Me Dê Uma Chance
2 O Homem do Sketch
Notas iniciais
Michael acordou assustado.
Não sabia que horas eram, mas viu pela janela que ainda estava escuro. Ele passou a mão em seus cabelos cacheados, suspirou, havia dormido com a cara no desenho e em uma posição nada ergonômica.
Olhou um pouco o próprio quarto, tentou apalpar os objetos até enfim encontrar a sua luminária. A ligou, embora lembrasse de ter deixado-a acesa para desenhar. Quando a luz iluminou aquela parte do ambiente, Michael pôde admirar o desenho que fez.
Ele sorriu, estava surpreso com a quantidade de detalhes que havia feito em tão pouco tempo, estressado e com sono. Estava feliz pelo resultado, mas também intrigado, pois não havia usado referência nenhuma, seja de rosto, posição ou roupas, e mesmo assim aquele homem parecia ter saído de uma capa de revista. Estava sentado no chão, de costas, porém o seu rosto estava virado para o espectador. Michael o encarou por vários instantes, tentando buscar em sua mente de onde havia tirado aquele homem, onde havia visto o seu rosto, como o criou com tantos detalhes, mas então…
… ele piscou.
— M-mas quê...!
Michael afastou-se bruscamente da mesa. Pensou no que havia acontecido e convenceu-se rapidamente que havia visto coisas. Ele suspirou, esfregou os olhos e retornou ao lugar, encarou o desenho mais uma vez, um pouco mais assustado.
E o homem, dessa vez, sorriu.
— Você… não estava assim antes… estava?
Sussurrou, e foi quando viu uma mão sair do papel que o seu coração apertou forte, ele enfim entendeu que não estava delirando. Michael arregalou os olhos e tentou fugir de seu quarto, mas parou ao virar-se e perceber que aquela coisa parecia inofensiva. A mão era branca como o papel, rabiscada como o seu sketch, e parecia estar esperando por sua pessoa.
Lentamente se aproximou, estava com medo, mas era curioso.
Assim que chegou perto, tocou nos dedos daquele homem, perguntando se sua mão transpassaria como um fantasma ou se ele conseguiria tocar, até que teve sua resposta imediatamente. Como uma armadilha, aquela mão misteriosa agarrou a do rapaz e o puxou para dentro do desenho. Michael fechou os olhos e torceu para que aquela loucura fosse apenas um sonho.
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Acordou assustado… novamente.
Dessa vez, não parecia estar sonhando. Sua luminária estava acesa como se lembrava, a luz do sol já invadia o seu quarto, o telefone tocava freneticamente, a empregada batia à porta e o relógio computava 12:22h. Mais uma vez atrasado e imerso em um caos.
Michael levou as duas mãos aos ouvidos, desesperado. Se levantou e rapidamente começou a se aprontar.
— Já vou, já vou!
Disse à funcionária, que parou de chamá-lo quando ouviu sua resposta. Pelo visto era apenas sua mãe a mandando lá para saber se ele estava vivo. Um problema resolvido, agora precisava atender ao telefone. Correu enquanto colocava uma camisa nova e escovava os dentes.
— Alô?
— Michael, que história é essa de tentar contato com a Rolling Stone??
Era o Branca. Ele suspirou.
— Ahm… depois a gente conversa, okay?
— Mich…
Desligou. Michael suspirou, seu quarto estava uma bagunça, sua mente martelava, seu corpo doía, aquela semana estava praticamente um inferno. Ele voltou ao banheiro para terminar sua higiene, retornou em poucos instantes e começou a guardar seus materiais de desenho, ao menos faria isso para poupar trabalho para a faxineira.
Foi então que viu que seu desenho havia sumido.
Michael arqueou a sobrancelha. Revirou as folhas, olhou na frente, no verso, os papéis abaixo, por baixo da prancheta, pelos cantos da mesa… ele simplesmente não estava lá. O rapaz folheou o bloco que usava para desenhar e também não o encontrou.
— Ah, droga…
Murmurou, mas logo mordeu os lábios, repreendendo-se, detestava xingar. De qualquer forma, tinha o que reclamar, um trabalho de meses havia sido perdido.
— Ahg, depois eu te procuro…
Michael enviou um fax curto para o Branca, avisando que o encontraria dentro de poucos instantes. Após isso, se retirou. Não levou seu caderno, deixou os desenhos de lado por ora. Agora, focaria no seu trabalho.
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Estrada de West Hollywood, Califórnia — 15:13 hrs
Michael estava relutante, mas, no fim, John Branca fez jus ao seu trabalho e o convenceu a falar com Quincy sobre a resposta que havia recebido.
