimo.
Encostei-me no seu ombro, era bem confortável, mas nada comparado com o Ethan acho que o fato de eu estar conversando com um soldado era carência, mas... Era tão bom ficar ali com alguém.
– Eu vim de família pobre sabe, tenho uma irmã em casa de cinco anos, um irmão que abandonou meus pais. E bem, não tínhamos mais condições de vida boa porque meu irmão que trabalhava lá em casa.
“Meu pai da o melhor que pode junto com minha mãe, minha irmã frequenta uma escola bem inferior as outras... Daí pra ajudar minha família eu resolvi me alistar. E consegui grandes lucros com isso. Posso dar comida e roupas pra minha família sem me preocupar mais com nada, a não ser...”
– A não ser...?
– Bem minha mãe tem uma doença que precisa de tratamento caro. Mas ela sabe conviver bem com isso.
Eu comecei a pensar, até que me veio a mente uma imagem.
– Scott, qual é o nome de sua irmã?
– Kate.
– E como ela é?
– Loira de olhos verdes, cabelo cacheado e...
– Ai minha nossa Scott.
– O que?
Eu comecei a me lembrar de quando eu estava indo pra Scárvia e no aeroporto uma menininha me barrou, lembro-me bem dela. Kate, eu havia prometido que ela iria passar um dia comigo. Contei tudo a ele.
–... Então quero que me passe o endereço e tudo mais, darei um bom dinheiro a sua mãe pra que ela possa se tratar no melhor hospital de Jordine, um bom emprego ao seu pai e um dia com a sua irmã.
– Alteza, eu... Não tenho como agradecer.
– Não precisa, apenas conte mais histórias.
Ele ia falando sobre sua primeira escola, seu primeiro amor, e essas coisas em diante, mas eu não consegui mais entender nada, acho que tinha pegado num sono.
Eu acordei em cima da minha cama, com as mesmas roupas de ontem e não fazia ideia de como tinha ido parar ali.
– Ah Scott.
Senti uma leve dor de cabeça e me levantei aos poucos.
Tomei um banho e troquei de roupa, aquele vestido de manhãs calmas. Desci as escadas ainda me espreguiçando e fui até a mesa pra ficar com meus pais.
Manhã calma que nada.
Meu pai estava sentado como sempre na ponta da mesa, uma cara meio séria, mas ao mesmo tempo feliz. Já a minha mãe matinha um semblante sério com se não gostasse do que via, os cabelos pretos arrumados em um belo coque e a maquiagem leve.
– Bom dia papai, mamãe. – fiz a reverência e me sentei em frente a rainha.
Torradas, sucos, frutas e geléia eram meu cardápio da manhã.
– Sanye, o que você estava fazendo com um soldado àquela hora da noite?
A comida ficou presa na minha garganta e eu tossi, acho que parecia suspeita, mas... Como ela sabia disso? Quer dizer, deveria estar dormindo não é? Levantei o olhar.
– Eu estava sem dormir, então ele me escoltou até o jardim para que eu não ficasse sozinha.
– E por que ele levou você até o quarto?
Dessa vez meu pai estava sério e olhava diretamente pra mim como se pedisse pra que eu não mentisse. A rainha me mantinha um olhar suspeito e que incomodava muito.
– Eu dormi, fiquei muito cansada então cochilei ainda bem que ele me levou até o quarto se não eu estaria lá até agora.
Dei um gole no suco.
– Essa é sua resposta então?
– Espere, a senhora não vai castigá-lo nem nada não é? Afinal ele só me fez um favor, foi uma besteira. – olhei para meu pai – Não vai, não é?
Ambos suspiraram.
– Não Sanye, mas é bom que isso não aconteça novamente.
Meu pai finalmente levantou a voz e se retirou da mesa deixando com que eu ficasse a sós com a rainha – ele fez de propósito.
– Mamãe pode me passar a manteiga, por favor?
– Claro.
Ela me deu e enquanto eu passava um pouco no pão ela falou comigo.
– Sanye, o que achou do príncipe Ethan?
Aquela pergunta me pegou de surpresa.
– Ele é muito gentil, um ótimo amigo, mamãe.
– Não foi isso que eu quis dizer – ela parou de comer – Ele será um bom marido?
– E desde quando a senhora se importa com quem eu irei me casar? Acho que foi a senhora mesmo que disse que isso não era pro meu bem, mas pro bem de Jordine.
Ela bateu os talheres na mesa.
– Escute Sanye, estou tentando ser mais presente então, não dificulte as coisas querida.
– Mãe, por quê? Por que a senhora aparenta me odiar? Eu lhe fiz algo de errado por acaso? – me arrependi de ter feito aquelas perguntas.
– Eu não lhe odeio, eu gosto de você – aquilo saiu forçado deu pra perceber – Mas eu também me importo com o reino em que vivemos.
– O reino o reino. Sempre o reino. A senhora já alguma vez prestou atenção em mim mamãe? EM MIM?
Lágrimas caiam do meu rosto, e eu lutava pra não soltá-las agora.
– Eu sempre quis ser sua queridinha, seu amorzinho, seu tudo mamãe, eu queria que a senhora brincasse comigo de boneca quando eu tinha seis anos, eu queria que a senhora me ouvisse quando eu falei que estava apaixonada pelo príncipe da cidade vizinha, mãe eu só quis sua atenção, mas não recebi nada. Por quê?
Dessa vez lágrimas pingavam no meu colo e minha mãe relutava em dizer alguma coisa, as palavras pareciam não querer sair de sua boca.
– Por mais que não pareça, eu lhe amo Sanye, eu amo.
– Exatamente o que eu queria ouvir – me levantei – Se ao menos fosse verdade.
Derrubei um copo no chão, ouvi a rainha me chamar, mas ignorei por completo. Eu nunca entendia.
As palavras dela ecoavam na minha cabeça como uma mentira, e que mentira. Subindo as escadas quase tropecei e virando o corredor esbarrei no meu pai.
– O que houve minha menina?
– Me deixa pai.
Corri pro quarto e cai na cama de cara no travesseiro. As lágrimas o mancharam todo. Eu queria que aquilo realmente tivesse acontecido de outra maneira, uma maneira que não fosse tão irritante e...
Não conseguia pensar mais em nada.
Passada a hora do almoço, às vezes aparecia alguém no meu quarto me chamando, mas eu não conseguiria encarar minha mãe novamente. Até que entram sem pedir.
– Não quero ver ninguém agora, saiam.
– Acho que não em.
Uma voz conhecida correu meus ouvidos.
– Vamos ficar senhorita.
– Queira a senhora ou não.
Dessa vez eu me lembrei de quem eram às vozes.
Virei-me e vi quem eu menos esperava.
Era a Rachel grudada com o Rupert e encostado a porta estava o Príncipe Ethan, com um sorriso largo no rosto.
– Não acredito que vieram.
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