Me Espera!
1 Me espera!
Notas iniciais
O quarto era muito bonito – considerando-se que aquela era uma faculdade, não uma mansão nobre. Era delicado e confortável. Tinha uma penteadeira cheia de maquiagens e perfumes e cremes e escovas e laços de cabelos. Numa linda caixa, joias de todos os valores. Do outro lado, um armário com as mais variadas peças de roupas, a maioria em tecido nobre, peças delicadas e charmosas, algumas outras de tecidos mais grosseiros.
Evidentemente era o quarto de uma moça. Uma moça de 15, quase 16 anos. Ela estava adormecida, coberta por panos macios. Seu dimon, uma marta de pelos vermelho-dourados, enroscado ao redor do pescoço da jovem.
—Will... Ah, Will... – chamava a jovem em sussurros, ainda dormindo. Sonhava com um jovem, um jovem da idade dela, talvez um pouco mais velho, ele não tinha mais uma aparência bem definida, era apenas um contorno humano nos sonhos dela, mas sua essência ainda era a mesma e Lyra lutava com todas as suas forças para alcançá-lo. Lutava incansavelmente, sofrivelmente, passionalmente, por um longo período de tempo, talvez anos.
Três anos.
Há três anos Lyra conhecera a felicidade de se estar apaixonada, fizera escolhas difíceis, abrira uma porta para o mundo dos mortos, descobrira mundos, e destruíra o próprio coração deixando sua outra metade em outro mundo. Não se arrependia. Jamais se arrependeria. Mas ainda doía demais a falta dele.
Sra. Lonsdale, a governanta, entrara no quarto com um prato de biscoitos e meio copo de leite, deixara-os sobre o criado-mudo e abria as cortinas e janelas deixando os raios de sol adentrar naquele espaço, iluminando a cama e a jovem de cabelos louro-escuros, dando aos cachos um aspecto dourado.
—Não me deixe... Ainda é cedo... Por favor, não vá... – sussurrava a menina-mulher.
A governanta mais uma vez suspirou. Não era a primeira vez que encontrava a senhorita naquele estado: profundamente adormecida, profundamente angustiada, saudosa de alguém que ninguém na faculdade sabia quem era.
—Senhorita Lyra – chamou com remorso; ela sofria, mas parecia preferir o sonho, ver essa pessoa mesmo de longe do que acordar e não vê-la – Amanheceu, senhorita.
—Will... Ah, Will... – o dimon dela mexeu-se como se perseguisse outro, gemendo baixinho assim como sua humana – Me espera!
—Lyra! – teve que sacudi-la para acordá-la. A jovem levantou-se devagar, com os olhos embaçados de sono e tristeza. A governanta sentada ao seu lado segurava uma de suas mãos; decidiu, assim como em todas as manhãs em que a jovem aristocrata tinha esses sonhos, ignorar, fingir que nada acontecera – Bom dia, senhorita.
—Bom dia – Lyra sorriu esfregando os olhos.
—Já devo deixar separado o vestido que usará na festa?
—Ainda não decidi qual usar, Sra. Lonsdale. – espreguiçou-se e levantou.
—Posso preparar seu banho, senhorita?
—Sim! Por gentileza – sorriu a menina antes de mordiscar um dos biscoitos.
A governanta ainda se espantava com as mudanças. Claro, todas as crianças crescem e amadurecem, mas não conseguia deixar de comparar a menininha rebelde de joelhos ralados e vestidos rasgados com aquela jovem graciosa e fina. A criança Lyra jamais aceitaria tomar banho ou pediria por um. A jovem, entrementes, banhava-se toda a manhã e saía perfumada, com notas de rosa, jasmim e baunilha.
Enquanto ela preparava a banheira na sala ao lado, interligada ao quarto, Lyra deixava-se abater pelo sonho, pela lembrança. Meu Will, meu querido e maravilhoso Will, sinto muito a sua falta.
