Maçã com Canela
23 Capítulo 23
Notas iniciais
— Aí estão elas! — eu disse, quase gritando na verdade, quando Henry me perguntou por Regina e Emma. Aquele menino era muito inteligente e eu estaria com grandes problemas se dissesse algo errado para ele. Henry parecia disposto a falar sobre aquilo com o menino tanto quanto eu. Foi um alívio visível para nós dois quando elas desceram para tomar café. Normalmente nós nos levantávamos cedo no sábado, mas hoje era exceção.
— O que houve com minha mãe? — perguntou ele pra mim querendo chorar.
Antes de chegarem até a mesa, Emma e Regina conversavam algo baixinho. Talvez o que elas iriam dizer pro menino. Era mesmo um alívio ver elas ali.
— Oh querido, ela está bem. Emma que está um pouquinho mais machucada na verdade. — eu constatei tentando ser o mais delicada possível.
— E é de mim mesma que ele está falando, não é garoto? — disse Emma pegando-o no colo e lhe beijando incontáveis vezes. — Não doeu nada! E o cara que me fez isso ficou ainda pior.
— Você bateu nele?
— Sim, porque ele machuca as pessoas e eu protejo elas.
Eu fiquei um pouco surpresa ao ouvir Henry chamando-a de mãe, mas tentei não demonstrar. Robin havia dito algo sobre isso, mas eu não sou de confiar completamente no que ouço. E Emma realmente não era uma má pessoa. Com certeza era melhor do que aquele cafajeste. Engoli a raiva e respirei fundo. Eu realmente queria matar aquele verme!
— Eu sei. — disse ele olhando-a sem parar e com lágrimas nos olhos.
— Filho, a maior parte das pessoas não querem machucar as outras — garantiu Regina — Mas quando você escolhe um caminho ruim, você vira uma pessoa ruim.
Não pude deixar de dar uma risada baixinho. É claro que queriam! Henry e Regina me olharam de modo repreensivo e eu revirei os olhos pra eles. Tudo bem, o menino não precisava ficar sabendo disso agora.
— Eu vou sempre pegar os caras malvados, principalmente os que tentarem machucar você ou sua mãe.
— E o vovô e a vovó? — perguntou ele com a vozinha fraca.
— Eles também. Nós somos uma família lembra?
Ele acenou olhando dela para Regina.
— Se você quiser eu beijo o seu dodói pra sarar. Igual vocês beijam os meus.
Ouvir aquilo me desarmou completamente. Regina riu com os olhos marejados e Emma sorria enquanto deixava o menino beijar seu rosto.
Hmmm... Nós eramos uma família? Todos nós? Mesmo com nossas opiniões divergentes? Oh, que diabos! Eu já tinha até chamado ela de nora! Acho que nós éramos mesmo uma família. E principalmente por termos visões opostas. Definitivamente eu ia acabar com aquele inescrupuloso do Hood!
— O que você quer fazer hoje? — ouvi Regina perguntando enquanto bebericava seu café.
— Podemos ir ao parque patinar no gelo?
— Com certeza nós podemos! — disse Emma entusiasmada sorrindo pra ele. — Eu adoro ir ao Millenium no inverno!
Por um momento achei que ela estivesse fingindo para tentar animar Henry, mas ela parecia genuinamente feliz com a proposta dele.
— Ela é sempre assim? — perguntei com um tom receoso.
— Na maior parte das vezes — disse Regina escondendo um sorriso com a xícara.
Apenas concordei a cabeça, com uma falsa decepção. Sim, definitivamente a namorada estava ganhando alguns pontos comigo.
— Henry, já terminou? — perguntei. Eu não tenho disposição para ser agradável logo cedo, não combina comigo, mas dada as circunstâncias, eu tentei sorrir quando ele concordou. — Então, vá escovar os dentes e arrumar o seu quarto. Você sabe que a vovó não gosta que ele fique bagunçado.
