Notas iniciais
Cada pessoa tem um motivo para viver. Por que May, Logan e Charles ainda permanecem vivos? Por qual motivo eles não desistem de viver em meio a toda essa dificuldade?

A claridade de novo invadiu meus olhos. Há muito tempo eu não saía da casa. Na verdade desde que havia chegado semi morta no carro de Logan. Olhei ao redor e o lugar era um terreno grande e cercado, um terreno desértico, abandonado. Entrei no que parecia uma caixa d'água gigante que havia tombado e lá dentro, no escuro, com apenas alguns furos no teto para a luz e o ar entrar, como se fosse um céu estrelado, ali estava o careca sentado numa cadeira de rodas automática e agora o careca já não era totalmente careca.

Engraçado como as coisas pareciam invertidas agora. Agora ele estava preso num quarto enquanto Logan o olhava de fora, enquanto eu podia andar livremente.

— May está aqui — disse Logan com a voz pesada.

O Careca parou de mexer nas plantas e se virou pra mim, ele parecia surpreso, mas eu não sabia definir se era mesmo isso.

— Ouvi dizer que você quase morreu — disse o Careca.

— Bom, acho que na verdade eu morri. Só que mais de uma vez — respondi.

— Há quanto tempo estava no deserto?

— Não faço ideia — eu realmente não fazia.

— Bom que agora os novos mutantes terão você também e não só o chato do Logan — ele disse de forma rabugenta. — Se bem que você também não seria lá grandes coisas a mais — eu comecei a rir.

— Já fui mãe, Careca. Sei me responsabilizar por vidas — eu disse.

— E a arrogância continua a mesma — ele pareceu cansado. — Vocês realmente foram criados um para o outro, nunca vi ser tão cabeça dura.

— Já fui boazinha um tempo, mas a minha vida não me permite esse privilégio. Eu até tenho sido boazinha aqui, acredita?

— Bah! Babozeira — reclamou o Careca e eu ri.

— Bom, tenho que trabalhar. Dê esse remédio a ele daqui dez minutos e certifique-se que ele engoliu — disse Logan me entregando uma caixinha de remédios. Ele me deu um beijo e saiu, deixando eu e o careca sozinhos.

— Hm, são namoradinhos agora? — ele perguntou de jeito irônico.

— Um pouco mais que isso — levantei minha mão esquerda e ele viu a minha aliança dourada.

Fui mancando até uma cadeira e me sentei. Fiquei um pouco cansada, eram muitas novidades para o meu corpo em um dia só.

— Ouvi dizer que você tem falado com novos mutantes... — eu disse.

— E é verdade!

— Eu acredito em você — eu disse de cabeça baixa e de repente ele apareceu na minha frente.

— Acredita? Você sabe alguma coisa deles?

— Sei. Eu tentei salvá-los, por isso fui parar no deserto.

— Você tentou salvá-los? Por que? — ele tinha razão, para a May que ele conheceu isso realmente era uma atitude estranha.

— Você sabe se eles estão bem? Esses com quem você conversa? — mudei de assunto.

— Estão sendo perseguidos...

— Normal — eu disse com um suspiro cansado. — Espera, eles conseguiram fugir?

— Parece que sim... mas por quê é tão importante pra você?

— Isso não vem ao caso. Vou pedir o esquisito pra te dar o remédio — comecei a me levantar.

— Espere, May! May! Tem algo que queira me contar?

— Não quero contar nada...

— May, essa garota é importante pra você, não é?

Congelei. Garota. Ele estaria conversando com ela?

— Ela acha que você está morta, não é?

— Ela disse isso a você? — perguntei sem olhar pra ele, pois estava começando a chorar.

— Ela disse que precisa achar o Wolverine, que só ele pode ajudar agora.

Respirei fundo. Não teria como esconder mais... teria?

— Não quero falar sobre isso agora — eu disse e saí rapidamente. Entrei na casa e me encontrei com o esquisito — Dê isso ao Charles, não posso ficar mais lá.

Eu não quis explicar mais nada, só fui direto para o meu quarto.

..............

Um mês depois eu já havia me recuperado completamente, mas ainda não tivera notícias sobre a garota mutante que se comunicava com o Careca, eu não queria perguntar para não ter que me explicar. Finalmente eu conseguia ajudar em todas as tarefas domésticas. Ajudava nas roupas, na comida, a cuidar do Careca, tudo.

