Maybe
8 Por que tão bom comigo?
Notas iniciais
O Sr. Miller revisava química básica e tudo era bem desinteressante. Quando cheguei naquela manhã, Becca e Peter me encheram de uma série de perguntas sobre o dia anterior. “Por que não veio?” “Por que não respondeu minhas mensagens?” “Por que não atendeu minhas ligações?” ...
– Senhorita Morgan, gostaria de compartilhar conosco o que tem de tão interessante do lado de fora? – Sr. Miller chamou minha atenção.
Estava encarando a grande janela desde o começo da aula.
– Ora professor, veja – fiz uma pausa, todos estavam me olhando – tudo é mais interessante do que estudar tabela periódica.
O professor jovem fez uma cara de reprovação.
– Ótimo, então você também vai achar bem interessante a sala do diretor – ele apontou para a porta.
Sorri, peguei as minhas coisas e fui até lá. Não era a primeira vez que Miller fazia isso e nem seria a última.
Os corredores em horário de aula eram vazios e silenciosos, pareciam mais cenário de filme de terror, eu adorava. Os meus passos faziam eco no piso perfeito. Cheguei na sala do diretor e a secretária dele estava ali, atrás da sua mesa do lado de fora.
– Bom dia, Ivone.
– Catherine! O que faz aqui?
Ivone tinha a pele escura e os cabelos enrolados, eu invejava a sua postura de mulher determinada.
– Sr. Miller não é meu fã – lhe entreguei a anotação.
Ela tirou o telefone do gancho e apertou um botão.
– Sr. Madison, aluna com anotação por desacato – uma pausa – Catherine Morgan – mais uma — Ok... Sim... Vou mandar entrar.
– Obrigada, Ivone – me virei em direção da porta e entrei sem bater.
A sala do diretor não estava muito diferente, Philipe Madison não tinha mudado significativamente a decoração que seu pai deixara. Uma mesa de carvalho no centro, alguns ficheiros, armários grandes, quadros bonitos.
– Bom dia – ele saudou – sente-se.
– Bom dia – respondi, mas não sentei.
Fui até a cafeteira no armário da direita, peguei uma xícara e me servi.
– Você quer café? Seu pai gosta, sempre tomávamos quando eu vinha aqui.
– Eu aceito — disse devagar.
Ele tinha o mesmo olhar analítico irritante do pai. Os cabelos loiros bagunçados e a barba por fazer ficavam extremante sexy nele.
Servi uma outra xícara, entreguei a ele e me joguei na cadeira na frente de sua mesa.
– Já ouvi falar de você Srta. Morgan.
Diferente do pai, notei, ele não era direto.
– Acho que me sinto lisonjeada – beberiquei o café.
– Aluna brilhante, ótima corredora, mas péssima conduta... – ele esfregava o queixo.
Quanta enrolação.
– Sabe, Philipe, eu tinha um acordo de paz com o seu pai. Nunca faço coisas realmente graves, só costumo tirar as pessoas do sério e ainda mantenho as minhas notas. Então você não me coloca de castigo, porque todo mundo sabe que não funciona e não se dá ao trabalho de ligar para os meus pais, o que é igualmente inútil.
– Ou eu te expulso e acabamos logo com isso – ele sorriu.
Então era nisso que queríamos chegar...
– Não é uma opção. – imitei sua expressão – Se você me expulsar eu não vou entrar em Princeton, ou seja, ficarei muito furiosa. Se eu ficar furiosa homens não muito legais ficarão furiosos com você, – dei um gole no café – o melhor jogador do seu time de futebol, um grande contribuinte da instituição e o ex-diretor.
Ele riu.
– Entendi por que meu pai gosta de você. — ele se remexeu na cadeira — Olha, sou novo aqui e preciso de respeito, então você ainda vai ficar na detenção hoje.
– Você já tem o meu respeito!
– Preciso do respeito dos outros também. Pode fazer isso por mim? – ele me encarou com as orbes verdes intrigantes.
Gosto de pensar sobre a aparência das pessoas, Philipe sentado ali parecia mais um gangster do que um diretor.
– Não. Vou fazer pelos olhinhos que você herdou do Carl. Mande lembranças a ele por mim – deixei a xícara em cima da mesa, peguei minha mochila e levantei.
– Foi um prazer fazer negócios com você – ele disse voltando olhos para os papéis na mesa.
– Disponha — respondi saindo.