Eram dias obscuros aqueles em que a saudade a dominava. Não tinha forças para nada, mal saía de seus aposentos. Fosse no internato para meninas ou na Faculdade Jordan. Naquela manhã ela estava curtindo um feriado longe de tantas moças. Não que não gostasse das meninas; gostava da grande maioria, mas sentia falta da Jordan, sentia falta do passado, uma falta absurda de todo o seu passado e de todos os que nele ficaram.
—Senhorita – chamara a governanta.
Outro motivo do pasmo daquela senhora era ver o cuidado que Lyra tinha com seus cabelos – não se importava de lavá-los sozinha, mas a mulher tinha prazer em massagear aqueles cachos grossos. A mulher não tinha como saber que aquelas mudanças eram em pró da República de Céu, o motivo que lhe alegrava a alma e dilacerava o coração.
Lyra vestiu a saia de estampa adorável em tons rosados, combinou uma blusa e pegou um casaquinho de renda que cobria metade de seus braços – havia aprendido com as meninas que não era apropriado mostrar os braços, o colo e as pernas ao mesmo tempo – calçou as botas marrons que iam até seus joelhos e passou a pentear os cabelos. Sra. Lonsdale foi ajudar. Ao fim, estava bela, como sempre. Uma beleza diferente, entre o claro e o escuro, como um paradoxo complicado que confunde a todos.
A jovem desceu então para se reunir ao reitor e aos demais catedráticos. Todos paravam para olhá-la passar, desejavam-lhe bom dia e ouviam respostas gentis. O reitor em particular conseguia enxergar toda a herança que fora passada a jovem Lyra Belacqua: a graciosidade e o charme de Marisa Coulter somados a imperiosidade e aparente selvageria de Lorde Asriel.
—Lyra – disse o Reitor – A julgar por essas botas, suponho que vá cavalgar.
—Sabe que não tolero por muito tempo lugares fechados, Reitor – sorriu ela com uma centelha de travessura; ela ainda era a mesma Lyra, e isso era o que enchia o homem de prazer: era uma jovem mulher maravilhosa, mas ainda preservava em si as melhores características de uma criança. Ele não sabia, porém, que aquilo era parte da conduta da República do Céu, aquela pela qual Lyra lutaria para formar e manter para sempre, assim como Will também faria em seu mundo. Notara, porém, que ela estava bem melancólica, abatida, ligeiramente mais pálida.
Assim que Lyra montou num belo corcel e saiu a toda velocidade, os longos cabelos voando, Sra. Lonsdale comunicou mais uma vez que Lyra sonhara com alguém, expôs sua preocupação com o coração e com a mente daquela que todos na Jordan aprenderam a amar.
—O que sugere, minha cara? Lyra nunca mostrou qualquer interesse por qualquer rapaz da região. Já ouvi que alguns têm interesse nela, mas a mesma sequer parece notar e se nota ignora com admirável inocência e graciosidade.
—A velha Lyra jamais...
—A velha Lyra! – sorriu o homem – Aquela maravilhosa criança sempre chorou por seus amigos, não se esqueça.
—Sim, claro. Jamais me esquecerei de seu desespero ao saber de Roger. O ponto é que... O senhor também já notou que em uma época do ano ela sempre está mais melancólica, um dia que ela fica por horas no jardim botânico, não?
—Sem dúvida.
—Nunca estranhou?
Ele coçou o queixo.
—Lyra está apaixonada, é isso que está me dizendo?
—Sim, senhor.
—Ela nunca mencionou nenhum rapaz – disse chateado, pensando que talvez a moça não confiasse nele o bastante para lhe contar algo tão importante ou que o julgasse ignorante nesse assunto.
—Will é o nome que ela diz e pede que não se vá – a mulher continuou falando, mas o homem recordou-se, finalmente recordou-se de onde ouvira tal nome. Fora naquela semana em que ela retornara já crescida e muito mais madura do que quando saíra, naquela semana em que ela foi contando os pedaços de suas aventuras – não contara todos os detalhes ele tinha certeza – citara muitos nomes e algumas mortes e um nome de menino, um nome no qual o reitor não prestara atenção. Mas ele conseguiu recordar-se, recordar-se da forma doce e sofrida com que ela falara o nome dele, a forma como seus olhos reluziam e seus ombros se aprumavam. Um menino de outro mundo.
