May The Crows Find You

5 There's hope and fear in our bones


Respirando fundo para ignorar o bolo em sua garganta seguiu até a escrivaninha e se colocou a trabalhar, como sempre fazia quando precisava se distrair. Notou que passara todo o resto da tarde trancada ali apenas quando Alys, sua criada, batera a porta avisando que precisava se arrumar para o Jantar de Independência, fazendo-a notar que a iluminação natural daquele cômodo começava a rarear.

Sansa não estava com a menor paciência para interagir com todas aquelas pessoas, integralmente interessadas no que podiam conseguir da Coroa. Além de lidar com os Senhores e Senhoras do Norte, deveria se esforçar para ser polida com seus herdeiros, parentes distantes e moças solteiras à procura de um bom casamento. A parte social da política exigia demais, mesmo que estivesse acostumada aos costumes de sua Corte.

Junto de Alys, seguiu para seus aposentos, fazendo algumas perguntas a respeito dos acontecimentos daquela tarde, sendo lembrada que perdera o chá com bolinhos organizado para as jovens solteiras. Mais tarde, teria de se desculpar com cada uma delas, mas sabia que estariam satisfeitas apenas por isso, sem necessidade de poucas justificativas.

Adentrando o corredor do quarto de Jon, o último antes do seu, notara por baixo da porta o brilho de luzes do lado de dentro, mas se impediu de perguntar a criada o que escutara sobre ele, uma vez que todas as criadas pareciam ser acometidas por algum tipo de engasgo sempre que se referiam à ele e Alys não estava fora da conta. Além do interesse infantil de Jon e Robb quando jovens, no entanto, nunca o vira dispensar qualquer atenção a criadagem. Embora, muito provavelmente, isso se devesse a falta de tempo, não a qualquer senso de honra: homens estavam sempre propensos a praticar estupidezes em nome de mulheres bonitas.

Já em seu quarto, tentou relaxar na grande banheira de cobre, sentindo a água quente abrir seus poros e deixá-la sonolenta, com a nuca apoiada numa almofada fofa, envolvida pelo cheiro de rosas silvestres colocadas na água, além dos aromas artificiais trazidos de Braavos. Apesar da tática, que quase sempre funcionava, sentia todos os músculos de seu corpo tensos como uma corda prestes a estourar.

Por isso, antes mesmo que a água esfriasse, se colocara de pé, deixando que escorresse por seu corpo e sendo logo atendida por Alys, que se aproximava com uma tolha para secá-la.

— Separei os dois vestidos que pediu, Sua Majestade.

A criada amarrou a roupa de baixo grossa em suas costas, lidando com cuidado com o peso de seu cabelo e Sansa se virou para encarar os modelos diferentes dispostos na grande cama do quarto principal. Um era azul profundo, como o céu durante a tempestade, beirando ao cinza, bordado com pedras brilhantes negras do pescoço a saia, em formatos de rosas; o outro era de um vermelho pouco mais escuro que carmesim, bordado ao redor do pescoço e sobre o peito, mas completamente liso até a barra, onde também possuía pedras profundamente vermelhos dispostas abstratamente.

A diferença era a cabeça de um lobo feita de artesanalmente no tecido, saindo de sua cintura direita e descendo até a lateral esquerda, atravessando pela frente do vestido, como se estivesse imitando os pelos do pescoço do animal. Se perguntando como poderia ter sido feito, ao passar uma das mãos pelo relevo do desenho, realizou que não haveria uma ocasião próxima tão importante em que pudesse vestir algo tão rico.

— Vou usar este.

Com a ajuda de Alys, o vestido foi perfeitamente arramado às suas costas, ajustando-se as curvas de seu corpo e contrastando com o tom mais claro do vermelho de seu cabelo. Para completar, usaria uma capa de peles comprida e perfeitamente branca por cima, levemente caída no ombro esquerdo. Faria uma imagem impactante e as pessoas gostavam disso nela: a combinação da frieza nortenha com a expectativa de não saber o que esperar em feições Tully. Rainha ou não, sempre teria de agradar alguém e, por um momento de devaneio, se perguntou se o herdeiro Manderly a apreciaria naquela noite.

