Maybe
10 Bônus: Não quero ser seu amigo
Notas iniciais
Em alguns momentos da existência humana é inevitável não refletir sobre o que estamos fazendo, e era exatamente esse lugar, das mais sóbrias almas, visitado pelos meus pensamentos. Eu estava dirigindo o meu carro e indo em direção da mais detestável espécie de festa, não que caridade não seja um ato nobre, mas bem que as festas poderiam ser mais animadas. Então o que valia esse esforço? Os recônditos mais remotos da minha mente gritavam o nome dela.
Quando cheguei ao salão luxuoso, cumprimentei alguns conhecidos e encontrei Henry durante o trajeto, ele estava acompanhado por um garoto chamado Peter, pelo que pude notar, eles estudavam na mesma escola. Embarcamos em uma conversa agradável, porém eu estava distraído, o que rendeu boas risadas.
Então a avistei, foi como se o relógio parasse por um instante ajudando na apreciação do momento, no entanto o instante durou muito pouco. Ela vestia um vestido preto que destacava suas curvas, o decote... Ah o decote! Não era nada exagerado, mas os atributos dela não eram nada discretos. Acompanhada do irmão e da melhor amiga, ela se aproximou.
– Vocês estão lindas — elogiou Henry quando as duas garotas chegaram mais perto.
Pude perceber Catherine corar com o elogio.
– Obrigada — murmurou.
Ela ficava uma graça corada, só era uma pena que algum comentário meu não fosse a causa do rubor.
– Eu não ganho um elogio? — perguntou Luke.
– Já passo muito tempo com você, minha namorada pode ficar com ciúmes — brincou Henry.
Catherine se contraiu levemente com o comentário, os outros não pareceram notar.
– Não te acho bonito — comentou Peter. Quem eu descobri ter um ótimo senso de humor.
– E eu não sou gay – dei de ombros indiferente.
As meninas caíram na risada. Não consegui deixar de notar o quanto a risada dela era contagiante, linda.
– Nada a ver. Vou elogiar vocês: Vocês estão gatos demais, caras – a diferença entre mim e Luke sempre foi a medida das palavras. Ele fala o que pensa mesmo que pareça ridiculamente engraçado.
– Vocês não disseram que iam arranjar uma namorada pra ele? – os olhos de Catherine sorriam juntamente com a sua boca enquanto indagava.
– Não é assim bagunçado, Morgan, tem todo um processo – respondi. Ela me olhou com aquele azul debochado o que me fez rir ainda mais – Relaxa, a pressa é inimiga da perfeição.
– Ei! Eu estou aqui ok? Não preciso de ajuda pra arranjar ninguém – reclamou Luke.
– Não é o que parece irmãozinho.
A noite, afinal de contas, não estava sendo das piores, acabei me divertindo mais do que o esperado. Então, Henry chamou a namorada para dançar na pista do salão, alguns casais já faziam isso, quando notei aquele movimento desconfortável vindo da Catherine pela segunda vez naquela noite. Foi aí que os pontos se ligaram, quem eu queria enganar? Já havia notado alguns vestígios durante o tempo, Catherine estava aparentemente apaixonada pelo namorado da garota que era como uma irmã para ela. Confusão, era a palavra que definia aquela situação.
– Eles formam um casal legal – o comentário inconveniente de Peter fez ela se remexer mais uma vez.
Catherine assentiu distraída; foi aí que tomei uma decisão: primeiro, não ficaria ali parado vendo a noite ir por água a baixo, segundo, precisava saber se as minhas desconfianças eram verdade e terceiro, se fossem, simplesmente decidi que investir nessa coisa estranha, odiava admitir, que criava-se no meu peito valia a pena, ela era do tipo que valia a pena. Ainda estava distraída quando fiz uma mesura na frente dela, ergui a mão e perguntei:
– Me dá a honra dessa dança, milady?
Catherine revirou os olhos e ficou um tempo olhando para a minha mão estendida. Pelo canto do olho notei a tensão no corpo de Peter, seria mais um para esse louco e complexo poliedro amoroso?