—Oh! Sra. Lonsdale, agora compreendo por que nossa Lyra sofre. – ele interrompera o falatório da mulher.
—Compreende, senhor?
—Sim. Ela tem motivos bastante pertinentes para sofrer. Mas não precisa se preocupar, ela é forte. – ele próprio não sabia se conseguiria não se preocupar.
Lyra aprendera a cavalgar por vontade própria e transformara o ato em elegância e lazer. Fora na escola, no internato para meninas. Fizera-o por pirraça: a maioria delas acreditava que cavalgar, sozinha, conduzindo as rédeas, era coisa de garoto; sem classe ou feminilidade. Ela provara o contrário e descobrira que, se fechasse os olhos e deixasse a mente vagar, era como estar novamente com seu precioso Iorec. Claro que não era a mesma coisa, mas servia para matar a saudade.
Também estava aprendendo a ler o leitor de símbolos. A primeira pergunta que ela fizera, fizera com o coração em mãos e a resposta partiu o que sobrara do mesmo, deixara-o em pedaços menores do que grãos de areia, eram como vidro em pó cortando a menina por dentro em cada cantinho que tocasse. Seus pais se sacrificaram por ela, fizeram aquilo por ela, toda a vida deles, as mentiras e crueldades de sua mãe foram feitas para aquele momento em que ela se daria pela filha. Lyra chorou muito e Pan precisou cuidar dela com muito amor por dois longos dias até que se recuperasse do luto.
Lyra incitou o cavalo a ir mais rápido, desafiando seu adorado Pan a correr mais que o animal – ambos tomando o cuidado de não se afastarem demais e chocarem os que ali estavam. Esse era outro motivo para aprender a cavalgar: conseguir se afastar rapidamente a longas distâncias assim Pan teria a chance de correr livre e se afastar o quanto quisesse, sem olhos julgando-os. Eram três anos sem que ninguém suspeitasse daquela condição que os tornava especiais.
Lyra passou rapidamente pelos barreiros e seguiu até uma parte mais isolada, uma colina mais verde. Sentou-se na grama, logo depois de prender o cavalo e deixou que Pan explorasse as redondezas alegremente.
—Lyra – chamou o dimon – Você sabe que o solstício é daqui a alguns dias, não sabe?
—Sei, sim.
—Acredita que Will e Kirjava não se esqueceram de nós? – a angustia na voz dele era palpável, era cruel.
—Claro que não se esqueceram, Pan! Como pode pensar em algo assim? Will jamais nos esqueceria.
—Não quero que eles se esqueçam de nós – e se jogou contra os seios da moça, ronronando com os carinhos dela.
—Enquanto eu viver, Pan, enquanto eu viver meu coração baterá por Will – sorriu ela – Eu sei que o dele bate por mim.
—Mas não vamos vê-los mais.
—Talvez apenas no mundo dos mortos. Mas não sou egoísta, não quero ser, Pan. Não posso desejar que ele apareça e largue seu mundo por mim; nós não aceitaríamos isso, não?
—É, não aceitaríamos – e se encolheu mais contra o peito dela. Adormeceram mais uma vez e sonharam com aqueles que se foram, um sonho lindo com um balão e amigos; Pantalaimon acordou primeiro cutucando Lyra com a pontinha do nariz – Lyra, temos que voltar.
—Temos?
—A festa para celebrar o aniversário da ordem estabelecida depois do desaparecimento dos sequestradores de crianças.
—Ah, sim, claro.
