Maybe

4 Eliot


Notas iniciais
Eu mereço um bala pelo tamanho desse capítulo. O pior foi que quando passei ele pra cá veio todo desconfigurado e tive que dar enter em cada parágrafo. Espero que gostem. xx Ella

Atravessei as portas de carvalho e entrei na Eliot: biblioteca e café. É o meu lugar favorito do mundo inteiro, o que é bastante vindo de uma garota que já esteve em 7 países diferentes.

O local tem um aspecto todo especial e esquisito, descobri acidentalmente há alguns anos. Estava passando pela West End Avenue, por causa do trânsito intenso dava para observar bem as coisas ao redor, foi quando vi aquela casa que parecia um tanto deslocada no meio de tantos prédios. Era enorme, dois andares, com aparência um tanto antiga e um jardim lindo. Uma pequena placa adornada em uma plataforma de ferro na frente que dizia: Eliot: biblioteca e café, só, era a única identificação. Quando cheguei em casa naquela tarde joguei o nome no Google e quase nada, tinha o endereço no mapa, algumas pessoas comentando em redes sociais, mas só, nenhum site oficial. Voltei lá no dia seguinte, bati na porta e uma moça atendeu, me convidou para entrar e perguntou se eu tinha um cadastro, neguei. Havia um balcão ali na entrada e ela se colocou lá atrás e quando perguntei como o lugar funcionava ela me deu um sorriso doce e se ofereceu para me levar em um tour pela casa.

Entrei e cumprimentei a garota na recepção. Abby era como um raio de sol, os cabelos loiros brilhantes e o sorriso reluzente, sempre de bom humor.

– Anna está por aqui?

– Sim – ela respondeu com um movimento de cabeça –, está no escritório dela.

– Com qual deles ela brigou dessa vez? – Anna nunca ficava na sala dela, exceto no final dos meses para cuidar da parte administrativa do lugar ou quando brigava com um dos filhos dela e já que o fim do mês estava longe de chegar...

– Ela não me disse nada, mas ouvi algo sobre a Marina – ela sussurrou a última parte.

– Sempre ela. Vou subir, Abby, quem sabe eu não a deixo animada – dei de ombros.

– Você sempre a deixa animada, é o remédio para toda cólera da mulher — nós rimos e eu a deixei.

Subi as escadas e me encaminhei até o último cômodo do corredor.

A casa era diferente ao extremo, decorações variadas e livros por toda parte, os cômodos eram conhecidos por números até que eu comecei a chamá-los diferente e os nomes foram aderidos por Anna, a dona do lugar.

Tem a sala dos relógios, porque bem... Ela tem muitos relógios, inclusive um enorme de pêndulo, maravilhoso. Sala do espelho, porque o teto é um espelho. Sala dos artistas, é um lugar dedicado ao compartilhamento de ideias. Sala da cidade luz, é decorada estilo Paris, livros franceses, monumentos em miniaturas, até o sofá de lá é francês. Sala mãe, onde ficam a maioria dos livros, tem estantes de cima a baixo que cobrem todas as paredes. Sala de estudos, é a sala mais tranquila e a favorita dos acadêmicos. E a sala do piano, que é a minha favorita, o piano de cauda no centro é todo cheio de charme. As salas tinham mobilha em comum, sofás, mesas, cadeiras, poltronas, puffs, que poderiam muito bem ter vindo de um livro de contos de fadas.

Bati e esperei um segundo pela resposta.

– Lembro de ter pedido para não ser incomodada – a irritação dela foi um pouco abafada pela porta.

Abri uma fresta devagar e pus minha cabeça para dentro.

– Sei que você pode abrir uma exceção – sorri.

Ela estava sentada atrás da mesa de madeira escura que tinha vários papéis em cima, quando me viu sorriu também. A mulher ali parecia alarmantemente cansada.

– Entre, querida. Desculpe por isso. Você não deveria estar na aula de desenho? – ela passou a mão pelos cabelos, fazia muito isso.

Por algum motivo Anna sempre foi amável comigo, ela dizia que eu era como uma filha. Ela tinha filhos, dois filhos e uma filha, eles chegavam a sentir ciúmes a minha relação com ela. Quando comecei a frequentar o lugar ela me observava, quase todos os dias eu aparecia por lá, então aconteceu. Aquela mulher de 53 anos, que mais parecia ter 45, se apaixonou por mim e eu por ela. Nos tornamos amigas, ela me adotou no coração e eu não pago mais as contas na Eliot.