— Pretende deixar o cabelo solto, senhora?

Questionou a criada, no momento em que se sentou à frente do espelho comprido no canto iluminado por archotes e velas próximo à janela. Sansa percebeu que o vestido, completamente fechado e bordado na parte frontal a lembrava uma armadura, embora mais bonita e macia, e por isso se decidiu por uma trança na parte de trás do cabelo, para que a coroa fosse acomodada sem empecilhos. Assim, Alys começou a pentear todo o seu cabelo espesso com paciência e Sansa até conseguiu se lembrar de uma canção, a qual ninguém sabia a quem atribuir a autoria.

We have the answer to all your fears

It's short, it's simple, it’s crystal dear

It's round about, it's somewhere here

Lost amongst our winnings

Era mais falada, do que realmente cantada, como se houvesse uma Velha Ama sentada à beira da cama contando uma história. Murmurando as palavras enquanto sentia os dedos de Alys em seu cabelo, ouviu a porta ser aberta e, logo, a mulher foi verificar o que o guarda de sua porta queria. Deitando o rosto contra o encosto da cadeira, Sansa fechou os olhos e aguardou.

O, children

Lift up your voice, lift up your voice

Children

Rejoice, rejoice

— Sua majestade? – Alys chamou. – Jon Snow se encontra à porta e pede que o receba.

— Mande-o entrar.

Declarou sem titubear ou se mover, embora não soubesse exatamente o que esperar. Sansa se tornara boa em ler pessoas, seus objetivos, seus anseios e, geralmente, quando se reunia com alguém não era surpreendida, com pedidos ou ataques. No entanto, depois do momento que compartilharam no Bosque, onde sentia ter quase implorado para que Jon se casasse com ela, não sabia o que ele poderia querer dizer.

Não pode impedir que uma chama de esperança acendesse em seu peito, mas tratou de se manter realista, como aprendera com o passar das luas. Tentava proteger seu coração de ser quebrado por Jon Snow há tempo demais para se deixar levar por seus próprios sentimentos. Assim, um momento depois, o observou adentrar o breve hall de entrada do quarto, mantendo o olhar solene sobre ela por um momento de tensão, que se estendeu até que Sansa encarasse a criada, parada logo ao lado da entrada com as mãos às costas e o olhar baixo.

— Alys, deixe-nos a sós.

A mulher pareceu estranhar e hesitar por um momento antes de fazer uma breve reverência. Ajeitou a postura assim que ouviu a porta ser fechada em um ruído discreto e Jon se aproximou um pouco mais, trajando roupas costumeiramente negras e surpreendentemente não surradas, mãos juntas atrás das costas e cabelos penteados displicentemente para trás, de forma que uma mecha caísse sobre a testa.

— Gosto da canção que estava cantando.

Ele soltou de forma amena, em seu constante tom rouco. Ainda, não era possível identificar o que dizia o brilho nos olhos negros, que a examinava dos pés a cabeça lentamente.

— Eu sei.

Se voltou ao espelho como uma garotinha inexperiente, procurando quebrar o contato visual e distraí-lo do modo como estava intimidada e, pior, temerosa. Pegou a escova que se encontrava sobre a mesa repleta de outros objetos, com a intenção de pentear os cabelos, já perfeitamente desembaraçados por Alys e completamente soltos. Contudo, não chegou a fazê-lo, pois no momento seguinte Jon estava atrás dela, refletido no espelho iluminado pelas muitas velas do quarto.

— Você estava errada. – Sansa apertou as mãos no cabo da escova, vendo-o abaixar os olhos. – Não sobre supor que acho que devo continuar a cumprir minha pena, mas quanto a... Ainda amar Daenerys. Não tenho certeza se um dia cheguei a fazê-lo, não de verdade ao menos. Não houve tempo para conhecê-la, agora sou capaz de reconhecer isso e também... O motivo de tentar me alertar sobre ela, desde o início.

— Mas, ainda assim, acredita que deve conviver eternamente com a culpa de ter feito o que era necessário. – Sansa concluiu sem realmente se surpreender, no que ele meneou a cabeça ao voltar a fitá-la.