A festa seria nos jardins da Jordan e contaria com a classe de Lyra e algumas professoras e a Diretora, além de outros conhecidos. A moça tinha que estar bem apresentável, já que era um evento em sua própria casa. O vestido era de cor clara com mangas suavemente bufantes, marcava bem sua cintura e valorizava seus seios. A gargantilha de ouro tinha sete pérolas bem espalhadas, assim como a pulseira. Os saltos eram igualmente delicados. Lyra não queria prender os cabelos, mas não podia ir com eles soltos, tão naturalmente, então prendeu duas mechas e deixou os demais cachos livres, batendo em sua cintura. Claro que Pan também teve sua participação naquela produção toda escolhendo um perfume marcante, porém suave. Deixou que a maquiagem ficasse leve, que realçasse seus traços e então saiu para se juntar ao Reitor e receber os convidados.
Ninguém comentou em alta voz, mas todos sabiam que Lyra parecia uma princesa, exalando todas as melhores qualidades de seus pais, mas sem perder sua própria marca.
Não era uma tarefa difícil ser uma boa anfitriã e Lyra ainda se recordava de como fora iniciada naquelas artes durante o curto período em que estivera com sua mãe, quando sequer sabia que ela era sua mãe. Recebeu muitos gípcios, entre eles a família Costa e John Faa, recebeu as colegas de classe e a diretora, então se dispersou pelo ambiente.
Lyra se dava bem com a maioria das meninas, mas tinha uma em especial que pedia pela aversão e não pela amizade da aristocrata: Mirella. E foi justamente ela quem se sentou ao seu lado no jardim, numa rodinha fechada de adolescentes animadas, na qual nem mesmo Billy Costa, amigo antigo e valente, se atrevia a entrar. E, infelizmente, o assunto daquela conversa era garotos, quem estava apaixonada e quem já havia dado o primeiro beijo.
—... Não! Eu não o beijei – disse uma menina com as bochechas em chamas.
—Mas queria.
—Claro que não! Ele... – mas ninguém a ouvia, pois as outras riam com gosto; Lyra com bastante classe, para inveja de Mirella que começou a contar suas próprias experiências com um jovem rico e simpático que, naquele instante, estava de viagem com o pai pelo sul. As meninas, encantadas com aquele relato de beijos ardentes na calada da noite e palavras sensuais, não notaram que havia uma boa dose de mentira na história. Lyra não se incomodou com aquilo; jamais poderia julgar aqueles que mentiam já que ainda era uma boa mentirosa quando necessário.
—Sua vez, Lyra – disse Mirella com falsa gentileza – Aposto que nunca beijou nenhum garoto. Como cresceu brincando com meninos nas ruas, com certeza os vê como irmãos e não como pretendentes.
E agora? O que falar? Contar sobre Will ou deixá-lo como sendo um segredo seu, sem dividi-lo com aquelas meninas?
—Eu...
—Ah, vamos, tem que contar! – insistiu com maldade.
—Eu já me apaixonei – sussurrou.
Os risos e gritinhos foram repreendidos pela diretora que pediu que tivessem mais classe e assim mantivessem o nome do colégio. Isso não impediu as jovens. Nenhuma piscava olhando para a anfitriã, para aquela moça que parecia uma princesa, com a expressão suave e os olhos brilhantes de amor, os lábios repuxados num sorriso sonhadoramente doce. Até agora, eram apenas relatos de beijos roubados, e não histórias sobre algum possível romance; elas estavam eufóricas.
—Você precisa contar! – nenhuma pareceu notar a cara fechada de Mirella.
—Como ele é?
—Vocês se beijaram?
—Quando aconteceu?
—Como é estar apaixonada?
—Como o escolheu?
Pantalaimon pulou em seu colo com espantosa graciosidade. Lyra jogou uma mecha de seus longos cabelos para frente, brincando com o cacho dourado, procurando as palavras certas.
—Você não pode escolher a pessoa por quem vai se apaixonar. Não pode olhar para ele apenas uma vez e se encantar por sua aparência e dizer que isso conta como amor. Você não se apaixona de propósito. Na verdade, é quase um acidente. Você simplesmente não espera que aconteça e quando vê, aquele sentimento está lá aquecendo seu peito.
