Me Dê Uma Chance
8 Me Dê Uma Chance - Parte II
Notas iniciais

Desde aquele dia, as coisas começaram a ficar estranhas.
Com o sumiço de Morten, Michael teve tempo para conversar com os próprios pensamentos. Sempre que ia ao estúdio, levava os seus materiais de desenho na esperança de atrair o amigo. Não desenhava no trabalho, apenas os deixava ali e se dedicava à sua carreira. Naquele mês, teve alguns shows para fazer e sequer teve a oportunidade de contar os seus anseios para o rapaz, pois ele estava desaparecido completamente e não havia sequer desconfianças sobre seu paradeiro. Michael, às vezes, pegava-se folheando o seu caderno de desenho, esperançoso por encontrá-lo em uma daquelas folhas.
Eram 02h naquela noite. Quase 1 mês havia se passado desde o sumiço. Michael estava voltando de uma apresentação acalorada em Los Angeles e estava completamente esgotado. Durante o trajeto, em sua limusine e um tanto sonolento, o moreno começou a rabiscar alguns presentinhos para Morten na esperança de encontrá-lo nos próximos dias, queria lhe contar as novidades, pois, querendo ou não, o rapaz havia sido o seu único amigo em anos.
Tentou dar o seu melhor, rabiscou algo na qualidade mais próxima possível do traço que havia o feito. Fez uma roupa nova, um pouco mais simples e confortável do que as anteriores: camisa xadrez, calças jeans, tênis e pulseiras. Também desenhou alguns alimentos, acreditava que ele poderia comê-los, já que conseguia interagir com as roupas.
Assim que chegou em casa, foi direto ao quarto. Tudo estava silencioso, seus pais haviam ficado na festa, ele foi o único presente que queria descansar a mente mais cedo. Tirou aquela roupa pesada e se jogou em sua cama, não queria saber de mais nada, descansaria pelos próximos instantes e se cuidaria melhor mais tarde.
Todavia… passaram-se apenas algumas horas. Michael sentiu uma presença extra, alguém olhando para si enquanto dormia, sem contar o seu sono leve e os seus sentidos que não conseguiam adormecer. O seu corpo doía, fatigado, mas sua mente parecia mais desperta do que quando deitou-se. Suspirou e lentamente se virou.
Ele estava lá.
— Morten?!
Indagou. Esfregou os olhos apenas para se certificar de que não estava vendo coisas e, de fato, era ele. Morten mordeu os lábios, parecia um pouco arrependido por ter desaparecido, mas não era isso que preocupava o cantor, e sim se ele estava bem, onde esteve esse tempo todo, quem estava cuidando dele e uma série de outras perguntas de mãe e amigo.
Levantou-se rapidamente, ao mesmo tempo que Morten também o fez, afastando-se.
— Espera! Pra onde você vai?
Morten foi em direção à mesa do moreno e abriu o seu caderno de desenho. Ele o encarou uma última vez antes de sorrir, aquele sorriso sapeca que realçava suas maçãs do rosto e deixava o cantor um pouco desnorteado.
— Eu tô por aqui, tudo bem? Se você precisar de mim, é aqui que eu estou. Eu nunca saí daqui, baby boy.
Ele tocou no caderno, o que fez Michael desviar o olhar para o pertence, em seguida para ele. Quando Morten estava prestes a entrar naquele universo de sketch, Michael deu um passo à frente.
— Morten… eu posso… ir com você?
Indagou. Lembrava-se que havia sonhado com isso, não sabia se era possível, mas o olhar incisivo do rapaz parecia ter ficado mais sério com o seu pedido.
— Vem…
Ele entrou no caderno. Michael ficou o observando sumir novamente, em seguida se aproximou e começou a olhar o papel, a imaginar como poderia segui-lo, mas não teve muito tempo para questionar, uma mão da cor da folha e rabiscada como um rascunho aparatou do objeto e aguardou que o cantor o segurasse. Michael já havia visto aquilo antes, por isso não questionou, seguiu de forma mais rápida e tranquila.
Agora, ele estava dentro do papel.
