Maybe Memories.
9 É assim que eu desapareço.
Notas iniciais
Gerard decidira que não sairia do quarto enquanto os pais estivessem em casa naquele domingo. Ele sabia que seu comportamento e suas palavras naquela noite acabariam fodendo com a sua vida uma hora ou outra, mas preferia adiar esse dia.
Passara o dia assistindo televisão e ouvindo as músicas das suas bandas preferidas, até o momento em que ouviu o barulho do carro dos pais saindo, e teve certeza de que era seguro deixar o quarto.
Desceu as escadas silenciosamente. Sabia que os pais haviam saído, mas ainda tinha medo de dar de cara com algum deles pela casa. Suspirou em alívio ao encontrar a sala vazia.
Estava exausto, mentalmente exausto. Achara que mudar para a Califórnia o deixaria melhor. Achara que faria muitos amigos e sua vida se resolveria. Ele apenas achara.
Abriu a geladeira, pegando uma lata de refrigerante e voltou à sala, sentando-se em um sofá.
Ele achava que havia feito a coisa certa, mas, ao mesmo tempo, sabia que havia feito a pior merda de todas.
Olhou ao redor, observando a decoração. A sala era escura, com sofás de cor marrom e uma televisão na parede. Havia também uma lareira, e alguns porta-retratos em cima da mesma.
Fotos de Michael quando criança, brincando no parque da antiga cidade. Fotos do casamento de Donna e Donald. Fotos de tudo, exceto fotos de Gerard. O garoto sabia que, no dia em que chegaram à casa, a mãe havia colocado fotos suas junto da família à decoração.
Mas, depois da noite anterior, já sabia até o motivo de suas fotos terem sumido do lugar.
Os pais não queriam se lembrar do fato de terem um filho imperfeito e, bom, um viado, como dizia Donald.
E Gerard estava começando a acreditar que nem ele mesmo queria se lembrar da sua própria existência. Começava a concordar com os familiares, começava a achar que era mesmo um desperdício de espaço.
Sentiu os olhos marejarem ao lembrar-se dos momentos que passara com a família há alguns anos. Eles nunca foram uma família perfeita, Gerard sabia, mas nunca estiveram pior que agora. Respirou fundo e foi à procura de seu telefone.
***
Frank estava deitado no sofá da sala de sua casa. Vestia apenas uma camiseta, calças jeans e suas meias.
Esse era o momento em que ele relaxava, e sabia que precisava disso. Ainda mais quando tinha aula no outro dia.
Frank tinha seu violão em seu colo, e passava seus dedos em algumas cordas aleatórias. Aquilo o acalmava.
E, sinceramente, ele sabia que precisava acalmar-se. Acalmar seus pensamentos. Conhecera Gerard há pouquíssimo tempo e já havia se aproveitado da situação do garoto! Frank sabia que não deveria ter o beijado, mas também sabia que fora a melhor coisa que fizera.
Os lábios do outro pareciam tão convidativos, tão atraentes... Como todo o corpo do garoto. Frank achava que era paixão à primeira vista.
Mas ele não queria se apaixonar por Gerard. Ele sabia que acabaria saindo magoado, como sempre. Ele sabia que tudo tinha fim e que ele sempre se fodia quando isso acontecia.
E ele acabara de sair de um relacionamento perturbado com outro garoto, e ele sabia que esse era um dos motivos pelos quais os pais o deixaram. Não o queriam daquele jeito. Queriam um filho perfeito.
Suspirou profundamente, ouvindo o som do celular. Tirou o violão de cima de si, colocando-o sobre o sofá quando se levantou.
Na tela do aparelho, leu o nome “Gerard”. Sorriu bobamente.
– Frank? – Perguntou o outro, assim que Frank atendeu. – Está ocupado? Preciso conversar com alguém antes que eu fique louco de vez.
Frank riu levemente, sentando-se desleixadamente em uma poltrona.
– Na verdade, estou sendo vencido pelo tédio. – Disse, ouvindo a risada baixa do outro. – Então... Como está a situação aí?