A voz da jovem era suave, mas firme. Ela era como uma mãe contando sobre o amor à suas filhinhas pequenas. Alguns adultos olhavam para aquele grupo de garotas com curiosidade; o Reitor aproximou-se discretamente para ouvir a conversa; não foi o único a fazê-lo.
—Não sei quando aconteceu. – continuou ela, Pantalaimon ronronando em prazer ao recordar junto dela – Acho que foi na primeira vez que nos vimos; nós nos atacamos, entendem? Estávamos os dois sozinhos e com medo e num lugar desconhecido. Ele foi tão destemido e... Eu me senti segura com ele ali. Então foram cada sorriso, cada toque da sua mão na minha, cada palavra, cada olhar...
—E como ele é? Ah Lyra, como você sente isso tudo? Como é?
—Ele é pessoa mais maravilhosa que eu conheço, a mais verdadeira e honesta. Olhar em seus olhos era como me jogar do céu e não me importar com a queda. Ainda consigo sentir suas mãos nos meus cabelos, nas minhas costas e nos meus ombros. Ainda sinto o sabor da frutinha que provamos antes do primeiro beijo.
As meninas se agitaram e trocaram sorrisos encantadores. O reitor perdia algumas palavras, mas conseguia muito bem pegar o contexto: Lyra estava contando sobre seu amor.
—E qual foi a melhor coisa que já fizeram juntos? Além de beijar, é claro!
—Fizemos tanta coisa... – suspirou – Ajudamos tanta gente, aprendemos tanta coisa, enfrentamos muitos desafios e... – ela não podia contar que uma das melhores coisas que fizera fora abrir uma porta no mundo dos mortos; as meninas esperam algo romântico e inusitado, algo tão especial quanto um beijo – Mas eu nunca vou me esquecer de como é maravilhoso dormir à luz da lua nos braços dele e de senti-lo nos meus.
—E quando vocês se veem?
Aquela pergunta de Mirella fora pior que um tiro no peito. Lyra teria preferido enfrentar um espectro a ouvir aquela pergunta tão maldosa e tão carregada de veneno. A adolescente percebera que marcara um ponto: os olhos azuis de Lyra não negavam a saudade e a dor; seu sorriso diminuíra. Pantalaimon gemeu baixinho e se enroscou nos braços de sua humana.
—Não nos vemos.
As exclamações de choque e tristeza foram cruéis aos ouvidos. Lyra não se dera conta que a maioria dos convidados da festa ouvia sua confissão, mas não se importava. Não era exatamente um segredo e era tão bom falar de Will em voz alta, era quase como torná-lo mais real, mais ao alcance do toque e não mais uma lembrança desfocada.
—Oh, Lyra!
—Mas vocês não estavam apaixonados?
—Por que se separaram?
—Não podíamos viver juntos. – respondeu.
—Se apaixonou por um plebeu, princesa? – Mirella perguntou asperamente.
—Acha mesmo que algo tão insignificante como uma classe social me impediria de estar com ele? Não, isso é o que menos importa. Nós... Nós temos tarefas, missões a cumprir, um papel a desempenhar e não poderíamos fazer isso longe de casa. – ela sorriu com carinho para sua plateia – Mas não estar com ele não significa que não o amo. Na verdade, isso apenas faz com que eu o ame mais; e sei que ele sente o mesmo.
—E como pode saber disso?
—Porque eu o conheço.
—Amantes não precisam se conhecer bem.
—Somos muito mais do que amantes, Mirella – Lyra sentiu pena da menina por não conhecer o que ela conhecia – Somos amigos. E é isso o que torna as coisas tão mais especiais numa relação – ela pensou nos seus pais que se desejavam, mas não tinham nenhuma amizade entre si; talvez fosse por isso que nunca se casaram e criaram Lyra juntos.
—Que história linda! – suspirou uma garota.
