Me Rendo a Coroa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Ontem foi um dia bem estranho.
Tudo bem que eu não achei que seria daquele jeito, mas... Se querem saber a sensação de ser beijada por alguém que nunca viu na vida: estranha.
Assim que a entrevista acabou não tive espaço para falar com meu “noivo”. As pessoas da platéia praticamente desceram correndo para pedir fotos, autógrafos. E onde estavam os seguranças nessas horas? Pra me livrar de uma menininha, dez vinham em cima de mim.
– Ah Princesa tira uma foto comigo? — falou uma mulher que podia aparentar ser minha avó.
– Ah, com certeza.
– Ah Princesa a senhorita poderia me convidar para seu casamento eim? — outra senhora me cutucou.
– Não sei se pode ser a hora! — sorri.
Olhava para os lados procurando o Príncipe Ethan no meio da multidão, ou a Rachel ou o Rupert, mas eles haviam sumido. Sorri para as pessoas até alguém vir e me afastar delas, era a Mary.
– Princesa, por favor, me acompanhe. – ela me chamou e eu fiz que sim, queria sair dali.
Passamos pelos repórteres e eu vi a Cíntia, ela acenou pra mim e eu fiz o mesmo. Passei por mais dois guardas antes de virar no corredor mais próximos.
– Mary, para onde estou indo?
E mais uma vez o silêncio dela. Não entendia essa lei de que nós não podíamos conversar com os empregados. Quem criou isso? Mary estava me levando por entre vários corredores, aquilo parecia um labirinto, nem eu me perderia assim no meu palácio. Até que chegamos a uma porta.
– Mary, o que tem ai? Por favor, responda-me.
Não era muito grande, nem muito pequena, apenas o espaço suficiente para que eu passasse ali. Mary abriu a porta, me empurrou e a fechou sem me responder nada. Estava um pouco escuro, apenas uma janela iluminava aquilo, era a luz da lua. Procurei algum interruptor e apertei. A luz ascendeu e havia alguém na sala.
– AAAAAAAAHH! – eu gritei.
– WOOOW! – a pessoa gritou de volta, comecei a rir ao perceber quem era.
– Príncipe Ethan. – fiz minha reverência.
– Princesa Sanye. – ele devolveu.
– Lugar estranho para me conhecer não?
Digamos que aquela sala não era digna de mim. Não era digna de ninguém que tenha senso de limpeza. Duas cadeiras, uma mesa e um sofá. Um armário pequeno, e em cima da mesa um jarro com uma flor murcha. Os móveis estavam empoeirados.
– A senhorita realmente não faz ideia de que lugar é esse. Pois bem. – ele pediu para que eu me sentasse na cadeira ao lado dele.
– Não. Não vou sujar meu vestido, e mesmo que eu não estivesse vestida assim, nunca iria sentar ai.
– Então tudo bem princesa. – ele levou as mãos ao alto e tirou o paletó e o colocou em cima da cadeira – Melhor?
– Desculpe-me se estou abusando de sua humildade. – me sentei ali – Mas...
– Eu vi você numa matéria do jornal, foi bondosa com aquela menina... Ah...
– Kate.
– Isso, Kate. É verdade que vai levá-la ao palácio?
– Por que não? Claro que vou.
– Bom saber que minha noiva é defensora dos pobres, humildes e humilhados.
O olhei achando graça, ele falava como se tivesse uns trinta e poucos anos.
– Vinte.
– O que? – me perdi no que ele falou.
– Vinte anos, ouvi você sussurrar algo falando trinta... Por acaso aparento ser tão velho?
Pelo contrário, ele aparentava ter menos, seus argumentos que o fizeram parecerem um rei. O que me incomodava era o fato de até agora eu não ter sentido nada por ele, tinha medo disso. Como poderia me casar com alguém que não me interessa?
– Não, não... Não estava pensando nisso... – gaguejei – Posso lhe perguntar uma coisa príncipe Ethan?
– Claro. – ele se endireitou na cadeira.
– Acha certo nos casarmos? Por que... Eu não o conheço bem, eu nem lhe conheço afinal. E se por algum acaso eu não...
– Aceitar? Não tem como. – ele riu – Eu também nunca concordei com isso, tenho certeza de que meu pai não percebeu que os tempos são outros, tudo mudou. Até algumas tradições, mas ele acha que mantendo essa poderíamos fazer um reino digno de todos...
Os pontos de vista dele me prenderam naquela conversa. Era tudo verdade, os tempos mudaram, mas os velhos ainda querem que sejam os antigos.
– Ah disso eu tenho certeza... – sem querer estava com meu braço em cima da mesa e quando o tirei de branca passei para cinza, aquilo era nojento. Não me agradava nenhum pouco.
– Podemos ir embora? — apelei
– Claro Senhorita!
Ele me deu a mão e tirou o paletó da cadeira, coitado. Não usaria aquilo por duas semanas.
Ao abrir a porta dei de cara com o Rupert. Me assustei, mas percebi que o Ethan não havia visto, fechei a porta e sai o puxando.
– Rupert, você está maluco? Estava ouvindo tudo atrás da porta?
– Desculpe-me Princesa. – ele se curvou – Mas...
– Sem mais Rupert, vamos.
Estava mesmo brava com ele, gostava de minha privacidade, ele estava comigo sempre, mas se bem que admito, foi ótimo vê-lo.
– Onde está a Rachel?