–
–
–
Estava evitando ficar sozinha com Henry, assim poderia adiar nossa conversa inacabada, mas pra minha infelicidade acabei dando de cara com ele enquanto ia para o refeitório na hora do almoço.
– Você não pode fugir de mim pra sempre – brincou.
– Não estou fugindo – revirei os olhos.
– Fiquei sabendo que o Miller te tirou da sala hoje – ele ergueu as sobrancelhas.
Uma das coisas que odeio na escola é que nunca se faz nada sem que todos fiquem sabendo, principalmente quando você é superestimada como eu, sempre querem saber sobre você, sempre falam de você. Só gostaria que todos me deixassem em paz.
– Detenção.
– E como você está? – quase chegamos no refeitório, no entanto ele parou de andar.
– Bem – me virei em sua direção.
Ele assentiu.
– Bom... Queria te perguntar uma coisa.
Sorri.
– Pode perguntar.
– Você acha que... Acha que se eu pedisse a Becca em namoro ela aceitaria?
O meu mundo caiu, o sorriso se apagou e os meus olhos marejaram, por um instante achei que minhas pernas iriam ceder e eu cairia bem ali.
– Não posso fazer isso – disse em um fio de voz e tentei sair dali, mas ele segurou o meu braço.
– Dá pra você parar de evitar isso e conversar comigo de uma forma sensata? – os olhos verdes me encaravam, nunca tinha visto Henry tão chateado.
– Você fez de propósito! – acusei surpresa.
Ele sabia, ele sabia e não tinha nada que eu pudesse fazer.
– Sim! Agora converse comigo, Catherine – suplicou.
– Pra quê? Não vai mudar nada – sussurrei.
– Vai impedir que você estrague a nossa boa e recente amizade – ele disse no mesmo tom que eu.
Suspirei. Fiquei olhando Henry por um tempo.
– Podemos conversar em outro lugar? O laboratório deve estar vazio agora.
Ele assentiu e caminhamos em silêncio até lá. Eu queria fugir, sair correndo em outra direção, mudar de país, de nome, queria qualquer coisa menos aquilo. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela. Respirei fundo.
– Eu... Eu gosto de você, Henry, acho que estou apaixonada por você – pude sentir uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
Ele se encostou em uma banqueta não muito longe.
– Eu suspeitava, o seu ataque só confirmou – ele parecia tão perdido quanto eu.
– Só não conte para Rebecca, – disse enxugando o rosto – ela não sabe de nada.
– Sinto muito, por não te corresponder, Cat, eu...
– Poupe-me, Henry, – o interrompi – não preciso de um discurso, vou ficar bem.
Ele sorriu e me puxou para um abraço, as lágrimas começaram a cair novamente e com mais intensidade.
Por que ninguém entende que abraçar alguém com vontade de chorar faz com que a pessoa chore mais ainda?
– O que posso fazer pra te ajudar? – ele perguntou se afastando.
O ar parecia preso nos meus pulmões, respirar ficava cada vez mais difícil.
– Primeiro: nada de abraços – passei as mãos no rosto para afastar as lágrimas e ele riu.
– Ok.
– Segundo: seja um idiota. Terceiro: me trate mal. Quarto: não converse sobre a Becca comigo, aguentar ela falando de você já é o suficiente. Quinto: pare de sorrir desse jeito – apontei para o rosto dele.
– Acho que... Posso lidar com o primeiro, o quarto e o quinto – Henry tentou parar de sorrir, mas falhou miseravelmente.
– Posso conviver com isso.
Na verdade não podia, desejava que ele nunca tivesse aparecido na minha vida, queria arrancar aquele sentimento e acabar com aquilo.
– Vamos, vou te levar pra comer alguma coisa – ele fez um gesto com a cabeça.
– Não acho que isso seja uma boa ideia – franzi a testa.
– Não vou deixar você entrar no refeitório com essa cara – ele apontou para o meu rosto.
Fiquei um pouco corada.
– E a Becca?
– Ela confia em você e somos amigos certo?
Por que tão bom comigo? Eu poderia te odiar se você fosse um estúpido.
– Certo... Você vai mesmo pedi-la em namoro?
Ele assentiu apreensivo.
– Ela gosta de você, vai aceitar – tentei sorrir.
Passamos alguns segundos em silêncio.
– Vamos no meu carro — ele decidiu.
Assenti. Henry começou a andar e eu o acompanhei.
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