May I Have This Dance?
14 I Believe In You
Notas iniciais
Chegou o dia que eu estava aguardando desde o inicio do ano. Desde que eu soube que pela primeira vez em sua história, fariam audições nesse país. Acordei mais cedo que de costume, mas fiquei procrastinando no sofá. Hoseok não falava comigo desde o dia anterior. Por mais que eu não quisesse acreditar, em minha cabeça só existia a possibilidade de o mesmo ter descoberto tudo. Será que ele estava preparando algo para me "desmascarar" na frente de todos bem na hora da minha perfomance? Sabia que era errado pensar assim dele, mas me angustiava esse seu gelo repentino. Depois de minutos, me levantei e fui até o quarto onde Hoseok repousava. Dei leves batidas na porta. Sem resposta, a abri lentamente, já observando o quarto. Hoseok ainda dormia. Seu semblante era calmo e doce. Talvez eu estivesse imaginando que ele passaria a noite toda chorando por algo pelo fato de não termos trocado uma palavra sequer, afinal, estamos falando de um cara que chorou por ouvir um exemplo da consequência dos seus instintos não controlados. Fixei meu olhar sobre seu rosto e me aproximando lentamente, levei uma das mãos ao seus cabelos castanhos e bagunçados.
— Talvez você esteja chateado comigo. — Sussurrei. — Mas eu não te culparia. Se eu estivesse no seu lugar, teria a mesma reação.
Depositei um beijo em sua testa e vi o mesmo sorrir labialmente, sem acordar. Eu não queria perdê-lo. Eu ainda tinha a chance de abrir mão de Juilliard e ficar com Hoseok. Mesmo com sua carreira apagada, isso não seria problema, já que o mesmo disse que largaria até seu trabalho para ficar comigo. Não é egoismo! Ele mesmo quis isso. Fixava essas palavras na minha mente como se fosse um mantra. Eu não queria me sentir culpada, mas quanto mais eu acreditava nessa verdade, mais o meu dilema fazia sentido. E os meus sonhos? Hoseok abriu mão dos dele. Mas eu abriria mão dos meus? Eu não suportava mais ficar ali, olhando seu rosto e sentindo minha cabeça latejar só de pensar nessas coisas. Eu saí rapidamente do quarto. Fiz minhas higienes matinais e arrumei minha bolsa. A audição seria às 11h, e eram 6h30 ainda. Peguei meu par de tênis antigos e desci até o térreo. O condomínio da minha avó havia uma área de circuito, e resolvi fazer por um tempo. 1h30 depois, perguntei ao síndico se poderia pegar as chaves do salão do edifício e o mesmo me entregou. Aquele salão estava mais para uma sala de ensaios. Não havia muita diferença: acústica, barras de apoio, espelhos de ponta a ponta. Posicionei meu celular para gravar, o que é um costume meu, coloquei alguma música aleatória e fui improvisando. A dança sempre foi um instrumento no qual eu extravasava os sentimentos que nem eu mesma sabia que estavam dentro de mim. Quando me dei por mim, estava ajoelhada e ofegante. Até que senti duas mãos sobre meus ombros, mas continuei da mesma forma.
— S/N, eu não sei o que exatamente está acontecendo com você. — Aquela voz... — Mas a sua angústia é mais do que notória. Eu te conheço, Mocchi.
Mocchi?! Só uma pessoa me chama assim. Corrigindo, me chamava assim.
— Eu não vim aqui implorar o seu perdão, porque eu sei o que eu fiz e sei que foi errado. Eu vim aqui para fazer o que eu sempre fiz antes de todo nosso desentendimento: ser sua amiga.
Meu corpo não se mexia. Minhas mãos estavam apoiadas no chão. Chão esse que já possuía uma pequena poça de lágrimas minhas. Bia sempre foi uma espécie de rocha para mim quando eu tinha meus conflitos. Eu não contava muitos problemas meus aos meus pais, pois eles eram protetores demais e poderiam se equivocar facilmente, assim como fizeram com meu irmão durante parte da sua adolescência. Eu tinha medo de que, ao invés de ser ajudada, eles pudessem piorar a situação a expondo, na intenção de quererem ser úteis. Muitas das vezes, eu só precisava de um abraço mudo e Bia sempre fazia isso.
— Você não precisa me falar nada sobre o que está acontecendo, S/N. Você já sabe disso e vou reforçar: eu quero sua felicidade, então faça as escolhas certas.
Comecei, então, a respirar forte.
— Amiga, olha isso aqui!
Bia jogou o telefone na direção do meu rosto, e graças ao meu reflexo, meu nariz continuou intacto.
— Isso, joga o celular na minnha cara. Quebra meu nariz para pagar uma cirurgia para consertá-lo depois.
— Nossa, que drama. — Bia revirou os olhos. — Olha o celular!
Não era nada mais, nada menos do que um edital. Mas não um edital qualquer. Um edital da Juilliard School, uma das maiores academias de arte do mundo. O edital estava em português, o que me fez franzir o cenho, estranhando.
— Ô, Bia? O edital está...
— Em português, né? — Disse ela, toda animada me olhando. — Leia o artigo 2, cláusula 3, S/N! Em voz alta.