— De uma forma ou de outra... Tenho certeza de que irei, porque sei que a traição é mais dolorida quando se quebra a confiança. – Ele molhou os lábios e respirou fundo, olhando ao redor por um instante, quase pensativo, sem parecer ver qualquer atributo de seu quarto realmente. – Se a tivesse traído para, no fim de tudo, conquistar o Trono de Ferro tornaria tudo mais aceitável... Talvez. Porque, ao menos por isso, Daenerys esperava. Mas não há como minimizar o que fiz.

Sansa, finalmente, soltou a escova, novamente constatando em Jon o modo como o que fizera a Daenerys estava nele inteiro. Em seus gestos, em suas decisões, no que falava. No fim de tudo, não sabia o que o levara a estar com ela por todos aqueles anos, pois não o vira deixando a mulher de lado nem por um momento.

Não havia o que discutir, a seu ver, uma vez que colocara todas as possibilidades sobre a mesa quando estavam no Bosque e ele a procurava para falar sobre Daenerys. Tacitamente, a mulher continuava a moldar diretamente quem Jon era e influenciar o modo como agia com a própria Sansa. Não pode deixar de sentir uma inacreditável e irônica pontada de ciúmes e, por isso, engoliu em seco, tentando manter os ombros retos e confiantes.

— Não, acho que não há.

— Sansa? – Ele murmurou, obrigando-a a encontrar os olhos escuros contra os claríssimos dela no espelho após um momento de hesitação. – As coisas são diferentes entre nós. Eu a admirei antes de passar a amá-la. E posso dizer que a amo, justamente, por tudo que conheço de você. Não pela Rainha que é, mas por todas as outras pequenas coisas que não consigo deixar de notar porque se trata de você. Como quando roça os dedos uns nos outros por sentir falta de bordar ou quando tem que se forçar a ajeitar a postura, algo que faz naturalmente desde que me lembro, por estar desconfortável ou quando acorda muito cedo, mas se mantém completamente quieta para não me acordar.

— Para que fique mais tempo comigo. – Completou distraidamente em um murmúrio, encarando a superfície da mesa, sentindo a fonte do nariz formigar. Então, levantando os olhos, o viu sorrir levemente meneando a cabeça, desanuviando as feições ainda solenes. – Porque diz tudo isso?

— Não quero que outro homem seja capaz de saber todas essas coisas sobre você. – Sansa sentiu o estômago afundar e a boca secar, incerta de como reagir, apenas o fitando de forma insistente – E quero poder descobrir diversas novas também.

— Você...? – Sansa engasgou, sentindo a respiração acelerar e, finalmente, se voltou a ele estacado atrás de sua cadeira. Agora sem espelho, sem postura, sem formalidade. – Você está...?

— Seja minha esposa. – Ele murmurou ao, lentamente, encaixar as mãos em sua nuca e a testa na dela. O sentiu aspirando seu cheiro, de olhos fechados e não pode deixar de ofegar por um momento, incrédula. – Sim.

Notando-se mais desajeitada do que estivera em anos, se levantou rapidamente e passou os braços ao redor do pescoço de Jon, afundando o rosto em seu cheiro de sabão misturado com alguma fragrância amadeirada. Sentiu a tensão deixando cada poro seu enquanto seus dedos encontravam os cabelos levemente úmidos na nuca dele e Jon a aparava pela cintura, sustentando seu peso em um suspiro, como se alívio fosse a única coisa a percorrê-los de maneira concomitante.

— E quanto a Patrulha? Aos homens e mulheres do Povo Livre? – Questionou temerosa quanto a soltá-lo e quanto a resposta. – Você vai deixá-los, desertar da Patrulha...

— Podemos encontrar uma forma de deixar os termos mais amenos entre eles e o Norte.

Embora não pudesse ouvir certeza no tom dele, essa era a maior que podiam ter: dariam um jeito nas formalidades necessárias e esse seria um dos grandes sacrifícios que Jon faria por ela, pois algo do tipo não era de seu feitio. Jon era o homem que acreditava ter que cumprir sua pena até o final, em nome de sua honra e de sua culpa. Para ele, o amor nunca havia sido a morte do dever – não até esse momento.