Ouvi o barulho do portão se abrir, era o barulho de quando Logan chegava. Ele passara a noite anterior trabalhando e não voltou pra casa. Ele fazia isso com muita frequência, ele juntava dinheiro para nos tirar daquele lugar. A minha única preocupação era se eu conseguiria encontrá-la antes de irmos.

Ele entrou em casa com seus passos lentos e com o rosto cansado de uma noite longa sem dormir. Eu estava na mesa de madeira cortando algumas verduras. Ele me abraçou por trás e beijou meus cabelos.

— Como foi a noite? — perguntei.

— O de sempre — ele respondeu cansado.

— Ele tá num dia ruim — disse o Esquisito para Logan.

— Ele só tem dia ruim — respondeu Logan sem paciência colocando o saco de remédios do Careca em cima da mesa.

— Ele precisava disso há seis horas — ele mexeu no saquinho tirando os remédios — e também não é o suficiente, sabia? — Logan parecia não dar muita atenção, pois era óbvio que ele já sabia. — Não vão durar uma semana.

— Eu vou dar um jeito!

— É a sua vez — ele entregou os remédio para Logan. — Tivemos uma noite difícil.

Logan olhou pra mim e eu confirmei com a cabeça. Afinal, eu nem conversava direito com ele mais, toda vez que eu entrava ele queria conversar sobre a minha relação com a mutante que conversa com ele e eu não estava disposta a dizer. Não agora...

— Sei, coitadinhos — ele disse sem paciência. Mas sei que ele não nos odiava por isso.

Ele então foi mancando em direção ao confinamento do Careca.

— Ele agora está dando detalhes da pessoa com quem ele está comunicando — disse o Esquisito — pensei que aquele tanque servisse de barreira, mas com aqueles furos...

— Quer para com isso? — Logan pareceu ficar mais irritado. Ele não gostava de ouvir sobre isso, acreditando ser pura baboseira.

— Ele voltou a perguntar por quê estamos aqui — ele foi seguindo Logan e eu podia ouvir suas vozes ao longe. — Ele tentou ler minha mente e a da May...

— Por isso os comprimidos! — ouvi a porta se abrir e então a conversa parou e o Esquisito apareceu de novo onde eu estava.

— Parece que ele não teve uma boa noite — o Esquisito me disse.

— Aposto que não — levantei com as verduras picadas para lavá-las. — Mas sabe, acho que tem algo a mais, deve ter acontecido alguma coisa séria.

— Ele sempre está com esse humor.

— Nem sempre — debati.

— Você diz isso porque você ama ele e já aguenta ele por muito mais tempo que eu.

— Concordo que ele está diferente — coloquei a vasilha de verduras na bancada ao lado do Esquisito, que cortava um pedaço pequeno de carne. — Ele realmente deve estar preocupado com algo sério mas não quer compartilhar. E eu não o culpo.

— Porque você também tem algo que não quer compartilhar, não é? — ele me encarou e eu o encarei séria.

De repente arregalamos os olhos e nosso cérebro paralisou. Essa não, o Careca deu falha mais uma vez! É uma dor insuportável, a respiração fica difícil, até piscar é difícil. Meu Deus, como é perturbador! Não consigo nem ver as coisas direito. O Esquisito está paralisado com a faca na mão, preciso tirar a faca dele. Com dificuldade e ouvindo um zumbido forte no ouvido, consigo pegar a faca da mão dele. A primeira vez que senti parecia que eu ia morrer, mas já na terceira falha, já sei como agir, mesmo sentindo dor.

De repente parou e eu consegui respirar direito. O Esquisito se apoiou na bancada e começou a ter dificuldade de respirar. Ele me viu com a faca na mão.

— Obrigado — ele disse cansado e eu correspondi.

Mais tarde, depois do almoço, Logan foi para o quarto. Eu o segui e o vi sentado na nossa cama frágil com as garras de fora. Fazia muito tempo que eu não via com elas. Já não fazíamos amor da mesma forma como quando éramos jovens, a dor já não era tão prazerosa como naquela época. Me aproximei e o abracei por trás.

— Tudo bem com você? — perguntei sabendo a resposta negativa.

— Olha isso — ele me mostrou suas garras. Duas haviam saído pela metade, mas uma havia agarrado. — Elas não saem rápido mais.

Me sentei ao lado dele.

— E essas novas cicatrizes? — perguntei ao ver novos ferimentos em seu peito. — Tiros? O que houve? Estamos em perigo?