Pigarreei, limpando a garganta e fiz o pedido.
— "Pela primeira vez, excepcionalmente nesta edição, as audições serão externamente intinerantes. A seleção será feita em 17 países, contabilizando de 1 a 3 alunos por república."
— Agora vá para o artigo 5 direto para a planilha de países.
Executei a ação e momentos depois, minha expressão de calma mudou drasticamente ao ver o nome da minha cidade. A audição da Juilliard seria feita por aqui!
— Amiga... — Não consegui completar a frase.
— É, S/N! É sua chance!
Pus as mãos sobre a boca, abafando a voz, porém continuava audível.
— Nossa, Bia! Eu não sei se eu vou conseguir. Muitos virão para cá tentar o mesmo que eu.
Bia puxou uma cadeira e se sentou frente a mim.
— S/N. Esse é o seu sonho. Você dança desde os 5 anos. Começou com jazz, depois foi o balé, e daí só foi ganhando asas e expandindo seu campo de visão. Eu já estou de saco cheio de ouvir você falando: "Ah, eu queria tanto ir para a Juilliard, queria tanto ir para o Bolshoi, queria tanto ir para tal academia... Mas não sei se eu vou conseguir.— Eu não sabia que falava isso com tanta frequência. — Chega! Eu acredito em você. Você precisa acreditar também. Você é talentosa e se não rolar, é porque não era para ser agora. Eu tenho certeza que você terá muitas oportunidades. Mas escute o que eu vou te falar: eu quero sua felicidade, então faça as escolhas certas.
— Eu sabia que você teria algo para me falar. Ainda bem que foi você que me mostrou isso.
— Eu sou sua amiga, Mocchi. Eu quero ver você arrasando por aí.
— Obrigada por tudo... — Neste momento, eu já estava abraçada com Bia, encharcando seus ombros. A mesma não disse uma única palavra depois daquela frase. Nisso, se passaram minutos. — Esqueça tudo o que aconteceu e vamos recomeçar.
Bia segurou meu rosto e secou minhas lágrimas com o polegar.
— Claro, Mocchi.
Dei um soco leve em seu braço, virando o rosto em seguida, resmungando.
— Para de me chamar assim! Eu já falei que não gosto de me lembrar disso.
— Ninguém mandou ser cafona enquanto está namorando.
Durante as primeiras semanas de namoro com Leo, eu ficava o chamando de Mocchi (lê-se Môti). Não queria chamá-lo de "Amor" , "Mô" e nem de "Mozão", pois achava clichê. Depois de dois meses parei de chamar assim. Mas Bia me atormentou para sempre com o próprio apelido que eu criei, e então aprendi que o clichê talvez fosse melhor que o brega. Depois de algumas risadas, eu me senti curiosa. Talvez ela não quisesse falar sobre isso, mas era melhor matar agora do que depois.
— Bia... E... Você e....
— Não o culpe totalmente. — Disse ela me cortando. — A verdade é que ele é bom em falar coisas e isso nos atrai. Mas ele ainda precisa crescer, S/N. Amadurecer as ideias e se ligar que não é beleza e conversinha que mantém uma relação de pé. Somos a prova disso. — Disse ela se aproximando, repousando uma das mãos sobre meu rosto, ficando em silêncio e fixando seus olhos no meu, de uma maneira que envergonharia qualquer um. — Se você não estivesse afim do cara que estava na sala de ensaio no outro dia, você até toparia, não é?
A empurrei, rindo.
— Iiiiih, que isso, Beatriz?! Virou a casaca agora? E eu não tenho tempo para isso, não! Eu tenho um horário marcado para conquistar minha vaga na Juilliard.
— AR-RA-SOU, MEU AMOR! — Bia gritou, escandalosa. Normal. — Agora vai tomar um banho, porque você está suada, eca! — Disse me empurrando. — Daqui a 30 minutos nos encontramos na portaria.
Olhei as horas no meu celular. Eu estava bem cronometrada. Subi e tomei um banho gelado rápido. Minha roupa já estava arrumada em cima da cama da minha avó. Me troquei, tomei um suco de acerola, comi duas torradas e uma fruta e caminhei até a porta, aonde havia um bilhete preso nela.
"Bom dia, minha flor!
Eu fui ao médico com seu avô, mas de lá, vamos direto para sua audição. Se alimente bem e não se esqueça: nós acreditamos em você!
Beijos, vovó"
Sorri ao terminar de ler o bilhete, mas logo meu coração disparou e eu fui correndo ao quarto. Hoseok não estava mais lá. A cama estava arrumada e havia mais um bilhete em cima dela.
"S/N, eu não quero ser um peso para você. Eu sei que você me ama, mas eu também sei que você tem seus sonhos. E eu? Eu vou me encontrar e tentar saber quem eu sou. Eu queria muito dançar com você mais uma vez. Eu não tenho grandes ambições, mas neste momento, esse é o meu maior sonho. Eu guardarei ele comigo para sempre, assim como eu sempre irei te amar e me lembrar de você. Seja feliz. Eu acredito em você.
Beijos, Hoseok"
Como eu não queria ter lido esse bilhete! Não agora.
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