Desde que Henry nasceu, nós concordamos em transformar minha antiga sala de costura em um quarto para ele. Agora, minhas coisas ficavam no cômodo do térreo, onde também mantínhamos o escritório.
— Depois nós podemos brincar na sua roca? — perguntou ele descendo do colo de Emma e se encaminhando para fora da sala de jantar.
— Só um pouquinho.
— Eeee!
— Você sabe que eu não gosto dele brincando com aquilo. — resmungou Regina, que estava à minha direita na mesa. Eu sempre sentava em uma ponta e Henry na outra.
— Aquilo, Regina, é um artefato histórico muito valioso, estimado e caro. E eu tenho o privilégio de saber como fazê-la funcionar. E acho ótimo que Henry goste, porque é uma técnica soberba para relaxamento.
— Mas…
— Você também gostava. E ele só chega perto quando eu estou junto. Fique tranquila.
Regina bufou. Eu sabia que ia pegá-la se a fizesse se lembrar de quando eu a ensinei a tecer.
— Vocês costuram? — perguntou Emma ligeiramente interessada.
Bem, eu adorava exibir aquela peça que eu havia conseguido em um leilão logo quando casei. Foi um presente de Henry e um que eu realmente apreciei. Até demais. E me gabar dela com Emma certamente seria prova para algo que eu ainda não estava disposta a ceder.
— Talvez um dia eu lhe mostre, srta. Swan. Mas certamente esse dia não é hoje.
— Acho que não... — murmurou ela estalando a língua baixinho.
— E sobre Robin? — Eu não queria ser tão direta, mas logo Henry estaria descendo e ficaria mais difícil de conversar sobre o que seria feito.
— Regina e eu conversamos hoje cedo e achamos que o melhor é ir viajar. Pelo menos por 15 dias. Não podemos correr o risco de Robin vir atrás do menino, porque ele vai denunciar nossa mentira. Eu fiz um bom trabalho com ele…
— E o outro filho? Não teremos problema dele contar quando ver Henry? — perguntei alarmada. A ideia da viagem era muito boa, apesar de não ser aconselhável afastar o garoto da escola.
— Sim, isso está na minha lista. Vou conversar com Marian mais tarde e explicar o ocorrido; pedir para ela fazer alguma coisa.
— Você acha que vai funcionar? — Perguntei voltada para Regina.
— Não. Mas Emma acha que vale a pena tentar. E não temos muito o que perder, não é?
— Sobre a viagem. Acho que vocês deveriam reconsiderar. Ou pelo menos adiar para o fim do mês.
— Por quê? — perguntou Henry me olhando.
— Não sabemos se Henry viu e ouvi algo de fato. Vocês tem que mantê-lo na escola e com aquele tal de Dr. Hopper que você me disse. — eu olhava diretamente para Henry agora. Eu queria que ele entendesse que eu realmente estava preocupada. Por favor, por favor, entenda o que eu estou pensando. Por favor, perceba que…
— Cora está certa — ele disse.
— Estou certa? — por um momento de perplexidade eu o encarei pensando se ele podia ver meu olhar de súplica. Ele raramente concordava comigo. Isso deveria valer algo, não?
— Sim, mãe. — concordou Regina torcendo a boca e depois sorrindo — Acho que a senhora está pensando mais em Henry do que nós. Se é que isso possível.
— Hmmmmm.
— Não é um insulto, Cora. — apressou-se Emma em destacar. Ela ainda não havia deixado de ser irritante pra mim.
— Continue, Cora — incentivou Henry.
— Bem... Vocês não podem interromper a rotina do garoto às pressas. Senão o efeito que vocês querem será outro. Lembra como foi difícil pra você quando mudamos de casa? — perguntei voltada para Regina, que deu um aceno em concordância. — Não que se seja a mesma coisa, mas é uma alteração grande também. Foi um evento traumático o de ontem. E vocês ainda estão com esses hematomas! Adiem essa viagem pelo maior tempo possível. E sobre Robin…
— Como eu disse, eu entrei com o pedido de restrição.