– Ontem à noite, eu disse a eles que não devem se meter na minha vida, que não sou mais um idiota e muitas outras coisas. O clima ficou bem pesado. – Suspirou – Quando saí do quarto, há algum tempo, eles já haviam saído e, bom, percebi que até as minhas fotos foram tiradas dos porta-retratos.
– Gerard, eu não sei o que dizer... Mas eu realmente espero que tudo fique bem. Você vai para a escola amanhã, certo? Se as coisas esquentarem demais por aí, você pode vir à minha casa e nós podemos, sei lá, ir à polícia. Só não deixa eles te machucarem...
– Meu pai disse que ter um filho retardado seria melhor que ter um filho gay.
Frank engoliu em seco, sentindo uma ponta de raiva.
– Eu sei bem como é. Sei que é fodido, mas aguenta firme. Em poucos meses você terminará o ensino médio e já vai poder morar sozinho.
Frank não obteve uma resposta.
Quando Gerard estava se preparando para responder, ouviu um barulho. O único barulho que não queria ouvir naquele dia.
Virou-se para a porta, verificando se estava certo. E, realmente, estava.
Ele viu os familiares entrando na casa, os pais discutiam e o irmão falava algo sobre um “Orfanato para maiores de idade”. Quando o viram, os três congelaram.
Michael sorria, provavelmente estava ansioso para ver a reação dos pais.
Donna parecia surpresa e, ao mesmo tempo, enfurecida.
Donald se tornara vermelho ao ver o filho. No começo, Gerard não entendera o motivo. Mas, depois, percebera que era de raiva.
O pai partiu para próximo do filho, ficando mais avermelhado a cada segundo.
– Por que você acha que pode falar comigo no tom que falou ontem à noite, seu idiota? – Perguntou, puxando o filho pelo braço, obrigando-o a levantar do sofá.
Gerard não respondeu, fora tomado pelo medo. O que piorou quando ele percebeu que não tinha como correr para as escadas, nem para a porta. Sentia seu coração batendo forte conforme o pai se aproximava e ele se via obrigado a andar hesitantemente para trás.
– Eu te fiz uma pergunta! – Gritou o outro, acertando um tapa no rosto do filho, quando ele deu de costas na parede e percebeu que não havia mais como fugir. – Agora você tem medo, hein, seu merda?!
Gerard apenas sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos, fazendo o caminho por todo seu rosto. Não estava chorando pela dor, mas pelas palavras do pai.
– Você acha que perdi dezoito anos da minha vida criando um filho para receber isso em troca? Um viadinho de merda?! – Gritou, mais alto ainda, acertando outro tapa no filho. – Você não tem nada melhor pra fazer do que ficar dando a bunda por aí?
Gerard já sentia seu rosto completamente molhado.
– Olhe para mim, sua bixa de merda! – Donald disse, a voz transbordando raiva. – Olhe. Para. Mim. Seja homem! – E, agora, era um tapa a cada palavra. Gerard sabia que seu rosto já estava completamente vermelho. – Você aguenta dar por aí, mas não aguenta apanhar? Bom, talvez apanhando você vire homem, seu viadinho.
E assim acabou a conversa. Logo em seguida, Gerard apanhara mais.
Donald parecia não cansar nunca de machucar o filho. E, quando cansou, simplesmente jogou o filho no chão e cuspiu um “Suma.”
E Gerard não tardou a obedecer. Levantou-se rápido, não conseguindo controlar as lágrimas. Saiu correndo para as escadas, desnorteado. Não acreditava no que acabara de acontecer.
Ao chegar ao quarto, abriu seu guarda-roupa e pegou algumas coisas, jogando-as dentro da primeira mochila que encontrou. Colocou um de seus óculos escuros e pegou o celular, que havia jogado dentro do bolso das calças quando vira os pais.
Gerard saiu do quarto tão apressadamente quanto entrou.
Ao chegar à sala, ele percebeu que apenas o irmão se encontrava no lugar. Mas não se importou, apenas seguiu seu caminho para a porta.
– O que você está fazendo? – Perguntou Donna, surgindo da cozinha.
– Sumindo.
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