— Não, foram uns idiotas querendo estragar o meu carro — ele pegou a garra agarrada e começou a puxar. Tirei a mão dele de lá e eu mesma puxei. Nós dois sentimos dor, pois também cortou a minha mão. — Não precisava.

— Claro que precisava — eu disse séria. — Eu vou cuidar de você também, ok? Sua vez de cuidar de mim já passou — eu disse limpando o sangue das mãos dele enquanto as minhas se curavam. — Tire a camisa, vou cuidar desses novos ferimentos — ele me obedeceu.

Limpei suas feridas, lhe dei uma camisa limpa e então ele se deitou para dormir enquanto eu acariciava seus cabelos. Eu estava louca para perguntar se o Careca disse algo dos novos mutantes, mas eu sabia que esse assunto o irritava e preferi deixá-lo descansar.

.......

No outro dia pela manhã, arrumei a mesa de madeira com o café da manhã depois de levar para o Careca, enquanto o Esquisito passava as roupas. Logan se sentou para tomar o café da manhã.

— Olha, eu não quero discutir, mas precisamos conversar — disse o Esquisito e até eu me surpreendi.

— O que foi? — ele perguntou colocando a camisa social limpa com dificuldade.

— Bom, você acharia chatice mas, dessa vez a dose está mais baixa — ele mostrou o remédio do Careca.

— Não tenho culpa, foi o cara do hospital que me deu, não estamos em posição de exigir nada.

— Eu quase morri ontem!

— Não durou nem um minuto!

— Pra mim foi bem mais de um minuto! Eu não conseguia nem respirar! Você e a May são os menos afetados. É claro que ele precisa de uma dose maior e eu sei que tem mais dinheiro escondido com você!

— É o dinheiro para nos tirar daqui.

— Não, não vai nos tirar, vai ser só vocês três! Tá economizando pra comprar um barco e "sol" é a palavra-chave e eu não me vejo escondido no convés lavando a roupa de vocês. E eu achei isso no seu bolso — ele tirou uma bala do bolso dele.

— Uma bala de adamantium? — perguntei. Eu não tinha visto essa bala.

Ele pegou a bala rapidamente do Esquisito e nem olhou pra mim.

— Olha se você quer se matar pode esperar até estar em alto mar? Que aí não preciso limpar os seus miolos.

— Logan, o que é isso? — perguntei um tanto decepcionada.

— Eu não me matei, tá legal? — ele respondeu bravo comigo.

— Não vem ficar bravo comigo. Você vira meu marido e depois quer enfiar uma bala na sua cabeça? Qual o seu problema? Você me odeia tanto assim? — fiquei muito nervosa.

— Claro que não! Por que acha que não atirei? — ele disse nervoso. — Eu ainda tenho você, não vou me matar.

O Esquisito sentou ao lado dele com a xícara de café nas mãos.

— Você me chamou há um ano pra te ajudar e Deus sabe como eu tentei. E aí chegou a May quase morrendo e eu te ajudei também. mas se você não conversar comigo eu não posso te ajudar. Eu escuto vocês a noite, a May dorme enquanto você não tem dormido, anda bebendo muito, cheio de feridas com sangue nas roupas e sei também que não quer falar sobre o rótulo do remédio que você não consegue ler direito.

Logan jogou a xícara do Esquisito longe.

— Era minha caneca preferida! — ele reclamou.

— Não se meta na minha vida! — Logan gritou com ele.

— Tem algo errado com você Logan, tá morrendo por dentro! Eu posso sentir isso.

Logan saiu com raiva.

— Parabéns por irritá-lo — eu disse ao Esquisito enquanto ele saía com o carro.

— Pare de protegê-lo o tempo todo May, ele precisa de cuidados.

— E você acha que eu não sei? Acha que eu não me preocupo?

— Ele precisa de alguém mais firme, não da garotinha apaixonada por ele.

— Cala a boca! Cala a boca que eu não sou mais assim, tá legal? — gritei com ele. — Você não sabe nada sobre mim, nada! E quer saber, eu só não tenho uma bala de adamantium pra acabar comigo e nem desisti da minha vida no deserto por um motivo. UM MOTIVO! Que é o mesmo motivo pelo qual quero mantê-lo vivo também.

Saí da casa para admirar o deserto, ou melhor, para passar a raiva e descontá-la no monte de ferro velho, socando, amassando e quebrando todos eles.