Me joguei na poltrona escarlate e balancei a cabeça.

– Não me peça desculpas e eu desisti da aula de desenho.

– Mas por quê? Você estava tão empenhada.

– Não se pode ter todos os talento do mundo. Então o que aconteceu?

– Marina! Foi o que aconteceu! Agora ela quer largar a faculdade para ser dançarina. Acredita nisso? Eu nunca deveria ter incentivado aquelas aulas de balé.

– Não estou surpresa. – sorri – Você e ela são tão parecidas, é por isso que ela te tira do sério. Quer alguma coisa? – perguntei pegando o telefone em cima da mesa dela.

Todos os cômodos tinham um telefone com linha direta para a cozinha, através deles que os clientes faziam os pedidos.

Ela negou com a cabeça. Apertei o botão e esperei.

– Eu nunca largaria a faculdade por algo tão tolo – para uma mulher de 57 anos ela parecia uma criança com aquele bico que fez.

– Cozinha Eliot, o seu pedido? – Bash soou do outro lado da linha. Fiz um gesto para que Anna esperasse um instante.

– Hey Bash, é a Catherine, eu vou querer um café. Você sabe como eu gosto.

– Olá Catherine. – era engraçado como ele pronunciava meu nome por causa do sotaque francês carregado, “quetrrriiina” – Qual sala?

– Da chefe.

– Amaciando a bête* hein? – ele riu – só você consegue minha chaton*.

– Pourquoi tout le monde ne cesse de dire cela?*

– Parce que c'est le vrai.*

E desligou.

– O que todo mundo fica dizendo?

– Nada. Voltando a nossa conversa. O que você disse mesmo? “Não deixaria a faculdade por algo tolo”, não foi? Mas calma Anna, não foi você que largou a faculdade e se mandou para Paris sem plano algum? – levantei uma sobrancelha e ela me encarou por um instante, sabia que tinha pegado ela nessa.

– Não é a mesma coisa – ela balançou a mão na frente do rosto para espantar o pensamento.

– É sim, só que você deu a sorte de casar com um parisiense rico e viver feliz para sempre.

– Você mesmo está dizendo, foi sorte – sorriu vitoriosa, – E eu voltei depois arrependida e terminei a faculdade.

– Não vai durar muito tempo essa sua resistência. Você acredita que todos precisam cometer os próprios erros.

– Sim – ela suspirou. – Mas ainda tenho horror, você vai sentir esse medo quando for mãe.

Ficamos em silêncio por algum tempo até que ela me olhou atentamente.

– O que fizeram com você?

Foi a minha vez de suspirar.

– Acho que estou apaixonada.

– Isso não explica o rosto abatido.

Nesse momento alguém bateu na porta, Anna autorizou a entrada e Shelley entrou segurando uma bandeja com café e o pote de açúcar. Cumprimentou nós duas e saiu na velocidade em que entrou.

Olhei para o meu café forte com pouco leite e canela, coloquei dois cubos de açúcar. Sim, na Eliot servem açúcar em cubos, Anna gosta, eu também.

– Continuando... Conheci um cara há um mês, ele é novo na minha escola, acho que estou sentindo algo por ele, mas não sou correspondida – suspirei novamente. – Ele convidou Rebecca para sair.

– Ela sabe que você sente alguma coisa por ele?

– Não.

– Devia falar pra ela.

– Não! Ela está tão feliz, não posso.

– Ok... De qualquer jeito ele é um estúpido querida, se ele não tem olhos para te enxergar, não te merece.

– Mas a Rebecca é linda e divertida, ele não é nada burro.

– Mas você é você, Catherine.

– Obrigada, Anna – sorri.

– Ainda acho que devia falar com ela.

– Não consigo fazer isso.

– A decisão é sua. Agora aproveitando que você está aqui, vamos até a sala do piano que quero te apresentar alguém.

– Quem? – perguntei a seguindo corredor à fora.

Os corredores pareciam ter sido tirados de um castelo da idade média. Meu salto fazia barulho enquanto caminhávamos.

– Um rapaz interessante – ela me olhava de soslaio.

– Não – me detive, – acabo de dizer que estou apaixonada e você quer me jogar pra cima de alguém – cruzei os braços.

– E eu disse que ele não te merece – ela puxou meu braço e me forçou a continuar andando.

Revirei os olhos.

