Me Rendo a Coroa
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Eu estava num vilarejo, sentada encostada num tronco de um metro e meio de altura. Eu estava usando umas roupas simples, como uma calça preta e uma blusa rosa, tinha uma trança que caia para o lado. Eu estava cansada.
Eu tinha chorado.
Me levantei e comecei a andar, as pessoas não estavam me notando, de repente senti uma enorme dor no pé e percebi que estava descalça, soltei um berro e tampei minha boca, mas minha mão me atravessou, e todos estavam me atravessando.
Eu não existia... Estavam todos me ignorando. Eu gritava tentando chamar a atenção de alguém, mas eles simplesmente... Não me enxergavam.
Tentei correr, mas meus pés de algum modo ficaram presos no chão e me viraram bruscamente para o lado do tronco em que eu tinha acordado. Um homem tinha sido preso ali e estava sendo torturado na frente de todos, ele levou uma chicotada no rosto e eu pude de algum modo sentir a imensa dor daquele corte. Me curvei pra frente, mas as imagens vinham em minha cabeça.
Quando pus a mão no rosto senti um líquido. Sangue. E quando me levantei vi o Ethan...
– NÃAAAAAAAAAAAAAAAAO. – acordei assustada, gritando, de dor, pelo Ethan, com medo. E suada.
Me sentei na cama agarrando meus joelhos, até consegui por na cabeça que aquilo foi só um pesadelo. As imagens estavam rodando minha cabeça... Sobre como eu era invisível... O sangue do Ethan no meu rosto... A dor nos meus pés. Era tudo tão real...
Ouvi uma batida na porta depois alguém entrou.
– Sanye você está bem?
Era ele, era o Ethan, eu não me contive em correr para abraçá-lo.
– Oh meu Deus, você está vivo... Você está vivo. – eu dizia ainda chorando.
– Ei, o que você tem? Eu nunca morri. – ele me abraçou e me levou pra sentar, mas não me desgrudei dele, o sonho ainda estava na minha cabeça.
– No meu sonho... Ethan você não pode morrer, não.
Eu parecia estar delirando, não conseguia me soltar dele, eu tinha um extremo medo de perdê-lo... Contei tudo o que eu tinha sonhado e ele sorriu.
– San, você acha que é verdade? Olhe pra mim. Estou bem aqui, na sua frente.
Ele ergueu meu rosto e eu pude olhar bem pra ele, seus olhos... Aquilo era real.
– Desculpa... Eu sou idiota por ter achado isso... Desculpa...
– Não peça desculpas, pesadelos são isso mesmo, eles retratam o seu maior medo. E parece que você tem medo...
– De te perder. – eu completei – Eu não quero...
Ficamos um tempo em silêncio, o Ethan conseguiu me acalmar cantando algumas canções, ou recitando uns poemas. Sua voz não era perfeita, mas era algo que me fazia rir, afinal ninguém, nem mesmo príncipes precisam ser perfeitos.
– O que você estava fazendo acordado essa hora?
Eram exatamente quatro da manhã.
– Tive que fazer uma caminhada, me sugeriram ontem. E vou decidir minha roupa para a festa do noivado de hoje.
– Nossa, eu tinha me esquecido disso... – me sentei – Não vou conseguir dormir mais.
– Nem eu.
[...]
Pessoa vai.
Pessoa vem.
Adiantem esse casamento de uma vez.
Eu estava impaciente. Na minha volta mais de dez mulheres colocavam meu vestido no lugar, às vezes eu ficava sem ar de tanto aperto no meio daquele pano.
– Não isso não. A outra linha.
– Querem chá?
– Me passa a tesoura.
Existiam tantas vozes que eu não distinguia de quem era qual. A noite estava se aproximando e eu estava pronta para recepcionar os convidados.
Estava bela, num vestido azul marinho que destacava bem as poucas curvas que eu tinha. Ele tinha um pouco de glitter prata, pouco, que só se percebia se estivesse mesmo escuro demais. Ele era um tomara-que-caia – tomara que não – E longo. Tinha uma pequena abertura na perna esquerda. Então pude perceber meus sapatos brancos... Não, pratas. Eles eram foscos, talvez pra não ficar tão como o vestido.
Usava umas luvas que iam até o cotovelo, brancas também.
Meu cabelo – que ficou por conta da Rachel – estava caído pro lado, uma trança que ia de uma ponta a outra. Um jeito que o loiro dele se destacou perfeitamente. A maquiagem estava leve, nada ultrapassando um delineador preto.
A minha tiara ficou tão linda ali que eu teria que tomar muito cuidado pra que ela não caísse.
Mais tarde estávamos todos no portão de entrada, varias pessoas já haviam chegado.