– Vamos, é só uma dança, não seja chata, Morgan, meus pés estão dormentes de ficar parado aqui – brinquei. Ela parecia decidir se eu estava falando sério ou não.
– Tudo bem. – ela pôs a mão na minha e pude sentir os seus dedos pequenos e delgados se encaixando ali, e então virou para o outro — Você vai ficar bem, sozinho aqui?
Peter assentiu com a cabeça, a cara dele era de ter chupado um limão azedo.
– Luke já deve estar voltando – sorriu a contragosto.
Encaminhei-a entre os casais tomando o cuidado de estar o mais longe possível de Henry e Rebecca. Ela colocou a mão tímida no meu ombro e era notável o esforço que fazia para nos encostarmos o mínimo possível. Coloquei a mão na cintura dela e a puxei para perto, me aproveitaria ao máximo da situação enquanto ela não reclamasse. Começamos a balançar de um lado para o outro enquanto tentava tomar coragem para perguntar o que queria. Depois de um tempo finalmente prendi a respiração e comecei:
– Como é isso? – ela me olhou confusa.
– Isso o quê? – a testa franzida lhe dava um ar extremamente sexy, mas não tinha tempo para essas observações, precisava continuar.
– Isso de gostar do namorado da sua melhor amiga.
Senti ela vacilar.
– Não sei do que você está falando – por um instante achei que tinha errado, mas ela hesitou na expressão o suficiente para que eu continuasse.
– Só um cego não veria que você engole ele com os olhos. Ela sabe?
– Eu não faço isso!
– Não mesmo – sorri, implicar com ela sempre foi divertido — mas você desvia o olhar sempre que eles se acariciam ou falam algo um para o outro.
– Claro! Não é educado ficar olhando – ela desviou o olhar, e isso foi uma resposta bem clara.
– Não me convenceu — conclui.
Ok, estava doendo um pouco, mas eu não daria o braço a torcer, era um informação que mudava tudo.
– Ninguém vai acreditar em você – ela me encarou com olhos azuis gélidos.
Não sabia se me sentia ofendido por ela cogitar que eu espalharia a informação ou ficava deprimido por ela ter admitido. Acabei não fazendo nenhum dos dois.
– Não ia contar pra ninguém... Mas é uma pena.
Que merda eu estou fazendo?
– O que é uma pena? – ela parecia irritada.
– Aquele cara, seu amigo... Como é mesmo nome dele? — franzi a testa, eu lembrava bem o nome, só queria que ela falasse comigo para me certificar que não tinha estragado tudo.
– Peter?
– Isso! Esse Peter, ele está amarradão em você.
– Você é o quê agora? O guru do amor?! – ela estava quase gritando — Você nem o conhece.
Percebi alguns olhares das pessoas ao redor.
– Ele fez uma cara horrorosa quando te chamei pra dançar – nada além da verdade.
– Ah, claro, então conforme a sua lógica, já que você sorriu quando cheguei, você está completamente apaixonado por mim – ela revirou os olhos.
E talvez fosse isso mesmo, quem iria acreditar?
– Mas isso não é novidade nenhuma, querida – sorri malicioso e ela corou como já esperava.
Não era uma declaração, sabia que ela não me levaria a sério, só ficaria perfeitamente irritada, e ela ficava linda assim.
– Você é um idiota. – ela tentou sair andando, no entanto por puro reflexo eu a segurei – Me solta! – ordenou duramente.
– Assim você me magoa, Morgan, fique, continue dançando e prometo me comportar – fiz a melhor cara de inocente que consegui.
Ela me observou um pouco e relaxou.
– Ok.
O silêncio que se instalou parecia querer me corroer até os ossos. Decidi recomeçar a conversa sendo o tipo de amigo que ela merece, mesmo não sendo uma ideia agradável.
– Se gosta mesmo dele deveria tentar...
Agradeci por ela ter me interrompido.
– Rebecca é minha melhor amiga e ele não sente a mesma coisa, então nem comece.
– Tudo bem, mas todos sabem com quem Rebecca vai acabar no final das contas – dei uma piscadela.
Luke havia me falado o quanto era afim da Rebecca há um tempo.