— Por que você fez isso? Você devia ter falado comigo antes…
Comentou o homem, enquanto dirigia. Michael estava no banco dianteiro ao lado, olhando para o vazio, pensando em seus atos passados enquanto balançava uma de suas pernas em ansiedade. John o encarou por alguns instantes e conseguiu ver em seu olhar como ele parecia abatido e perdido. Ficou preocupado.
— Michael, você só tem 21 anos e está com um semblante de um homem de 40.
Ao contrário do que Branca esperava, Michael deixou um riso curto escapar, um riso que morreu na mesma velocidade que surgiu.
— Quando eu tinha 11 anos, disseram uma coisa parecida…
O mais velho suspirou.
— Por que você não sai um pouco? Você praticamente acabou de lançar um álbum, aproveite o resultado e faça amigos, namore…
— Sair com quem? Namorar quem? Não, John, pra mim não é fácil. Não há muita gente da minha idade no meio da fama, essas pessoas estão fazendo faculdade, estão vivendo uma vida comum. Isso é algo que eu nunca vou ter…
— E aquela menina? Você não fez amizade com a modelo lá, não é?
Michael mordeu os lábios.
— Não sei… ela é uma amiga...
— Se você pensar muito, não vai sair do lugar.
O rapaz deixou outra risada escapar, uma mais radiante, embora ainda estivesse cabisbaixo. Ele suspirou em seguida.
— Eu… John, eu não tive uma resposta positiva da revista.
— Eu já esperava isso, por isso fiquei preocupado quando soube o que você fez.
Michael o encarou.
— Preocupado por quê? O pior que podiam me fazer é dizer “não”...
— É, mas olha a sua cara de que não dormiu direito, Michael. Você precisa cuidar da sua saúde…
Ele assentiu.
— Eu… eu concordo, mas penso nisso depois. Agora, estou focado em outra coisa.
Dessa vez Branca o encarou, por poucos instantes, precisava focar na estrada.
— O que está pensando?
— Em mostrar todo o meu potencial. Eu quero mostrar a eles que pessoas negras vendem, e que são talentosas. Eu não estou sendo levado a sério, eu sei disso, os disfarces deles não adiantam. Eu vou elevar a música negra a nível mundial e vou ser o paradigma disso.
Branca ouvia tudo com atenção. Embora acreditasse no potencial do rapaz, achava aquilo um pouco sonhador demais, todavia não o diminuiu por isso. Michael estava decidido e ele, como seu assessor, faria de tudo para ajudá-lo.
— Se é assim que vai ser, comece contando ao Quincy sobre isso.
Michael negou com um balançar de cabeça.
— Não, não, deixa isso pra lá, vamos esperar o meu último lançamento esfriar, como o Quincy disse, e depois vamos focar no próximo álbum.
— Você precisa contar, você sabe disso.
O rapaz passou a mão no rosto, ia contra argumentar, mas sentia-se incapaz, no fim das contas concordava com a opinião do homem.
Ficou em silêncio, e Branca sabia que isso significava que ele havia consentido. Sorriu e seguiu em direção à gravadora Westlake, onde havia marcado com o produtor.
Chegando lá, os homens desceram do carro e seguiram até onde estava Quincy Jones. Michael levou as mãos aos bolsos, tentou manter um ar despreocupado, mas preparado para o que viria a seguir. Já estava esperando meia dúzia de sermões, não tinha mais nada que piorasse o seu estresse mental naquela semana, ele já estava bem treinado para isso.
Contudo, o que recebeu foi um tratamento completamente diferente.
— Então eles disseram isso?
Michael suspirou.
— Hurum. Agradeceram e recusaram.
— Hunf… é, eu já esperava isso, vindo daquele pessoal…
Quincy andou de um lado para o outro, pensativo, e as expressões em seu rosto faziam Michael desejar ler a sua mente. O rapaz timidamente levou as mãos para trás das costas, como fazia quando estava acanhado. Já o adulto, virou-se e o olhou de forma decidida.
— Cadê aquele seu projeto? Vamos começar a planejar, vamos fazer aqueles metidos implorar por uma entrevista sua!
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Eram 18h quando chegou em casa.
Michael estava nas nuvens. Seu olhar estava distante e sonhador, como o de alguém que sonha acordado. Ele estava no automático, passou pelo extenso jardim da mansão de seus pais, seguiu o caminho para a porta de casa e lentamente a abriu, sequer percebeu que não havia empregado algum por perto.