– Foi chamada para os aposentos do Rei, não entendi porque, não quiseram me falar.
– Mas... Rei?
– Sim senhorita.
– Quando foi isso?
– Logo após sua entrevista, aquela empregada a Mary, a chamou. Foi tudo rápido quando percebi ela não estava mais lá. Fui até ela perguntar e ela falou que...
– Espera... Ela fala com você?
– Sim senhorita.
– Argh.
– Princesa... — ele me alertou do jeito que eu falei.
Ao sair do Studio tivemos que atravessar o jardim do lado para chegarmos as escadas. Olhei para os muros e ouvi gritarias.
– O está acontecendo?
– Não sei senhorita.
– Fãs? – sorri.
– Talvez.
Ouvi mais gritos, mas dessa vez eram do Príncipe Ethan.
– Senhorita, mas que falta de educação sair sem dar um adeus. Com sua licença...
– Rupert, o nome dele é Rupert. Espero que decore, não o quero o chamando como empregado ou coisas assim. – falei.
– Sim senhor. – Rupert se curvou e andou mais depressa, dessa vez ele não iria ouvir conversas.
– Então... Acho que não terminamos nossa conversa.
– Ah, acredite, terminamos.
– Não. A noite é uma criança por que perder tempo em silêncio?
Ele me fez calar, mas recuperei a voz.
– O que são esses gritos?
– Fãs, malucas, toda noite são assim... – ele não olhava para meus olhos.
– Hm. Entendi.
– Acostume, logo que estiver casada vai ter que aguentar as garotas.
– Você só fala nesse casamento? Ah, por favor.
Aquilo me irritava, eu não gostava daquele assunto.
– Desculpe princesa.
Paramos na porta, duas escadas. Uma para a esquerda e outra para a direita, a minha era à direita, os quartos eram separados. Realezas daquele país de um lado, realezas de outros países no outro lado.
– Tenha uma boa noite príncipe Ethan.
– O mesmo para a senhorita.
Ethan me chamou para um abraço, claro, eu fui. Mas acho que por ser um príncipe ele abusou da autoridade, porque quando eu me afastei ele ousou me beijar. De novo? Que pena, ele levou o que merecia, não era só porque eu iria me casar com ele que tinha que beijá-lo.
– Ai! – ele pôs a mão no rosto – Senhorita por que fez isso?
– Desculpe-me Príncipe, mas não abuse da sorte comigo. Posso ser uma pessoa gentil, mas acredite isso não foi nada. – fiz minha reverência a ele e subi as escadas.
A Mary estava lá forrando minha cama, havia uma bandeja com água, chá e biscoitos no criado mudo. Uma camisola separada em cima de uma cadeira.
– Olá Mary, boa noite! – ela se assustou provavelmente não me viu entrando.
– Senhorita. – ela se curvou e continuou o que estava fazendo.
Fui até a cadeira e peguei a camisola que estava lá. Ela era toda lisa e branca, um pouco de renda na base e alças finas. Havia um broche nela com o símbolo de Scárvia, uma águia.
– É pra mim?
Ela assentiu.
– Me ajuda a vestir?
Assentiu novamente. Enquanto ela me ajudava a tirar o vestido perguntei:
– Por qual razão a senhorita não pode falar comigo? – ela continuou muda, e eu apelei para o lado “sou eu que mando aqui.”
– Mary eu estou ordenando que você fale comigo.
Ela levantou a cabeça e tinha os olhos longe...
– Senhorita, me desculpe, mas não posso... Isso vem de ordens superiores.
Ela me vestiu a camisola, se curvou e saiu do quarto.
Dei umas voltas, não estava quieta. Fui até a janela tomar um pouco de ar, peguei uns biscoitos... Abri e fechei o armário várias vezes... Eu não conseguia dormir.
Peguei o chá, talvez tivesse algo ali que me fizesse descansar, voltei à janela.
Os guardas estavam em grande movimento, uns pra lá, outro pra cá. Daí comecei a pensar em meu pai. Ah, o grande Rei Robert. Tive vontade de ligar para ele, saber como ele está. Desde que ele viajou não nos deu mais notícias de como estava. Fiquei uma semana vivendo sobre a custa da Rainha Ellen. Ela às vezes parecia não me querer como filha. Ainda lembro-me do que ela me falou: “é para o bem de Jordine, não para o seu bem”
O que eu havia feito?
Eu a amava demais como Rainha, ela sabia muito bem os mínimos detalhes para formar uma lei, ou construir isso ou aquilo... Mas se tratando de mãe... A Senhora Ellen não era das melhores.
E o Príncipe Ethan? Ah, isso era o que eu chamaria de príncipe. Sabe, ele tinha tudo pra ser perfeito. Se a audácia dele não fosse gigante. E amanhã antes de eu voltar para casa, iria conhecer seus pais. Esperava que tanto a Rainha como o Rei fossem gentis. Não me sinto bem perto de pessoas que parecem que te querem longe.
Distrai-me tanto que a xícara que estava em minhas mãos caiu. Ouvi alguém fazer xingamentos. Olhei para baixo e a vi despedaçada, e um guarda tentando remover tudo aquilo dali, sim, eu derrubei a xícara na cabeça dele.
Depois desse episodio nada legal, decidi me deitar. Quando ia começar a pensar em “o que a Rachel está fazendo agora?” o sono me venceu e eu adormeci...
[...]
– RACHEEEEEEEEL.
[...]
Fale com o autor