Entramos na sala do piano e poucas pessoas estavam ali. Duas garotas sentadas ao piano batendo nas teclas horrorosamente e, provavelmente, O rapaz de Anna sentado em um sofá grande verde musgo. Ele estava escrevendo alguma coisa no cardápio, o que seria estranho em outro lugar, mas não na Eliot. O cardápio era um livro grosso de couro e capa dura com a lista de comidas oferecidas, mas não só isso, depois da lista tinham várias folhas em branco que serviam de “espaço livre” para os frequentadores, havia de tudo, desenhos, frases, citações, até fotos coladas. Vários desses estavam espalhados pela casa.

Quando Anna e eu nos aproximamos ele levantou o olhar e sorriu para ela.

– Está melhor do conflito familiar? – ele perguntou. Algo naquele rosto não me era estranho, mas não conseguia lembrar o quê, exatamente.

– Preciso contratar empregados menos fofoqueiros. – ela riu – Lembra da moça que lhe falei?

Ele assentiu.

– Deixe eu apresentá-los, Catherine, esse é o Joseph – ela disse apontando – Joseph, essa é a Catherine.

Joseph.

Aquilo não estava certo.

Nos analisamos por um tempo até que o reconhecimento veio. Ele sorriu de um jeito travesso.

– Morgan.

Fechei a cara.

– Cromwell – retruquei.

Me virei para Anna.

– Você errou feio dessa vez.

– Vocês já se conhecessem? – ela perguntou medindo as nossas reações.

– Infelizmente, sim – respondi.

– Oh Deus! – ele exclamou – Supere! Éramos crianças.

– Só fazem 4 anos e não éramos crianças.

– Onde se conheceram? – Anna estava se divertindo.

– Frequentamos o mesmo acampamento de verão por uns cinco anos. – ele respondeu dessa vez – Você não mudou nada.

– 6 anos – corrigi. – E você cresceu um pouco.

Eu realmente não tinha mudado muito desde os meus 13 anos, continuava baixa e bonita, talvez com os peitos maiores. Ele por outro lado estava mesmo mais alto, mais forte, mais bonito, quem eu quero enganar? Ele estava ótimo, sexy, lindo... Mas ainda me dava nos nervos.

Ele deu de ombros.

– Faz parte.

O celular da Anna tocou, ela pediu desculpas e saiu da sala para atender.

– O que faz aqui? – cruzei os braços.

– Estou estudando na Columbia.

– A Inglaterra não tem Universidades?

– Meu pai estudou na Columbia. Como vai o seu irmão?

– Bem, ele fica bonzinho quando você não está por perto.

– Eu cresci ok? Desculpe ter maltratado tanto você, só era divertido na época.

Aquele sotaque inglês...

– Luke vai ficar feliz em saber que você está na cidade.

– Eu perdi o contato dele, pode salvar pra mim? – ele ergueu o celular.

– Isso seria suicídio – disse ignorando a mão dele estendida.

– Eu disse que mudei.

– Não acredito em você – mas mesmo assim peguei o celular da mão dele e salvei o número.

Joseph sempre pegou no meu pé desde que nos conhecemos, para ele eu era só a garota irritante que se achava boa demais para as pessoas e talvez eu fosse mesmo um pouco assim. Ele ficou amigo do Luke e nas longas semanas que passávamos no acampamento, os dois não perdiam a chance de me azucrinar.

Anna entrou na sala e depois de uma olhada ela disse:

– Acho que tivemos um progresso aqui.

– Não mesmo – neguei com a cabeça. – Agora, já deu a minha hora, preciso ir.

Ela me olhou com aquela cara odiosa de “já vi de tudo porque sou mais velha que você, então não me venha com essa", mas ignorei e me despedi dos dois.

–

–

–

–

*betê = fera em francês

*chaton = gatinha, porque bem gente vamos lá, o apelido da Catherine é Cat, que em inglês significa gato e a Catherine é baixa, faz todo o sentido.

*Pourquoi tout le monde ne cesse de dire cela? = Por que todo mundo fica dizendo isso?

*Parce que c'est le vrai. = Porque é a verdade.

Eu não tive ninguém para revisar essa parte, então se tiver algo errado, desculpem a minha ignorância.

Notas finais
Eu gostei de escrever esse capítulo. O que acharam dos novos personagem? Sim, a Catherine fala francês e foi a Anna que ensinou. Se acharam o tanto de idade e tempo que coloquei nesse capítulo confusos, pode perguntar nos comentários. xx Ella