Sorria, Michael discretamente sorria. Ele finalmente havia sido ouvido, e, mesmo com o cansaço dos dias anteriores e as dores pelo corpo, sua mente já transbordava de novas ideias para o brainstorm do seu álbum. Animado, passou pela sala de estar escura, acendeu algumas luzes sem questionar, subiu as escadas quase saltitando, desviou dos quadros quebrados no chão e foi até o seu quarto. Estava com vontade de dançar, iria vestir algo mais confortável e estender o tapete na sala de estar, iria colocar o som no alto, iria aproveitar bastante!
“Shhhhhh”
A TV foi ligada.
Finalmente, Michael despertou de seu transe. Arqueou a sobrancelha e virou o rosto para a porta. Alguém havia ligado a TV no térreo.
— Mãe?
Michael estava louco para lhe contar a novidade, a produção de seu novo álbum finalmente teria início. Estava em uma fase muito inicial e a previsão de gravação ainda era para 1982, mas ele já estava ansioso para contar para uma das poucas pessoas em quem confiava.
Saiu do quarto, animado, quando finalmente percebeu como a casa estava escura. Ele achou aquilo estranho, Michael odiava escuro, correu para o quarto e catou uma lanterna de mão. Ao ligá-la, reparou que o chão dos corredores estava cheio de cacos de vidro dos quadros das paredes, que jaziam, espalhados pelo piso. Aquilo o deixou assustado.
— Mãe…?
Chamou mais uma vez, um pouco mais timidamente, sem sucesso. Lentamente retornou ao térreo em pequenos passos que quase não rangiam pela sua delicadeza. Michael, do alto, tentou ver quem estava vendo TV lá embaixo e identificou uma pessoa desconhecida. Não sabia se era homem ou mulher, estava muito escuro, apenas a luz do aparelho o iluminava e ainda muito mal. O rapaz engoliu seco, aquela pessoa estava assistindo a televisão chiar, em filmes de terror aquilo não é normal e é sinal de presságio ruim.
— Quem é…?
Indagou, mas a pessoa nem se mexeu. Ele correu para o quarto mais uma vez, pegou um taco de beisebol apenas para se prevenir, e retornou. Agarrou o objeto com todas as suas forças, mordeu os lábios de nervosismo e seguiu em frente.
Lentamente desceu as escadas sem tirar os olhos daquela pessoa. Aos poucos, à medida que se aproximava, pôde identificar um homem, e, chegando mais perto, chegou à conclusão de que era um rapaz.
— Ei, você!
O chamou, e então percebeu que aquele rapaz enfim o ouviu. Ele lentamente se virou, o coração de Michael bateu forte, mas o pior não era nem se tratar de um desconhecido…
Aquele era o homem dos seus desenhos.
Michael o encarou com espanto assim que o seu olhar alcançou o dele. Mesmo a sua posição era idêntica: sentado no chão, de costas, com o rosto virado ao espectador. Michael não estava o enxergando muito bem, mas lembrava-se de cada detalhe do seu desenho: sua pele clara, seu corpo magro — embora musculoso — seu cabelo cheio e curto, seus pequenos olhos incisivos e azuis — uma das poucas partes de seu corpo que Michael costumava colorir — a camisa branca, folgada e sem mangas, os suspensórios escuros, a calça jeans, as botas de cano curto, o choker simples de cordão no pescoço, as pulseiras em cada pulso, os lábios finos, o nariz delicado, o olhar que oscilava entre ingênuo e predatório…
A fim de confirmar seus pensamentos obscuros, Michael apontou a luz da lanterna para a cara daquele estranho.
— Ei! Qual é?!
— Aaah!
Rapidamente correu. Michael subiu as escadas em um segundo, foi até o seu quarto e se trancou. Correu até o telefone e digitou para a polícia, em seguida começou a procurar pelo seu caderno de desenho, a fim de encontrar aquele rabisco mais uma vez.
— Atende, atende...!
— Cara, se eu fosse você, não faria isso não…
— Aaah! Sai daqui!
Michael catou o seu taco de beisebol novamente, estava tão nervoso que sequer se perguntou como aquele cara havia entrado em seu quarto trancado. O atendente na linha chamou, mas o rapaz desconhecido pegou o telefone e o devolveu ao gancho.
— Não chega perto! Não chega…
— Você não vai me bater, você não mata nem mosca…
Debochou, rindo em seguida. Michael bufou, mas aquele estranho tinha razão, pelo visto tinha feito seu dever de casa.
— Quem é você?!
— Eu…? Nem desconfia?
O rapaz olhou para um lado e para o outro, viu a cama do cantor e, espontaneamente, jogou-se por lá, levando as mãos para trás da cabeça e mantendo uma postura relaxada. Ele suspirou em seguida.
— Olha, eu não sei exatamente, mas eu saí desse papel aí…
Michael demorou para assimilar as palavras dele. Arqueou a sobrancelha, em seguida olhou para os papéis no chão, resultado de sua bagunça.