— Sim, mas isso pode demorar. E temos que pensar sobre a questão da guarda.
Regina colocou a cabeça entre as mãos do meu lado. Eu acariciei seu braço suavemente tentando consolá-la. Henry conversava baixinho com Emma sobre algumas medidas possíveis contra Robin quando o celular dela tocou. Nós a encaramos em expectativa e ela disse sem emitir som: “É sobre o Robin”.
— Entendo — disse ela com uma cara estranha, o que fez Regina agarrar minha mão e apertá-la — Obrigada, Alexa.
— O que houve? — perguntei antes mesmo de Regina.
— Eles estão detendo Robin por seis meses. Além de violação de domicílio cometida a noite, ainda está incluso o emprego de violência.
Nós ficamos em silêncio, sem emitir o suspiro de alívio que tenho certeza que sairia se permitíssemos.
— Vamos, vó? — Henry entrou correndo na sala animado.
— Acho que vocês vão poder adiar a viagem para as férias — eu disse em tom conspiratório.
— É o que parece. — disse Emma satisfeita.
— Era o que nós precisávamos, então vamos comemorar! — disse Henry levantando-se. — Vamos fazer lasanha! O que você acha, pequeno? — ele parou na frente de Henry pegando-o pela mão e indo para o escritório comigo.
— Eu adoro lasanha, vovô!
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— Eu vou falar com Marian mais tarde. — ouvi Emma dizer alguns minutos depois que meus pais e Henry saíram.
— Sim…
— O que você está pensando?
Eu a encarei. Essa era uma boa pergunta. No que eu estava pensando? Ao mesmo tempo em que pensava em tudo, eu não pensava em nada.
— Em Robin. Em Henry. Na gente.
— Quer conversar sobre isso?
— Você acha que esses seis meses vão ser bons pra ele ou só vão piorá-lo ainda mais?
— Eu não sei Regina… Mas agora que você falou, eu vou recomendar que eles adicionem um tratamento para ele. Se ele estiver em um nível avançado de alcoolismo, pode ser catastrófico a abstinência para ele.
— Não foi o que eu quis dizer.
— Eu sei, mas não pude deixar de pensar nisso. Você está bem?
— Sim. É errado ficar feliz com essa notícia?
— Não, não é. Nós temos esse direito, Regina.
— O que vamos dizer quando Henry perguntar?
— O mesmo que Marian irá dizer pra Roland: que o pai está viajando a negócios.
— Bom. — disse simplesmente. Era uma boa desculpa e seria suficiente.
— Mas… e se depois Robin desmentir? — o tom preocupado dela me fez rir. Emma era excelente no que fazia, mas às vezes, apesar de muitas certezas, ela deixava a insegurança tomar conta. Como eu. Nós, definitivamente, éramos um belo par.
— Nos certificaremos para que ele não o faça. E se fizer, vai ser uma boa hora para eu colocar meu gancho de esquerda em prática.
— Desde quando você tem gancho de esquerda?
— Desde que você se propôs a me ensinar alguns golpes — disse com charme. Eu realmente precisava aprender algumas coisas para auto defesa.
— Talvez eu possa considerar. Mas o que eu ganho com isso? — Aquele tom. Eu adoro quando ela usa esse tom malicioso comigo.
— O que você quiser.
— Oh! Eu gosto quando você diz isso! — Ela veio até mim e me beijou. Ela tinha usado aquele tom de novo, e isso foi o bastante para eu beijá-la avidamente.
Lembrando da onde estávamos eu a empurrei de leve para longe de mim. Eu não queria, mas tínhamos que fingir decoro.