Concordou com a cabeça, com medo de denunciar a voz arranhada e os olhos embaçados pelas lágrimas. Calmamente, Jon se sentou na cadeira que antes Sansa ocupava e a colocou em seu colo, o que fez sem deixar de abraçá-lo. Sua mente ainda não concebera que iria realmente se casar com o homem que amava invés de se entregar novamente a uma aliança, que a faria infeliz para todo o sempre, embora seu coração batesse descompassado, tornando-a eufórica e incoerente.

— Obrigado. – Murmurou baixinho, de olhos fechados contra o pescoço dele, mas ele soltou um breve riso, sem entender. Mordendo os lábios em antigo temor, se afastou para olhá-lo, acariciou a mandíbula com alguns fios brancos de barba, tão mais maduro do que um dia foram. – Por não deixar que eu entre novamente em um casamento com um homem que não conheço, não confio... E também não amo.

Jon a encarou por um momento, considerando suas palavras e, talvez, uma resposta. Por fim, contudo, juntou seus lábios em um beijo, que se tornava mais e mais profundo a cada vez que suas línguas se encontravam lentamente. Apertou o braço que cercava sua cintura em um aviso de que não deveriam ir tão longe, pois não podia se atrasar para o Jantar de Independência, embora um gemido baixinho houvesse saído de seus lábios.

— Porque não deixa seus cabelos soltos hoje? – Ele afastou uma mecha de seus olhos e Sansa o beijou denovo, sorrindo brevemente.

— Se dependesse de você, meus cabelos ficariam soltos o tempo todo. – Jon grunhiu em concordância enquanto beijava distraidamente seu pescoço e Sansa apertou os fios dele em uma promessa ao fechar os olhos. – Mas posso fazer isso... Para agradar meu futuro marido.

Jon deslizou o olhar de seu cabelo para seus lábios possivelmente inchados por beijá-lo, a pele de seu rosto ruborizada pela excitação e de seu pescoço pela barba e, finalmente, o vestido de um vermelho escuro, que a lembrava sangue. O viu soltar um riso baixo, como que apenas para si, e colocá-los de pé novamente.

— Vou deixá-la terminar de se arrumar.

Selando seus lábios em um beijo rápido dessa vez, ele meneou a cabeça em uma pequena reverência, enquanto Sansa se sentava novamente perante o espelho, observando-o se afastar em direção à porta, completamente em negro contrastando ao quarto feminino demais.

— Jon? – Ele se virou com o cenho meio franzido à espera. – Uma vez, o pai falou que quando chegasse o momento certo, ele encontraria um cavaleiro para mim: alguém corajoso, gentil e forte.

O observou hesitar por um breve instante, mas logo encontrou seu olhar e sorriu de volta para seu pequeno sorriso, antes de se voltar à pesada porta de madeira novamente. Não havia o que dizer e Sansa não esperava uma resposta realmente ou, ao menos, não uma que fosse concreta. Naquele momento, bastava o brilho saudoso no olhar de Jon, refletindo o dela.

Fim

Notas finais
Olá!!! Última parte desse tiro de inspiração que fiz pra me aventurar, pela primeira vez, nesse fandom! Eu tentei ser o mais justa possível com a Daenerys (apesar de não ser fã e apesar de discordar veementemente do romance com Jon) porque, é claro, eu não apagaria isso e acho que não faria com que eles se entendessem sem isso na mesa, porque foi uma questão para Sansa enquanto estiveram juntos. Espero que tenham gostado desse fim, da postura de Sansa e de sua percepção em relação ao romance! Eu tentei fugir o máximo possível dos clichês! Deixem seus comentários para eu saber se acertei e possa ter outras inspirações do tipo com esse casal porque, simplesmente, AMEI escrever sobre eles e esse universo! ♥ ♥ Apesar de ser o último capítulo, comentários são sempre bons e incentivam demais ♥ PS. A música que a Sansa canta é O Children, do Nick Cave. Na minha mente fez muito sentido com a fic e um trecho que remeta talvez aos Filhos da Floresta? PS. Acho que o nome do capítulo reflete tanto o começo quanto o final. Beijos, até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!