— Não brinca comigo…
— Haha, é sério! Eu não pareço o seu desenho não?
— É mais fácil o modelo que eu usei de referência ter invadido a minha casa do que o meu desenho ter criado vida!
— Você não acredita em magia, Michael…?
Aquele rapaz sorriu de forma capciosa. Ele parecia conhecer o cantor muito bem, pois usou uma palavra-chave que realmente fazia jus ao seu eu. Michael acreditava em magia, porém em um sentido mais simbólico, ele não fazia ideia que um dia aquilo pudesse acontecer a si próprio.
— Me prove…
O rapaz revirou os olhos e deu um salto da cama. Ele deu alguns passos para o lado e, em seguida, lentamente começou a caminhar de costas, com as mãos no bolso e postura despreocupada. Quando se aproximou da parede, Michael arregalou os olhos ao vê-lo penetrar o papel de parede e transformar-se, diante de si, em um sketch. O rapaz sorriu e caminhou de um lado para o outro, com as mãos na cintura, como se fosse uma modelo feminino. Ele era bem debochado.
Logo após, se afastou da parede mais uma vez. Seu corpo piscou algumas vezes em sketch e retornou à sua forma humana.
— Posso fazer mais alguma coisa, “mestre”?
Michael suspirou, estava sem fôlego diante de tal revelação. Ele lentamente largou o taco e admirou o rapaz de cima abaixo, maravilhado com o que aconteceu à sua obra. Aos poucos um sorriso se formou em seu rosto.
— Uau…
Michael levou as mãos aos cabelos.
— Você é… você tem nome?
— Claro! Eu sou o Morten.
— Morten?
— “Morrrten”, vocês americanos puxam o R em tudo! Mas tudo bem, pronuncia assim mesmo, é bonitinho.
Michael arqueou a sobrancelha.
— Morten… falando nisso, você tem um sotaque diferente. De onde você é?
— Do papel. Olha, eu não sei mais que isso. Você me criou, acho que essa é a parte que você vai inventando minha vida, não é?
Ele suspirou e aquiesceu. Michael estava impressionado, seu sketch havia criado vida e, como se não fosse suficiente, ainda tinha consciência própria. Ele tinha nome, tinha sotaque, Michael só precisava descobrir o resto, se houver um resto.
— Okay, okay… deixa eu pensar…
Michael suspirou e acariciou os próprios cabelos mais uma vez, parecia eufórico.
— Você é Morten, um rockstar de 17 anos, britânico de origem irlandesa! Gosta de jeans e coturno, sabe andar a cavalo, e tem uma guitarra vermelha com um discreto verniz perolado!
Morten cruzou os braços e ficou imaginando cada detalhe.
— É, isso parece legal, mas o que é “rockstar”?
— É uma estrela do rock!
Morten arqueou a sobrancelha, o que fez Michael perceber que ele sequer sabia o que era rock. O rapaz estava impressionado, mas acreditou ser plausível, uma vez que ele surgiu do papel com um mínimo conhecimento.
— Isso é um termo pra artistas de rock que se destacam, e rock é um gênero musical. Você nunca ouviu uma música de rock, não é?
— Não, não…
Michael sorriu, logo o puxou para mais perto e catou o seu walkman novinho. Os rapazes se acomodaram na cama mais uma vez e o cantor ajeitou os fones nos ouvidos do novato, que sequer sabia como usar aquele troço.
— Escuta essa…
Ele inseriu uma fita cassete e ligou o aparelho. Morten, a princípio, levou um susto ao sair som daquele objeto, ele realmente parecia perdido com algumas coisas, mas a música havia o cativado de tal forma que aos poucos ele retornou a prestar atenção apenas nela.
Michael havia escolhido “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry, um clássico do rock.
— Uau, que refrão! “Go, Johnny, go, go! Johnny B. Goode.”
Michael riu baixinho.
— Você canta bem… mas pensei que não soubesse nem o que era rock, como você sabe o que é refrão?
Morten riu e deu ombros.
— Não faço ideia! Ei, a sua casa é enorme… Por que a gente não explora ela?
Michael parecia contrariado a princípio, mas pensou melhor e viu nesse momento a oportunidade perfeita para se divertir, afinal, era o que ele queria fazer desde o começo, ainda precisava comemorar o início da produção de seu álbum novo. Sorriu em concordância.
— Vamos lá, Johnny B. Goode!
Morten gargalhou, sequer teve tempo para comentar sobre a brincadeira, logo foi puxado pelo rapaz. Michael, por sua vez, estava muito animado, pela primeira vez teria companhia, pela primeira vez iria se divertir.
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