Me Rendo a Coroa
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Sanye, Sanye. O que está acontecendo? Para de chorar...
Não, eu não sabia como parar, se eu ao menos não estivesse sendo atormentada por essa lembrança... Não, eu não conseguia. As lágrimas do Thomas... Os olhos dele pela última vez... Que estavam se fechando a medida que o sangue sujava sua camisa pólo branca. Estava ficando pálido enquanto eu estava gritando seu nome pra que ele voltasse a vida, não... NÃO. NÃO. NÃO. Aquilo não podia estar acontecendo...
E agora eu revivi essa lembrança, no mesmo lugar que eu estava com o Ethan, a quem eu me abracei sem dó nem piedade, a quem eu estava tentando me consolar.
O príncipe estava mexendo nos meus cabelos e acariciando meu rosto limpando minhas lágrimas com a manga da camisa. Eu solucei mais algumas vezes até conseguir falar.
– San? Você está bem?
Eu balancei a cabeça como um não.
– Quer me contar?
– Não sei se consigo...
– Tenta. Tudo bem?
No meio de alguns soluços eu consegui contar desde o começo tudo o que eu tinha vivido com o Thomas, ele era do reino vizinho ao meu. Ele foi meu único amigo durante quatro anos. Éramos pequenos, mas eu já me sentia sendo uma rainha ao lado dele.
Quando eu quis falar a parte da sua morte o Ethan me interrompeu.
– Não fale mais nada. Apenas descanse...
– Ethan... Ele morreu... Um rebelde... E uma bala... – estava chorando de novo.
Eu me lembrei do momento em que eu estava no seu velório. Por mais que fosse pequena, as pessoas viam o quanto eu sofri, e toda a Jordine declarou guerra contra os rebeldes.
– Por favor, San... – ele impôs o dedo na frente da minha boca – Ele deveria ser um bom garoto, já que você gosta tanto dele.
– Ele era meu amigo, sabe... – eu coloquei um pequeno sorriso no canto da boca – Nós sonhávamos em nos casar.
– É mesmo? – o Ethan fez cara de ciúme e enrugou a testa, eu sorri, por mais que a dor no meu peito fosse grande, ele a fazia diminuir.
– Era... – me confortei mais nos seus braços – Era...
– Eu queria ter o conhecido sabe.
– Por quê?
– Não sei, só queria. Quem sabe eu poderia te disputar com ele?
– Ethan, não fala uma coisa dessas!
– Seria engraçado.
Eu me levantei um pouco e o encarei.
– Desculpa. – ele disse e escondeu um sorriso
– Acho você um tanto idiota de me fazer achar graça nessa situação.
– Você ainda tem vontade de chorar? – eu acenei com a cabeça – Então... Conte-me os melhores momentos que você já teve com seu amigo.
Eu sorri e comecei a falar.
Contei pra ele o dia em que eu e ele estávamos brincando dentro do palácio e irritamos os cozinheiros, porque estávamos pondo o dedo no bolo de aniversário da mamãe. E desde então nunca mais podemos entrar na cozinha.
Depois falei de quando estragamos as flores do palácio do Tom, e a mãe dele nos deu uma bronca gigante.
– Mas só tínhamos uns cinco ou seis anos... – dei de ombros.
– Sinto uma pontada de ciúmes.
– Por quê?
– Porque ele passou mais tempo com você. Oh droga.
– Nada demais, a gente vai se casar não é? Vamos ficar juntos até a morte.
Ele riu e olhou pro céu, depois pra mim.
– É. Até a morte. E se eu morrer antes?
Dessa vez eu iria chorar se pensasse que o Ethan iria morrer. Não.
– VOCÊ FICOU MALUCO? Ethan, por favor, não me fala uma coisa dessas...
Esmurrei sua barriga e ele deu uma risada.
– Sanye, eu estava brincando com você.
– Odiei essa brincadeira.
– Você parece uma pirralha de seis anos.
– E você é um insensível.
– Assuma que você ama esse insensível!
Depois dessa conversa que me deixou aliviada, tivemos que voltar pro palácio. O que foi bom, eu estava cansada demais, com sono demais.
Despedi-me do príncipe logo na escada e subi.
Olhei-me no espelho e o resultado não era nada de surpreendente, o vestido sujo de grama, o cabelo bagunçado por causa do Ethan, os olhos vermelhos e a pele – sem comentários – Segui direto pro banheiro e me joguei na banheira.
Pela primeira vez consegui me sentir. Os músculos estavam relaxando assim como minha mente, que dava voltas e mais voltas, até que me lembrei do casamento. Ah que droga, outro assunto pra tratar. Tudo bem, eu aceitei casar com o Ethan porque eu o amo – eu admiti? Jura? – Mas eu não queria nada em cima da hora, como assim daqui a cinco dias?