—Nossa! Estou quase chorando! – disse outra se abanando.
—Por que será que nos emocionamos tanto, meninas? – Mirella tentou concertar sua situação.
Porque é verdade, pensou Lyra, mas nada disse.
Na sala do Reitor, já bem tarde da noite, depois de alguns dos convidados terem retornado a suas casas – a festa ainda ocorria no jardim; música lenta soando – Lyra apreciava uma xícara de café junto ao Reitor e John Faa, que lhe convidavam a falar sobre Will mais uma vez.
—O que querem que eu diga sobre ele? Sei que ouviram o que eu contava às meninas, não sei o que posso dizer mais.
—Peço perdão por ter ouvido uma conversa que não era para meus ouvidos – respondeu John Faa.
— Não precisa se preocupar; metade dos convidados também ouviu, mas foi bom desabafar.
—Você não precisa sofrer em silêncio – disse então o Reitor.
—Não sofro. Mas às vezes a saudade é demais e escapa pelos meus olhos. Lamento preocupá-lo, Reitor, mas nunca gostei que ninguém me visse chorar.
Depositou a xícara sobre a mesa e desviou o assunto com delicadeza e uma dose de charme. Naquele instante agiu exatamente como a mãe. Marisa Coulter e Lorde Asriel não poderiam estar mais orgulhosos da filha que tinham, mas infelizmente não restava nada deles para que se orgulhassem.
O Reitor contou então sobre novas pesquisas na Faculdade Jordan e ela respondeu com pequenos comentários. John Faa, sobre as comunidades gípicias. Acaram conversando sobre os pais dela e sobre Iorec e as feiticeiras. Estavam todos distraídos e empenhados na conversa, assim ninguém, nem mesmo Lyra, perceberam que Pantalaimon sumira.
—... A região está melhorando consideravelmente – dizia John – Iorec está otimista sobre o aumento de alimento para seu povo...
Lyra conseguiu conter um gemido de satisfação, mas não conseguiu disfarçar a surpresa tampouco o ofego que lhe escapou dos lábios. Os dois homens pararam de falar e observavam a moça com os olhos fixos no nada, uma expressão de surpresa, reconhecimento e nostalgia impregnados em seu rosto. O prazer que ela sentia era indescritível e ela só o sentira uma vez e jamais se esqueceria. Fechou os olhos e se permitiu sentir, recordar...
—Lyra?
—Está tudo bem, querida?
Antes que ela respondesse, sentiu algo se esfregando em suas pernas. Nem precisou olhar para baixo para reconhecer. O dimon pulou em seu colo, os pelos escuros com reflexos azulados, os olhos cintilantes... As mãos pequenas e delicadas da jovem moça logo se afundaram naqueles pelos macios e de cor tão sutil. O coração de Lyra estava agitado, sua felicidade era enorme e refletia em seus olhos assim como nos olhos daquela linda gatinha que ronronava em um pedido para não soltá-la jamais.
—Por todos os anjos! Isso é um Dimon?
—Onde está o seu Pan?
Antes que os homens manifestassem seu espanto, ouviram a voz do porteiro mais elevada e manifestações de surpresa e incredulidade.
Lyra que até aquele instante não perdera a pose – mesmo sentindo o corpo inteiro tremer – levantou-se abraçada ao dimon-gata e dirigiu-se para o salão onde o homem olhava pasmo para um rapaz que segurava o dimon da jovem aristocrata.
Lá estava seu Pantalaimon. Estava nos braços fortes de um rapaz lindo de cabelos escuros e bem penteados. A menina não pode deixar de analisá-lo: a altura, os músculos firmes sob a camisa branca, a calça de lona, os olhos azuis tão escuros e profundos quanto o oceano...