Seus olhos ainda estavam se acostumando com a forte iluminação do lugar. Era tudo muito branco e vazio, triste e solitário, perguntava-se como Morten aguentava ficar ali por longos dias. Virou-se e viu o sketch do seu amigo perambular pelo lugar em direção a um corredor ermo, logo o seguiu.
O corredor parecia mais e mais comprido, e, aos poucos, havia cor naquelas paredes brancas. Michael o seguiu até um lugar aberto, com instrumentos musicais, lugares para sentar e descansar, e algumas paredes soltas com janelas que ficavam no centro do lugar.
— É aqui que você se esconde…?
Indagou, mas Morten não o respondeu. Caminhou um pouco mais, para trás daquela parede e, ao aparecer na janela, Michael pôde vê-lo tornar-se humano novamente. Ele se aproximou e levou as mãos ao parapeito, seus olhos recaíram nos dele. Morten, do outro lado, o via como um rascunho.
— Por que você nunca me mostrou isso?
Indagou, mas não obteve resposta novamente. Michael suspirou, não entendia por que estava sendo ignorado. Morten, por sua vez, não tirava os olhos dos seus, parecia querer falar alguma coisa, mas não sabia como se expressar.
— Morten…
O rapaz suspirou, em seguida sorriu muito fracamente.
— Eu gosto como você pronuncia meu nome…
Comentou, o que fez o moreno arquear a sobrancelha.
— Eu quero que você saiba… que… eu não estou ignorando você. Eu não sei qual é o meu propósito, mas você deu sentido à minha existência quando me deu a chance de diminuir a sua solidão. Agora, você está ocupado com o seu trabalho, com a sua namorada... você está precisando menos de mim…
Ele fez uma pausa, procurando palavras certas, em seguida prosseguiu.
— Eu não quero ser um fardo para você.
Mesmo o seu linguajar estava ficando diferente. Estava mais reservado, mais formal… Michael questionava-se sobre aquela mudança.
— Não… não, não diga isso. De onde você tirou essa ideia? Você não atrapalha, um amigo nunca vai ser um fardo.
Morten deixou uma risada muito discreta escapar.
— Eu sabia que você ia dizer isso…
— Hunf, claro, você pode ler minha mente…
Aquela afirmação fez o rapaz manter um sorriso em seu rosto, um sorriso discreto e muito fraco, que aos poucos sumiu com o seu balançar negativo de cabeça. Foi então que Michael entendeu que aqueles dons já não os pertencia mais, e que o que ele sabia sobre si, agora, era puramente parte de suas experiências, que valiam muito mais do que as respostas prontas que podia obter ao ler mentes.
Por fim, o moreno lentamente abaixou a cabeça, pensando no que havia concluído sobre aquilo, mas um movimento repentino de Morten lhe causou estranheza. Seu coração bateu forte, afastou-se da janela, mas paralisou quando sentiu a mão dele tocar a sua. Seu nariz quase tocava o dele, sua respiração quente invadia a dele, perguntava-se por que estava sentindo aquelas coisas, ele nunca havia sentido aquilo antes…
— Me dê uma chance...
Sussurrou. Michael não conseguiu respondê-lo, porém não conseguiu negá-lo, e aquilo foi suficiente para que Morten seguisse em frente com suas intenções e roçasse os seus lábios finos nos lábios carnudos dele. Aquele toque estremeceu o cantor, que fechou os olhos ao retribuir aquele estranho sentimento, levado apenas pelo desejo adormecido que sentia em seu coração.
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Michael acordou, assustado.
Virou-se em direção ao relógio. 09:22h. Pela hora que tinha ido dormir, ele não havia descansado muito. Passou a mão nos cabelos e percebeu, pelo toque, como estava suado. Foi o sonho mais real que tivera naquele mês, um sonho intenso e muito estranho para o seu gosto. Morten era o seu consciente, o seu subconsciente, a sua criação, o seu amigo imaginário, e era um homem, nutrir sentimentos por alguém com aquelas características era, na sua concepção, absurdo, irreal e inaceitável. Além do mais, tinha a Ray, ela era a sua paixão, sempre foi, Michael queria esquecer aquele sonho de qualquer forma.