Até lá eu já teria provado mais de centenas de vestidos, o que é uma coisa enjoativa de se fazer. E nada me irrita mais do que varias mulheres a minha volta sem falar nada.
[...]
Acordei cedo, o que foi impressionante, pela hora que eu havia ido dormir.
Levantei e quase me esquecia de trocar as roupas. Apenas um de tantos vestidos – aposto que devem estar enjoados de me ver detalhando-os – simples. Uma trança que caia pelos meus ombros e fim.
Desci as escadas e havia muita gente por ali, eram como alguns... Convidados. Com certeza queriam me dar os parabéns, e ao Ethan também.
Na mesa do café da manhã estavam meus pais, os pais do Ethan, e logo no corredor seguinte vinha o príncipe, ainda abotoando sua camisa e se sentando a mesa, não antes de se curvar como eu fiz.
– Papai, qual o motivo de tantas pessoas aqui? – perguntei e a resposta foi o que eu esperava.
– Estilistas pessoas do bufê, recepção... Decoração. E alguns amigos.
– Tudo isso para o casamento?
Ambos os casais reais me olharam enquanto o Ethan quase se engasgava com o suco de laranja.
– Querida, você nunca presenciou nenhum casamento não é? – a Rainha Anabela me perguntou.
– Nunca. – respondi.
– Ah, então creio que eu posso lhe acompanhar durante essa trajetória – ela olhou para minha mãe – Ah claro, e com a Rainha Ellen sem dúvidas.
Mamãe sorriu e eu me lembrei da minha briga com ela, droga, eu tinha que me reconciliar logo.
– Com certeza Anabela. – mamãe disse.
– Mulheres. – disseram em uni sono, meu pai, o rei Adalard e o Príncipe.
Depois do café da manhã eu tinha mais o que fazer do que ficar parte do meu tempo precioso conversando com o Senhor Ethan.
Meu quarto lotou enquanto mulheres mediam minha cintura, altura e por ai vai. Tiraram medidas do meu pé e das minhas mãos. Cabeça também, talvez pela coroa que eu usaria.
Depois dessas coisas nos sentamos ao redor de uma mesa para discutir sobre o tecido do vestido que eu usaria. E outra coisa que talvez eu não tenha mencionado, amanhã eu teria uma festa de noivado.
– Não, este aqui é muito grosso. – disse minha mãe jogando o pano para o lado.
– Mas esse aqui é muito pesado. Coitada da princesa de ter que carregá-lo durante horas. – falou Anabela.
– Desculpe-me alteza, mas temos que resolver logo essa questão. – uma mulher, costureira, disse.
– Olhe esse aqui – disse outra mulher – Um tecido perfeito... Leve...
– Não, esse é muito simples. – mamãe respondeu.
– Oh droga, será que eu não posso escolher?
Explodi, e falei alto demais. Mas eu já estava sem paciência pra ouvir ladainhas sobre tecido de vestido. Todas se calaram e eu me levantei.
Fiquei rodando a mesa e passando os dedos nos mais belos tecidos. E um me chamou bastante atenção. Ele nem era grosso nem fino, mas perfeito. Tinha uma camada de renda e o tecido de baixo era meio acinzentado, porém continuava branco. Ele era ótimo para ter junto uma calda, com a que eu sempre tinha sonhado em ter.
– Esse. E por favor, senhoras. Sem bagunça. Tome, leve-o. – eu o entreguei a mulher que estava falando pelos cotovelos.
– Tem certeza disso Sanye?
– Sim mamãe. Gostei daquele.
– Mas ele não é um tanto... Clichê? – a rainha Anabela perguntou.
– As pessoas gostam de um clichê.
Eu falei e me virei pra sair sem antes não ouvir da Anabela “ela será uma ótima rainha.” E meu rosto corou de felicidade.
Final da tarde eu estava provando os sapatos, mas a minha mente estava longe... Me peguei pensando em tantos assuntos...
Minhas aulas de etiquetas nível avançado. – eu achava isso engraçado – Meu discurso. A festa. Os penteados. As regras. As preocupações... E os rebeldes.
[...]
Depois de um dia cansativo nada melhor que dormir.
Antes fui passando o que eu havia feito, ou seja, nada.
Já tinham planejado tudo antes de nós. Até a lista dos convidados foram feitas sem nem minha concepção. Acho que talvez nem me preocupasse em cuidar de Jordine se poderiam fazer isso por mim.
Naquela noite eu tive um sonho.
Fale com o autor