– Não sei se ela sente o mesmo – ela disse mudando para um semblante triste.
– Talvez algum dia sinta – dei de ombros.
– Detesto esse talvez. Talvez as coisas aconteçam ou talvez não aconteçam e todos nós vivemos em prol de todos esses "talvez". Por que não podemos só ler a última página do livro e acabar com todo esse mistério? – ela bufou.
– A graça do livro é o mistério e mesmo assim o mistério não acaba com o final, Morgan. Sabe quais foram as últimas palavras de François Rabelais? "Saio em busca de um grande talvez.". O talvez nunca acaba, nem com a morte.
– Que François vá para o inferno com o talvez dele.
Não consegui segurar o riso.
– Se as pessoas soubessem o final não acha que ela seriam miseráveis? — perguntei.
– Acho que faria delas menos miseráveis, elas viveriam para se tornar algo melhor.
– Mas não se pode mudar o livro quando ele já está pronto, Catherine.
Ela franziu a testa pensando a respeito até que as sobrancelhas se ergueram e ela abriu um sorriso.
– Nunca tinha ouvido você me chamar de Catherine.
– É o seu nome, não? – um tom sarcástico para encobrir o deslize.
– Mas você nunca me chama por ele.
– Gosto de como Morgan soa – e era verdade.
Ela sorriu ainda mais. Percebi o prazer que sentia por fazê-la sorrir daquela forma.
– No final das contas aqui estamos, conversando como velhos amigos – revirou os olhos, ela fazia muito isso.
– Acho que bem no fundo sempre fomos amigos, — fiz uma careta — se o Mist's Valley não tivesse fechado aquele ano, provavelmente teríamos ficado mais próximos.
– Lembro de você ter me carregado até a enfermaria quando quebrei o pé.
– E eu lembro de você ter cedido a sua sobremesa para mim.
– Nem gostava tanto assim de torta de groselha.
– Você adora tudo que tem açúcar, Catherine — brinquei.
Rimos e dançamos até Diana nos interromper e Catherine se afastou, entendi o motivo, ela e Diana nunca se deram bem, a menina frequentou o MV também e elas estavam longe de serem amigas. Diana era bonita e divertida e provavelmente continuaríamos conversando horas a fio se não tivesse virado e dado de cara com uma Catherine incomodada enquanto conversava com Becca e Henry, abraçados a sua frente. Dei uma desculpa esfarrapada e fui na direção deles.
– Qual é o motivo da discussão? – perguntei quando cheguei mais perto, as meninas pareciam implicar uma com a outra.
– Nada — Catherine e Rebecca responderam juntas.
Aquilo era tudo, menos “nada”.
– Ok... — disse passando o olhar pelos rostos deles, analisando — Eu estava te procurando, — me virei para Catherine — pode vir comigo?
Ela parecia ansiosa para sair dali.
– Posso – se levantou e me acompanhou pelo salão.
– De nada – resmunguei quando já estávamos a uma distância segura.
– O que você quer? – e consegui irritá-la, de novo.
– Nada. Só achei que você não estaria confortável sozinha com aqueles dois. Então: não tem de quê.
– Obrigada – ela suspirou depois de alguns momentos, — e a Diana?
Ciúmes? Claro que não Joseph, isso é tudo coisa da sua cabeça.
– Me livrei dela quando vi que você estava em apuros – sorri.
– Eu não estava em apuros, ok?
Teimosa.
– Pensei em sair daqui e ir comer algo decente, quer vir? – perguntei ignorando o comentário.
– Ei! Eu ajudei a escolher os canapés, e eles são ótimos – ela cruzou os braços.
Céus! Ela não devia fazer aquilo, não fazia a mínima ideia de como os seios dela saltavam quando fazia.
– Mas são canapés, não acaba com a fome de ninguém – engoli em seco tentando me concentrar no rosto dela.
Mais um revirar de olhos.
– Preciso avisar os meus pais – tentou procurá-los, mas a puxei, precisava sair dali ou agarraria ela ali mesmo.
– Você pode mandar uma mensagem de texto.
E disparamos porta a fora; eu torcia para que a noite não terminasse.
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