Levantou-se e deu início a mais um dia. Aprontou-se e já estava preparado para ir tomar o seu café da manhã, quando lembrou das palavras do seu amigo: "Se você precisar de mim, é aqui que eu estou". Ele precisava olhar o caderno uma última vez antes de sair.
O que ele não sabia, no entanto, era que aquela manhã ia começar de um jeito difícil.
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Desceu as escadas em passos frenéticos, o caderno não estava nas suas coisas. Lembrava de estar com ele durante todo o caminho de volta para Encino, mas realmente não se recordava de ter o levado para o quarto. Provavelmente estava no banco da limusine, era sua única explicação plausível.
Passou pela sala de estar, sua intenção era seguir até a garagem do lado de fora, mas algo que conseguiu avistar havia travado suas pernas.
Pouco a pouco, o desespero tomou conta de seus pensamentos. Seu coração pulsou forte, o estômago revirou. Se estivesse vendo corretamente, poderia nunca mais ver o seu amigo de novo.
Correu até a lareira, pegou o atiçador próximo e puxou o objeto do fogo, não se importando com a sujeira de borralhos que ficaria no piso.
— Q-quem fez isso?!!
Pela primeira vez, em raríssimas vezes, alterou sua voz. Ali, desgastado e quase inexistente, estava o seu caderno de desenho. Michael folheou freneticamente, sem se importar com os seus dedos queimando pelo calor do objeto, com medo de que Morten estivesse descansando ali quando tudo aconteceu, até que uma página em específico fez o seu coração doer.
As roupas que desenhou não estavam mais lá e as frutas estavam parcialmente mordidas: Morten havia passado pelo caderno. Michael entrou em aflição.
— Senhor Michael?
— Quem fez isso?!! Me diga, agora!!
Exclamou para um dos funcionários, porém mudou o tom ao ver que ele parecia assustado, realmente não era do seu feitio elevar a voz para as pessoas. Michael começou a chorar em silêncio, e o homem pôde perceber que ele de fato não estava em seu estado normal.
— Me diga quem fez isso, por favor…
Murmurou, a voz trêmula, quase cedendo. O homem engoliu seco, não iria conseguir escapar daquela pergunta, teria que respondê-la mais cedo ou mais tarde.
— O seu chofer voltou para devolver o caderno, o senhor havia esquecido no carro. Quem o recebeu foi o senhor Jackson.
Disse-lhe, Michael entendeu perfeitamente. O único chamado simplesmente de “Jackson” pelos funcionários era ele, o seu pai. Sempre era ele… o responsável por fazer da sua vida um inferno na Terra.
Ainda em lágrimas, o rapaz agarrou o resto de caderno que ainda existia e se levantou. Virou-se e lá, imponente, estava o seu pai.
— Por quê…?
Foi a única coisa que conseguiu falar, em baixo tom. O homem não parecia abalado.
— Você leva essa porcaria pra lá e pra cá, foque mais em ganhar dinheiro e esqueça essa bobagem de criança.
— E o que você tem a ver com isso?!! Isso não atrapalha em nada! Eu danço… eu canto… eu sustento essa casa!! Você não devia ter tocado nas minhas coisas!
Michael estava furioso, pela primeira vez havia elevado o tom de voz para seu pai. Não pensou nas consequências que isso traria, mas foi apenas notar o homem se aproximar em passos largos, que todas as lembranças da sua dura infância permearam sua mente, amedrontando o seu coração. Agarrou-se ao caderno queimado e tentou fugir por uma direção lateral, felizmente a casa era grande e cheia de entradas e saídas.
— Ei, venha cá! Você foi homem pra falar, seja homem pra terminar!
— Joe, o que é isso?!
Indagou Katherine, assustada, vindo ao auxílio do filho ao ouvir a voz alterada de ambos. Ao contemplar o semblante preocupado da mãe, Michael sentiu-se ainda mais culpado. Ele tentou engolir o choro, sem muito sucesso, e correu de volta para o quarto, deixando os seus pais no térreo. Ele estava triste demais para que aquela briga ficasse em primeiro plano na sua mente. Tudo o que lhe corroía era ter a certeza de que nunca mais veria o seu amigo mais uma vez.
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