Ele também a analisava. O corpo de mulher, com lindas curvas, os cabelos louros que batiam na cintura fina. As bochechas dela estavam coradas, os lábios bem desenhados e naquele tom avermelhado que ele se recordava. Mas eram os olhos dela que mais o fascinavam: tão cheios de saudade e alegria que estavam úmidos de lágrimas. Não sabia que aqueles lindos olhos também refletiam os seus. Recordou de como fora ver a mãe dela pela primeira vez e de como a achara incrivelmente bonita e encantadora. A filha, se é que era possível, era superior em todos os aspectos.
Os dois, ainda descrentes, aproximaram-se em passos lentos demais, temendo que tudo fosse apenas um sonho. Há dois passos um do outro, os dimons se jogaram no chão e aproximavam-se com lentidão assim como seus humanos. Will teve a iniciativa. Ergueu a mão duas vezes, e abaixou-a duas vezes sem tocar na moça esbelta e fina que via. Tentou uma terceira vez, tocando muito suavemente nos cabelos dela; tão macios... Na vez dela, Lyra encostou as pontas dos dedos na bochecha dele e então deixou a mão trêmula cair.
Os três adultos apenas observavam, mudos, sem coragem para falar, sem ousadia para interromper aquele momento. Para os dois, no entanto, era como se não houvesse ninguém mais.
Então os dedos se tocaram, apenas as pontas. Devagar, ergueram as mãos, as palmas unidas... Então Lyra notou os dois dedos ausentes... E sorriu com os olhos cheios de lágrimas. Ela atirou-se nos braços dele e Will tirou-a do chão rodando-a no ar.
—Senti sua falta – murmurava ele sentido as gotas de lágrimas de sua amada em seu pescoço – Senti tanto a sua falta! – Will ergueu o rosto dela e enxugou as lágrimas cristalinas naquele rosto de porcelana. Delicadamente, tocou-lhe os lábios com o dedo e... Um pigarro os interrompeu.
—Bom – sorria o Reitor; John Faa acenou educadamente para o rapaz que abraçava a linda dama – Ainda temos uma festa. Lyra, por favor, conduza o ilustre convidado até o jardim.
A moça apenas assentiu enquanto os homens se afastavam. O casal se olhou por um longo instante, até que não aguentaram mais esperar: Will inclinou-se e marcou-a com um simples selinho. Então lhe chupou o lábio sentindo o sabor forte do café que ela tomara. Afastou-se então.
—Will... – suspirou ela quando ele segurou sua cintura com firmeza, com aquelas mãos firmes, e levou-a para mais perto de si.
—Lyra... – chamou ele, tão baixinho quanto ela, quando a moça levou a mão para o peito dele, sentindo o coração desenfreado.
Daquela vez foi diferente, embora igualmente doce e sutil. Um beijo apaixonado, tão saudoso... Os lábios se encontravam ávidos, as línguas dançavam juntas. Will apertou-lhe mais a cintura antes de subir uma das mãos sobre as costas da moça. Lyra subiu uma das mãos, tocando-o sempre, até encontrar a nuca do rapaz e, delicadamente, puxá-lo para si e então entrelaçar os dedos nos cabelos de seu amado.
—Não acredito que você está aqui comigo – disse ela; os narizes juntos – Como você...?
—Xaphania me guiou até aqui.
—Mas... – Will não conseguiu deixar de brincar com aqueles lindos cachos dourados.
— Encontrei uma abertura, um corte. Eu não estava procurando, nem nada disso – Will estava tão emocionado, tão feliz por tê-la nos braços – Ah Lyra! – beijou-a mais uma vez, não conseguiam se soltar temiam que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
—Will – ela gemeu em protesto quando os lábios dele deixaram os dela.
—Eu te amo – sussurrou ele; não havia recompensa melhor do que ver sua amada reagir àquelas palavras, sendo tomada de todo o prazer.
—Eu te amo – ela murmurou de volta; então deu um passo para trás – Me acompanharia até o jardim?
Will lhe ofereceu o braço e seguiram para o jardim daquele jeito: radiantes, apaixonados, como um perfeito casal. Podiam conversar mais, haveria tempo para beijos e algo mais, até porque existia uma porta agora.
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