– Boa noite. – ouço um sussurro e me viro a tempo de pegar um sorriso no rosto dele.
– Você está elegante.
– A senhorita está estonteante.
Sorrimos e voltamos a recepcionar as pessoas.
O salão estava lindo. Uma mesa o separava, ela estava cheio de aperitivos deliciosos, escolhidos pelo Rupert. As cortinas nas janelas eram brancas e azuis, junto com detalhes em vermelho. Uma banda de músicos com violinos e pianos tocava num palco feito nos mínimos detalhes, a música era lenta, mas se animou depois de um tempo.
Uns arranjos se encontravam em todas as entradas para o salão.
– Com sua licença, senhoras e senhores de todos os reinos aqui presentes – meu pai começou o pronunciamento e eu estava de mãos dadas com o Ethan – Viemos aqui pra nada mais nada menos que comemorar o noivado de minha filha, Sanye – olhares se voltaram pra mim com palmas – E o príncipe de Scárvia, Ethan. – mais palmas – Queremos agradecer a todos a sua presença. Até mesmo aqueles que não mais residem aqui. Uma boa festa e felicidades aos futuros Rei e Rainha.
Várias e várias palmas estavam me deixando corada, o Ethan retribuía acenando eu decidi fazer o mesmo não é?
– Que o casal guie a dança pelo salão.
Alguém gritou do fundo do salão para as pessoas e todos os murmurinhos eram um sim. Então fomos.
– Sabe dançar não é? – perguntei para o Ethan.
– O que você acha querida? Está prestes a se casar comigo, claro que sei.
Ele segurou na minha cintura e conduziu todos os passos.
Éramos apenas nós naquele momento. Dançando e sorrindo, não para as pessoas, mas para nós. Aquele momento era único. Tão lindo.
Indo pro lado e pra trás, pra frente e pro lado... Numa sintonia perfeita todos resolveram pegar seus pares e se juntar a nós.
– Dá pra acreditar nisso? – ele perguntou.
– Em que?
– Em tudo, calmo, tudo tão perfeito.
– Acredite, alguma coisa vai acontecer talvez eu rasgue a barra do meu vestido se pisar mais uma vez no seu pé.
Ele riu, sim, eu não sei dançar, havia pisado no pé dele umas quinhentas vezes.
– Isso não vai acontecer.
– Quem dirá?
Rimos e ele me levantou num movimento rápido e voltou a dançar.
Depois da dança, comida. – finalmente.
Estávamos devorando aquele banquete, eu tive que me controlar quando o Rupert disse pra eu ir devagar ou estragaria tudo. Alguém bateu em meu braço.
– Oh desculpe-me.
Uma garota, deveria ter minha idade, estava tentando lembrar seu nome... Marilyn. Princesa de Countcity.
– Ah, nada demais.
– Princesa Sanye.
– Princesa Marilyn.
Curvamos-nos como sempre deve ser feito.
– Nos vemos faz... Muito tempo não acha? – falei.
– Ah sim, muito. Bem, nem sempre temos tempo pra tudo não é? – ela sorriu – A senhorita esta ansiosa pro casório?
– Pra falar a verdade sim. – falei a verdade – Muito.
– Ah, é tão lindo. Sonho em me casar... Mas só tenho dezesseis.
– Jura? Achei que tinha minha idade.
– Sim. – ela riu – Ah, que rumo esta conversa esta tomando, venha, vamos tomar um chá.
Ela me guiou para a sala que eu tinha conversado com meu pai. Pra ser sincera eu odeio chá, mas ela era a visita, eu tinha que tomar.
– Princesa, sei que eu não sou tão íntima sua, mas... A senhorita ficaria irritada se eu lhe pedisse segredo? – ela estava mexendo o chá.
– Bem, depende dele não acha? – sorri – Mas sim, eu posso.
– É sobre você.
Eu fiquei intrigada. Como ela sabia de um segredo meu? Se nem eu mesma me conhecia direito?
– Sobre mim? – arqueei as sobrancelhas.
– Sim, bem... A senhorita já deve ter reparado que a rainha Ellen age diferente com você não é mesmo?
– Sim, mas...
– Eu ouvi uma conversa de meus pais – ela me interrompeu – E eles falavam algo sobre como seria difícil o rei lhe contar a verdadeira história.
Me senti desconfortável e ajeitei a posição.
– Verdadeira história?
– Não sei como lhe contar, mas... Vai ser difícil, não quero estragar seu momento.
– Fale. Agora. – eu estava me aproximando da Marilyn e ela estava assustada, mas já que começou, ela ia terminar.
– Prometa segredo.
– Prometo. – eu não iria cumprir mesmo.
– A senhorita não é filha da Rainha Ellen.
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