Emma ficou sorrindo e eu a encarei. Eu odiava Robin, mas ele era uma peça importante da minha vida. Além de Henry, ele era responsável por eu encontrar Emma. E por enxergar essa parte em mim que não queria ser mais como era. Desde Emma, havia algo em mim que queria crescer e me domar. Talvez eu finalmente estivesse alcançando o domínio sobre mim mesma e minhas decisões... E era Emma quem estava me ajudando com isso.
O fato dela ser uma policial e sempre parecer ter tudo sob controle me instigava a ser mais, a tentar ter essa segurança. Ainda mais depois de ontem. O modo como ela lidou com tudo foi excepcional. Eu sei que parte era treinamento, mas a outra era ela. E eu queria ser tão boa pra ela quanto ela era pra mim. Eu queria ser pra ela o que ela precisava. Eu queria fazer seu mundo melhor do que ele já foi. Mas eu conseguiria quando o meu próprio era um caos? Essa era uma boa pergunta. Bem... eu me esforçaria.
E talvez eu realmente esteja no caminho certo, porque eu já havia até mesmo dado um tapa em Robin! E ela me ensinaria alguns truques. Uma satisfação grande me invadiu. Eu estava saindo daquela correnteza, daquelas águas turvas onde o amor por Robin me levou. Henry e eu estávamos atravessando aquele caminho sobre fogo ardente. E Emma estaria nos esperando do outro lado.
Eu não saberia mais como ser fácil e dócil; nem comigo mesma. E isso certamente era uma espécie de realização... É uma forma de ser mais do que sou.
— Vamos ver o que Henry está fazendo — disse ela com voz travessa quando eu comecei a tirar a louça da mesa.
Eu sabia o que ela queria na verdade. Como ela era impossível! Mas eu não podia desafiar minha mãe. Aquilo tudo já havia sido demais pra ela e mostrar aquela roca seria a declaração que Emma era realmente da família ou alguém importante. Certamente eu não abusaria mais.
— Minha mãe nunca vai te deixar entrar lá, Emma.
— Vai sim. Se eu insistir um pouquinho.
— Não vai, não! E não seja teimosa.
— Mas eu…
— Você vai me ajudar com a lasanha.
— Mas Regina, eu fiquei curiosa.
— Não seja criança, Emma!
— Regina! — Eu ri. Eu sempre ria quando ela dizia meu nome naquele tom ameaçador, que na verdade nunca ameaçava ninguém. Principalmente eu. E era tão bom vê-la assim. Se acordei pensando se iríamos de fato superar aquilo, todas as dúvidas tinham sido apagadas. Uma avalanche de pedras estava sendo posta neste assunto.
— Emma — eu disse melosa — Não arrume encrenca! — e a beijei animadamente.
— Está bem! Só porque eu sei que isso tudo é demais pra ela. Mas você me deve.... E não esquece: o que eu quiser! — disse ela lentamente, enquanto me ajudava a tirar as xícaras, e com sua expressão mais pecaminosa.
Ao passar pelo portal entre a cozinha e a sala de jantar, ela me mostrou a língua. Eu ri gostosamente. Ela era uma idiota às vezes. Uma adorável idiota. E minha.
Era maravilhoso tê-la ali comigo. Robin poderia ter feito o que fez em qualquer período da minha vida, e mesmo se fosse porque havia outro homem envolvido. Não havia como ter certeza, mas eu suspeitava que não superaria tão bem se não tivesse Emma do meu lado. E nós definitivamente superaríamos.
Aquele telefonema tirou um peso dos meus ombros. Eu realmente estava aliviada com aquela história do Robin. Haveriam seis meses para curtir minha família sem preocupação.
Eu olhei para Emma de soslaio ao entrar na cozinha. Talvez ela já soubesse o que eu pensava quando me perguntou sobre estar bem. Na verdade eu tinha certeza que sabia, porque no fundo eu sei que ela estava se sentindo tão aliviada e grata por aquele tempo quanto eu.
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