Maître de Marionnettes (Hiatus)
6 Nouvelle Perspective
Notas iniciais
UMA SEMANA E MEIA ANTES
O dia amanhecia lentamente. As lojas londrinas preparavam-se para abrir, os trabalhadores para irem aos seus serviços, as crianças às escolas, as senhoras do lar às compras. Tudo parecia ocorrer perfeitamente bem, mas atrás daquela fachada de normalidade, havia um dragão enfurecido.
O Dragão.
Antes mesmo dos primeiros raios solares iluminarem Londres ele já tinha sido avisado: a máfia havia sido atacada. E essa não era, decididamente, a melhor notícia para se receber logo de manhã.
Um de seus melhores agentes, Molliê, havia sido assassinado de forma sorrateira por algum pirata ou marinheiro. E, mesmo tendo tantas mortes a sua volta, aquela havia o afetado um pouco mais. Aquele homem era de sua confiança, enviava-o às reuniões em seu lugar, para tratar de negócios clandestinos, reuniões familiares, mesmo que Rhuan Molliê tivesse um gosto excêntrico pelas coisas, entretanto.
Mandou todos revistarem a “casa” da salamander, mas nada havia ali a não ser uma mulher desesperada e um corpo masculino estirado em um tapete cor de sangue. Diante daquela cena havia um piano que, possivelmente, havia sido recém-tocado.
E ainda assim não eram necessárias provas para que o Dragão soubesse que o ataque havia sido causado a mando do Capitão, aquele que tanto era seu inimigo.
QUATRO DIAS ATRÁS
O Dragão se mantinha quieto. A expressão branda, mas seus olhos eram como o gelo. Havia tanto ódio preso ali que alguns salamanders que havia lhe dado a notícia se perguntavam como ele não explodiria, mas se corrigiam no mesmo instante, imaginando que o seu mestre poderia ler-lhes a mente.
Tão obedientes.
Ele reclinou-se sobre a mesa de vidro, repleta de miniaturas de répteis. Cruzou os dedos das mãos uns nos outros por cima da superfície e passou aquele olhar assustador por cada um de seus subordinados, que engoliram em seco.
– Picharam as nossas edificações? Eles picharam as nossas edificações? – perguntou quase em sussurro. O mais corajoso dos lagartos adiantou-se, trazendo em sua mão uma imagem que havia sido tirada recentemente. Assim que o Dragão observou tal foto, ele não se parou em muitos detalhes. Estava olhando fixamente para uma caveira pichada em preto e, por cima de um de seus olhos vazios, havia um tapa-olho.
– Engraçado... – e o homem deixou aquela palavra morrer naquele ar carregado de tensão. Não havia dúvidas de que o motivo aos ataques à sua máfia era por vingança. E, mesmo que houvesse aquele tapa-olho ali, o Dragão sabia muito bem que havia sido a outra quem começara tudo. Desde a morte de Molliê às pichações.
Ele soltou uma risada alta, mesmo que não houvesse graça nenhuma. O lagarto que entregara a imagem voltou para o lado dos colegas, que se mantinham lado a lado, em linha reta. Ele, por um momento, ficou preocupado com o seu superior. O que era tão divertido?
– Beatrice Mortensen querendo vingar a morte do papai. – murmurou com desdém, os olhos ainda na fotografia. Seus espiões haviam mencionado o treinamento da garota, de toda aquela personalidade machista imposta pelo grande Capitaine. – Avise a todos. Daqui a três dias quero uma assembleia geral.
Mesmo confusos eles estenderam os braços e abriram as mãos em forma de garras, gritando “dragonis” e saindo ordenadamente da sala em seguida.
O Dragão soltou uma lufada de ar pela boca, mantendo um sorriso nos lábios. Recostou-se em sua cadeira, ainda olhando para a imagem. “Aquilo estaria acabado logo, logo”, ele pensou.
NAQUELE EXATO MOMENTO
– Eles nos desafiaram, irmãos. – esbravejou o Dragão, sentado em seu trono construído com o couro de jacarés. Seus olhos eram mordazes e sua expressão sombria. Encontrava-se em um palanque, acima de todos aqueles que eram denominados de salamanders e répteis. Estes estavam distribuídos em linhas e colunas exatamente proporcionais, onde todos usavam negro, todos possuíam a mesma tatuagem por sob o paletó e todos tinham faces inexpressivas.
Eram como robôs que esperavam para serem ativados.
– E nós iremos revidar. – o Dragão finalizou, gritando para quem quisesse ouvi-lo. Os seus subordinados gritaram “dragonis” em resposta, levando ambos os braços para frente e abrindo as mãos em formato de garras.
Ali, naquele imenso galpão, uma ordem de morte havia sido dada. Depois de tanto tempo vivendo no escuro, eles precisavam reagir aos ataques imperdoáveis feitos por aqueles que se diziam Piratas. Feitos por aquela que se chamava Beatrice.
UM DIA DEPOIS
Novamente todos estavam confinados obedientemente no galpão sem saber o motivo de uma nova reunião. E dessa vez ainda havia mais participantes, já que aqueles que estavam em outros países haviam sido chamados também.
O Dragão, um dia depois da ordem, estava de excelentíssimo humor. Mas, claro, depois dos fatos que aconteceram na noite anterior, nada poderia abalar a sua alegria. Dessa vez ele não permaneceu sentado em seu trono de couro. Parou bem perto da grade que separava o palanque de uma queda rápida e mortal ao chão distante do estabelecimento.
Salamanders e répteis estavam curiosos. Nunca haviam visto seu superior tão alegre como agora e, com certeza, aquilo era sinal de bons presságios para a máfia. Alguma nova filiação com pessoas poderosas? Talvez.
– Hoje, através de um membro de minha família, recebi uma calorosa notícia. Creio eu que todos vocês compartilharão de minha alegria e que nós comemoraremos da maneira mais luxuriosa que conseguirmos. Gritem comigo, irmãos. Dragonis!
Todos gritaram, as garras apareceram. E, mesmo assim, os subordinados ainda estavam confusos. Por pouco tempo, entretanto.
– Mas, por favor, que apareça aquele que causou o fim à vida de Beatrice Mortensen. – saudou o Dragão, de braços apertos, como se pudesse abraçar a todos ao mesmo tempo de cima de seu palanque. Um segundo havia se passado, dois, dez, um minuto, mas ninguém tinha se movido um músculo e, dessa vez, não fora por obediência ao seu mestre.
Um silêncio gutural se instaurou naquele local.
Fale com o autor